{"id":633,"date":"2023-06-29T12:38:25","date_gmt":"2023-06-29T12:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/?post_type=portfolio&#038;p=633"},"modified":"2023-06-29T18:37:38","modified_gmt":"2023-06-29T18:37:38","slug":"eixo-1-o-mundo-rumo-a-psicose-2","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2023\/textos\/eixo-1-o-mundo-rumo-a-psicose-2\/","title":{"rendered":"EIXO 1: Coment\u00e1rio sobre o Relat\u00f3rio \u201cO mundo rumo \u00e0 psicose\u201d"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;984329&#8243;][vc_row_inner row_inner_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;499325&#8243;][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;1&#8243; style=&#8221;dark&#8221; back_color=&#8221;color-523823&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;894074&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; css=&#8221;.vc_custom_1683086611195{padding-left: 10px !important;}&#8221;][vc_single_image media=&#8221;103&#8243; media_width_percent=&#8221;50&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;182244&#8243;][\/vc_column_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_horizontal=&#8221;left&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; back_color=&#8221;color-523823&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;5\/6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;162471&#8243; back_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;122747&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Texto de orienta\u00e7\u00e3o[\/vc_custom_heading][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-190355&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_weight=&#8221;500&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;158889&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Coment\u00e1rio sobre o Relat\u00f3rio \u201cO mundo rumo \u00e0 psicose\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading auto_text=&#8221;excerpt&#8221; text_color=&#8221;color-190355&#8243; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-183904&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; text_weight=&#8221;600&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;120751&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_separator sep_color=&#8221;color-205642&#8243; el_width=&#8221;100px&#8221; el_height=&#8221;4px&#8221;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;376681&#8243;]Quero agradecer a Fernanda Costa e a Helenice de Castro, coordenadoras das pr\u00f3ximas Jornadas Cl\u00ednicas da EBP-MG, \u201cH\u00e1 algo de novo nas psicoses&#8230; ainda\u201d. \u00c9 com grande satisfa\u00e7\u00e3o que passo a comentar este Relat\u00f3rio que, al\u00e9m de seu conte\u00fado complexo, \u00e9 repleto de elementos ricos e fecundos para a nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica com as psicoses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Sobre os novos modos de <em>saber fazer <\/em>com o corpo<\/strong><\/p>\n<p>A tese que, a meu ver, orientou as discuss\u00f5es do Cartel e do Relat\u00f3rio \u201cO mundo rumo \u00e0 psicose\u201d \u00e9 a seguinte: para se dar conta de <em>algo novo nas psicoses<\/em> \u00e9 preciso levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias uma certa apreens\u00e3o conceitual do mundo que somente a psican\u00e1lise p\u00f4de fazer. Em primeiro lugar, afirmar que o mundo caminha rumo \u00e0 psicose sup\u00f5e considerar o pressuposto de que o nosso mundo muda segundo as mudan\u00e7as que t\u00eam lugar na ordem dos discursos. Em outros termos, a especificidade da conceitua\u00e7\u00e3o do mundo que a psican\u00e1lise coloca em evid\u00eancia considera, por exemplo, que o mundo regulado pela norma patriarcal se mostrou suscet\u00edvel de sofrer mudan\u00e7as, com consequ\u00eancias significativas na pr\u00e1tica