{"id":557,"date":"2024-06-28T20:07:10","date_gmt":"2024-06-28T20:07:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/?p=557"},"modified":"2024-07-08T17:50:46","modified_gmt":"2024-07-08T17:50:46","slug":"o-que-esta-em-jogo-hoje-na-repeticao-neurotica-do-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/o-que-esta-em-jogo-hoje-na-repeticao-neurotica-do-gozo\/","title":{"rendered":"O que est\u00e1 em jogo, hoje, na repeti\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica do gozo?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;140723&#8243;][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;151377&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;952401&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Semin\u00e1rio preparat\u00f3rio<br \/>\n13.06.2024<br \/>\nEIXO 1:[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;0&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;774049&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<\/p>\n<h3><em><strong>Onde est\u00e3o os neur\u00f3ticos e de onde os neur\u00f3ticos n\u00e3o saem ?<\/strong><\/em><\/h3>\n<p>[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;0&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_custom_heading auto_text=&#8221;yes&#8221; text_color=&#8221;accent&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; text_weight=&#8221;900&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;615983&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h3&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;142897&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Coment\u00e1rio a partir do texto de Ana Lydia Santiago sobre o Eixo 1 da 27\u00aa Jornada da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP-MG)[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading auto_text=&#8221;excerpt&#8221; text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;116332&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;698038&#8243;]Gostaria inicialmente de agradecer pelo convite que me foi feito pelos Coordenadores da 27\u00aa Jornada da EBP-MG, Maria Jos\u00e9 Gontijo Salum e Bernardo Micherif, para estar aqui hoje, juntamente com Ana Lydia Santiago, a fim de tentarmos lan\u00e7ar mais luzes sobre o tema da Jornada.<\/p>\n<p>Ao final do texto de Jacques Alain Miller \u201cEfeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a>, que j\u00e1 se tornou um pequeno cl\u00e1ssico para n\u00f3s, na se\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0s perguntas ao p\u00fablico, Miller falar\u00e1 do Nome-do-Pai como um sol: \u201cNa neurose o Nome-do-Pai est\u00e1 em seu lugar. O Nome-do-Pai tem seu lugar ao sol e o sol \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Ainda que afirmando esse aspecto luminoso do Nome-do-Pai, o que, parece-me, podemos tomar como uma bela met\u00e1fora n\u00e3o s\u00f3 do Freud, mas tamb\u00e9m do Lacan tocado e situando a psican\u00e1lise no \u201cdebate das luzes\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, ser\u00e1 o pr\u00f3prio Miller, em tal texto, que nos indicar\u00e1, parece-me, perspectivas mais sombrias. Porque a pergunta que acredito podermos depreender dali, mesmo que Miller n\u00e3o a tenha formulado explicitamente \u00e9: ser\u00e1 que a luminosidade caracter\u00edstica da forte incid\u00eancia do simb\u00f3lico sobre o imagin\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o estava, naquele momento, em quest\u00e3o? Afinal, o diagn\u00f3stico estrutural neurose-psicose, com a nitidez poss\u00edvel numa cl\u00ednica estrutural iluminada pela demarca\u00e7\u00e3o propiciada pelo Nome-do-Pai em posi\u00e7\u00e3o solar se mostrava, naquele momento, mais dif\u00edcil de ser feito, levando Miller a formular a no\u00e7\u00e3o de \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d. Ou seja, as elabora\u00e7\u00f5es desenvolvidas ent\u00e3o por Miller sobre a psicose ordin\u00e1ria j\u00e1 n\u00e3o nos colocariam uma quest\u00e3o sobre as neuroses e sua demarca\u00e7\u00e3o n\u00edtida a partir da localiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lico-solar do Nome-do-Pai?