{"id":39,"date":"2023-03-28T00:52:08","date_gmt":"2023-03-28T00:52:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/?page_id=39"},"modified":"2023-08-18T21:35:34","modified_gmt":"2023-08-18T21:35:34","slug":"argumento-e-eixos","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/argumento-e-eixos\/","title":{"rendered":"Argumento e eixos"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; enable_bottom_divider=&#8221;default&#8221; bottom_divider_inv=&#8221;tilt&#8221; shape_bottom_invert=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_flip=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_h_use_pixel=&#8221;&#8221; shape_bottom_height=&#8221;100&#8243; shape_bottom_color=&#8221;color-xsdn&#8221; shape_bottom_opacity=&#8221;100&#8243; shape_bottom_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;734585&#8243; shape_bottom_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; row_name=&#8221;argumento&#8221;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;195001&#8243;][vc_row_inner row_inner_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;499325&#8243;][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;1&#8243; style=&#8221;dark&#8221; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;129506&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1684711567629{padding-top: 10px !important;padding-bottom: 10px !important;padding-left: 10px !important;}&#8221;][vc_single_image media=&#8221;103&#8243; media_width_percent=&#8221;70&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;156791&#8243;][\/vc_column_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;5\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;920813&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;949510&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Argumento[\/vc_custom_heading][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_color=&#8221;color-xsdn&#8221; overlay_alpha=&#8221;85&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;7&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; css_animation=&#8221;top-t-bottom&#8221; animation_speed=&#8221;200&#8243; animation_delay=&#8221;200&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;412257&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; overlay_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_weight=&#8221;500&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;288244&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<strong>H\u00e1 algo de novo nas psicoses&#8230; ainda<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>[\/vc_custom_heading][vc_separator sep_color=&#8221;color-419801&#8243; el_width=&#8221;100px&#8221; el_height=&#8221;4px&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;137074&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;108556&#8243;]O t\u00edtulo da 26\u00aa Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, nos remete imediatamente \u00e0 Jornada da EBP-MG ocorrida em 1999, que teve como t\u00edtulo <em>H\u00e1 algo de novo nas psicoses<\/em>. Naquele momento, sob as resson\u00e2ncias do Concili\u00e1bulo de Angers (1996), da Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon (1997) e da Conven\u00e7\u00e3o de Antibes (1998), viv\u00edamos um relan\u00e7amento da cl\u00ednica psicanal\u00edtica a partir do que Jacques-Alain Miller p\u00f4de nomear como \u201cpsicoses ordin\u00e1rias\u201d, discuss\u00e3o que produziu efeitos diretos na vida da EBP-MG, ampliando sua inser\u00e7\u00e3o na cidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o primeira a se colocar ent\u00e3o \u00e9 o que faz com que esse tema, surgido de forma t\u00e3o pungente ao final do s\u00e9culo passado, seja retomado agora. Ou seja, podemos extrair algo de novo, ao nos determos sobre as psicoses nesse in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, que orientaria a cl\u00ednica psicanal\u00edtica em seus desafios atuais?<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, previsto para acontecer em 2024, ter\u00e1 como t\u00edtulo <em>Todo mundo \u00e9 louco.<\/em> Esse aforisma, pronunciado por Lacan em 1978, nos serviria como ponto de partida para interrogar o lugar da psicose no mundo contempor\u00e2neo diante da loucura universal e generalizada.