anal\u00edtica. O Relat\u00f3rio procura responder o problema da especificidade do mundo para o discurso anal\u00edtico, ao frisar que o mundo \u00e9 produto de uma constru\u00e7\u00e3o que somente se realiza e adquire forma no plano imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que Lacan, desde o est\u00e1gio do espelho, j\u00e1 aponta para o fato de que a imagem do corpo se constitui como o \u201climiar do mundo vis\u00edvel\u201d e, ali\u00e1s, isso se comprova na \u201cdisposi\u00e7\u00e3o especular pr\u00f3pria do sonho e da alucina\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, 1949\/1998, p. 98). Importante observar que, segundo esse ponto de vista, o imagin\u00e1rio n\u00e3o se restringe \u00e0 rela\u00e7\u00e3o especular do eu <em>(a) <\/em>ao pequeno outro <em>(a\u2019)<\/em>, na medida que consiste tamb\u00e9m na imagem do corpo pr\u00f3prio. Assim, o mundo \u00e9 o que se coloca \u00e0 nossa frente como imagem e, seguindo a l\u00f3gica do est\u00e1dio do espelho \u2013 diz o Relat\u00f3rio \u2013, a imagem que fazemos do mundo se forma a partir dos mesmos elementos que constituem a \u201c<em>imago<\/em> do corpo pr\u00f3prio\u201d (LACAN, 1949\/1998, p. 98).<\/p>\n<p>Isso quer dizer que h\u00e1 um fio que liga essa tr\u00edade \u2013 corpo, imagem e mundo \u2013, a saber, a fun\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria. Por\u00e9m, para tratar aquilo que no mundo muda, faz-se necess\u00e1rio n\u00e3o apenas assumi-lo como uma constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, mas tamb\u00e9m tom\u00e1-lo como <em>cena do mundo <\/em>(LACAN, 1962-63\/2005, p. 42), destacando-lhe o componente do mundo como constru\u00e7\u00e3o, precisamente como constru\u00e7\u00e3o da fantasia. Em suma, o mundo em Lacan \u00e9 sempre uma constru\u00e7\u00e3o disto que \u00e9 um mist\u00e9rio para o discurso anal\u00edtico, a saber, o corpo falante.<\/p>\n<p>Assim, o problema com o qual o Relat\u00f3rio se defronta \u00e9 como conceber as transforma\u00e7\u00f5es que tiveram lugar na cena do mundo \u2013 mundo que se faz a partir da imagem do corpo \u2013 para que se possa falar de um empuxo-\u00e0s-psicoses no mundo atual. A esse prop\u00f3sito, salienta-se que o decl\u00ednio do Nome-do-Pai, por si s\u00f3, n\u00e3o explica a conex\u00e3o entre as muta\u00e7\u00f5es que se processam no <em>mundo-corpo<\/em> e a inevit\u00e1vel propens\u00e3o de nossa \u00e9poca gerar psicoses. A leitura do Relat\u00f3rio me fez ver que a revela\u00e7\u00e3o cada vez mais pronunciada do estatuto de fic\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai j\u00e1 \u00e9 um efeito do que se mostra decisivo para nossa compreens\u00e3o do que \u00e9 o mundo na acep\u00e7\u00e3o lacaniana, a saber, a <em>decomposi\u00e7\u00e3o das grandes narrativas, dos grandes relatos<\/em>. Em seu texto <em>Intui\u00e7\u00f5es milanesas II <\/em>Miller (2011a) explica essa decomposi\u00e7\u00e3o das grandes narrativas por meio do que o fil\u00f3sofo do p\u00f3s-moderno Jean-Fran\u00e7ois Lyotard denomina como \u201cdesestrutura\u00e7\u00e3o dos grandes filtros de saber\u201d, ou seja, desestrutura\u00e7\u00e3o das metanarrativas e estere\u00f3tipos que geram discursos, tradi\u00e7\u00f5es e autoridades consagradas<em>.