{"id":344,"date":"2024-05-18T01:33:32","date_gmt":"2024-05-18T01:33:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/?p=344"},"modified":"2024-05-23T22:49:46","modified_gmt":"2024-05-23T22:49:46","slug":"argumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; text_weight=&#8221;900&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;375146&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Argumento<span style=\"font-size: 18pt; font-weight: 800;\"><sup><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/sup><\/span>[\/vc_custom_heading][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;1&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;148546&#8243;][vc_custom_heading auto_text=&#8221;excerpt&#8221; text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;116332&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;162475&#8243;]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Coordenadora da 27\u00aa. Jornada da EBP-MG<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_column_text text_lead=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;127815&#8243;]<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">&#8230;<em>e as neuroses continuam existindo<\/em><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;116957&#8243;]O t\u00edtulo da 27\u00aa. Jornada da EBP-MG &#8211; &#8230; \u201ce as neuroses continuam existindo\u201d -, encontrado por S\u00e9rgio Laia a partir de algumas indica\u00e7\u00f5es de Simone Souto e de conversas com J\u00e9sus Santiago precede, com retic\u00eancias, a afirma\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia das neuroses. A escolha desse modo de intitular demarca certa continuidade com a investiga\u00e7\u00e3o da Jornada anterior, a 26\u00aa: \u201cH\u00e1 algo de novo nas psicoses, ainda\u201d.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 23, <em>O Sinthoma<\/em>, Lacan (2007\/1975-1976) aborda as psicoses a partir do n\u00f3 borromeano, e isso leva a redefinir os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio. A preval\u00eancia do simb\u00f3lico sobre os outros registros \u00e9 descartada e a continuidade entre os tr\u00eas registros \u00e9 afirmada. Para se alcan\u00e7ar esse novo modo de abord\u00e1-los, o real n\u00e3o \u00e9 considerado apenas um resto da opera\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, o imagin\u00e1rio passa a ganhar uma dignidade por dar consist\u00eancia ao corpo e o simb\u00f3lico perde o estatuto ordenador que ele tinha em outros momentos do ensino de Lacan. Tamb\u00e9m nesse mesmo Semin\u00e1rio 23, o <em>sinthoma<\/em> \u00e9 apontado como o elemento singular que poder\u00e1 enla\u00e7ar os registros para todo <em>falasser<\/em>, independentemente de qual seja a estrutura cl\u00ednica de cada um, mas sem que com isso venha abolir as diferen\u00e7as entre as estruturas. O pr\u00f3prio Nome-do-Pai, como nos elucida Miller, \u00e9 um <em>sinthoma<\/em> que ganha uma generalidade no \u00e2mbito das neuroses. Se o <em>sinthoma<\/em> \u00e9 uma amarra\u00e7\u00e3o que pode se apresentar nas duas estruturas cl\u00ednicas, o que constituiria sua diferen\u00e7a quando o discernimos em uma neurose e n\u00e3o em uma psicose? Partindo da afirma\u00e7\u00e3o de que a neurose continua existindo, a Jornada da EBP-MG, al\u00e9m de ressaltar a continuidade de sua exist\u00eancia em um mundo cada vez mais tomado pelas psicoses, pretende precisar os elementos que distinguem as neuroses das psicoses, uma vez que, na abordagem dessas duas estruturas cl\u00ednicas, temos como refer\u00eancia a concep\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ensino de Lacan sobre o <em>sinthoma<\/em>. Explicitar, extraindo as consequ\u00eancias do uso dessa concep\u00e7\u00e3o para a dire\u00e7\u00e3o de seu tratamento nos dias atuais \u00e9, portanto, um objetivo da 27\u00aa Jornada da EBP-MG.