{"id":544,"date":"2023-05-23T16:18:11","date_gmt":"2023-05-23T16:18:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/?post_type=portfolio&#038;p=544"},"modified":"2023-09-21T18:25:30","modified_gmt":"2023-09-21T18:25:30","slug":"o-que-ha-de-novo-e-itera-nas-psicoses","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/o-que-ha-de-novo-e-itera-nas-psicoses\/","title":{"rendered":"O que h\u00e1 de novo e itera nas psicoses?"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;984329&#8243;][vc_row_inner row_inner_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;499325&#8243;][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;1&#8243; style=&#8221;dark&#8221; back_color=&#8221;color-523823&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;894074&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1683086611195{padding-left: 10px !important;}&#8221;][vc_single_image media=&#8221;103&#8243; media_width_percent=&#8221;50&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;182244&#8243;][\/vc_column_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_horizontal=&#8221;left&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; back_color=&#8221;color-523823&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;5\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;162471&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;122747&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Texto de orienta\u00e7\u00e3o[\/vc_custom_heading][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_custom_heading auto_text=&#8221;yes&#8221; text_color=&#8221;color-190355&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_weight=&#8221;500&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;102352&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][\/vc_custom_heading][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; text_weight=&#8221;600&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;333919&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Fernanda Costa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>[\/vc_custom_heading][vc_separator sep_color=&#8221;color-205642&#8243; el_width=&#8221;100px&#8221; el_height=&#8221;4px&#8221;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;170184&#8243;]<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><\/a><\/p>\n<p>Em que a psicose contribui para uma leitura da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica e do mundo de hoje? Essa estrutura cl\u00ednica e suas manifesta\u00e7\u00f5es permaneceram as mesmas ao longo do ensino de Lacan ou passaram por muta\u00e7\u00f5es? E por que isso aconteceu? No contexto atual de desinvestimento nos diagn\u00f3sticos sustentados pela cl\u00ednica (MILLER, 2022: 09), o que nos leva a propor essa discuss\u00e3o?<\/p>\n<p>Se acompanharmos o ensino de Lacan, constatamos que a concep\u00e7\u00e3o da psicose se modificou ao longo do tempo. Miller (2012, 242) continua nessa via ao introduzir a no\u00e7\u00e3o de \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d. Recentemente, com a proposta do pr\u00f3ximo Congresso da AMP \u201cTodo mundo \u00e9 louco\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> (MILLER, 2022: 08), somos convidados a revisitar o campo do diagn\u00f3stico diferencial e colocar \u00e0 prova se, e como, ele ainda responde ao real de nossa pr\u00e1tica. Ou seja: \u201co que h\u00e1 de novo nas psicoses&#8230;ainda\u201d?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que na novidade itera? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que \u00e9 fundamental observar o que muda nas flutua\u00e7\u00f5es dos tempos. Contudo, para cingir o novo em psican\u00e1lise, sabemos que \u00e9 essencial notar seu movimento espiral, situando na novidade o que itera. A hip\u00f3tese \u00e9 que a no\u00e7\u00e3o de foraclus\u00e3o possa contribuir para essa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan extraiu o termo foraclus\u00e3o da <em>Verwerfung <\/em>freudiana<em>.