<\/p>\n<p>Parece-me ser tamb\u00e9m essa a dire\u00e7\u00e3o dada por S\u00e9rgio Laia ao propor para a Jornada deste ano retomar o t\u00edtulo da Jornada de 1999, por\u00e9m acrescido agora do adv\u00e9rbio ainda. Num texto que ser\u00e1 publicado na <em>Curinga<\/em> n. 55 e que j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel no site da 26\u00aa Jornada (<a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/por-que-as-psicoses-ainda\/\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/por-que-as-psicoses-ainda\/<\/a>), S\u00e9rgio observa que constatamos em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica, tanto nos consult\u00f3rios como nas institui\u00e7\u00f5es, a presen\u00e7a cada vez mais significativa de casos de psicose. Mais al\u00e9m tamb\u00e9m da cl\u00ednica, constatamos tamb\u00e9m \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-coletivas de ordenamentos extremistas e contr\u00e1rios \u00e0 diversidade\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> que surgem como indicativos da loucura que se propaga profusamente em nossos dias. Essa profus\u00e3o atual das psicoses, nos diz o diretor da EBP-MG, n\u00e3o seria, por\u00e9m, incompat\u00edvel com sua dilui\u00e7\u00e3o. Ou seja, as psicoses, \u201cao se proliferarem nas formas do comum, do ordin\u00e1rio e da ordem do dia \u2013 se \u2018normalizariam\u2019 e passariam at\u00e9 como se nem psicoses fossem\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cLoucos normais\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Seguindo nessa dire\u00e7\u00e3o, encontramos no texto \u201cLi\u00e7\u00f5es sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de doentes\u201d o relato de Jacques-Alain Miller sobre o que ele p\u00f4de extrair do ensino de Lacan em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s no\u00e7\u00f5es de loucura e norma. Segundo Miller, nas apresenta\u00e7\u00f5es que realizava no Hospital Sainte-Anne, Lacan costumava entrevistar \u201cpessoas normais\u201d, ou seja, pacientes que n\u00e3o apresentavam grandes del\u00edrios ou mesmo fen\u00f4menos elementares extraordin\u00e1rios, como as alucina\u00e7\u00f5es verbais. Por\u00e9m, essa pretensa normalidade, que se equivaleria ao ordin\u00e1rio e faria com que esses sujeitos se dilu\u00edssem na cena do mundo, seria marcada por uma cont\u00ednua flutua\u00e7\u00e3o e inconsist\u00eancia vital.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes realizada em abril de 1976 ilustra bem tal flutua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o sujeito ali em jogo se incluiria, conforme diz Miller, evocando Lacan, \u201centre o n\u00famero desses loucos normais que constituem o nosso ambiente\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Senhorita Boyer conta, ent\u00e3o, a Lacan que gostaria de ter um lugar na sociedade e na vida ao dizer:<\/p>\n<p>Estou em busca de um lugar para mim. N\u00e3o acho esse lugar porque n\u00e3o tenho lugar [&#8230;] eu havia me identificado com uma pessoa que n\u00e3o se parece comigo [&#8230;] eu tinha seis, sete anos. \u00c9ramos um grupo de menininhas. Eu havia notado que ela era loira, muito mais bonita que as outras. Frequentemente eu a penteava. [&#8230;] parecia que \u00e9ramos parecidas. Parecia, mas certamente ela n\u00e3o era parecida comigo. O que eu buscava na minha ideia era parecer com algu\u00e9m. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o de vida. Eu n\u00e3o tenho vida, eu tiro a vida do outro, \u00e9 isso que busco.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais adiante, Senhorita Boyer revela que gostaria de viver suspensa como um vestido pendurado no varal e acrescenta: \u201ceu sou um pouco um teatro de marionetes [&#8230;] eu represento a vida de todos os dias, o corpete que a gente engoma [&#8230;] eu sempre procurava encontrar um lugar [&#8230;] N\u00e3o sei onde estou, estou em todos os lugares\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Terminada a entrevista, Lacan \u00e9 contundente ao dizer que aquela mulher n\u00e3o tinha a menor ideia do corpo que ela teria que colocar sob o vestido, pois n\u00e3o havia ali ningu\u00e9m para vestir a roupa e que, portanto, esse sujeito ilustrava bem o que ele chamava de semblante.