<\/em> Isso quer dizer que as in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es do significante, formas diversas do discurso do mestre, que tinham o m\u00e9rito de realizar uma simplifica\u00e7\u00e3o e uma formaliza\u00e7\u00e3o da realidade, de difundir modelos de coer\u00eancia, modelos de comportamentos coerentes sob a autoridade de inst\u00e2ncias habilitadas e reconhecidas. (MILLER, 2011a, p. 13-14)<\/p>\n<p>Essa decomposi\u00e7\u00e3o das grandes narrativas atinge n\u00e3o somente as diversas figuras do patriarcado, mas, tamb\u00e9m, os processos de constru\u00e7\u00e3o de identidades que se edificam em fun\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre os sexos, g\u00eaneros e ra\u00e7as. As identifica\u00e7\u00f5es, antes concebidas como o fator que tornavam o mundo pleno de operadores sobre o gozo, essas mesmas identifica\u00e7\u00f5es tornam-se, hoje, fr\u00e1geis, flu\u00eddas e irredut\u00edveis umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia maior da decomposi\u00e7\u00e3o das grandes narrativas \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o da cena do mundo \u2013 tamb\u00e9m captada Lyotard (1986, p. 28) como uma verdadeira \u201catomiza\u00e7\u00e3o do social\u201d \u2013, com o surgimento e a preponder\u00e2ncia de um espectro amplo de identidades e mesmo de comunidades, grupos e tribos. Insisto nesse ponto do Relat\u00f3rio sobre a perda da harmonia do mundo ou, ainda, sobre o fato de que, diante da cena do mundo, que se fragmenta em m\u00faltiplos palcos, \u00e9 a pr\u00f3pria ci\u00eancia que se revela incapaz de apresentar uma via de solu\u00e7\u00e3o para essa desarmonia e fragmenta\u00e7\u00e3o (FERES; SANTIAGO, 2014).<\/p>\n<p>Enfim, a fragmenta\u00e7\u00e3o da cena do mundo ocasiona a constitui\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es restritas e especializadas de novos saberes com o corpo que se constituem como verdadeiras \u201cbolhas de certeza\u201d (MILLER, 2011a, p. 10). A quest\u00e3o que se pode formular a partir da\u00ed \u00e9 se o fator da decomposi\u00e7\u00e3o das grandes narrativas, concomitante \u00e0s muta\u00e7\u00f5es em curso no <em>mundo-parceiro-imagem<\/em>, n\u00e3o geraria novas modalidades do <em>saber fazer <\/em>com o corpo. Pergunto-lhe ainda, Ram: a presen\u00e7a atual do mundo <em>trans <\/em>n\u00e3o seria uma das figuras cl\u00ednicas fundamentais desse novo saber com o corpo? Com isso, quero reafirmar minha hip\u00f3tese de que o saber, enquanto efeito das mudan\u00e7as no <em>mundo-corpo<\/em>, se configura como a principal via de acesso \u00e0 nossa investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica sobre as configura\u00e7\u00f5es atuais das psicoses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 dar consist\u00eancia ao corpo? <\/strong><\/p>\n<p>Outro aspecto cl\u00ednico de fundamental import\u00e2ncia para a cl\u00ednica das psicoses, nos dias de hoje, \u00e9 a correla\u00e7\u00e3o que o Relat\u00f3rio estabelece entre a <em>consist\u00eancia do mundo<\/em> e a <em>consist\u00eancia do corpo<\/em>. Esse ponto pode se constituir, a meu ver, como uma valiosa ferramenta cl\u00ednica, no tocante ao tratamento das chamadas psicoses ordin\u00e1rias, principalmente quando se prepondera nelas a <em>externalidade corporal. <\/em>O ponto de partida dessa elabora\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u00e9 tomar como insuficiente a inconsist\u00eancia do mundo concebida a partir do fracasso de um <em>operador externo<\/em>, que \u00e9 o mito do pai e as fortes identifica\u00e7\u00f5es da\u00ed advindas. \u00c9 sabido que esse diagn\u00f3stico do mal-estar no mundo fundamenta dispositivos cl\u00ednicos que se baseiam na sexua\u00e7\u00e3o masculina, que pressup\u00f5e a estrutura subjetiva como dotada desse elemento suplementar e antin\u00f4mico \u00e0 cadeia significante \u2013 o Nome-do-Pai \u2013, que supostamente limitaria os excessos e desvarios do gozo.