{"id":720,"date":"2024-09-26T12:01:04","date_gmt":"2024-09-26T12:01:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/?p=720"},"modified":"2024-10-01T23:06:02","modified_gmt":"2024-10-01T23:06:02","slug":"comentario-do-relatorio-jornada-ebp-mg-eixo-3-quando-tudo-e-normal-o-que-se-analisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/comentario-do-relatorio-jornada-ebp-mg-eixo-3-quando-tudo-e-normal-o-que-se-analisa\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio do relat\u00f3rio Jornada EBP-MG, eixo 3: quando tudo \u00e9 normal, o que se analisa?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;140723&#8243;][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;151377&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;159967&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Semin\u00e1rio preparat\u00f3rio<br \/>\n12.09.2024<br \/>\nEIXO 3:[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;0&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_custom_heading auto_text=&#8221;yes&#8221; text_color=&#8221;accent&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; text_weight=&#8221;900&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;615983&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading auto_text=&#8221;excerpt&#8221; text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;116332&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;125769&#8243;]O relat\u00f3rio feito em torno do terceiro eixo de discuss\u00e3o sobre o tema de nossa pr\u00f3xima jornada trata de um importante aspecto sob o qual as neuroses se apresentam em nossa contemporaneidade: a lei n\u00e3o funciona mais sob o regime do pai, da interdi\u00e7\u00e3o e, em seu lugar, se apresenta o novo normal que n\u00e3o \u00e9 mais a <em>norme-m\u00e2le<\/em>, a norma f\u00e1lica. Esse \u201cnovo normal\u201d se desdobra em normas que indicam um direito social mais inclusivo, mas que se derivam em grupos de gozos segregados e que tamb\u00e9m d\u00e3o consist\u00eancia a uma exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o cada vez maior. Essas mudan\u00e7as trazem consequ\u00eancias para nossa cl\u00ednica, pois elas implicam em novas respostas do real, a um tal ponto que levou Lacan a propor a elas o termo de <em>falasser<\/em> no lugar de sujeito, que \u00e9 um termo que se refere \u00e0 l\u00f3gica significante. A l\u00f3gica que podemos construir a partir dessas mudan\u00e7as traz uma outra maneira de intervir e de abordar a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise e encontramos, nesse relat\u00f3rio, apontamentos te\u00f3ricos e cl\u00ednicos para essa elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Miller nomeou o in\u00edcio do s\u00e9culo 21 de era p\u00f3s-paterna, dando sequ\u00eancia ao que Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> chamou de evapora\u00e7\u00e3o do pai. \u00c9 essa mudan\u00e7a no discurso, j\u00e1 que a fun\u00e7\u00e3o paterna \u00e9 uma l\u00edngua, uma possibilidade de nomear. Essa mudan\u00e7a d\u00e1 lugar \u00e0 lei de ferro do social, ao <em>ser nomeado para<\/em>, consequ\u00eancia de uma fun\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica e, al\u00e9m disso, d\u00e1 lugar ao direito generalizado ao gozo. Em sua \u00ab\u00a0Nota sobre o pai\u00a0\u00bb, de 1968, Lacan retorna ao \u00c9dipo com um tom provocador, dizendo: \u00ab\u00a0Todo mundo parece dizer que o mito de \u00c9dipo \u00e9 evidente; eu pe\u00e7o para ver.\u00a0\u00bb<a name=\"_ednref5\"><\/a><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> \u00a0Mais uma vez, ele acentua o car\u00e1ter n\u00e3o generaliz\u00e1vel do mito\u00a0 edipiano e insiste na rela\u00e7\u00e3o com o pai: \u00ab\u00a0\u00e9 not\u00e1vel ver em Freud o polimorfismo daquilo que concerne essa rela\u00e7\u00e3o com o pai\u00bb<a name=\"_ednref6\"><\/a><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Ele responde \u00e0 quest\u00e3o de um jesu\u00edta, fil\u00f3sofo e historiador das religi\u00f5es, Michel de Certeau, em rela\u00e7\u00e3o a Freud e \u00e0 quest\u00e3o do pai. Se o texto de Freud sobre a neurose demon\u00edaca de Haitzman considera