<\/em> Embora Freud n\u00e3o tenha sido incisivo quanto \u00e0 descontinuidade dos diagn\u00f3sticos entre neurose e psicose, ele foi categ\u00f3rico ao marcar uma distin\u00e7\u00e3o entre <em>Verwerfung<\/em> e recalcamento (<em>Verdr\u00e4ngung<\/em>). No caso do Homem dos Lobos, afirmou com todas as letras: \u201cum recalcamento <em>[Verdr\u00e4ngung]<\/em> \u00e9 algo diferente de uma rejei\u00e7\u00e3o [<em>Verwerfung<\/em>]\u201d (FREUD, 2023: 717). Portanto, desde que foi postulada por Freud, a <em>Verwerfung <\/em>marcou uma especificidade e uma distin\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao recalque, a defesa cl\u00e1ssica da neurose.<\/p>\n<p>Ao retomar o caso do Homem dos Lobos em seus <em>Escritos,<\/em> Lacan (1998) enfatizou tal distin\u00e7\u00e3o a partir da cena da \u201calucina\u00e7\u00e3o\u201d (FREUD, 2023: 724) do dedo cortado. Reconheceu, na perplexidade ent\u00e3o experimentada pelo Homem dos Lobos, uma \u201cimpossibilidade\u201d (LACAN, 1998: 392) de resposta no campo da fala e a atribuiu \u00e0 <em>Verwerfung<\/em>. Assim, esta foi elevada \u00e0 dignidade de um conceito e considerada como uma \u201csupress\u00e3o\u201d da rela\u00e7\u00e3o com o simb\u00f3lico (LACAN, 1998: 388).<\/p>\n<p>Contudo, foi apenas a partir do estudo do caso Schreber que Lacan formalizou a <em>Verwerfung<\/em> como a forma de defesa espec\u00edfica da psicose e conferiu-lhe uma vers\u00e3o \u201cjur\u00eddica\u201d (MILLER, 2011), propondo-lhe a c\u00e9lebre tradu\u00e7\u00e3o de \u201cforaclus\u00e3o\u201d (LACAN, 2002: 360). Esta fazia men\u00e7\u00e3o ao campo jur\u00eddico-processual e, no \u00e2mbito psicanal\u00edtico, referia-se \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o da lei paterna quando n\u00e3o foi poss\u00edvel servir-se dela em um determinado prazo para metaforizar o desejo materno em uma significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Logo, Nome-do-Pai e falo evocam refer\u00eancias do discurso corrente, mas Lacan lhes confere uma articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica com a exist\u00eancia. A foraclus\u00e3o desses recursos demarca uma falha no simb\u00f3lico e deixaria o sujeito exposto, tal como Schreber, a \u201cuma desordem provocada na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida\u201d. (LACAN, 1998: 565).<\/p>\n<p>Vale notar que, mesmo nesse contexto do ensino de Lacan no qual o simb\u00f3lico tinha uma preval\u00eancia, reconhecemos, por uma leitura diacr\u00f4nica, que os efeitos da foraclus\u00e3o n\u00e3o se restringem a esse registro. \u00c9 imposs\u00edvel separarmos o sentimento de vida de uma materialidade pulsional, de um gozo que age sobre o corpo. Como comentou Elisa Alvarenga, por ocasi\u00e3o da primeira Atividade Preparat\u00f3ria da 26\u00aa Jornada da EBP-MG, \u201ca desordem no sentimento mais \u00edntimo\u201d tem efeitos de mortifica\u00e7\u00e3o sobre o corpo, tanto que Lacan a formula a partir da experi\u00eancia do \u201cassassinato de almas\u201d relatado por Schreber. Por outro lado, quando Schreber, encontra a \u201csolu\u00e7\u00e3o elegante\u201d (LACAN, 1998: 578) de ser \u201cA mulher de Deus\u201d atrav\u00e9s de seu trabalho delirante e de escrita, isso ordena sua realidade e tem efeitos vivificantes. Como comentou Ram Mandil tamb\u00e9m no contexto das discuss\u00f5es rumo a essa Jornada, Schreber cria uma nova \u201cOrdem do Mundo\u201d (SCHREBER, 1995: 64), um mundo no qual \u00e9 poss\u00edvel viver.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o do corpo e do gozo parecem ganhar ainda mais destaque quando cotejamos a frase sobre tal desordem e o que se desenvolve no Semin\u00e1rio 23, onde ela parece manter sua pertin\u00eancia e ampliar seu alcance. Da mesma forma que, nesse mesmo Semin\u00e1rio, e n\u00e3o por acaso, o conceito de <em>Ververfung<\/em> foi revisitado e ampliado.