<\/p>\n<p>Miller, ao desdobrar esse coment\u00e1rio de Lacan, localiza a posi\u00e7\u00e3o de puro semblante desse sujeito no fato de que ali as identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o se precipitavam num ego, pois n\u00e3o haviaria um cristalizador que pudesse captar a imagem no espelho. Ter\u00edamos, assim, com esse imagin\u00e1rio desvairado, pois sem ego, um corpo sem consist\u00eancia e, portanto, sem objeto <em>a<\/em> que preenchesse os par\u00eantesis. Miller propor\u00e1 escrever esse desfuncionamento na rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo com o matema i(\u00a0 ).<\/p>\n<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo do <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, intitulado \u201cA escrita do ego\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, Lacan definir\u00e1 a psicologia como n\u00e3o sendo outra coisa que a imagem confusa que temos do nosso pr\u00f3prio corpo. Ou seja, o falasser tem uma rela\u00e7\u00e3o corporal sempre confusa, pois essa rela\u00e7\u00e3o se sustentaria pela imagem, mas por uma imagem afetada por pontos opacos inscritos nesse corpo.<\/p>\n<p>Seriam, portanto, esses pontos obscuros que tornam a rela\u00e7\u00e3o com o corpo sempre como estrangeiro, o que acaba oferecendo suporte para a imagem corporal, permitindo assim que o falasser tenha uma ideia de si como um corpo.<\/p>\n<p>Essa \u201cuma ideia de si como um corpo\u201d cumpriria a fun\u00e7\u00e3o de se cristalizar como ego. E como nos diz Lacan, \u201cse o ego \u00e9 dito narc\u00edsico \u00e9 porque, em certo n\u00edvel, h\u00e1 alguma coisa que suporta o corpo como imagem\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Tentemos aqui desdobrar um pouco mais as v\u00e1rias no\u00e7\u00f5es em jogo nessa passagem do <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, proferida, inclusive, um m\u00eas ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o da paciente\u00a0 Boyer.<\/p>\n<p>Temos, ent\u00e3o, ali a dimens\u00e3o narc\u00edsica do ego que remeteria ao amor-pr\u00f3prio e \u00e0 adora\u00e7\u00e3o do falasser ao seu corpo. Amor esse prim\u00e1rio e anterior ao Outro do significante. Por\u00e9m, para que esse amor \u00e0 imagem corporal se cristalize num ego, essa imagem precisa se sustentar no que a afeta como gozo do Um, efeito de lal\u00edngua sobre o corpo.<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em>, essa singular inven\u00e7\u00e3o lacaniana, seria o que desse gozo do Um se circunscreve como um elemento e que vir\u00e1 dar uma sustenta\u00e7\u00e3o real \u00e0 imagem corporal. Sem essa sustenta\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>, temos no caso da Senhorita Boyer uma cont\u00ednua flutua\u00e7\u00e3o de um vestido sem corpo, portanto, um puro semblante.<\/p>\n<p>Vemos, assim, como com Lacan a consist\u00eancia corporal ganha uma distin\u00e7\u00e3o n\u00edtida de uma suposta consist\u00eancia biol\u00f3gica para se instalar numa dimens\u00e3o mental: a ideia de si como um corpo.<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o que no final das contas extra\u00edmos da apresenta\u00e7\u00e3o de pacientes realizada por Lacan e dos coment\u00e1rios de Miller \u00e9 de que todo ser falante n\u00e3o escapa da afeta\u00e7\u00e3o de gozo em seu corpo gerada por lal\u00edngua e que, portanto, sua rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio corpo \u00e9 sempre mediada pelo mental.<\/p>\n<p>Como entender, ent\u00e3o, o que Lacan chama de doen\u00e7a da mentalidade, j\u00e1 que \u00e9 assim que ele nomeia o que estaria em jogo para Senhorita Boyer? Pois, apesar de Lacan n\u00e3o considerar tal doen\u00e7a como s\u00e9ria e por acabar se referindo a ela como vindo se somar aos v\u00e1rios loucos que comp\u00f5em o nosso ambiente, Miller destacar\u00e1 que o que estaria ali presente seria o fato de esses sujeitos n\u00e3o levarem a palavra a s\u00e9rio, ou seja, lidariam com a palavra sem um lastro no real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cMiscel\u00e2nea de fora-da-natureza\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Valho-me dessas formula\u00e7\u00f5es de Lacan e Miller sobre a doen\u00e7a da mentalidade acreditando que ela nos fornece uma chave de leitura da generaliza\u00e7\u00e3o dos semblantes na expans\u00e3o do universo social.