as m\u00e1scaras sucessivas do pai enquanto que degradado, Michel de Certeau pergunta o que acontece quando n\u00e3o h\u00e1 mais pai a quem se devotar. Lacan n\u00e3o evoca o polimorfismo do pai, mas a rela\u00e7\u00e3o com o pai, dizendo que estamos na \u00e9poca da evapora\u00e7\u00e3o do pai. Ele prop\u00f5e a ideia de uma cicatriz deixada por essa evapora\u00e7\u00e3o e que poder\u00edamos colocar sob o t\u00edtulo geral de segrega\u00e7\u00e3o, apesar de acreditarmos que o universalismo, a comunica\u00e7\u00e3o, em nossa civiliza\u00e7\u00e3o, homogeneizariam a rela\u00e7\u00e3o entre os homens. Se o pai do patriarcado evaporou, o sujeito tem que se haver com uma rela\u00e7\u00e3o com o pai, que continua tendo sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lacan n\u00e3o profetiza o desaparecimento total e s\u00fabito do pai, mas ,sublinha sua mudan\u00e7a de estatuto, ressaltando suas consequ\u00eancias. A cicatriz da evapora\u00e7\u00e3o do pai toma a forma contempor\u00e2nea da segrega\u00e7\u00e3o, mas trouxe ainda ao longo do tempo outras consequ\u00eancias, e podemos dizer que o mito de \u00c9dipo n\u00e3o \u00e9 mais do que uma das maneiras de envelopar essa cicatriz, uma maneira de historiciz\u00e1-la.<\/p>\n<p>O fator prevalente na cl\u00ednica das neuroses, hoje, \u00e9 o empuxo ao gozo e o relat\u00f3rio aponta que as neuroses atualmente n\u00e3o se organizam em torno de um sintoma ed\u00edpico tal como Freud o concebeu, sintoma fundamentalmente hist\u00e9rico, estruturado a partir da identifica\u00e7\u00e3o e ligado ao sentido. A nova escrita do sintoma na l\u00f3gica dos sacos e das cordas \u00e9 resultado de um deslocamento para o conceito de sinthoma, que tem como palco os transtornos causados pelo gozo ao corpo, fora do campo do sentido.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> O gozo est\u00e1 no singular do sinthoma, enla\u00e7ando simb\u00f3lico, real e imagin\u00e1rio. \u00c9 o encontro contingente com esse gozo, que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio esclarece-nos que, no supereu, encontramos \u201co ponto girat\u00f3rio\u201d, o que faz o neur\u00f3tico girar em c\u00edrculos, dar voltas e mais voltas em torno desse limite do gozo e no qual ele se recusa a reconhecer o imposs\u00edvel, a n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 esse circuito infernal que nos cabe enfrentar nos tratamentos, j\u00e1 que o furo da castra\u00e7\u00e3o se encontra encoberto pela exig\u00eancia do supereu, pelo empuxo em dar mais uma volta. Estamos diante da castra\u00e7\u00e3o n\u00e3o do pai, como denunciava a hist\u00e9rica, mas diante daquela que decorre do furo da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Por isso, o relat\u00f3rio prop\u00f5e que o trabalho com a neurose na atualidade \u00e9 um trabalho de an\u00e1lise do supereu, ou seja, um trabalho com o real do gozo que sempre insiste em dar uma volta a mais. E como o gozo n\u00e3o \u00e9 interpret\u00e1vel, nem todo posto em palavras, o que nos resta \u00e9 operar com a <em>moterialit\u00e9<\/em> a materialidade da palavra, o fora de sentido, o tecido e o corpo.<\/p>\n<p>Uma interpreta\u00e7\u00e3o sempre tem um efeito de corte se considerarmos o corte como a interrup\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o ou o devir do discurso. Mas quando buscamos a incid\u00eancia da interpreta\u00e7\u00e3o sobre o real do gozo, ela \u00e9 reduzida \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o e ao corte que muda a estrutura dos objetos representados, assim como Lacan faz com os objetos topol\u00f3gicos. O real torna-se mat\u00e9ria, um tecido a ser cortado, manipulado, deformado, para que se possa extrair dele o efeito de furo, isto \u00e9, um dizer que fa\u00e7a escutar que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe. Tomamos ent\u00e3o um estatuto distinto daquele da palavra que se apresenta como significante fazendo cadeia, para extrair dele o equ\u00edvoco, o mal entendido, o fora de sentido que fez acontecimento de corpo. O drama do ser falante \u00e9 que seu corpo, do qual ele goza, lhe foi dado atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o que toca o incorporal. E isso para cada um, de maneira singular. Por isso temos muito menos que nos ocupar com as hist\u00f3rias de fam\u00edlia do que com o seu real.