<\/p>\n<p>Muitas mudan\u00e7as ocorreram no programa civilizat\u00f3rio, desde a virada do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX, quando Freud inventou a psican\u00e1lise escutando as hist\u00e9ricas de sua \u00e9poca. A psican\u00e1lise conseguiu operar nos sintomas, sobretudo porque localizou seus dois componentes: o que n\u00e3o muda (a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional) e o que muda (seu envelope formal que sofre influ\u00eancias do tempo), tal como distingue Miller (2005). Conforme podemos constatar, no s\u00e9culo XXI, \u00e9 not\u00e1vel a modifica\u00e7\u00e3o na forma dos sintomas neur\u00f3ticos, e isso convoca-nos a certas mudan\u00e7as nos modos como a psican\u00e1lise opera com as neuroses. Essas mudan\u00e7as tamb\u00e9m determinam as possibilidades de a psican\u00e1lise continuar existindo. \u00c9 o que pretendemos demonstrar na 27\u00aa Jornada da EBP-MG.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neurose e psicose: \u00a0estrutura e n\u00f3 borromeano <\/strong><\/p>\n<p>O conceito de estrutura foi dos mais importantes legados de Lacan \u00e0 psican\u00e1lise, desde o in\u00edcio de seu ensino. Precisar a diferen\u00e7a, e mesmo a oposi\u00e7\u00e3o, entre a neurose e a psicose foi uma resposta de Lacan \u00e0 inquieta\u00e7\u00e3o de Freud quanto \u00e0 presen\u00e7a do inconsciente recalcado para os neur\u00f3ticos e sua aus\u00eancia nas psicoses.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica psicanal\u00edtica sempre se valeu de um tempo preliminar como crucial para que, por exemplo, o diagn\u00f3stico diferencial entre neurose e psicose se realizasse, considerando os sinais que poderiam estabelecer a diferen\u00e7a de funcionamento ps\u00edquico em cada uma. Concluir por uma delas &#8211; ou neurose ou psicose &#8211; determinava, em um momento mais inicial da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, a indica\u00e7\u00e3o ou a contraindica\u00e7\u00e3o do \u00a0tratamento anal\u00edtico ou, em outros momentos, uma condu\u00e7\u00e3o distinta do tratamento no tocante ao manejo da transfer\u00eancia e \u00e0 possibilidade de entrada em an\u00e1lise. Nesse contexto, a psicose, muitas vezes, foi tomada como uma estrutura deficit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 neurose. Por sua vez, Miller (1998) nomeia de descontinu\u00edsta a cl\u00ednica estrutural, baseada na oposi\u00e7\u00e3o entre neurose e psicose, mesmo que n\u00e3o mais pautada, necessariamente, pela concep\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria.\u00a0 A neurose, considerando o inconsciente recalcado e suas forma\u00e7\u00f5es, alcan\u00e7ou o estatuto de servir de modelo ao que se opera em termos anal\u00edticos.<\/p>\n<p>O ensino de Lacan, em seu retorno a Freud, ainda se valia de um mundo onde a inst\u00e2ncia simb\u00f3lica tinha uma fun\u00e7\u00e3o ordenadora. O simb\u00f3lico delimitava algo concernente ao real e o recurso a ele permitia realizar cortes com rela\u00e7\u00e3o aos fen\u00f4menos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, o registro simb\u00f3lico como ordenador do mundo \u00e9 abalado, o que implica tomar em outros termos a cl\u00ednica psicanal\u00edtica, assim como o trabalho epist\u00eamico da psican\u00e1lise. No que ficou conhecido como o \u00faltimo ensino de Lacan, real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio s\u00e3o tomados como registros ainda diferentes, mas, de forma at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita, cont\u00edguos e n\u00e3o hier\u00e1rquicos entre si. O pr\u00f3prio ordenamento conferido pelo Nome-do-Pai em seu estatuto simb\u00f3lico foi se modificando ao longo do ensino de Lacan, conforme elucida Miller (1992) no <em>Coment\u00e1rio sobre o semin\u00e1rio inexistente<\/em>. Lacan primeiro o pluralizava e, posteriormente, o toma como um sintoma. Nesse percurso, encontramos o deslocamento da cl\u00ednica estrutural para a cl\u00ednica dos n\u00f3s sem que, no entanto, uma se desfa\u00e7a da outra. Desse modo, Lacan me parece tamb\u00e9m colocar a cl\u00ednica das neuroses e a cl\u00ednica das psicoses em rela\u00e7\u00e3o de contiguidade. Neurose e psicose, em suas diferen\u00e7as, n\u00e3o se encontram