<\/p>\n<p>Ao apresentar o tema do pr\u00f3ximo Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, Miller retoma a discuss\u00e3o sobre como na atualidade o discurso da ci\u00eancia e o discurso do direito convergem para autorizar o uso de novos semblantes.<\/p>\n<p>O que haveria de novo nesses semblantes sustentados pela demanda, por exemplo, de igualdade entre os sexos ou mesmo de um mundo composto de indiv\u00edduos iguais, no qual, segundo Miller, tudo passa a ser uma quest\u00e3o de arranjos e montagens? Segundo ele, o novo vem do fato de que essas demandas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais inibidas pela tradi\u00e7\u00e3o, o passado j\u00e1 n\u00e3o conta, como tamb\u00e9m o modo habitual de se fazer as coisas j\u00e1 n\u00e3o funciona mais como garantia.<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan antecipou o fundamento desse novo veiculado hoje de forma ampla pela opini\u00e3o p\u00fablica ao afirmar que a diferen\u00e7a sexual fundada na natureza \u2013 ou seja, pela anatomia \u2013 n\u00e3o constitui uma prova dessa assimetria: \u201cportanto, a natureza n\u00e3o seria uma norma, pois n\u00e3o h\u00e1 norma do sexo.\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Ao declarar que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, Lacan questiona a fun\u00e7\u00e3o da natureza em sua face de semblante.<\/p>\n<p>Nessa dire\u00e7\u00e3o, encontramos, no in\u00edcio do <em>Semin\u00e1rio 23<\/em>, Lacan nos dizendo, ou pelo menos \u00e9 assim que Miller traduz essa passagem, de como a natureza n\u00e3o nos serviria de norma, pois uma vez que distingamos algo por meio de um nome, estamos obrigados a dizer que esse algo n\u00e3o \u00e9 natural. Por isso, a natureza se encontraria esvaziada de tudo o que n\u00e3o \u00e9 natural at\u00e9 o ponto de reduzir a natureza a uma miscel\u00e2nea de fora-da-natureza.<\/p>\n<p>Podemos, ent\u00e3o, interrogar se, diante da explicita\u00e7\u00e3o de que a natureza n\u00e3o \u00e9 uma garantia, o que vemos surgir seria uma prolifera\u00e7\u00e3o de semblantes que, ao recusarem os pontos opacos na rela\u00e7\u00e3o com o corpo, fazem equivaler a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual ao sexual sem Real?<\/p>\n<p>A partir da profus\u00e3o e da simult\u00e2nea dilui\u00e7\u00e3o das psicoses mencionadas inicialmente, S\u00e9rgio Laia indaga se hoje a psicose n\u00e3o estaria por fazer as vezes de uma norma social.<\/p>\n<p>Mesmo considerando o alerta de S\u00e9rgio Laia sobre o que essa proposta pode soar como um contrassenso, pois n\u00e3o podemos ignorar as excepcionalidades das psicoses com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei e \u00e0 ordem simb\u00f3lica, pareceu-me interessante perguntar se essa ideia de uma \u201cnorma\u201d psic\u00f3tica n\u00e3o nos esclareceria tamb\u00e9m o que da loucura que, se propagada hoje, diz respeito \u00e0 desarticula\u00e7\u00e3o do Real em rela\u00e7\u00e3o ao Simb\u00f3lico e ao Imagin\u00e1rio, fazendo com que, solto, ele, o Real, apresente de maneira feroz sua face sem lei. Se hoje essa \u00e9 uma das vias pela qual \u201co pesadelo da hist\u00f3ria\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> toma forma, como ent\u00e3o a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode operar?<\/p>\n<p>A aposta \u00e9 que possamos levar adiante essa quest\u00e3o a partir dos tr\u00eas eixos tem\u00e1ticos que orientar\u00e3o o trabalho em torno da 26\u00aa Jornada, a saber:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>O mundo rumo \u00e0 psicose<\/li>\n<li>Diagnosticar e despatologizar<\/li>\n<li>As flutua\u00e7\u00f5es do sexo<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Convidamos, ent\u00e3o, a todos e a todas a participar dessa investiga\u00e7\u00e3o que se dar\u00e1 atrav\u00e9s dos cart\u00e9is, alguns inclusive j\u00e1 em funcionamento, como tamb\u00e9m nos cinco Semin\u00e1rios Preparat\u00f3rios que ocorrer\u00e3o durante este ano e, por fim, nas Plen\u00e1rias e Mesas da Jornada Cl\u00ednica, que acontecer\u00e3o na Jornada propriamente dita.