{"id":48,"date":"2024-04-04T00:53:35","date_gmt":"2024-04-04T00:53:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/?page_id=48"},"modified":"2024-10-31T14:59:37","modified_gmt":"2024-10-31T14:59:37","slug":"looping-citacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/looping\/looping-citacao\/","title":{"rendered":"Looping-cita\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;5&#8243; mobile_width=&#8221;7&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;518391&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;142749&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>\u201cLa palabra corte -que Lacan val\u00eddar\u00e1 tambi\u00e9n para la topolog\u00eda, donde los cortes con tijeras tienen efectos de transformaci\u00f3n sobre la estructura de los objetos matem\u00e1ticos- no deja de ser completamente equ\u00edvoca. Y es que el corte propiamente ling\u00fc\u00edstico introduce lo negativo, el menos, mientras que los cortes que podemos querer designar a nivel libidinal no anulan la positividad de conjunto. Por lo tanto, el t\u00e9rmino corte es tambi\u00e9n un amboceptor.\u201d<\/p>\n<p><strong>MILLER, J.A. Sutilezas anal\u00edticas. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. Texto estabelecido por TENDLARS, S. Buenos Aires: Paid\u00f3s, p.263<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;346193&#8243;]<strong>O corte amboceptor<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;202316&#8243;]O analisante fala, e o analista corta. Podemos dizer que o corte \u00e9 a ess\u00eancia de nosso of\u00edcio, est\u00e1 na base mesma da interpreta\u00e7\u00e3o, tal como concebida no ultim\u00edssimo ensino de Lacan. Na cita\u00e7\u00e3o que comento aqui, Miller caracteriza esse corte, bastante peculiar, com o termo <em>amboceptor<\/em>. Este termo \u00e9 oriundo da biologia: trata-se de um anticorpo que \u00e9 produzido no sangue durante uma infec\u00e7\u00e3o ou imuniza\u00e7\u00e3o para unir o complemento ao ant\u00edgeno<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em uma an\u00e1lise, o que estaria em jogo nesse corte <em>amboceptor<\/em>? Penso que a escolha desse termo para nomear a precis\u00e3o do corte anal\u00edtico, \u201cn\u00e3o sem completa equivocidade\u201d, se d\u00e1 por analogia. Tal como o mesmo anticorpo se une duplamente a um receptor de complemento e a um receptor de ant\u00edgeno, modificando-lhes a estrutura, o mesmo corte anal\u00edtico \u00e9 duplo, ou seja, incide em dois n\u00edveis distintos: 1) na cadeia\u00a0 significante, \u00e0 medida que separa as unidades de linguagem, provoca escan\u00e7\u00e3o e\u00a0 mudan\u00e7a do sentido das frases; 2) no n\u00edvel libidinal, incide diretamente no real do\u00a0 gozo, modifica-lhe a estrutura e o modo como tal satisfa\u00e7\u00e3o se deixa capturar pela linguagem. O corte tamb\u00e9m pode ser verificado no n\u00edvel da\u00a0 matem\u00e1tica topol\u00f3gica. Partindo do toro, que Lacan designa como sendo correlato \u00e0 estrutura da\u00a0 neurose, constata-se que o verdadeiro corte operado pelo ato anal\u00edtico \u00e9 um corte duplo, ao\u00a0 longo de\u00a0 suas bordas, conforme podemos ler no relat\u00f3rio do Eixo 3 da Jornada, redigido por Simone Souto.\u00a0 Importante destacar que atrav\u00e9s da manipula\u00e7\u00e3o e do duplo corte no toro, Lacan demonstra o objetivo da verdadeira interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica: \u201cproduzir uma outra fix\u00e3o do real\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> (1972\/2003,\u00a0\u00a0 p.480). Para tanto, o instrumento utilizado pelo analista, sua tesoura, \u00e9 o equ\u00edvoco. Como tamb\u00e9m se esclarece no relat\u00f3rio j\u00e1 evocado aqui, a l\u00e2mina do equ\u00edvoco mostra sua efic\u00e1cia quando, para al\u00e9m do corte simples na cadeia significante, da mudan\u00e7a de sentido a sentido, opera-se\u00a0 duplamente com a homofonia gerada pela imagem da palavra escrita. Assim, o real do gozo sem sentido ao ser\u00a0 capturado por uma imagem, modifica seu\u00a0 comportamento e \u00e9 for\u00e7ado a estruturar-se de uma outra forma.