<\/p>\n<p>Como disse Laurent, Lacan precisou \u201cdar um passo a mais para generalizar e passar do sintoma que fala, ao sintoma que se escreve em sil\u00eancio, que n\u00e3o \u00e9 mais comunica\u00e7\u00e3o, mas escrita.\u201d Uma vez que o sintoma n\u00e3o se desvanece, h\u00e1 restos sintom\u00e1ticos que revelam \u201cuma forma l\u00f3gica fundamental do sintoma como o que se escreve sobre o corpo e n\u00e3o fala, n\u00e3o passa pela experi\u00eancia da fala, pois deixa de se interessar pelo sentido.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Trata-se do que Miller chamou, em seu curso <em>O ser e o Um<\/em>, de desentologiza\u00e7\u00e3o: \u201ca heresia lacaniana n\u00e3o consiste em deixar o campo da linguagem, mas em permanecer nele se regulando por sua parte material, ou seja, pela letra no lugar do ser\u201d.<\/p>\n<p>O recurso \u00e0 topologia \u00e9 um recurso \u00e0 palavra como escrita, aquela que permite deformar e inventar. O relat\u00f3rio trabalha a figura topol\u00f3gica do toro que Lacan designa em \u201cO aturdito\u201d como sendo a estrutura da neurose. O toro, al\u00e9m de n\u00e3o ter bordas, tem duas faces, e diante das voltas em torno da alma ou espa\u00e7o interior e do furo, mostra-nos que o verdadeiro corte da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um corte duplo e que a banda de Moebius \u00e9 o pr\u00f3prio corte. Assim, \u00e9 mesmo preciso um processo que traga efeitos de mudan\u00e7a topol\u00f3gica. A topologia nos apresenta figuras cujos cortes produzem efeitos de subvers\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> , as tamb\u00e9m traz figuras onde temos a continuidade entre duas dimens\u00f5es distintas que, mesmo n\u00e3o sendo cortadas, se transformam. \u00c9 uma l\u00f3gica presente na deforma\u00e7\u00e3o das figuras. O testemunho de passe de Raquel Cors nos traz um trabalho no qual a interven\u00e7\u00e3o do analista consistiu muito menos em interpretar do que em nomear. O sujeito chega depois da perda de v\u00e1rias pessoas queridas e diante dessa depress\u00e3o o caminho foi o de encontrar distintas maneiras de nomear sua posi\u00e7\u00e3o. Seu nascimento foi marcado por uma luxa\u00e7\u00e3o cong\u00eanita e ela recebeu das enfermeiras o vatic\u00ednio de que era uma crian\u00e7a linda, mas que iria morrer. O uso de ferros nos quadris a faz formular que era pesada para seu Outro, fixando-se numa posi\u00e7\u00e3o de isolamento, inibi\u00e7\u00e3o e com dificuldades para articular palavras e falar em p\u00fablico. Impotente para se fazer escutar e fazer-se olhar. Em certa ocasi\u00e3o a analista lhe diz: \u201cRaquel, uma sobrevivente\u201d. Em outro momento, escondendo seu pr\u00f3prio olhar sob os cabelos, a analista lhe aponta o significante \u201cdesgra\u00e7ada\u201d, que ela usava para nomear a si mesma, e lhe diz para soltar a menina, posi\u00e7\u00e3o que ela carregara a vida toda. O trabalho dessa an\u00e1lise girou em torno de uma separa\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de objeto de menina desgra\u00e7ada colada em seu Outro e a separa\u00e7\u00e3o com a analista foi um processo dif\u00edcil e fundamental. Ao comentar esse passe, Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> afirma que essa an\u00e1lise est\u00e1 inclu\u00edda no inconsciente do sujeito e que a topologia para pensar suas mudan\u00e7as n\u00e3o seria aquela da vizinhan\u00e7a e dos cortes apresentada pelo toro, mas aquela apresentada pelo cross-cap. Ela aponta que h\u00e1 nesse caso um tratamento feito muito mais atrav\u00e9s de nomea\u00e7\u00f5es do que de interpreta\u00e7\u00f5es que cortam o sentido para dar lugar ao fora de sentido do equ\u00edvoco. Isso me fez pensar que a topologia \u00e9 um recurso para pensarmos a l\u00f3gica da opera\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e dos efeitos que ela produz.