<\/p>\n<p>Por outro lado, para se pensar na inconsist\u00eancia do mundo a partir de um <em>operador interno <\/em>ao <em>falasser<\/em>, o Relat\u00f3rio se apoia numa f\u00f3rmula presente no Curso de Miller (2013, p. 71) intitulado \u201cO lugar e o la\u00e7o\u201d: \u201cbasta ter um corpo e, por ter um corpo, temos um mundo\u201d. A pergunta que se pode extrair dessa formula\u00e7\u00e3o de que a inconsist\u00eancia se trata a partir de um referente corporal \u2013 assentado na contiguidade do imagin\u00e1rio e do real \u2013 \u00e9 se o que se instala no horizonte da pr\u00e1tica anal\u00edtica \u00e9 o corpo feminino. Ou, pelo menos, aquilo que no corpo feminino se exprime como o <em>n\u00e3o-todo f\u00e1lico<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 patente que a orienta\u00e7\u00e3o que se depreende dessa problematiza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o da <em>cena do mundo<\/em> para a subjetividade da \u00e9poca confere uma centralidade \u00e0 quest\u00e3o cl\u00ednica da consist\u00eancia corporal. Nesse sentido, a retomada da concep\u00e7\u00e3o do corpo presente no \u00faltimo ensino de Lacan torna-se providencial, tendo em vista que tal concep\u00e7\u00e3o busca trat\u00e1-lo com sua devida conex\u00e3o com a experi\u00eancia do inconsciente. A maneira como Ram p\u00f4de orden\u00e1-la, sob o modo de tr\u00eas tempos distintos, pareceu-me fundamental para se captar o que vem a ser a presen\u00e7a do corpo no mundo rumo \u00e0 psicose: Primeiro tempo, o fato de se ter, e n\u00e3o de se ser o corpo, \u00e9 o que permite dizer que o corpo n\u00e3o \u00e9 jamais o que se pensa, nem o que se deseja ser. Ele \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o, uma constru\u00e7\u00e3o da qual o <em>falasser<\/em> toma posse, mantendo com esse corpo uma rela\u00e7\u00e3o de inelimin\u00e1vel estranheza. Segundo tempo, \u00e9 preciso considerar ainda que essa apropria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 definitiva, pois o corpo tende a <em>sair fora<\/em> (<em>fout le camp<\/em>), tende a escapar e a vazar. Assim, o <em>falasser <\/em>\u00e9 confrontado com esse <em>vaza!<\/em> do corpo, levando-se em conta que a express\u00e3o \u00e9 empregada na sua forma imperativa, ou seja, quando se ordena a uma pessoa para sair r\u00e1pido de onde ela est\u00e1. Terceiro tempo, constata-se, em decorr\u00eancia desses dois tempos anteriores, que h\u00e1 toda uma dimens\u00e3o da cl\u00ednica das psicoses que se torna \u2013 como afirma Ram no Relat\u00f3rio \u2013 \u201cdiferentes modos em que o <em>falasser<\/em> confere consist\u00eancia a esse corpo\u201d.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da pr\u00e1tica anal\u00edtica, interessa-nos colocar a quest\u00e3o sobre a nossa compreens\u00e3o acerca do que vem a ser a opera\u00e7\u00e3o desse \u201cdar consist\u00eancia ao corpo\u201d. N\u00e3o \u00e9 o caso, aqui, de tratar o corpo sob o vi\u00e9s da normaliza\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, em que o corpo se v\u00ea munido de filtros \u2013 tanto o falo, quanto o objeto <em>a \u2013 <\/em>que funcionam como fatores de limita\u00e7\u00e3o do gozo em zonas delimitadas por fronteiras e capazes de fazer barreira aos excessos pulsionais. Tomar como inspira\u00e7\u00e3o o corpo feminino sup\u00f5e considerar que o <em>n\u00e3o-todo f\u00e1lico<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma norma em condi\u00e7\u00f5es de obter uma normaliza\u00e7\u00e3o do funcionamento do corpo. O <em>n\u00e3o-todo f\u00e1lico<\/em> orienta-se com rela\u00e7\u00e3o ao gozo para al\u00e9m do Um que agrupa \u2013 via norma f\u00e1lica \u2013 e, por meio da estranheza e da alteridade, configura-se nesse o corpo que tende a sair fora, e, portanto, a tornar-se Outro para ele mesmo. Se o corpo se torna Outro para si mesmo, ele se confunde com a excepcionalidade de um gozo submetido aos intervalos abertos da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, satisfa\u00e7\u00e3o marcada por limites fugidios e inst\u00e1veis, na medida em que se v\u00ea envolvido por sua pr\u00f3pria contiguidade com o real (SANTIAGO, 2020).