<\/p>\n<p><em><strong>Fernando Casula (EBP\/AMP)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Traduzido do Merriam-Webster Medical.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> LACAN, J. O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 448-497<\/p>\n<p>(trabalho de 1972).[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;154553&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Si Lacan habla de &#8220;atravessamiento del fantasma&#8221;, por el contrario, y no de &#8220;levantamiento del fantasma&#8221;, es porque no se trata de ninguna manera de su desaparici\u00f3n. Se trata de entrever, en el primer\u00edssimo comienzo, lo que hay detr\u00e1s. Lo divertido es que detr\u00e1s del fantasma no hay nada. El final de an\u00e1lisis consiste precisamente en ir a dar una vuelta por el lado de la nada&#8221;.<br \/>\n<strong><br \/>\nMILLER, 2018, 16 <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;372434&#8243;]<strong>Fantasma: do atravessamento \u00e0 redu\u00e7\u00e3o<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;300958&#8243;]O que seria esse \u201cnada\u201d por tr\u00e1s do fantasma? \u00c9 exatamente esse \u201cnada\u201d que o sujeito tratar\u00e1 de verificar e construir durante o percurso de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Essa cita\u00e7\u00e3o de Miller (2013), proferida em seu Curso realizado entre 1982 e 1983, ressoa em seu <em>Ultim\u00edssimo Lacan,<\/em> bem mais recente e publicado quase 30 anos depois. Miller nos mostra como o fantasma se torna uma no\u00e7\u00e3o chave no ultim\u00edssimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o do cartel do Eixo 2, \u201cA tela do fantasma e a esfolia\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio\u201d, revelou que o trabalho de esfolia\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio diz respeito a uma redu\u00e7\u00e3o ao fantasma, e n\u00e3o propriamente a seu atravessamento como algo definitivo e derradeiro. Trata-se de redu\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o imagin\u00e1ria do fantasma, n\u00e3o de seu desaparecimento. Por isso, podemos localizar, com Lacan, o fantasma na figura topol\u00f3gica do toro, essa esp\u00e9cie de \u201cboia\u201d ou \u201cc\u00e2mara de ar cheia\u201d, onde encontramos os giros dos quais o neur\u00f3tico n\u00e3o sai. O toro possui a propriedade de, ao ser cortado, n\u00e3o se dissolver, mas revirar-se.<\/p>\n<p>Por ser um objeto que se funda na exist\u00eancia do furo, o toro \u00e9 flex\u00edvel, podendo ser moldado atrav\u00e9s de cortes, giros e reatamentos na experi\u00eancia de uma an\u00e1lise. Ele tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito a uma aspira\u00e7\u00e3o, uma vez que se infla e desinfla, mudando sua forma, seu visual. O fantasma, se tomado como aspira\u00e7\u00e3o no sentido do que permite a passagem do ar, n\u00e3o \u00e9 mais considerado como algo que se atravessa no sentido de uma dissolu\u00e7\u00e3o ou desaparecimento, mas como algo que \u00e9 rearranjado, distendido e mesmo reduzido no decurso da experi\u00eancia anal\u00edtica, atrav\u00e9s de cortes e reviramentos (COLOMBEL-PLOUZENNEC, 2024).<\/p>\n<p><strong><em>K\u00e1tia Mari\u00e1s (EBP\/AMP)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>COLOMBEL-PLOUZENNEC, Anne. Le fantasme dans le tout dernier enseignement de Lacan. <em>Ironik!<\/em>, n. 60, set. 2024. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.lacan-universite.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ironik-60-Colombel-Plouzennec-DEF-DEF-1.pdf\">https:\/\/www.lacan-universite.fr\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Ironik-60-Colombel-Plouzennec-DEF-DEF-1.pdf<\/a>. Acesso em: 22 set. 2024.