<\/p>\n<p>Sabemos que um dos elementos que contribuiu para esse reposicionamento foi a nova articula\u00e7\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do pai. No tempo de seus <em>Escritos,<\/em> Lacan se serviu dos casos do Homem dos Lobos e de Schreber para formalizar sobre a <em>Verwerfung<\/em>. Podemos pensar que o tipo de impasse encontrados por esses pacientes, em suas perplexidades diante do enigma do desejo materno e do gozo, valorizava o Nome-do-Pai e o falo, mesmo que esses recursos lhes estivessem foraclu\u00eddos e, portanto, simbolicamente ausentes. Por sua vez, no Semin\u00e1rio 23, sabemos que as elabora\u00e7\u00f5es de Lacan foram conduzidas pela escrita de Joyce e o que se transmite do \u201crateio\u201d (LACAN, 2007: 147) do \u201cn\u00f3\u201d borromeano. Neste rateio, a \u201cdesordem na jun\u00e7\u00e3o\u201d evocaria \u201coutras foraclus\u00f5es diferentes daquela que resulta da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai\u201d (LACAN, 2007: 117). Desta forma, o acento desloca-se da desordem, referida ao simb\u00f3lico, para recair em uma pergunta sobre a jun\u00e7\u00e3o: afinal, em que condi\u00e7\u00f5es os n\u00f3s mant\u00eam-se juntos? (Miller, 2014: 252-252).\u00a0 Simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio e real passam a ter mesma import\u00e2ncia, sendo que os dois primeiros s\u00e3o semblantes e \u201cresistem\u201d (LACAN, 2007: 49) ao terceiro. Nesse novo contexto, \u201co real s\u00f3 tem ex-sist\u00eancia ao encontrar, pelo simb\u00f3lico e pelo imagin\u00e1rio, a reten\u00e7\u00e3o\u201d. (LACAN, 2007: 49).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A pluraliza\u00e7\u00e3o da foraclus\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Dentre as novidades relativas \u00e0 foraclus\u00e3o, Lacan cita uma <em>Verwerfung<\/em> \u201cmais radical\u201d (86) apreendida dos escritos Joyce. Para Laurent (2011), a \u201c<em>Verwerfung <\/em>de fato\u201d foi demonstrada por aquele escritor e teria seus efeitos mais localizados no \u00e2mbito do ego, referindo-se menos ao simb\u00f3lico e mais ao imagin\u00e1rio, \u00e0 uma aus\u00eancia da \u201cideia de si como um corpo\u201d (LACAN, 2007: 146).<\/p>\n<p>Em \u201cEfeito de retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria\u201d, Miller (2012) fornece algumas chaves para desdobrar essas elabora\u00e7\u00f5es. Cito o trecho que foi a inspira\u00e7\u00e3o para o cartaz da pr\u00f3xima Jornada da EBP-MG: \u201ca desordem mais \u00edntima \u00e9 essa brecha na qual o corpo se desfaz e onde o sujeito \u00e9 levado a inventar para si la\u00e7os artificiais&#8230; para \u2018prender\u2019 <em>(serrer) <\/em>seu corpo a ele mesmo&#8230; ele tem a necessidade de um grampo para se sustentar com seu corpo.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> (MILLER, 2012: 414).<\/p>\n<p>Logo, parece que um dos motivos pelo qual a escrita de Joyce interessa a Lacan, \u00e9 porque o psicanalista p\u00f4de ler a especificidade do lapso no n\u00f3 desse escritor, mas tamb\u00e9m e, principalmente, a genialidade joyceana em encontrar, exatamente no que rateia, falha, n\u00e3o se amarra, um artif\u00edcio que se apresenta como uma \u201cconjun\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 2007: 16), um grampo.<\/p>\n<p>Outro desdobramento que nos interessa dessa pluraliza\u00e7\u00e3o da <em>Verwerfung<\/em> seria a concep\u00e7\u00e3o de uma \u201cforaclus\u00e3o generalizada\u201d (MILLER, 2010: 30). Sabemos que, para os seres falantes, nascer geneticamente homem ou mulher n\u00e3o determina nem a identidade sexual, nem a escolha de objeto. Por sermos afetados pela linguagem, os determinismos e as universaliza\u00e7\u00f5es no campo da sexualidade n\u00e3o se imp\u00f5em de modo t\u00e3o decisivo para n\u00f3s. Ou seja, estamos todos marcados pela condi\u00e7\u00e3o de que \u201cn\u00e3o existe a rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. Esta rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 foraclu\u00edda para todos, e isso nos reverbera como um trauma.<\/p>\n<p>Tal como comentou Ram Mandil ainda em uma discuss\u00e3o a prop\u00f3sito dessa 26\u00aa Jornada, na foraclus\u00e3o generalizada sublinha-se o que n\u00e3o faz rela\u00e7\u00e3o, ou seja, o que resiste a uma amarra\u00e7\u00e3o. Refere-se \u00e0quilo que irrompe do trauma, que testemunha um real para o ser falante. Se Lacan afirma que todo mundo \u00e9 louco \u00e9 porque _diante dessa n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o fundamental_, toda constru\u00e7\u00e3o no campo do sentido (que relaciona significante e significado), em \u00faltima inst\u00e2ncia, s\u00f3 pode ter a estrutura de um del\u00edrio (seja este composto por um discurso estabelecido ou por uma inven\u00e7\u00e3o radicalmente particular).