<\/p>\n<p>Parece que a partir da\u00ed podemos nos aproximar de nosso tema: na li\u00e7\u00e3o XIV de <em>O ultim\u00edssimo Lacan<\/em>, Miller recorrer\u00e1 a outra met\u00e1fora, mas agora bem mais t\u00eanue, na medida em que sua pr\u00f3pria for\u00e7a de substitui\u00e7\u00e3o e recalcamento estar\u00e1 amortecida, e que ser\u00e1 a da obscuridade. No ultim\u00edssimo Lacan, a partir do <strong>S<\/strong>emin\u00e1rio 24, <em>L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue&#8230;<\/em>, segundo Miller, \u201ctoda a psican\u00e1lise ocorre na obscuridade [&#8230;]\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Pois se tratar\u00e1 de avan\u00e7ar ent\u00e3o entre saberes, mas saberes que n\u00e3o falam, saberes mudos, uma vez que s\u00e3o saberes no real. Se, no simb\u00f3lico, tais saberes ser\u00e3o sempre mentirosos, eles, no real, ser\u00e3o mudos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m toda a topologia dos n\u00f3s convocada um pouco antes por Lacan tentar\u00e1 se movimentar na obscuridade. Da\u00ed a pergunta de Lacan, reproduzida por Miller: \u201ccomo reconhecer um n\u00f3 borromeano na obscuridade?\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Pergunta, parece-me, que poder\u00edamos refazer, seguindo esse cotejamento com o tema de hoje: como fazer, na obscuridade, um diagn\u00f3stico, seja ele de psicose seja de neurose?<\/p>\n<p>Essa dificuldade com a quest\u00e3o diagn\u00f3stica que aparece aqui ligada \u00e0quela enfrentada por Lacan, a partir de seu \u00faltimo ensino, de como abordar o real sem ser pela via mentirosa do simb\u00f3lico coloca novamente o imagin\u00e1rio em cena.\u00a0 Ora, se o imagin\u00e1rio do est\u00e1gio do espelho, que Miller chamar\u00e1 de \u201cimagin\u00e1rio florido\u201d (quer dizer, marcado por excessos e sinuosidades que, menos que esclarecerem, confundir\u00e3o) exige recurso ao simb\u00f3lico para avan\u00e7ar, \u00e9 com o recurso aos n\u00f3s que um imagin\u00e1rio \u201cesvaziado\u201d aparece. Esvaziado, j\u00e1 que na perspectiva da mostra\u00e7\u00e3o, pr\u00f3pria a tal recurso, evidencia-se o quanto um car\u00e1ter metaf\u00f3rico n\u00e3o estar\u00e1 mais num primeiro plano. Ser\u00e1 da\u00ed que certo tropismo de Lacan em dire\u00e7\u00e3o ao imagin\u00e1rio dever\u00e1 ser entendido. N\u00e3o evidentemente o imagin\u00e1rio florido do est\u00e1gio do espelho, mas esse imagin\u00e1rio magro e esvaziado que ser\u00e1 o pr\u00f3prio corpo tomado, aqui, como a figura topol\u00f3gica do toro. O corpo humano concebido como um toro, com um vazio central e o vazio em torno do qual esse vazio central se destaca, parece ter sido o grande recurso lacaniano nessa reta final de seu ensino.<\/p>\n<p>Aqui, o visual e o imagin\u00e1rio da figura topol\u00f3gica, desenhada por Lacan, indicar\u00e3o esse tropismo ao imagin\u00e1rio que convocar\u00e1 o real. O recurso de aproximar a psican\u00e1lise da magia, evocado no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, segundo Miller<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, parece-me poder ser esclarecido justamente a partir da hi\u00e2ncia intranspon\u00edvel entre a Coisa, esse nome do real lacaniano, e o saber nele inscrito, n\u00e3o acess\u00edvel ao simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Essa impossibilidade de fazer a Coisa falar, se levarmos em conta tal refer\u00eancia,em sua conjun\u00e7\u00e3o com o que chamaremos tamb\u00e9m de sinthoma (pois este apontar\u00e1 justamente para algo de um saber inscrito no real), indicar\u00e1, segundo Miller, a import\u00e2ncia que o \u00faltimo escrito de Lacan nos <em>Escritos<\/em> adquirir\u00e1, a saber, \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d. Se o sujeito da psican\u00e1lise \u00e9 o sujeito da ci\u00eancia (sem implicar que a psican\u00e1lise deva ser tomada como tal, para apenas aludirmos a um debate presente atualmente entre n\u00f3s), o falasser, por ser uma categoria que inclui o corpo, forma parte da natureza, quer dizer, da Coisa. Ent\u00e3o, o paradigma da magia faria falar a natureza que n\u00e3o fala, exigindo a estafa do xam\u00e3, seu suar a camisa por ser, ele tamb\u00e9m, tanto natureza quanto cultura. A chamada imaginariza\u00e7\u00e3o do real que tomar\u00e1 o corpo, mas o corpo do falasser, ganhar\u00e1 daqui elementos fundamentais.