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>El ultim\u00edsimo Lacan. Los cursos psicoanaliticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>Del s\u00edntoma al fantasma. <\/em><em>Y retorno<\/em>. Texto estabelecido por Silvia Elena Tendlarz. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2018.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o da cita\u00e7\u00e3o por K\u00e1tia Mari\u00e1s. \u201cSe Lacan fala de \u201catravessamento do fantasma\u201d, e n\u00e3o de \u201clevantamento do fantasma\u201d, \u00e9 porque n\u00e3o se trata do desaparecimento do fantasma. Trata-se de entrever, inicialmente, o que h\u00e1 por tr\u00e1s. O divertido \u00e9 que, por tr\u00e1s do fantasma, n\u00e3o h\u00e1 nada. O final de an\u00e1lise consiste, precisamente, em dar uma volta pelo lado do nada. O que favorece essa volta pelo nada \u00e9 o desejo do analista, ou melhor, o desejo do analista como fun\u00e7\u00e3o (MILLER, 2018, p. 16).\u201d[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;192189&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA ideia da neurose sem \u00c9dipo \u00e9 correlata do conjunto das perguntas formuladas sobre o que se denominou de supereu materno. No momento em que foi levantada a quest\u00e3o da neurose sem \u00c9dipo, Freud j\u00e1 havia formulado que o supereu era de origem paterna. Houve ent\u00e3o quem se interrogasse: ser\u00e1 que o supereu \u00e9 mesmo unicamente de origem paterna? N\u00e3o haver\u00e1 na neurose, por tr\u00e1s do supereu paterno, um supereu materno ainda mais exigente, mais opressivo, mais devastador, mais insistente?\u201d<\/p>\n<p><strong>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 5: As forma\u00e7\u00f5es do Inconsciente. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 167. (Trabalho original proferido em 1957-58). <\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;120009&#8243;]<strong>O supereu materno e sua lei insensata<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;550746&#8243;]A refer\u00eancia ao supereu demanda sempre um esfor\u00e7o para sistematiz\u00e1-lo em suas nuances, inclusive conceituais. Muitas vezes, fazemos uma distin\u00e7\u00e3o entre o supereu freudiano e o supereu lacaniano; entretanto, parece mais relevante aqui indicar duas vertentes, uma como lei simb\u00f3lica e outra como lei insensata. A primeira se relaciona com a interdi\u00e7\u00e3o paterna, o supereu paterno herdeiro do complexo de \u00c9dipo, ou seja, aquele que interdita o incesto e, ao procurar articular lei e desejo, tenta fazer limite ao gozo, abrir outras possibilidades de satisfa\u00e7\u00e3o e se valer do Nome-do-Pai. Enquanto lei insensata, o supereu materno se aproxima \u201c[\u2026] do desejo caprichoso da m\u00e3e\u201d, desse \u201cdesejo sem lei da m\u00e3e, antes de ser metaforizado e dominado pelo Nome-do-Pai\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u2013 um supereu exigente, derivado do desejo da m\u00e3e , um supereu opressivo e que se infla com as ren\u00fancias pulsionais do sujeito transmutadas em formas muitas vezes obscuras de gozo. Como nos diz Barreto: \u201c[\u2026] o supereu materno deriva de trauma primitivo sofrido pela crian\u00e7a, quando suas fantasias fazem escutar a voz de um adulto como uma imposi\u00e7\u00e3o cruel e dilacerante\u201d.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Trata-se do supereu tir\u00e2nico, aquele da vocifera\u00e7\u00e3o de uma lei insensata.