<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nesse sentido, dar consist\u00eancia ao corpo \u00e9 dar consist\u00eancia ao que inexiste, principalmente se n\u00e3o se toma o corpo segundo um funcionamento ancorado numa normalidade pr\u00e9-estabelecida pelo organismo. Afirmar que o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo e que a consist\u00eancia imagin\u00e1ria existe enquanto cont\u00edgua ao real sup\u00f5e admitir que a presen\u00e7a da norma f\u00e1lica nele n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o imperativa, ao contr\u00e1rio, a pr\u00e1tica anal\u00edtica visa fazer existir o corpo como conting\u00eancia. Lembro-lhes, a esse respeito, a refer\u00eancia de Lacan (1972-73\/1985) no Semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<\/em>, acerca da conting\u00eancia corporal.<\/p>\n<p>Aprendi com o Relat\u00f3rio que \u201cdar consist\u00eancia ao corpo\u201d \u00e9 um cap\u00edtulo-chave da cl\u00ednica da inven\u00e7\u00e3o <em>sinthom\u00e1tica<\/em>, no sentido de que lidamos com ferramentas que se avizinham do imposs\u00edvel intr\u00ednseco ao real. Aprendi, ainda, que a nossa interroga\u00e7\u00e3o sobre o algo novo nas psicoses \u00e9 tamb\u00e9m uma interroga\u00e7\u00e3o sobre o algo novo em nossa pr\u00e1tica com as psicoses. Nesse sentido, a cl\u00ednica da inven\u00e7\u00e3o exige uma abertura do analista ao fato de que conting\u00eancia desempenha um papel crucial na experi\u00eancia do <em>falasser<\/em> com o corpo. Se o gozo do corpo compat\u00edvel com o <em>n\u00e3o-todo f\u00e1lico<\/em> \u00e9 sem lei, a certeza que se obt\u00e9m dele est\u00e1 sempre condicionada pela conting\u00eancia, pelo que se mostra definitivamente vari\u00e1vel ou, ainda, resultante do que pode <em>ser<\/em> ou <em>n\u00e3o ser. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Cl\u00ednica do <em>parceiro-mundo-corpo<\/em> nas psicoses <\/strong><\/p>\n<p>Para concluir, comento a respeito de como se pode estabelecer a cl\u00ednica diferencial entre a psicose e o <em>corpo-mundo<\/em>, entre uma psicose desencadeada e uma n\u00e3o-desencadeada. \u00c9 o pr\u00f3prio Ram que afirma que o caso Joyce se apresenta segundo uma \u201cdire\u00e7\u00e3o distinta\u201d dos casos de Schreber e Artaud. Valendo-se do argumento de que, em Joyce, o mundo ficcional de Ulisses \u00e9 uma \u201c\u00e9pica do corpo\u201d (pois, desde o momento em que o personagem Leopoldo Bloom entra em cena, cada cap\u00edtulo se constr\u00f3i em associa\u00e7\u00e3o com um \u00f3rg\u00e3o do corpo humano), Ram precisa que essa presen\u00e7a do corpo n\u00e3o acontece como mera alus\u00e3o, evoca\u00e7\u00e3o ou mesmo como met\u00e1fora, mas como a matriz mesma da escrita, ou seja, a inven\u00e7\u00e3o joyceana se d\u00e1 pela estrita correspond\u00eancia do texto com as fun\u00e7\u00f5es de cada um desses \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que permite dizer que o <em>ego<\/em> de Joyce passa a existir sob a \u00e9gide do escritor que faz de si um corpo, amparado n\u00e3o sobre a sua imagem corporal, mas sobre a sua escrita. A dire\u00e7\u00e3o distinta nos dois outros casos se explica pelo movimento inverso \u00e0 tem\u00e1tica cl\u00ednica do Relat\u00f3rio, ou seja, \u00e9 a psicose rumo ao corpo. Ao contr\u00e1rio de Joyce, tanto no caso de Schreber quanto em Artaud, por haver desencadeamento, detecta-se uma decomposi\u00e7\u00e3o do corpo \u2013 corpo fragmentado e despeda\u00e7ado \u2013 e a tentativa subsequente, por meio do saber delirante, de recomposi\u00e7\u00e3o tanto da imagem do corpo quanto da constru\u00e7\u00e3o do <em>corpo-mundo<\/em>.