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que h\u00e1 de novo?<\/strong><\/p>\n<p>Com esse percurso, \u00e9 poss\u00edvel concluir que nossa pergunta sobre o que h\u00e1 de novo n\u00e3o se restringe \u00e0s psicoses. Trata-se de uma aposta que essa estrutura cl\u00ednica, ao nos ensinar sobre sua experi\u00eancia com o real, contribui para a leitura de nossa pr\u00e1tica e dos nossos tempos. Percebemos, com a foraclus\u00e3o de fato e a foraclus\u00e3o generalizada que a <em>Verwerfung <\/em>se pluraliza e deixa de concernir somente a um mecanismo de defesa da psicose. Consequentemente, abre-se todo um campo de investiga\u00e7\u00e3o para nossa Jornada que, ao se valer do decl\u00ednio do Nome-do-Pai e da queda do falocentrismo no mundo contempor\u00e2neo (LAIA, 2023), interessa-se particularmente por essa poss\u00edvel pluraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miller (2015) \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d, comenta algumas consequ\u00eancias daqueles decl\u00ednios que nos interessa. Afirma que \u201c&#8230;segundo o esp\u00edrito da \u00e9poca&#8230;Tudo \u00e9 artif\u00edcio do significante. Esta nossa \u00e9poca \u00e9 muito incerta quanto ao real. Ocorre-me dizer que \u00e9 uma \u00e9poca que nega, de boa vontade, o real, para admitir apenas os signos, que s\u00e3o desde ent\u00e3o igualmente semblantes. A originalidade de Lacan foi a de articular o par \u2018semblante\u2019 e \u2018real\u2019\u201d (p. 01).\u00a0 Essa \u00e9 uma outra forma de elaborar o que Lacan observa sobre o fato de o real s\u00f3 ter \u201cex-sist\u00eancia\u201d ao encontrar, pelo simb\u00f3lico e pelo imagin\u00e1rio, seu limite. No caso da neurose, o Nome-do-Pai e falo se encontram no campo dos semblantes e como ferramentas provenientes do discurso compartilhado, servindo-nos para coordenar, traduzir algo do gozo. Dizer que nossa \u00e9poca \u00e9 incerta quanto ao real tamb\u00e9m \u00e9 uma refer\u00eancia ao fracasso dos semblantes mais tradicionais nessa articula\u00e7\u00e3o com o real.<\/p>\n<p>Podemos indagar, por exemplo, se as flutua\u00e7\u00f5es que encontramos no campo da sexualidade n\u00e3o seriam, de certa forma, consequ\u00eancia dessa desarticula\u00e7\u00e3o, do desgaste das cl\u00e1ssicas ferramentas extra\u00eddas do discurso estabelecido. Diante da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, percebemos, com cada vez mais frequ\u00eancia, uma pluraliza\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es que indicam uma maior flutua\u00e7\u00e3o no campo da sexualidade e n\u00e3o se restringe de forma alguma \u00e0 psicose. O bin\u00f4mio feminino-masculino, que se apoia em semblantes sustentados por uma l\u00f3gica f\u00e1lica, torna-se uma forma dentre v\u00e1rias para localizar e coordenar algo do gozo. Encontramos o mesmo movimento fluido no campo das escolhas de objeto. Assim, se a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual pode ser entendida como foraclus\u00e3o generalizada, verificamos que ela tende a estar mais expl\u00edcita nos tempos atuais.<\/p>\n<p>Como aos analistas n\u00e3o cabe a nostalgia, interessa-nos avan\u00e7ar nessas pesquisas, instigados a recorrer \u00e0 psicose (que n\u00e3o conta com o Nome-do-Pai e com falo em suas abordagens da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual) para ajudar-nos em uma leitura do nosso mundo e de seus rumos. Da mesma forma que fica claro como a no\u00e7\u00e3o de um \u201cgrampo\u201d, recurso que passa ao largo daquelas refer\u00eancias cl\u00e1ssicas (do Nome-do-Pai e do falo), pode contribuir para investigarmos as vicissitudes do corpo na contemporaneidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas quest\u00f5es sobre o corpo e das flutua\u00e7\u00f5es no campo da sexualidade, cabe uma discuss\u00e3o sobre o diagn\u00f3stico. Sabemos que o <em>DSM, Manual de Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais<\/em>, embora esteja em crise, ainda \u00e9 atualmente a refer\u00eancia dentre os \u201cdiagn\u00f3sticos protocolares\u201d (LAIA, 2003). Baseado na corrente l\u00f3gica-positivista, esse Manual pretendeu forjar uma l\u00edngua transparente, sem equ\u00edvocos, eliminando qualquer mal-entendido. Para