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o de Lacan comentada aqui nos convida tamb\u00e9m a tomarmos o supereu como \u00edndice em nossa pr\u00e1tica cl\u00ednica. No mundo contempor\u00e2neo, constata-se um imperativo de gozo no qual a norma se faz lei, conforme podemos ler, por exemplo, no relat\u00f3rio do Eixo 3 da Jornada, redigido por Simone Souto. Essa exig\u00eancia de gozo do supereu se imp\u00f5e como lei insensata, um empuxo constante ao gozo no real. Se o supereu materno tem suas rela\u00e7\u00f5es com a <em>Verwerfung<\/em>, a foraclus\u00e3o, como tamb\u00e9m aponta Lacan, e n\u00e3o se apresenta propriamente como herdeiro do complexo de \u00c9dipo, nele se destaca a dimens\u00e3o imagin\u00e1ria, sua ferocidade obscena. Por\u00e9m, essa vertente do supereu materno tamb\u00e9m tem suas incid\u00eancias nas neuroses. Logo, tomar o supereu como \u00edndice cl\u00ednico implica em averiguar de que lugar o analista vai se servir na condu\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise, por meio do manejo transferencial, para que os analisantes possam discernir outros modos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em><strong>Rodrigo Almeida<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. Cl\u00ednica del Superyo: Recorrido de Lacan. Buenos Aires: Manantial, 1984, p. 143.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Barreto, F. A lei simb\u00f3lica e a lei insensata; uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 teoria do supereu. In: Curinga N\u00b0 17, EBP-MG nov. 2001, p. 47.[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;178345&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>\u00a0\u201c\u00c9 essencial apreender a natureza da realidade do espa\u00e7o como espa\u00e7o tridimensional, para definir a forma assumida no est\u00e1gio esc\u00f3pico pela presen\u00e7a do desejo, a saber, como fantasma. Trata-se de que a fun\u00e7\u00e3o da moldura, da janela, entenda-se, que tentei definir na estrutura do fantasma n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora. Se a moldura existe, \u00e9 porque o espa\u00e7o \u00e9 real.\u201d<\/p>\n<p><strong>Li\u00e7\u00e3o de 12 de junho de 1963 \u2013 A torneira de Piaget, p. 309, tradu\u00e7\u00e3o modificada). LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10: A ang\u00fastia.<\/em> Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;532185&#8243;]<strong>A tela na janela, e a fresta<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;165404&#8243;]O fantasma na neurose se faz como \u201cuma tela sobre a qual o sujeito \u00e9 institu\u00eddo\u201d (Lacan, 1956-1957\/1995, p. 120), j\u00e1 que o real, que \u00e9 diferente da realidade humana, \u201cnunca \u00e9 mais do que vislumbrado \u2013 vislumbrado quando a m\u00e1scara, que \u00e9 a do fantasma, vacila\u201d (Lacan, 1966-1697\/2024, p.19). Ao mesmo tempo, o fantasma constitui, \u201cpara cada um, sua janela para o real\u201d (Lacan, 1967\/2003, p.259). No <em>Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de 2011<\/em>, Miller desenvolve essas duas dimens\u00f5es do fantasma: a de \u201c<em>\u00e9cran au r\u00e9el<\/em>\u201d, \u201ctela no real\u201d, a escond\u00ea-lo; e a de \u201c<em>fen\u00eatre sur le r\u00e9el\u201d<\/em>,<em> \u201c<\/em>janela sobre o real\u201d, que permite um acesso enquadrado a ele. A partir dessas elabora\u00e7\u00f5es, Naveau (2011) indica que o fantasma \u00e9 \u201cuma tela que fecha ao sujeito o acesso ao real e, inversamente, uma janela que abre, para o sujeito, um ponto de vista sobre o real em quest\u00e3o\u201d (p. 156).<\/p>\n<p>Pensada como tela (<em>\u00e9cran<\/em>), estaria a dimens\u00e3o de \u201cevitamento do real\u201d fazendo-lhe barreira. Como janela (<em>fen\u00eatre<\/em>), seria uma abertura que denota em si mesma a conex\u00e3o entre o sujeito e o real, mesmo que atrav\u00e9s dos limites desse enquadramento. Seria uma \u201cfun\u00e7\u00e3o do real\u201d, fun\u00e7\u00e3o subjetivada e singularizada do real, ou seja, o real para cada um (Miller, 2012). De acordo com Miller (2012), dizer que o real n\u00e3o tem sentido equivale a dizer que ele n\u00e3o corresponde a nenhum querer dizer. A doa\u00e7\u00e3o de sentido que \u00e9 dada ao real concerne a uma elucubra\u00e7\u00e3o e, nesse sentido, o fantasma teria a fun\u00e7\u00e3o de uma elucubra\u00e7\u00e3o sobre o real.