mais t\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o como anteriormente. Ambas recorrem ao <em>sinthoma<\/em> como modo de amarrar os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio, segundo nos ensina o Semin\u00e1rio 23. Desse modo, podemos considerar a cl\u00ednica que se constr\u00f3i com o \u00faltimo ensino de Lacan, localizado por Miller do Semin\u00e1rio 20 (<em>Mais, ainda<\/em>) ao Semin\u00e1rio 23 (O <em>Sinthoma<\/em>), \u00e9 continu\u00edsta porque toma o<em> sinthoma <\/em>como o elemento que amarra os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio nas psicoses e nas neuroses.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>A inibi\u00e7\u00e3o para imaginar o real na neurose<\/strong><\/p>\n<p>Em seus dois \u00faltimos Semin\u00e1rios, o Semin\u00e1rio 24 (\u201c<em>L\u00b4insu qui sait<\/em> (&#8230;)\u201d) e o Semin\u00e1rio 25, (\u201cMomento de concluir\u201d) Lacan muda, novamente, a perspectiva, tal como nos elucida Miller (2014). Por meio da express\u00e3o <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>, ele se dedica a ir mais al\u00e9m do inconsciente freudiano que, em alem\u00e3o, se escreve como <em>Unbewust<\/em>, uma palavra que, em sua resson\u00e2ncia francesa, se faz escutar como <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>.<\/p>\n<p>Miller (2014) considera o ensino que se extrai desses dois Semin\u00e1rios como o ultim\u00edssimo ensino de Lacan. O<em> sinthoma<\/em> permanece como o modo de amarra\u00e7\u00e3o entre os registros, mas, de forma distinta nas neuroses e nas psicoses. O recurso aos n\u00f3s permitiu a Lacan mostrar, a partir de Joyce, o <em>sinthoma<\/em> e sua fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o ou de grampo. Nas psicoses, a homogeneidade entre os registros se apresenta mais facilmente, e isso favoreceu Lacan a destacar, mais diretamente, o elemento &#8211; o<em> sinthoma<\/em> &#8211; que possibilita a amarra\u00e7\u00e3o. No caso de Joyce, Lacan afirma que a cria\u00e7\u00e3o de um Ego lhe permitiu dar consist\u00eancia ao corpo diferente daquele que a aliena\u00e7\u00e3o faz os neur\u00f3ticos tomaram como \u201ccorpo pr\u00f3prio\u201d.<\/p>\n<p>Nas neuroses, como nos mostra J\u00e9sus Santiago (2024) o corpo j\u00e1 se encontra constitu\u00eddo pela imagem que, por sua vez, \u00e9 dependente da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Miller (2014) ressalta que a tend\u00eancia do simb\u00f3lico \u00e9 prosseguir no imagin\u00e1rio, como acontece no sonho e no fantasma. Por\u00e9m, essa tend\u00eancia, verificada na neurose, torna-se problem\u00e1tica quando o simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 considerado uma ordem que prevalece sobre os outros registros.\u00a0 Dessa forma, quando o simb\u00f3lico se torna inadequado para abordar o real, tal como Lacan destaca em seu ultim\u00edssimo ensino, resta-nos imaginar o real e n\u00e3o mais propriamente simbolizar o real. Todavia, Lacan tamb\u00e9m ressalta que h\u00e1 uma dificuldade do neur\u00f3tico em recorrer ao imagin\u00e1rio para fazer uma ideia do real, pois, na neurose, entre o imagin\u00e1rio e o real h\u00e1 uma hi\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lacan, na li\u00e7\u00e3o \u201cO inconsciente freudiano e o nosso\u201d, do Semin\u00e1rio 11: <em>Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>, aborda a hi\u00e2ncia como o cerne da causalidade do inconsciente. De acordo com ele, a lei do significante se introduz onde a hi\u00e2ncia se apresenta. No ultim\u00edssimo ensino de Lacan, segundo Miller (2014), a hi\u00e2ncia \u00e9 de outra natureza. Em vez de mobilizar a cadeia significante, ela implica a inibi\u00e7\u00e3o, a inibi\u00e7\u00e3o para imaginar o real. Logo, se no Semin\u00e1rio 11, a hi\u00e2ncia produz trope\u00e7o (e esse termo, mesmo aplicado \u00e0 cadeia significante n\u00e3o deixa de evocar uma a\u00e7\u00e3o motora e, mais ainda, um ato), no Semin\u00e1rio 25, a hi\u00e2ncia nos faz confrontar com a inibi\u00e7\u00e3o que, por sua vez, implica uma parada, uma deten\u00e7\u00e3o do movimento, um comprometimento do ato. Portanto, mesmo que com caracter\u00edstica diferentes, a hi\u00e2ncia est\u00e1 na base do inconsciente para Lacan.