tanto, seus fundamentos seriam a-te\u00f3ricos e a-hist\u00f3ricos, fundamentados apenas na estat\u00edstica. Um dos objetivos era exatamente eliminar as ambiguidades do modelo psicanal\u00edtico que seria ineficaz por resistir \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o tem a normalidade como refer\u00eancia. Allen France, respons\u00e1vel pelo DSM IV, queixava-se de que, para Freud \u201cn\u00e3o se \u00e9 jamais totalmente normal\u201d (FRANCES, apud LAURENT, 2019: 59). A esse respeito, France tem raz\u00e3o sobre o que depreendeu da psican\u00e1lise, e como observa Laurent (2019), \u00e9 isso que \u201cLacan radicaliza com seu \u2018Todo mundo \u00e9 louco, quer dizer delirante\u201d (59- tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>\u00c9 oportuno, ent\u00e3o problematizar, a metodologia do DSM e sua efic\u00e1cia, j\u00e1 que este manual, segundo seus pr\u00f3prios criadores, demonstrou muitas falhas. Uma delas destaca o fato de que embora DSM tenha sido bem-sucedido em criar uma \u201cl\u00edngua perfeita\u201d, esta falha em medir outra coisa que n\u00e3o ela mesma. (Laurent, 2019: 62). Nesse sentido, o DSM \u00e9 um exemplo do puro semblante dos nossos tempos incertos do real.<\/p>\n<p>Como vimos, a l\u00edngua que interessa \u00e0 psican\u00e1lise, \u00e9 exatamente o oposto daquela do DSM. A contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise repousa exatamente na forma singular, inventiva com que cada ser falante habita a linguagem e de como se serve dela para fazer suas amarra\u00e7\u00f5es. Assim, se a linguagem afeta e perturba, tamb\u00e9m \u00e9 a partir dela que, segundo a psican\u00e1lise, podemos encontrar um tratamento desse trauma. Entretanto, ao faz\u00ea-lo pela via dos discursos, existe uma perda nessa tentativa de tradu\u00e7\u00e3o: deixa-se de fora o gozo que \u00e9 \u00edndice de um real que \u201cn\u00e3o se liga a nada\u201d (LACAN, 2007: 119). Logo, o analista, testemunha que, de certa maneira, cada falasser (e n\u00e3o s\u00f3 o psic\u00f3tico) precisaria de uma inven\u00e7\u00e3o na jun\u00e7\u00e3o entre simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio e real.<\/p>\n<p>Ao afirmar que \u201c\u00e9 de suturas e emendas que se trata na an\u00e1lise\u201d (LACAN, 2007: 71), Lacan indica que a psican\u00e1lise pode contribuir nesses arranjos, nessas amarra\u00e7\u00f5es. Nossa 26\u00aa Jornada pretende investigar o que h\u00e1 de novo e itera nas psicoses, mas tamb\u00e9m na fun\u00e7\u00e3o do psicanalista nos tratamentos que conduz e na leitura que realiza dos nossos tempos. Enfim, espero que cada um se sinta provocado a contribuir com seu gr\u00e3o de sal para essa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AVDELIDI, D. <em>La psychose ordinaire: la foraclusion du Nom-du- P\u00e8re dans le dernier enseignement de Lacan <\/em>, Presses Universitaire de Renne Ed., 2016.<\/p>\n<p>FREUD, S. \u201cDa hist\u00f3ria de uma neurose infantil (caso Homem dos Lobos)\u201d\u00a0 In: <em>Hist\u00f3rias Clinicas: cinco casos paradigm\u00e1ticos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica<\/em>. Belo Horizonte: Ed. Aut\u00eantica, 2022. (631-774)<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 3: As psicoses\u201d<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 18: de um discurso que n\u00e3o fosse dos semblantes\u201d. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: Joyce, o sinthoma.<\/em> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2007 (139-151).<\/p>\n<p>LACAN, J. \u201cResposta ao coment\u00e1rio de Jean Hyppolite sobre a \u201c<em>Verneinung\u201d <\/em>de Freud\u201d In: <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. (381-401)<\/p>\n<p>LACAN, J. \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel na psicose\u201d. In: <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998. (537-590).<\/p>\n<p>LACAN, J \u201cTransferencia para Sait Dennis. Lacan a favor de Vincennes!\u201d. In: Correio Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n\u00famero 65, 2010.