<\/p>\n<p>Em seu Semin\u00e1rio sobre <em>A ang\u00fastia<\/em>, Lacan afirma que o fantasma funciona tal como um quadro que \u00e9 colocado em um caixilho de uma janela. Para ele (1962-1963\/2005), \u201cseja qual for o encanto do que est\u00e1 pintado na tela, trata-se de n\u00e3o ver o que se v\u00ea pela janela. (\u2026) o fantasma \u00e9 enquadrado\u201d (p. 85, tradu\u00e7\u00e3o modificada).<\/p>\n<p>A refer\u00eancia a essa tela na janela \u00e9 o quadro <em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em> (1934), de Ren\u00e9 Magritte, no qual uma tela se interp\u00f5e sobre parte da janela, driblando o olhar quanto aos seus contornos. A tela revela a condi\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o a qual estamos todos submetidos, ao mesmo tempo em que demonstra a insufici\u00eancia dessa representa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a tela n\u00e3o obstrui toda a janela. Nesse quadro de Magritte, pode-se visualizar tanto a dimens\u00e3o da tela quanto a da janela, porque fica n\u00edtido o modo como essas dimens\u00f5es se conjugam na <em>fresta<\/em> \u2013 ou seja, nesse intervalo ou, melhor dizendo, nesse <em>corte<\/em> \u2013 que o pintor abre entre a tela e a janela.<\/p>\n<p>Essas duas dimens\u00f5es presentes na tela de Magritte revelam como o fantasma tem uma fun\u00e7\u00e3o decisiva na vida do sujeito neur\u00f3tico, posicionando-o no mundo e guiando-lhe as a\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da maneira pela qual o enxerga. Nesse sentido, o fantasma, ou que Freud j\u00e1 havia isolado como fantasia fundamental, transforma-se em um elemento estrutural que subsiste como um enunciado \u00e0 parte de todo o conte\u00fado da neurose (Miller, 2013a).<\/p>\n<p>O fantasma, nesse sentido, emoldura a realidade, enquadrando-a e determinando a maneira de satisfa\u00e7\u00e3o que ele estabelece com os objetos de uma maneira est\u00e1tica (Lacan, 1963-1964\/1998, p. 786), ou, como prop\u00f5e Miller (1996): \u201cQuando o objeto <em>a<\/em> encontra seu lugar no fantasma, o fantasma toma para o sujeito o lugar do real. N\u00e3o quer dizer com isso que se trata do real\u201d. N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que real e realidade n\u00e3o se superp\u00f5em. A realidade \u00e9 uma montagem, como esclarece Lacan no semin\u00e1rio <em>A L\u00f3gica do Fantasma<\/em>.<\/p>\n<p>Por servir como um tamponamento do real, fazendo-o enquadrar a realidade e tentando eliminar a aus\u00eancia de sentido do real, o fantasma faz as vezes do real para o sujeito, escravizando-o a um modo de funcionamento est\u00e1tico ao lidar com isso que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. O corte realizado numa an\u00e1lise pode permitir tocar essa fresta e fazer vacilar essa escravid\u00e3o que denota que <em>a condi\u00e7\u00e3o humana<\/em> passa pelo <em>modo de gozo<\/em> em que cada um se v\u00ea fisgado. Por essa fresta, por esse corte, outra escolha poder\u00e1 ter lugar.<\/p>\n<p><strong>Virg\u00ednia Carvalho (EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Lacan, J. (2003). Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola. In <em>Outros Escritos, <\/em>p. 248-264. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1966).<\/p>\n<p>Lacan, J. (1995). <em>O Semin\u00e1rio, livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1956-1957)<\/p>\n<p>Lacan, J. (2005). <em>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1962-1963).<\/p>\n<p>Lacan, J. (1998). <em>O Semin\u00e1rio, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1964).<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. (2010-2011). Curso de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana III, 13: \u201cL\u00b4\u00eatre et l`Un\u201d. In\u00e9dito.