<\/p>\n<p>Feita essa introdu\u00e7\u00e3o, creio podermos dizer que, seja na histeria seja na neurose obsessiva, a partir do \u00faltimo e ultim\u00edssimo ensino de Lacan, e em fina sintonia com nosso tempo, visto n\u00e3o se tratar de quest\u00f5es diletantes, somos compelidos a nos movimentar nas sombras, como o pr\u00f3prio t\u00edtulo dessa mesa parece aludir. Se o sol da hist\u00e9rica era seu amor ao pai, quer dizer, o complexo de \u00c9dipo, o falo, a trama das identifica\u00e7\u00f5es e, finalmente o simb\u00f3lico, hoje precisamos nos orientar pelo que do gozo e do acontecimento de corpo estar\u00e1 envolvido ali. E o inconsciente, n\u00e3o mais entendido como discurso do Outro, mas tomado no <em>esp<\/em> de um <em>laps<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a><\/em> ou, se prestarmos aten\u00e7\u00e3o, no espa\u00e7o de um lapso, como aprendemos a designar o inconsciente real. Na neurose obsessiva, parece que o decl\u00ednio do pai n\u00e3o torna tal neurose propriamente inexistente: a captura pelo olhar, num mundo onde as imagens proliferam com uma autonomia inaudita, um superego de voca\u00e7\u00e3o interditora e repreensiva (como podemos perceber no caso do Homem dos Ratos, por exemplo) surgir\u00e1 em sua pura forma de imperativo de gozo, na captura do falasser pela imagem, seja pela pornografia seja por jogos eletr\u00f4nicos, como observa Bernardo Micherif na apresenta\u00e7\u00e3o do Eixo I da 27\u00aa Jornada da EBP-MG.<\/p>\n<p>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es, retomo o texto de Ana Lydia Santiago, que nos apresenta, de forma bastante interessante, n\u00e3o apenas onde as neuroses estariam hoje, mas tamb\u00e9m onde elas j\u00e1 estiveram atrav\u00e9s dessa rela\u00e7\u00e3o da \u201cfalta da raz\u00e3o de ser\u201d com a vontade de justifica\u00e7\u00e3o. Proporia, visando aqui abrir o debate, destacar algumas das quest\u00f5es discutidas e trabalhadas no cartel preparat\u00f3rio a esse encontro.<\/p>\n<p>Se partirmos da psicose ordin\u00e1ria e do sujeito que, nela, est\u00e1 fora do discurso, como pensarmos o neur\u00f3tico no discurso hoje a partir do que Miller chamou de evapora\u00e7\u00e3o do pai? Vale dizer, se o discurso n\u00e3o se sustenta propriamente na met\u00e1fora, mas num deslizar meton\u00edmico que \u00e0s vezes n\u00e3o parece encontrar, no pr\u00f3prio discurso, pontos de ancoragem, qual o estatuto do fantasma hoje? Ou, ainda, se o que vemos prevalecer \u00e9 um \u201cato de palavra performativo\u201d na afirma\u00e7\u00e3o t\u00e3o em voga hoje do <em>sou o que digo que sou, <\/em>afirma\u00e7\u00e3o essa que descarta a divis\u00e3o do sujeito pelo objeto-causa, como a presen\u00e7a do analista pode vir a encarnar um ponto de basta a esse puro deslizamento meton\u00edmico?<\/p>\n<p>Uma segunda quest\u00e3o diria respeito aos acessos de desrealiza\u00e7\u00e3o das hist\u00e9ricas, mencionados por Ana Lydia. Tais acessos, que levariam as hist\u00e9ricas \u00e0 montagem de um teatro que convocasse o Outro dada a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se sentirem suficientemente verdadeiras, n\u00e3o poderiam ser considerados hoje \u00e0 luz (ou \u00e0 sombra) da pe\u00e7a teatral de H\u00e9l\u00e8ne Cixous, intitulada <em>Retrato de Dora<\/em> e que merecer\u00e1 o coment\u00e1rio de Lacan, ap\u00f3s assistir a pe\u00e7a, de que \u201c\u00e9 realizada de um modo real\u201d?<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Lacan prossegue esse coment\u00e1rio dizendo-nos que, nessa pe\u00e7a, \u201ctemos a histeria [&#8230;] reduzida a um estado que eu poderia chamar de material\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Ser\u00e1 Laurent quem, comentando tal passagem de Lacan no Semin\u00e1rio 23, esclarecer\u00e1: \u201cO sintoma hist\u00e9rico \u00e9 por excel\u00eancia um sintoma que fala, um sintoma endere\u00e7ado. Ele \u00e9 portador de um sentido. O [aspecto] material, daquela histeria referido por Lacan, no fundo, \u00e9 o sintoma como tal separado do sentido\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Esse \u201cestado material da histeria\u201d, essa estranha express\u00e3o que creio podermos aproximar da refer\u00eancia de Lacan na Confer\u00eancia de Bruxelas, de fevereiro de 1977, quando ele falar\u00e1 da histeria freudiana como uma metaf\u00edsica<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, nos permitiria perguntar se a dos dias atuais seria uma histeria sem metaf\u00edsica, quer dizer, sem a transcend\u00eancia que o Outro poderia ter-lhe proporcionado. Ser\u00e1 ent\u00e3o, e talvez, que possamos pensar numa histeria onde o sintoma n\u00e3o ser\u00e1 \u201csintoma