<\/p>\n<p>LAIA, S. \u201cPor que as psicoses&#8230;ainda\u201d, 2023. Acesso <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/por-que-as-psicoses-ainda\/\">AQUI<\/a><\/p>\n<p>LAURENT, E. \u201cLa translation diagnostique et le sujet\u201d<\/p>\n<p>MILLER J-A. <em>\u201c<\/em>Parlament de Montpellier\u201d(2011), in\u00e9dito<\/p>\n<p>MILLER, J-A. \u201cCl\u00ednica Fluida\u201d. In: <em>A psicose ordin\u00e1ria<\/em>. BATISTA, M. e LAIA (org.), Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. (399-426)<\/p>\n<p>MILLER, J-A. \u201cEfeito de retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d. In: <em>A psicose ordin\u00e1ria<\/em>. BATISTA, M. e LAIA (org.), Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012. (399-426)<\/p>\n<p>MILLER, J-A \u201cTodo mundo \u00e9 louco- AMP 2024\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise, Dezembro, 2022.<\/p>\n<p>MILLER, J-A <em>El ultim\u00edssimo Lacan, <\/em>Buenos Aires: Paidos, 2014.<\/p>\n<p>MILLER, J-A \u201cForaclus\u00e3o generalizada\u201d. In <em>Todo mundo delira. <\/em>BATISTA, M. e LAIA (org.) Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2010. (399-426)<\/p>\n<p>SCHREBER, D. P. <em>Mem\u00f3rias de um doente de nervos<\/em>, S\u00e3o Paulo: Paz e Terra S\/A, 2006.<a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;small&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;105521&#8243;]<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto apresentado na primeira Atividade Preparat\u00f3ria da 26\u00aa Jornada da EBP-MG (04\/05\/2023) e adaptado para o formato online. Vale observar a contribui\u00e7\u00e3o das excelentes discuss\u00f5es do cartel do Eixo 1 dessa Jornada: \u201cO mundo rumo \u00e0s psicoses\u201d. Este \u00e9 composto por mim, Ana Lydia Santiago, Bernardo Micherif, Paula Pimenta, Ram Mandi (Mais- Um) e Renata Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Nome do pr\u00f3ximo Congresso da AMP (Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise) que acontecer\u00e1 em 2024. Este t\u00edtulo foi extra\u00eddo do breve texto de Lacan (2010) \u201cTransfer\u00eancia para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes\u201d, publicado na Correio Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise n\u00famero 65.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Vale observar, tal como recuperou Helenice de Castro, que no original, podemos ler \u201c<em>il a besoin d\u2019um <strong>serre-joint<\/strong> pour tenir avec son corps\u201d<\/em> (MILLER apud Avdelidi, 2016: 248- grifo nosso). Isso interessa, pois, uma das tradu\u00e7\u00f5es de serre-joint \u00e9 bra\u00e7adeira, esta do cartaz, que nos serve de forma t\u00e3o cotidiana e ordin\u00e1ria para prender, incluindo a constri\u00e7\u00e3o e o furo.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; h_padding=&#8221;2&#8243; top_padding=&#8221;0&#8243; bottom_padding=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;164376&#8243;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;0&#8243; style=&#8221;dark&#8221; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;162562&#8243;][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; style=&#8221;light&#8221; font_family=&#8221;font-183904&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; radius=&#8221;lg&#8221; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;355133&#8243;][vc_single_image media=&#8221;87&#8243; media_width_percent=&#8221;15&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; media_link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2023%2Fwp-content%2Fuploads%2F2023%2F05%2Ffernanda_costa.pdf|target:_blank&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;374113&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h6&#8243; text_size=&#8221;h6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;193276&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<\/p>\n<h6 class=\"uncode-share\">ABRIR EM PDF<\/h6>\n<p>[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernanda Costa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[4],"class_list":["post-544","portfolio","type-portfolio","status-publish","hentry","portfolio_category-textos-de-orientacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.3 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O que h\u00e1 de novo e itera nas psicoses? 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