<\/p>\n<p>Naveau, P. (2011).Fantasia. In: Kruger, F.; Gorostiza, L. Scilicet. <em>A ordem simb\u00f3lica no s\u00e9culo XXI n\u00e3o \u00e9 mais o que era<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum.[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;213041&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8220;O analisante faz tamb\u00e9m a experi\u00eancia do real <\/em><em>como inibi\u00e7\u00e3o, a partir de um n\u00e3o poder que parece absoluto, esse que Freud imputa \u00e0 debilidade do eu e que na experi\u00eancia pode apresentar-se com o passar do tempo como um muro, uma surdez do inconsciente, que evidencia a insist\u00eancia de algo mais poderoso, de outra ordem que a repress\u00e3o e refrat\u00e1rio \u00e0 efic\u00e1cia da interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>&#8221;<\/p>\n<p><strong>J.-A. Miller, 13 de janeiro de 1999<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;121677&#8243;]<strong>Da inibi\u00e7\u00e3o inaugural da psican\u00e1lise<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;213069&#8243;]<strong>\u00a0<\/strong>A convic\u00e7\u00e3o de Lucy R. ao dizer <em>n\u00e3o sei<\/em> \u00e0s investidas de Freud sobre a origem do seu sintoma desperta uma suspeita: ela sabe, mas n\u00e3o entrega. Esse <em>n\u00e3o sei<\/em> confessa um <em>n\u00e3o poder<\/em> dizer, <em>n\u00e3o poder<\/em> saber, um obst\u00e1culo na dire\u00e7\u00e3o do tratamento. Freud deseja perfurar o muro desse <em>n\u00e3o<\/em> absoluto e ir al\u00e9m do que ali se insinua imposs\u00edvel de dizer. Ele pretende perturbar o levante dessa for\u00e7a inibit\u00f3ria ao introduzir na cena outra for\u00e7a \u2013 <em>t\u00e9cnica da press\u00e3o<\/em>: toca a cabe\u00e7a da analisante e pede que lhe diga, ao ceder a press\u00e3o de suas m\u00e3os, o que lhe vier \u00e0 mente como s\u00fabita ocorr\u00eancia. L\u00e1 onde se eleva o muro da resist\u00eancia, a transfer\u00eancia surge como um fator cont\u00edguo: <em>de repente, eu realizo o fato de sua presen\u00e7a<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>J-A. Miller esclarece que, oito anos depois, Freud orienta a nunca tocar no paciente. A essa altura, ele j\u00e1 havia verificado que, de fato, o que acontece numa an\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 nas suas m\u00e3os. Mas, a partir desse experimento inicial, Miller nota que Freud colocou seu corpo e sua presen\u00e7a para dar partida \u00e0 <em>cena inaugural de onde come\u00e7ou o teatro que seguimos<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p>Para Freud, h\u00e1 nesse <em>n\u00e3o<\/em> uma decis\u00e3o do sujeito em recha\u00e7ar e se defender da insist\u00eancia de um elemento inconcili\u00e1vel e incompat\u00edvel ao sentido que se imp\u00f5e ao eu. Tal elemento tampouco pode ser recalcado. Sua raiz adv\u00e9m de outra ordem que o recalcamento. Sua natureza indom\u00e1vel e desobediente parte da desordem pulsional e for\u00e7a Lacan, no percurso de seu ensino, a ir al\u00e9m do dep\u00f3sito recalcado e situar a sua evid\u00eancia inapreens\u00edvel como um <em>flash<\/em> do inconsciente real. Por isso, \u00e9 um fator cl\u00ednico fundamental na neurose a inibi\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e nesse <em>n\u00e3o<\/em>, trata-se de um \u00edndice do real que o analisante experimenta.<\/p>\n<p>Ao <em>n\u00e3o querer saber de nada disso<\/em> que vive \u00e0 parte, mas tamb\u00e9m em si mesmo, a debilidade, como uma escolha da estrutura, se arma em defesa ao real. O <em>n\u00e3o saber<\/em>, o <em>n\u00e3o querer saber<\/em> e, no absoluto, o <em>n\u00e3o poder saber<\/em> est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao que, opaco ao sentido, se separa, se isola e aspira sossegar na ilha do sintoma \u2013 l\u00e1 onde o analista intruso entra para perturbar. Afinal, o obst\u00e1culo \u00e0 regra fundamental da associa\u00e7\u00e3o livre, do falar livremente sobre tudo, est\u00e1 mais al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, sua for\u00e7a adv\u00e9m do real do gozo e <em>n\u00e3o h\u00e1 nenhuma esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar tal real pela representa\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Sua mat\u00e9ria, n\u00e3o sendo d\u00f3cil ao simb\u00f3lico, faz obst\u00e1culo \u00e0 efic\u00e1cia da interpreta\u00e7\u00e3o e, de Freud a Lacan, se mostra refrat\u00e1ria \u00e0 decifra\u00e7\u00e3o. Sobre isso, s\u00f3 se pode mentir.