<\/p>\n<p>Voltando ao toro, o relat\u00f3rio nos traz exemplos cl\u00ednicos para nos ensinar como esse recurso nos permite compreender melhor o trabalho com o mal entendido, com a materialidade da palavra e com o gozo do corpo. Agora fica claro que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre um significante e a falta no simb\u00f3lico. No que Lacan chamou de <em>lal\u00edngua<\/em>, h\u00e1 somente significantes sozinhos, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o bin\u00e1ria, cada um trazendo uma vertente de gozo mortificante e sem significa\u00e7\u00e3o, onde encontramos um simb\u00f3lico enlouquecedor em seus efeitos traum\u00e1ticos de ruptura da consist\u00eancia corporal. A primazia do Outro d\u00e1 lugar \u00e0 conting\u00eancia de <em>lal\u00edngua<\/em>, que concerne ao corpo.<\/p>\n<p>O primeiro exemplo tomado no relat\u00f3rio \u00e9 o de um caso de bulimia atendido por Rose-Paule Vincinguera. O trabalho com a materialidade da palavra veio atrav\u00e9s de um ato falho da paciente. O caminho aqui n\u00e3o foi o de decifrar o sentido dessa forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, mas o de escandir o significante que surge \u2013 <em>corperel<\/em> \u2013 em <em>corps-p\u00e8re-elle<\/em>, fazendo aparecer dentro do corpo da palavra uma opera\u00e7\u00e3o que permite desembara\u00e7ar o direito do avesso que funcionava como uma banda de Moebius entre o alimento e o sexual. Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 corte porque aponta uma brecha entre esses significantes que aparecem colados e separa o que parecia estar articulado. Dessa separa\u00e7\u00e3o, surge o sil\u00eancio, o ab-senso se ouve nesse pr\u00f3prio sil\u00eancio, tal como Lacan nos ensina em \u201cO aturdito\u201d <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. A interpreta\u00e7\u00e3o corta o sentido do sintoma, introduzindo em seu lugar uma significa\u00e7\u00e3o vazia e sem sentido, que tem como efeito separar o corpo, o pai e ela. Ao mesmo tempo que revela o que est\u00e1 por tr\u00e1s desse tecido entre verso e anverso, sua identifica\u00e7\u00e3o ao pai que ingurgita e escarra, mas mostra tamb\u00e9m seu lugar de objeto de gozo desse pai, assim como a natureza incestuosa desse la\u00e7o que ela recusa querendo-se magra e andr\u00f3gina, ao contr\u00e1rio da m\u00e3e que o pai deseja como uma mulher que \u201ctem o que deve l\u00e1 onde \u00e9 preciso\u201d.<\/p>\n<p>O segundo exemplo \u00e9 o do passe de Sonia Chiriaco. Ela relata distintas interpreta\u00e7\u00f5es de seus analistas. Uma delas se remete ao seu duplo prenome Sonia\/Dominique, \u201cvoc\u00ea \u00e9 uma mentira ambulante\u201d, proferida como um insulto, modo de apresenta\u00e7\u00e3o do real da palavra. Estava aqui presente a palavra do pai que debochava dela no lugar de lhe transmitir seu saber enigm\u00e1tico. Em seguida, ela se refere a um sonho onde o analista lhe diz que vai ensin\u00e1-la a olhar nos olhos. Na sess\u00e3o em que relata esse sonho, seu analista lhe diz que agora ele entendia por que a recebia frente a frente, e Eric Laurent comenta que analista e analisante est\u00e3o do mesmo lado. E nesse trabalho de tessitura, surge o sonho de final de an\u00e1lise com o significante <em>ormeau<\/em> que, sendo uma cria\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise, \u00e9 imediatamente dissolvido pelo equ\u00edvoco. Ele faz cair os significantes mestres. O relat\u00f3rio nos diz que entre <em>ormeaux e or-mot,<\/em> permanecemos ainda no sentido. Somente no segundo giro, no segundo corte, entre <em>or-mot e hors-mot<\/em>, um real ser\u00e1 apreendido. Quando Sonia diz que gostaria de terminar sua an\u00e1lise n\u00e3o t\u00e3o bestamente, o analista lhe diz para escrever sobre seu medo de ser besta. Aqui a escrita conectada \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es anteriores que j\u00e1 haviam operado sobre as identifica\u00e7\u00f5es e o fantasma de desaparecer para ser desejada \u00e9 o que permite ao sujeito sair definitivamente de seu esconderijo, deixando aparecer a verdadeira amarra\u00e7\u00e3o borromeana. A escrita \u00e9 o que faz aparecer o equ\u00edvoco da palavra fora de sentido e a separa\u00e7\u00e3o de seu sintoma de se esconder. Temos, ent\u00e3o, uma transmiss\u00e3o da passagem de analisante a analista, uma mudan\u00e7a topol\u00f3gica de lugar e de como ensinar o que n\u00e3o se ensina. A l\u00f3gica, como diz Lacan em seu semin\u00e1rio 14<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, \u00e9 o manejo de uma escrita, o que podemos ver se apresentar nesse relato.