<\/p>\n<p>H\u00e1 que ressaltar que Lacan se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre imagin\u00e1rio e real de um modo diferente em outro momento de sua obra.\u00a0 Na primeira li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 23, a prop\u00f3sito de Joyce, ele fala da homogeneidade do imagin\u00e1rio com o real. Na \u00faltima li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 25, conforme podemos ler em <em>El ultim\u00edssimo Lacan<\/em>, destaca-se a hi\u00e2ncia entre eles. A hi\u00e2ncia dificulta o neur\u00f3tico imaginar o real, diante dela h\u00e1 inibi\u00e7\u00e3o para imaginar e isso faz o neur\u00f3tico girar em c\u00edrculos. Nesse giro sem fim, o real escapa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O <em>sinthoma<\/em> do <em>falasser <\/em>e \u00a0<em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Miller (2014), em seu Curso, assinala a presen\u00e7a de um retorno realizado por Lacan em seus dois \u00faltimos semin\u00e1rios, embora de forma distinta daquele que ocorreu no in\u00edcio do seu ensino. No tempo conhecido como retorno a Freud, Lacan recorreu \u00e0s primeiras obras freudianas sobre o inconsciente: <em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, <em>Psicopatologia da vida cotidiana<\/em> e <em>Os chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em>. Por meio delas, ele p\u00f4de propor a base simb\u00f3lica do inconsciente e a fun\u00e7\u00e3o do significante. Miller destaca que no Semin\u00e1rio 5, <em>As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>, e no Semin\u00e1rio 11, <em>Os quatro conceitos fundamentais da Psican\u00e1lise<\/em>, os atos falhos, os chistes, os sonhos, ou seja, as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, eram definidos como trope\u00e7os da ordem simb\u00f3lica. Em seus dois \u00faltimos Semin\u00e1rios, o 24 e o 25, segundo Miller (2014), Lacan busca isolar a unidade constitutiva do inconsciente apartada da elucubra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Trata-se, assim, n\u00e3o do inconsciente estruturado como uma linguagem, como ele prop\u00f4s em seu retorno a Freud, mas do inconsciente <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>. No lugar da unidade significante, \u00a0<em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>.<\/p>\n<p>Em seu texto, \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, Miller observa haver, j\u00e1 antes do \u00faltimo ensino de Lacan, um movimento de ir mais al\u00e9m do inconsciente freudiano. Ele nos remete ao escrito \u201cTelevis\u00e3o\u201d, quando interpela Lacan sobre a esquisitice desse termo. Para Miller, essa palavra \u2013 inconsciente \u2013 n\u00e3o acompanhava o que Lacan havia desenvolvido em sua doutrina. Naquela ocasi\u00e3o, Lacan recusou a cr\u00edtica de Miller, respondendo-lhe: \u201c<em>Freud n\u00e3o encontrou uma melhor e n\u00e3o h\u00e1 porque voltar a isso<\/em>\u201d. De acordo com Miller, Lacan admitiu que o inconsciente n\u00e3o era uma palavra adequada, mas resistiu em mud\u00e1-la. Todavia, dois anos depois, no escrito \u201cJoyce, o sintoma\u201d, Lacan voltou atr\u00e1s e prop\u00f4s o neologismo <em>falasser<\/em> no lugar do inconsciente. Miller assinala que essa substitui\u00e7\u00e3o indica a mudan\u00e7a da psican\u00e1lise no s\u00e9culo XXI, ao levar em conta outro simb\u00f3lico, n\u00e3o mais ordenador, e outro real.<\/p>\n<p>O <em>falasser<\/em> \u00e9 o termo proposto por Lacan para substituir o termo inconsciente, ressalta Miller (2016). Trata-se de um neologismo contempor\u00e2neo ao <em>sinthoma<\/em> e ele marca as mudan\u00e7as presentes no \u00faltimo ensino para abordar o inconsciente. No lugar do sintoma como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, encontramos o <em>sinthoma<\/em> do <em>falasser.