em segundo grau\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>, ou sintoma do sintoma de um outro, tal como pode-se constatar em Dora que, com sua tosse fazia sintoma do sintoma da impot\u00eancia de seu pai que mantinha, com a Sra. K, apenas uma pr\u00e1tica de sexo oral. \u00c9 essa transcendente trama de sentido a ser decifrada por via simb\u00f3lica que n\u00e3o se percebe mais na mostra\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a de H\u00e9l\u00e8ne Cixous. E, se n\u00e3o h\u00e1 metaf\u00edsica, h\u00e1 o Um sozinho. A histeria, hoje, imersa em imagens, procedimentos est\u00e9ticos, dietas intermin\u00e1veis e, tantas vezes, repulsa a rela\u00e7\u00f5es amorosas, tentando afirmar a identidade d\u2019A mulher sem falhas ou equ\u00edvocos, n\u00e3o teria no amor transferencial tamb\u00e9m a aposta na possibilidade de introduzir-se a um amor n\u00e3o-todo?<\/p>\n<p>Na neurose obsessiva, como tamb\u00e9m indica a apresenta\u00e7\u00e3o do Eixo 1 da 27\u00aa Jornada da EBP-MG, a partir do discurso da ci\u00eancia e seus desdobramentos t\u00e9cnicos, vemos os sujeitos imersos nessa verdadeira profus\u00e3o de objetos desejados e revestidos de valor f\u00e1lico. Ora, se, com a evapora\u00e7\u00e3o do pai, distinguir um operador f\u00e1lico que convoque o falo em seu valor simb\u00f3lico certamente se tornou mais dif\u00edcil, podemos dizer que, na atualidade, essa captura mais intensa do falo pela imagem o distanciou ainda mais da fun\u00e7\u00e3o de verificador da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual? Ou, ainda, como essa captura pela profus\u00e3o de objetos imag\u00e9ticos nos ajudaria a pensar a afirma\u00e7\u00e3o de Lacan de que neurose obsessiva \u00e9 a que certamente ainda existe?<\/p>\n<p>Para concluir, gostaria de retomar a quest\u00e3o do imagin\u00e1rio no \u00faltimo e no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, agora a partir do que Ana Lydia desenvolve ao final de seu texto sobre a hi\u00e2ncia entre real e imagin\u00e1rio. Se \u00e9 nessa hi\u00e2ncia que se aloja a inibi\u00e7\u00e3o que aprisiona o neur\u00f3tico, ter\u00edamos tamb\u00e9m relan\u00e7ada a \u201cfun\u00e7\u00e3o da imagem como ferramenta capaz de mostrar como se comportam as coisas na neurose em sua repeti\u00e7\u00e3o de gozo\u201d<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.\u00a0 No Semin\u00e1rio 11, ao duplicar o mito de \u00c9dipo aproximando-o do mito de Hamlet, Lacan far\u00e1 refer\u00eancia a uma <em>topologia freudiana<\/em>, onde a falha estrutural da cadeia significante remeteria \u00e0 emerg\u00eancia do real encarnado pelo pecado do pai. Nessa aproxima\u00e7\u00e3o de Hamlet com \u00c9dipo, Lacan se valer\u00e1 do c\u00e9lebre sonho com o filho morto e queimado, apresentado por Freud no \u00faltimo cap\u00edtulo de <em>A interpreta\u00e7\u00e3o de sonhos<\/em>.<\/p>\n<p>Tem-se ali um sonho de ang\u00fastia, onde o pai, ap\u00f3s permanecer por dias e noites ao lado do leito do filho moribundo, passa para um c\u00f4modo cont\u00edguo a fim de descansar um pouco. Horas depois, o pai acorda, ao sonhar com o filho, de p\u00e9, ao lado da cama em que dormia, a sussurrar-lhe: <em>\u201cPai, n\u00e3o v\u00eas que estou queimando?\u201d. <\/em>Logo em seguida, o pai v\u00ea um clar\u00e3o no quarto ao lado, j\u00e1 que uma vela, ca\u00edda sobre o leito onde o filho jazia, queimava parte de suas roupas e um de seus bra\u00e7os. De imediato, Lacan dir\u00e1 como esse sonho aponta para algo vindo de um \u201cal\u00e9m\u201d da cadeia de representa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para aquele que o sonha, pois se a interpreta\u00e7\u00e3o de Freud ser\u00e1 a de que, ao sonhar com o filho ao seu lado, desvela o desejo paterno de que a vida do filho se prolongasse, uma obscura ambiguidade do pai surge quando consideramos o inc\u00eandio do corpo do filho. Lacan descrever\u00e1 tal ambiguidade dizendo:<\/p>\n<p>\u201cDo que \u00e9 que ele (filho) queima? \u2013 do peso dos pecados do pai, que carrega o fantasma no mito de Hamlet com que Freud duplicou o mito de \u00c9dipo. O pai, o Nome-do-pai, \u00e9 aquilo que sustenta a estrutura do desejo com a lei \u2013 mas a heran\u00e7a do pai \u00e9 [&#8230;] seu pecado\u201d<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa, segundo Lacan, <em>voz imajada<\/em> \u2013 que surge tanto para Hamlet atrav\u00e9s do fantasma do pai, quanto como tocha ardente no sonho do filho morto e queimado \u2013 vem para arrancar o sonhador de seu sonho. Essa <em>vis\u00e3o atroz<\/em> designaria um mais-al\u00e9m da cadeia significante que se presentificaria, nos diz Lacan, \u201cpela <em>perda imajada<\/em> (imajeur) <em>ao ponto mais cruel, do objeto<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que lan\u00e7o aqui, a partir dessa passagem do Semin\u00e1rio 11, \u00e9 se ter\u00edamos atrav\u00e9s da imagem no sonho uma mostra\u00e7\u00e3o da matriz, para cada sujeito, do que est\u00e1 em jogo em sua repeti\u00e7\u00e3o de gozo.