<\/p>\n<p>Sobre Schreber, Ram afirma que o autor das <em>Mem\u00f3rias <\/em>\u00e9 exemplar no que vem a ser a correla\u00e7\u00e3o entre a psicose e o<em> mundo-corpo<\/em>. Por\u00e9m, do ponto de vista da cl\u00ednica da inven\u00e7\u00e3o <em>sinthom\u00e1tica<\/em>, pergunto-lhe: o que isso quer dizer? As modifica\u00e7\u00f5es experimentadas em seu corpo como vinculadas ao que ele designa como a Ordem do Mundo, e sua absoluta convic\u00e7\u00e3o de que a Ordem do Mundo exigia imperiosamente a sua emascula\u00e7\u00e3o, querem dizer que h\u00e1 uma homologia entre a fragmenta\u00e7\u00e3o do mundo e a psicose. Ent\u00e3o, o corpo de Schreber inexiste?<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o a Artaud, parece que sua psicose se configura de modo distinto \u00e0 psicose de Schreber, pois a sua ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o submeter o seu <em>corpo-mundo<\/em> ao ju\u00edzo de Deus. Artaud buscar\u00e1 descrever o corpo que <em>dan\u00e7a <\/em>e levar o leitor aqu\u00e9m da linguagem e de sua \u201cmontanha de signos\u201d, numa escritura de ritmos, gritos, movimentos e gestos (ARTAUD, 2019, p.124). Trata-se, para esse escritor, de escapar do corpo cad\u00e1ver a fim de se reencarnar no \u201ccorpo novo\u201d (ARTAUD, p.178) da escritura, e, assim, ele se aferra a desmembrar, desarticular, desencarnar o seu pr\u00f3prio corpo e o corpo da l\u00edngua. Ele se proclama o insurgente do corpo e n\u00e3o cessa em sua obra de destruir e criar o seu corpo e o corpo da l\u00edngua, de se expropriar de seu pr\u00f3prio corpo, com o prop\u00f3sito decidido se apropriar na escritura do corpo como autocria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para livrar-se do corpo abjeto devotado \u00e0 morte, Artaud cria a figura libertadora do \u201ccorpo-sem-\u00f3rg\u00e3os\u201d pois o \u00f3rg\u00e3o \u00e9 visto como coisa in\u00fatil, como signo de que o homem \u00e9 mal constru\u00eddo por Deus (ARTAUD, 2019, p. 196). Segundo a retomada que faz Deleuze do <em>corpo-sem-\u00f3rg\u00e3os,<\/em> o inimigo deste \u00e9 o organismo, ou seja, a organiza\u00e7\u00e3o que imp\u00f5e aos \u00f3rg\u00e3os um regime de totaliza\u00e7\u00e3o, de colabora\u00e7\u00e3o, de integra\u00e7\u00e3o, de inibi\u00e7\u00e3o e de disjun\u00e7\u00e3o\u201d, exercendo sobre eles uma a\u00e7\u00e3o repulsiva, neles, pr\u00f3prias dos aparelhos de persegui\u00e7\u00e3o\u201d (DELEUZE, 2016, p. 25). \u00c9 o que permite, ao lirismo do fil\u00f3sofo, reafirmar a luta viva do <em>corpo-sem-\u00f3rg\u00e3os <\/em>contra o organismo e contra Deus, senhor dos organismos e da organiza\u00e7\u00e3o. Assim, em \u201cO anti-\u00c9dipo\u201d, eles alertam que n\u00e3o se pode rebaixar o teor subversivo do del\u00edrio esquizofr\u00eanico \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica de uma hist\u00f3ria familiar que gravita em torno do desejo como falta. Ao contr\u00e1rio dos grandes conjuntos paran\u00f3icos que consistem \u201cem restaurar c\u00f3digos e reinventar territorialidades\u201d, a <em>viagem esquizofr\u00eanica <\/em>faz o movimento contr\u00e1rio ao \u201cdescodificar a si pr\u00f3pria\u201d bem como em gerar \u201clinhas de fuga ativas\u201d nas cenas fragmentadas do mundo (DELEUZE, 2016, p. 31-32).<\/p>\n<p>Em suma, em <em>O anti-\u00c9dipo<\/em>, eles militam contra o sistema patriarcal em decad\u00eancia que imaginam sustentado pela psican\u00e1lise e, por consequ\u00eancia, prop\u00f5em uma <em>esquizo-an\u00e1lise<\/em> a fim de extrair as marcas e resqu\u00edcios do \u00c9dipo nos <em>corpos-m\u00e1quinas.<\/em> Para os autores, o \u00c9dipo, tal como ele \u00e9 tratado pela psican\u00e1lise, apenas conduz e refor\u00e7a os circuitos predeterminados da normalidade familial neur\u00f3tica. Ambos estabelecem como ideal a esquizofrenia, que eles sup\u00f5e ser um agente transformador, por ela se localizar fora dos moldes ed\u00edpicos impostos neste mundo que caminha sobre o fundo de uma descodifica\u00e7\u00e3o e desterritorializa\u00e7\u00e3o massiva. O ponto de vista pol\u00edtico e sexo-esquerdista de Deleuze e Guattari toma a esquizofrenia como express\u00e3o do \u201climite de nossa sociedade, por\u00e9m um limite sempre conjurado, reprimido e execrado\u201d ((DELEUZE, 2016, p. 32). No entanto, segundo eles, para preservar seu car\u00e1ter descodificador e desterritorializador, \u00e9 preciso fazer com que suas brechas e linhas de fugas n\u00e3o se tornem colapso, diante das exig\u00eancias da ordem familial e patriarcal.