<\/em> O inconsciente estruturado como uma linguagem concebe o sintoma como uma met\u00e1fora que produz sentido na remiss\u00e3o de um significante a outro. O <em>sinthoma<\/em> do <em>falasser <\/em>\u00e9 um acontecimento de corpo, uma emerg\u00eancia de gozo, n\u00e3o de sentido.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 abordado, no Semin\u00e1rio 23, <em>O Sinthoma<\/em>, encontramos a equival\u00eancia do imagin\u00e1rio ao corpo. Miller (2014) considera o ultim\u00edssimo ensino uma continuidade do anterior, mas com uma nova topologia, que ele chama de visual. Ele ressalta que Lacan sempre se valeu de visuais na mostra\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise: desenhos no quadro, esquemas, matemas, grafos e topologia. No Semin\u00e1rio 23, o n\u00f3 borromeano prevaleceu. Por\u00e9m, nos seus dois \u00faltimos Semin\u00e1rios, ele modificou o visual, ele n\u00e3o recorreu ao n\u00f3, mas ao toro, figura que se assemelha \u00e0 c\u00e2mera de ar. Nesse recurso ao toro n\u00e3o ter\u00edamos, a meu ver, um abandono do n\u00f3 borromeano, mas a abertura a outro modo de abordagem do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio. Miller afirma que essa escolha se deve ao acesso privilegiado ao real propiciado pelo toro. Lacan generalizou o toro a tal ponto que Miller (2014) considerou nomear uma das li\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio 24 \u201cO universo t\u00f3rico\u201d e, desse Semin\u00e1rio, Lacan extraiu a tese da estrutura t\u00f3rica do homem.<\/p>\n<p>Miller recorre ao poema \u201cOs homens ocos\u201d de T.S. Eliot para se referir ao homem t\u00f3rico \u2013 um homem oco. Mas ele ressalta que Lacan n\u00e3o privilegiou o buraco no centro do toro, como em outros momentos de seu ensino, mas em seu interior. Em torno desse buraco real, presente no interior do toro, Lacan nos convida a localizar o que chamar\u00edamos do <em>looping<\/em> neur\u00f3tico, seu andar em c\u00edrculos, seu deixar-se emaranhar-se dando voltas e mais voltas, muitas vezes como um modo de se defender do real, de n\u00e3o ultrapassar a hi\u00e2ncia entre o real e o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Miller (2014) tamb\u00e9m enfatiza que no Semin\u00e1rio 25, <em>Momento de concluir,<\/em> diante do sil\u00eancio do real e da desconfian\u00e7a no simb\u00f3lico que sempre mente, fica o recurso ao imagin\u00e1rio, ao corpo. O corpo \u00e9 tomado como o tecido no qual a an\u00e1lise se desenvolve. Lacan chega a afirmar que a an\u00e1lise \u00e9 anulada se orientada pelo simb\u00f3lico e estar\u00edamos fazendo abstra\u00e7\u00e3o, caso tom\u00e1ssemos essa dire\u00e7\u00e3o. A orienta\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise se d\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o ao real e, como ressalta-nos o ultim\u00edssimo Lacan, em uma an\u00e1lise, trata-se de ultrapassar a hi\u00e2ncia entre imagin\u00e1rio e real. Perante o sil\u00eancio do real, temos o recurso de imagin\u00e1-lo, apontar o dedo para a unidade elementar que n\u00e3o \u00e9 mais o significante, mas <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>.<\/p>\n<p>Lacan prop\u00f4s <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>, em seu ultim\u00edssimo ensino, em decorr\u00eancia do <em>sinthoma<\/em>. Ele concebeu a neurose como associada ao \u00e2mbito social, segundo observa Miller (2014), pois se trata de uma estrutura formada a partir do inconsciente como discurso do Outro. Com o <em>sinthoma<\/em>, Lacan buscou localizar a singularidade, o Um, e ele o prop\u00f4s como um recurso para cada um amarrar os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio independentemente da estrutura, neur\u00f3tica ou psic\u00f3tica.