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 queda do patriarcado, Eric Laurent nos diz que, diante da recusa do la\u00e7o m\u00edtico mantido por Freud entre o pai e o <em>todo,<\/em> do pai como universal, Lacan nos abre a via de uma nova l\u00f3gica. Pareceu-me importante o que Sonia nos transmite sobre esse ponto. Se quando menina ela havia sentido medo e vergonha por n\u00e3o entender a palavra de uma can\u00e7\u00e3o e ao ser gozada pelo pai, ela compreende finalmente que este lhe havia transmitido o desejo de saber. Uma transmiss\u00e3o de um pai. Retornando \u00e0 an\u00e1lise depois da morte do pai, ela sonha que havia encontrado a mala de viagem de sua inf\u00e2ncia, e com ela o gosto de viver.<\/p>\n<p>O terceiro exemplo trazido no relat\u00f3rio \u00e9 o do sonho de Irma, em suas duas vertentes, a imagem da garganta e a f\u00f3rmula da trimetilamina. Imagem e escrita da f\u00f3rmula. O trabalho de constru\u00e7\u00e3o dessas distintas bordas da forma\u00e7\u00e3o do inconsciente \u00e9 o que d\u00e1 lugar a uma nova inven\u00e7\u00e3o da qual todos continuamos a nos ocupar de fazer existir: a psican\u00e1lise e seus efeitos sobre o real.[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;176195&#8243;]<strong>Notas do autor:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan J., Note sur le p\u00e8re, 1968, in: La cause du d\u00e9sir, n. 89, Paris: Navarin Ed., 2015, p.8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0 Lacan J., Note sur le p\u00e8re, 1968, in: La cause du d\u00e9sir, n. 89, Paris: Navarin Ed., 2015, p.8.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Laurent, E. O Avesso da Biopol\u00edtica. Uma escrita para o gozo. Contra Capa: Rio de janeiro. 2016. Pg 43.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Idem, pg 46<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. O aturdito (1972). In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 474.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> BROUSSE M-H, <em>Interlocuci\u00f3n de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse<\/em>, <u>Bit\u00e1cora Lacaniana<\/u>, N\u00famero Extra\u00f3rdin\u00e1rio, Que madres hoy?, NEL, Abril 2019<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN , J. idem, p.459.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire. Livre 14: La logique du fantasme (<\/em>1966-1967)<em> , <\/em>Paris: Seuil, 2023, p.23.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;30&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; align_medium=&#8221;align_center_tablet&#8221; medium_width=&#8221;2&#8243; align_mobile=&#8221;align_center_mobile&#8221; mobile_width=&#8221;6&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;654255&#8243;][vc_single_image media=&#8221;565&#8243; media_width_percent=&#8221;70&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;161590&#8243; media_link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2024%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F09%2FCristina-Drummond.pdf|target:_blank&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;137017&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Para baixar o arquivo, abra o PDF em nova aba.[\/vc_custom_heading][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Cristina Drummond (EBP\/AMP)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":207,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-720","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-textos"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=720"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":772,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/720\/revisions\/772"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media\/207"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}