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas que se endere\u00e7am \u00e0 psican\u00e1lise, em alguma medida, tamb\u00e9m se inspiram em<em> O anti-\u00c9dipo<\/em> e, nesse sentido, faz-se necess\u00e1rio retornar aos aspectos mais relevantes e ao modo como reverberam na pr\u00f3pria psican\u00e1lise. Parece-me fundamental o emprego da cl\u00ednica diferencial entre Joyce e Artaud que Ram nos prop\u00f5e, tendo em vista que Miller (2011b) assinala, na Conversa\u00e7\u00e3o sobre o <em>sinthoma <\/em>em Montpellier, que, tanto <em>O aturdito <\/em>(LACAN, 1973\/2003), quanto o Semin\u00e1rio 23 sobre Joyce (LACAN, 1975-76\/2007), constituem uma resposta contundente a <em>O anti-\u00c9dipo<\/em>. Ali onde Deleuze e Guattari tomam como exemplo a esquizofrenia embasada pela loucura de Wolfson e Artaud, Lacan se dedicar\u00e1 a tratar do caso Joyce. Sem jamais falar de esquizofrenia ou de psicose, interessa-lhe captar a din\u00e2mica singular atrav\u00e9s da qual o escritor faz de sua escrita o seu <em>sinthoma. <\/em>Com Joyce, Lacan elaborar\u00e1 uma teoria consistente da subjetividade humana a partir do <em>sinthoma<\/em>, reduzindo o Nome-do-Pai a ser, nada mais, nada menos, do que um instrumento. Conclui-se, por essa via, que o <em>sinthoma<\/em> \u00e9 a verdadeira cr\u00edtica lacaniana do patriarcado.<\/p>\n<p>Para finalizar, proponho uma quest\u00e3o: pode o <em>corpo-sem-\u00f3rg\u00e3os,<\/em> considerado como fator libertador dos automatismos pr\u00f3prios de um corpo submetido aos des\u00edgnios do julgamento de Deus, ser tomado como uma inven\u00e7\u00e3o <em>sinthom\u00e1tica<\/em>? \u00c9 bem prov\u00e1vel que n\u00e3o; por\u00e9m, \u00e9 n\u00edtido que se pode resgatar em Artaud tanto os \u00edndices da inconsist\u00eancia do corpo como sua tentativa despesperada, via o <em>corpo-sem-\u00f3rg\u00e3os<\/em>, de <em>fazer um corpo. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ARTAUD, A. <em>Escritos de Antonin Artaud. <\/em>Porto Alegre: L&amp;PM, 2019.<\/p>\n<p>DELEUZE, G.; GUATTARI, F. <em>O anti-\u00c9dipo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2011. (Trabalho original publicado em 1972)<\/p>\n<p>DELEUZE, G. <em>Dois regimes de loucos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2016. (Trabalho original publicado em 2003).<\/p>\n<p>FERES, L.; SANTIAGO, J. O mundo sem operadores e a ordem de ferro no supersocial. In: SANTOS, T. C dos.; SANTIAGO, J.; MARTELLO, A. (Org.). <em>Os corpos falantes e a normatividade do supersocial<\/em>. Rio de Janeiro: Ed. Cia. De Freud, 2014.<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1972-73).<\/p>\n<p>LACAN, J. O est\u00e1gio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu tal como nos revela a experi\u00eancia psicanal\u00edtica. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original publicado em 1949).<\/p>\n<p>LACAN, J. O aturdito. In: <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1973).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76).<\/p>\n<p>LYOTARD, J.-F. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1986.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Intui\u00e7\u00f5es milanesas II.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie,<\/em> ano 2, n. 6, nov. 2011a. Dispon\u00edvel <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_6\/Intuicoes_Milanesas_II.pdf\">AQUI<\/a>. Acesso em: 21 jun. 2023.