<\/p>\n<p>Se a experi\u00eancia do real \u00e9 uma evid\u00eancia na experi\u00eancia anal\u00edtica, o real, ao mesmo tempo, n\u00e3o se deixa usar como instrumento. Ele atravessa os limites do campo da linguagem: \u00e9 outra dimens\u00e3o onde o sentido nunca poder\u00e1 se agarrar e que se instala alhures desde uma fenda que n\u00e3o se pode atravessar s\u00f3 se pode imaginar. Portanto, uma an\u00e1lise pode do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio se servir, mas, com o real, ter\u00e1 que se arranjar.<\/p>\n<p>Para tanto, \u00e9 preciso ir al\u00e9m da decifra\u00e7\u00e3o, ultrapassar o muro d\u00e9bil do sentido, do <em>bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1<\/em>, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o como<em> perturba\u00e7\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> \u2013 uma interpreta\u00e7\u00e3o que visa extrair um efeito de sentido real ao revirar o tecido do corpo falante, para ler em sua pr\u00f3pria textura o mesmo que, como se imagina, se escreve como um novo texto, a cada vez. Para estar \u00e0 altura do que seu ensino nos for\u00e7a alcan\u00e7ar, Lacan concebe a no\u00e7\u00e3o de <em>parl\u00eatre<\/em>, \u201cfalasser\u201d, pela qual o inconsciente se realiza com o que o corpo tem de real.<\/p>\n<p>Essa cita\u00e7\u00e3o de Miller \u00e9 preciosa por colocar em relevo o real que inaugura o encontro de Freud com a psican\u00e1lise e que segue como o que n\u00e3o muda na an\u00e1lise de cada um. \u00a0Aguardamos que os casos encaminhados \u00e0 27\u00aa Jornada da EBP-Minas possam nos trazer como isso ainda se mostra e se arranja na experi\u00eancia anal\u00edtica hoje.<\/p>\n<p><strong><em>Fernanda Otoni Brisset<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, J.-A. Lo real en lo simb\u00f3lico. In: MILLER, 2014, <em>op. cit.<\/em>, p. 103. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 1: <em>Os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. (1953-1954) Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradu\u00e7\u00e3o de Betty Milan. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986. p. 52.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.-A. La resistencia inaugural. In: MILLER, J.-A. <em>La experiencia de lo real en la cura psicoanal\u00edtica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014. p. 58. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>La troisi\u00e8me<\/em>. Paris: Navarin \u00c9diteur, 2021. p. 17. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J.-A. La patolog\u00eda de la conducta. In: MILLER, 2014, <em>op. cit.<\/em>, p. 135.[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;447974&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMas os neur\u00f3ticos s\u00e3o, acima de tudo, inibidos em suas a\u00e7\u00f5es: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, s\u00e3o desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em a\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>FREUD, S. Totem e Tabu. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. XIII, 1974, p. 190. (Trabalho original publicado\u00a0em\u00a01913).