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o da atual diretoria da EBP-MG de manter todos esses encontros presenciais nos diz de como a psican\u00e1lise, para n\u00e3o ser engolida pelo pesadelo da hist\u00f3ria, precisa se manter o mais perto poss\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o entre o dizer e o corpo, \u201co que na tradi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica denomina-se puls\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Helenice de Castro<br \/>\n<\/em><strong>Coordenadora da 26\u00aa Jornada da EBP-MG<\/strong><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>[\/vc_column_text][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_column_text text_lead=&#8221;small&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;134046&#8243;]<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A vers\u00e3o completa desse texto encontra-se dispon\u00edvel neste site na aba \u201ctextos de orienta\u00e7\u00e3o\u201d Acesse <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/apresentacao\/\">AQUI<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2] <\/a>LAIA, S. Por que as psicoses&#8230; ainda. <em>Curinga<\/em>, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, Belo Horizonte, n. 53, 2023. Tamb\u00e9m dispon\u00edvel neste site. Acesse <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/por-que-as-psicoses-ainda\/\">AQUI<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibidem<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. Li\u00e7\u00f5es sobre a apresenta\u00e7\u00e3o de doentes. In: MILLER, J.-A. <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996. p. 147.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 147.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. Apresenta\u00e7\u00e3o da srta. Boyer. In: MILLER, J.-A., ALBERTI, C., <em>Redivivus<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2023. p. 159, 161, 168.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p.171 e 172.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: <em>O sinthoma<\/em>. (1975-1976) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 139-151.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 146.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J., 2007, <em>op. cit., <\/em>p.13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> MILLER, J.-A. <em>Piezas sueltas<\/em>. (2004-2005) Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013. p. 397.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> <em>Ibidem<\/em>, p. 397.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> MILLER, 2013, <em>op. cit<\/em>., p.397.[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row][vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; enable_bottom_divider=&#8221;default&#8221; bottom_divider_inv=&#8221;tilt&#8221; shape_bottom_invert=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_flip=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_h_use_pixel=&#8221;&#8221; shape_bottom_height=&#8221;100&#8243; shape_bottom_color=&#8221;color-xsdn&#8221; shape_bottom_opacity=&#8221;100&#8243; shape_bottom_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;103851&#8243; shape_bottom_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; row_name=&#8221;eixos&#8221;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;195001&#8243;][vc_row_inner row_inner_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;499325&#8243;][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;1&#8243; style=&#8221;dark&#8221; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;109491&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1684711594318{padding-top: 10px !important;padding-bottom: 10px !important;padding-left: 10px !important;}&#8221;][vc_single_image