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Conversation sur le sinthome. <em>Le Parlement de Montpellier Rencontre des Sections cliniques UFORCA<\/em>, 21 e 22 de maio, 2011b. (In\u00e9dito).<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>El lugar y el lazo. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/p>\n<p>SANTIAGO, J. <strong>A m\u00e1quina do n\u00e3o-todo e as adi\u00e7\u00f5es sem-limite<\/strong><em>. Um por Um \u2013 Boletim Eletr\u00f4nico do Conselho Deliberativo da EBP<\/em>, n. 404, 2020<em>.<\/em> Dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/wp-content\/uploads\/umporum\/um_por_um_404.html\">AQUI<\/a>. Acesso em: 21 jun. 2023.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><\/a>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;small&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;154591&#8243;]<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> \u201cO mundo rumo \u00e0 psicose\u201d: texto de Ram Mandil, relator e mais-Um do Cartel de mesmo nome composto por Ana Lydia Santiago, Bernardo Micherif, Fernanda Costa, Paula Pimenta e Renata Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Postulo, em \u201cA m\u00e1quina do n\u00e3o-todo e as adi\u00e7\u00f5es sem limite\u201d \u2013 que, na \u00e9poca em que a cena do mundo se fragmenta, predomina a <em>forclus\u00e3o generalizada<\/em> da qual se depreende o automatismo mec\u00e2nico do <em>n\u00e3o-todo.<\/em> Por essa raz\u00e3o Miller prop\u00f5e tratar essa profus\u00e3o do <em>n\u00e3o-todo <\/em>na cena do mundo sob o modo de uma <em>m\u00e1quina. <\/em>Por sua vez, \u00e9 desse automatismo do <em>n\u00e3o-todo <\/em>que se assiste \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o de micrototalidades em que se d\u00e1 a multiplica\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio investimento do <em>falasser <\/em>preso na engrenagem grupal ou comunit\u00e1ria. Essas micrototalidades que reproduzem esse automatismo do <em>n\u00e3o-todo <\/em>se definem como \u201cbolhas de certeza\u201d, na medida em que s\u00e3o nichos, abrigos, verdadeiras tribos nas quais se manifesta um certo grau de sistematicidade, estabilidade e codifica\u00e7\u00e3o desses sujeitos na rela\u00e7\u00e3o com o saber.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; h_padding=&#8221;2&#8243; top_padding=&#8221;0&#8243; bottom_padding=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;164376&#8243;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;0&#8243; style=&#8221;dark&#8221; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;162562&#8243;][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; style=&#8221;light&#8221; font_family=&#8221;font-183904&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; radius=&#8221;lg&#8221; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;383650&#8243;][vc_single_image media=&#8221;87&#8243; media_width_percent=&#8221;15&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; media_link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2023%2Fwp-content%2Fuploads%2F2023%2F06%2FEixo-1-comentario-de-Jesus.pdf|target:_blank&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;264020&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-xsdn&#8221; heading_semantic=&#8221;h6&#8243; text_size=&#8221;h6&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;193276&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<\/p>\n<h6 class=\"uncode-share\">ABRIR EM PDF<\/h6>\n<p>[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por J\u00e9sus Santiago<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[4],"class_list":["post-633","portfolio","type-portfolio","status-publish","hentry","portfolio_category-textos-de-orientacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.3 - 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