\u00a0 Nos tempos de decl\u00ednio do Outro, quando se apresenta a dificuldade de o inconsciente se manter como um discurso no qual se cr\u00ea, Lacan inventa um significante novo, <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>. Esse significante \u00e9, mais propriamente dizendo, uma imagem \u00e0 qual o neur\u00f3tico recorre quando o simb\u00f3lico \u00e9 insuficiente para abordar o real. \u00c9 preciso considerar que, mesmo desconfiando do inconsciente freudiano, Lacan inventa um termo que ressoa como ele, e isso \u00e9 decisivo. Com <em>L\u00b4une b\u00e9vue<\/em>, <em>Unbewusst<\/em>, de um modo diferente do freudiano, o inconsciente continua existindo, corroborando, de forma in\u00e9dita, a continuidade da exist\u00eancia\u00a0das\u00a0neuroses<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da Psican\u00e1lise. Vers\u00e3o brasileira de M.D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. 2\u00aa. ed. (Trabalho original proferido em 1964).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985, 2\u00aa. ed. (Trabalho original proferido em 1972-1973).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, Livro 23: O sinthoma. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trabalho original proferido em 1975\/1976).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire<\/em>, Livre 24: L\u2019insu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre. Li\u00e7\u00f5es publicadas na revista: <em>Ornicar? <\/em>Paris, n. 12-13 (1977), n. 17-18 (1979). (Trabalho original proferido em 1976-1977).<\/p>\n<p>MILLER, J-A. <em>Coment\u00e1rio del seminario inexistente<\/em>. Buenos Aires: Manantial, 1992.<\/p>\n<p>MILLER, J-A. A Conversa\u00e7\u00e3o. In: <em>Os casos raros, inclassific\u00e1veis da Cl\u00ednica Psicanal\u00edtica. A Conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon<\/em>. S\u00e3o Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998. p. 103.<\/p>\n<p>MILLER, J-A. <em>El Otro que no existe y sus comit\u00e9s de \u00e9tica<\/em>. Seminario en colaboraci\u00f3n com \u00c9ric Laurent. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2005.<\/p>\n<p>MILLER, J-A. <em>Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller<\/em>: El <em>ultim\u00edssimo<\/em> Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s. 2014.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet: O Corpo Falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2016, p.19-32.<\/p>\n<p>SANTIAGO, J. <em>O imagin\u00e1rio na cl\u00ednica do sinthoma<\/em>. Trabalho apresentado no Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o lacaniana da EBP-MG em 21\/03\/24 e dispon\u00edvel no site desta 27\u00aa Jornada da EBP-MG em:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Al\u00e9m de elabora\u00e7\u00f5es pessoais, a reda\u00e7\u00e3o deste Argumento foi realizada a partir de discuss\u00f5es peri\u00f3dicas com Bernardo Micherif, tamb\u00e9m coordenador da 27\u00aa Jornada da EBP-MG, e contou com a revis\u00e3o de S\u00e9rgio Laia, diretor da EBP-MG.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_button button_color=&#8221;accent&#8221; radius=&#8221;btn-circle&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; display=&#8221;inline&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2024%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F05%2FArgumento-27a-Jornada-EBP-MG.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;342177&#8243;]ARGUMENTO.pdf[\/vc_button][vc_button button_color=&#8221;accent&#8221; radius=&#8221;btn-circle&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; display=&#8221;inline&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2024%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F05%2FEixos-27a-Jornada-EBP-MG-2024.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;384495&#8243;]EIXOS.pdf[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Maria Jos\u00e9 Gontijo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-344","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-argumento"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=344"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/344\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":451,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/344\/revisions\/451"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media\/207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}