media=&#8221;103&#8243; media_width_percent=&#8221;70&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;838102&#8243;][\/vc_column_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;5\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;920813&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;108901&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Eixos[\/vc_custom_heading][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_color=&#8221;color-xsdn&#8221; overlay_alpha=&#8221;85&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;7&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; css_animation=&#8221;top-t-bottom&#8221; animation_speed=&#8221;200&#8243; animation_delay=&#8221;200&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;148352&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; overlay_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h3&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;171162&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]1) O mundo rumo \u00e0 psicose[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;822148&#8243;]Tanto nos consult\u00f3rios como nas institui\u00e7\u00f5es, especialmente quando nos orientamos pela psican\u00e1lise, constatamos uma presen\u00e7a cada vez mais significativa de casos de psicose. Al\u00e9m da cl\u00ednica, em ordenamentos extremistas e contr\u00e1rios \u00e0 diversidade, mas ainda na err\u00e2ncia que se imp\u00f5e como a vida cotidiana de muitos, tamb\u00e9m encontramos marcas do quanto a loucura se espraia mesmo em nosso mundo. Vivemos uma \u00e9poca em que as psicoses parecem se diluir na presen\u00e7a incontorn\u00e1vel do digital; no uso indiscriminado (mas muitas vezes medicamente autorizado) de psicotr\u00f3picos e outros rem\u00e9dios relacionados \u00e0 ansiedade ou \u00e0 pr\u00e1tica sexual; na dissemina\u00e7\u00e3o de drogas mais conhecidas e, tamb\u00e9m, das sint\u00e9ticas; na emerg\u00eancia de atos considerados \u201cimotivados\u201d e mesmo violentos, ou no que se apresenta justamente como uma esp\u00e9cie de oposi\u00e7\u00e3o, ou seja, na procrastina\u00e7\u00e3o, no adiamento e na suspens\u00e3o do ato. Poder\u00edamos considerar, ent\u00e3o, que as psicoses \u2013 tradicionalmente concebidas como alheias \u00e0 ordem simb\u00f3lica, segregadas historicamente do conv\u00edvio social \u2013 tornam-se t\u00e3o comuns a ponto de se definirem como uma esp\u00e9cie de \u201cnorma\u201d para nossos dias? Ao mesmo tempo, a experi\u00eancia anal\u00edtica com os psic\u00f3ticos mostra-nos que, mesmo estando mais em conson\u00e2ncia com a \u201cordem do dia\u201d, isso n\u00e3o lhes confere, por si s\u00f3, um \u201clugar no mundo\u201d. Torna-se, portanto, decisivo destacarmos e esclarecermos o diferencial que a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana tem neste mundo que parece seguir cada vez mais rumo \u00e0 psicose.[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_color=&#8221;color-xsdn&#8221; overlay_alpha=&#8221;70&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;7&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; css_animation=&#8221;top-t-bottom&#8221; animation_speed=&#8221;200&#8243; animation_delay=&#8221;200&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;761032&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; overlay_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h3&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;663663&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]2) Diagnosticar e despatologizar[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;440542&#8243;]No \u00e2mbito dos diagn\u00f3sticos protocolares, verificamos uma multiplica\u00e7\u00e3o dos diagn\u00f3sticos de transtornos mentais e o favorecimento de novos modos de se fazer identificar. Assim, diferente do estigma que ainda acompanha as psicoses, declara-se hoje, por exemplo, \u201csou\u00a0 bipolar\u201d ou \u201csou hiperativo\u201d com mais tranquilidade e at\u00e9 orgulho. Muitas vezes, os diagn\u00f3sticos de psicose tornam-se menos praticados porque a cl\u00ednica se perde ao se ver \u00e0s voltas com tantos diagn\u00f3sticos quantos casos a serem diagnosticados, e at\u00e9 com categorias do tipo \u201ctranstorno mental n\u00e3o-especificado\u201d. Essa dilui\u00e7\u00e3o e, inclusive, a \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o