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, J. O efeito de retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria. In: <em>A psicose ordin\u00e1ria<\/em>. Belo Horizonte: Editora Scriptum, 2012, p. 399.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem, p. 420<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. Contra capa dos Escritos. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. <em>Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques Alain Miller: El ultim\u00edssimo Lacan<\/em>. Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2014, p. 234.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, p.230<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibidem, p.244<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. Pref\u00e1cio a edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: Outros Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2003, p. 567.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: O sinthoma<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2007, p.102 (Trabalho original proferido 1975-76).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, p. 102<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LAURENT, \u00c9. Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. In: Site VI ENAPOL: <a href=\"https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/portfolio-items\/falar-com-seu-sintoma-falar-com-seu-corpo\/\">https:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/portfolio-items\/falar-com-seu-sintoma-falar-com-seu-corpo\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. Considera\u00e7\u00f5es sobre a histeria. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 50, S\u00e3o Paulo, 2007, p. 20.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet: O Corpo Falante<\/em>, S\u00e3o Paulo, Escola Brasielria de Psican\u00e1lise, 2016, p. 26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> SANTIAGO, A.L. Da vontade de justifica\u00e7\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o de gozo. (Dispon\u00edvel no <em>site<\/em> da <em>27\u00aa Jornada da EBP-MG<\/em>).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 41. (Trabalho original proferido 1964).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0Idem, p. 63.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;30&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; align_medium=&#8221;align_center_tablet&#8221; medium_width=&#8221;2&#8243; align_mobile=&#8221;align_center_mobile&#8221; mobile_width=&#8221;6&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;654255&#8243;][vc_single_image media=&#8221;565&#8243; media_width_percent=&#8221;70&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;185692&#8243; media_link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2024%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F06%2FO-que-esta-em-jogo-hoje-na-repeticao-neurotica-do-gozo.pdf|target:_blank&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;137017&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Para baixar o arquivo, abra o PDF em nova aba.[\/vc_custom_heading][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por S\u00e9rgio de Castro (EBP\/AMP)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":206,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29,23],"tags":[],"class_list":["post-557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sergio-de-castro","category-textos"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=557"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":587,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/557\/revisions\/587"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media\/206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}