<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;354821&#8243;]<strong>Procurar para n\u00e3o encontrar: manobras da neurose<\/strong>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;684844&#8243;]Em <em>Totem e Tabu<\/em> e mais especificamente no trecho citado acima, Freud compara o pensamento do homem dito ent\u00e3o primitivo e do neur\u00f3tico. Segundo ele, atrav\u00e9s do ato m\u00e1gico, o homem primitivo tinha uma cren\u00e7a imensa no poder de seus desejos. Pode-se dizer, entretanto, que o mesmo acontece em determinada fase da inf\u00e2ncia na qual as crian\u00e7as tamb\u00e9m fazem isso. A diferen\u00e7a \u00e9 que se na crian\u00e7a pequena \u00e9 necess\u00e1ria a alucina\u00e7\u00e3o para satisfazer o desejo, o homem primitivo adulto tem \u00e0 m\u00e3o outro m\u00e9todo: o impulso motor. Posteriormente, o homem dito primitivo teria descoberto que apenas conjurar esp\u00edritos atrav\u00e9s do ato m\u00e1gico n\u00e3o dava resultado, a menos que a conjura\u00e7\u00e3o fosse acompanhada de f\u00e9, e que o poder m\u00e1gico da prece falha se n\u00e3o houver, por tr\u00e1s dele, piedade em a\u00e7\u00e3o. (..)<\/p>\n<p>Freud afirma que a constru\u00e7\u00e3o desse sistema de magia sobre associa\u00e7\u00f5es de contiguidade mostra a import\u00e2ncia atribu\u00edda aos desejos e \u00e0 vontade, mas que mais tarde foi estendida desses fatores para todos os atos ps\u00edquicos sujeitos \u00e0 vontade. A consequ\u00eancia ser\u00e1 a supervaloriza\u00e7\u00e3o de todos os processos mentais, pois as coisas se tornam menos importantes do que as ideias das coisas, mostrando, assim, a import\u00e2ncia da preval\u00eancia do pensamento sobre as coisas. H\u00e1 ent\u00e3o, uma \u201conipot\u00eancia de pensamentos\u201d.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201conipot\u00eancia de pensamentos\u201d foi retirada por Freud de um analisante que sofria de neurose obsessiva. Segundo esse analisante, ela teria a ver com todos os estranhos e misteriosos acontecimentos que o tomavam em seus pr\u00f3prios pensamentos. Por exemplo, se pensasse em algu\u00e9m, tinha certeza de encontrar essa pessoa logo em seguida, como se fosse por m\u00e1gica. Segundo Freud, apesar desse fen\u00f4meno ser mais frequente na neurose obsessiva, acontece em todas elas, pois o determinante na forma\u00e7\u00e3o dos sintomas \u00e9 o pensamento.<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a entre o homem primitivo e o neur\u00f3tico aparece quando consideramos que o primeiro coincidia a realidade concreta com a ps\u00edquica: ele punha em pr\u00e1tica sua vontade. J\u00e1 o neur\u00f3tico se esfor\u00e7a para que o pensamento constitua um substituto completo do ato. Em uma vertente lacaniana, podemos dizer que o neur\u00f3tico emaranhado em seu gozo d\u00e1 um jeito de sumir quando est\u00e1 a ponto de obter o que quer. Ele se perde em sua paix\u00e3o da procura, ou melhor, ele procura para n\u00e3o encontrar. Assim, o neur\u00f3tico \u00e9 aquele que, ao insistir em nada encontrar, fica inibido quanto ao ato.<\/p>\n<p><strong>Luciana Silviano Brand\u00e3o<\/strong>[\/vc_column_text][vc_separator sep_color=&#8221;accent&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;684360&#8243; sep_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; el_height=&#8221;3px&#8221;][vc_empty_space empty_h=&#8221;2&#8243;][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;5&#8243; mobile_width=&#8221;7&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;518391&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;142749&#8243;] \u201cLa palabra corte -que Lacan val\u00eddar\u00e1 tambi\u00e9n [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":27,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-48","page","type-page","status-publish","hentry"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/48","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":822,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/48\/revisions\/822"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/27"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}