das psicoses\u201d empreendida nos cat\u00e1logos de diagn\u00f3sticos repercutiriam, mesmo que \u00e0s avessas, a reivindica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de igualdade entre os seres falantes expressa pelo termo \u201cdespatologiza\u00e7\u00e3o\u201d: diagnosticar passaria a se equivaler a \u201crotular\u201d, o que seria incompat\u00edvel em um mundo aberto \u00e0 diversidade ou, ainda, se todos t\u00eam um transtorno, n\u00e3o haveria transtorno algum. Como diferenciar essa dilui\u00e7\u00e3o e o que Lacan nos prop\u00f5e com seu aforisma \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d ou do que Freud j\u00e1 anunciava com sua \u201cpsicopatologia da vida cotidiana\u201d? A concep\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica e n\u00e3o-segregativa do sintoma como parceiro e localizador de um modo muitas vezes at\u00e9 paradoxal de satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos convidaria mais a conjugar \u201cdiagnosticar\u201d e \u201cdespatologizar\u201d do que a tomar essas duas opera\u00e7\u00f5es como necessariamente antag\u00f4nicas e inarticul\u00e1veis?[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_color=&#8221;color-419801&#8243; overlay_color=&#8221;color-xsdn&#8221; overlay_alpha=&#8221;85&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;7&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; css_animation=&#8221;top-t-bottom&#8221; animation_speed=&#8221;200&#8243; animation_delay=&#8221;200&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;412257&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; overlay_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h3&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;143500&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]3) As flutua\u00e7\u00f5es do sexo[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;156173&#8243;]Em nossos dias \u2013 e n\u00e3o apenas devido \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o das psicoses \u2013 constatamos uma fluidez das identifica\u00e7\u00f5es, inclusive (e sobretudo), no que concerne aos corpos sexuados: em vez de um marcador \u00fanico que localizaria, por exemplo, entre os sexos, uma presen\u00e7a e uma aus\u00eancia ou um mais e um menos, vemos o m\u00faltiplo se disseminar. As flutua\u00e7\u00f5es do sexo tomam, ent\u00e3o, um alcance espectral, configurando um leque, e com todas as suas nuances e grada\u00e7\u00f5es, do hiper-sexual ao assexuado, da diversidade dos g\u00eaneros ao <em>gender fucking<\/em>, das parcerias t\u00f3xico-abusivas \u00e0 abertura das rela\u00e7\u00f5es&#8230; Embora a profus\u00e3o de modos de experimentar o sexo permita a cada corpo se alojar, inclusive, em lugares alternativos de grande destaque e reconhecimento em nossa civiliza\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1tica anal\u00edtica mostra-nos que essa flutua\u00e7\u00e3o atual do sexo n\u00e3o impede que corpos sejam assolados pela ang\u00fastia de <em>um n\u00e3o-lugar<\/em>. Por que essa flutua\u00e7\u00e3o desemboca em experi\u00eancias de anula\u00e7\u00f5es subjetivas? Quando, ao contr\u00e1rio, a inconsist\u00eancia do marcador \u00fanico d\u00e1 lugar a apresenta\u00e7\u00f5es e arranjos in\u00e9ditos e que n\u00e3o encontravam propriamente lugar em uma civiliza\u00e7\u00e3o menos enredada pelo m\u00faltiplo? Se Freud, em um tempo muito diferente do nosso, j\u00e1 demarcava, no conceito mesmo de puls\u00e3o, a variabilidade do objeto, mas, tamb\u00e9m, a const\u00e2ncia de uma for\u00e7a e a satisfa\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel, como a psican\u00e1lise nos permite lidar com as flutua\u00e7\u00f5es do sexo sem nos deixarmos simplesmente arrebatar pela diversidade ou nos enveredar na nostalgia de uma suposta e conservadora estabilidade?[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; enable_bottom_divider=&#8221;default&#8221; bottom_divider_inv=&#8221;tilt&#8221; shape_bottom_invert=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_flip=&#8221;yes&#8221; shape_bottom_h_use_pixel=&#8221;&#8221; shape_bottom_height=&#8221;100&#8243; 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