{"id":729,"date":"2024-09-26T12:12:53","date_gmt":"2024-09-26T12:12:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/?p=729"},"modified":"2024-10-01T23:04:50","modified_gmt":"2024-10-01T23:04:50","slug":"quando-tudo-e-normal-o-que-se-analisa-eixo-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/quando-tudo-e-normal-o-que-se-analisa-eixo-3\/","title":{"rendered":"Quando tudo \u00e9 normal, o que se analisa? (Eixo 3)"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;140723&#8243;][vc_row_inner][vc_column_inner column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_right&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;151377&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; text_weight=&#8221;700&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;159967&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Semin\u00e1rio preparat\u00f3rio<br \/>\n12.09.2024<br \/>\nEIXO 3:[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;0&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][vc_custom_heading auto_text=&#8221;yes&#8221; text_color=&#8221;accent&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h1&#8243; text_weight=&#8221;900&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;615983&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading auto_text=&#8221;excerpt&#8221; text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;116332&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]This is a custom heading element.[\/vc_custom_heading][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-jevc&#8221; heading_semantic=&#8221;h1&#8243; text_font=&#8221;font-555555&#8243; text_size=&#8221;h5&#8243; text_weight=&#8221;500&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;313412&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Cartel: Bernardo Micheriff, Cristiana Pittella, Elisa Alvarenga, Fernando Casula, Maria Wilma Faria, Rodrigo Almeida, Simone Souto (mais-um)[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;205405&#8243;]<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO sujeito normal \u00e9 essencialmente algu\u00e9m que se coloca na posi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o levar a s\u00e9rio grande parte de seu discurso interior\u201d<\/p>\n<p>(Lacan, 1955-1956\/1985, p. 140)<\/p><\/blockquote>\n<p><em>O normal e o supereu<\/em><\/p>\n<p>Podemos verificar, em nossos dias uma forte tend\u00eancia de a norma substituir a lei ou, melhor dizendo, a norma passa a funcionar cada vez mais como se fosse lei. Com o decl\u00ednio da interdi\u00e7\u00e3o paterna e da lei ed\u00edpica, assistimos a uma crescente normatiza\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais e dos modos de vida. A norma, ao contr\u00e1rio da lei, n\u00e3o designa uma interdi\u00e7\u00e3o universal, ou seja, j\u00e1 n\u00e3o contamos como antes com a articula\u00e7\u00e3o entre a lei e o pecado, entre a lei e sua transgress\u00e3o, com uma prescri\u00e7\u00e3o un\u00edvoca que possa nos guiar quanto ao que \u00e9 proibido ou permitido. Sendo assim, a norma n\u00e3o produz um \u201cpara todos\u201d, ela visa o indiv\u00edduo, normatiza e, tamb\u00e9m, normaliza o direito individual de cada um ao gozo. Vivemos, portanto, em um tempo no qual todo gozo, ou quase todo, \u00e9 considerado normal, isto \u00e9, dentro da norma. O que antes, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei, era considerado anormal tornou-se normal. Ser anormal, hoje, \u00e9 normal.\u00a0 Cada vez mais, cada um tem direito de gozar \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>Como nos esclarece nosso saudoso C\u00e9lio Garcia (2001, p. 13), evocando Canguilhem, \u201cnorma \u00e9 a palavra latina para esquadro e <em>normali<\/em>s significa perpendicular, isto \u00e9, o instrumento usado para tra\u00e7ar \u00e2ngulos retos\u201d. No entanto, atualmente, mesmo que a norma continue \u201cdesignando uma medida que serve para apreciar o que \u00e9 conforme \u00e0 regra e o que dela se distingue, &#8230;essa j\u00e1 n\u00e3o se encontra ligada \u00e0 ideia de retid\u00e3o; a sua refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o esquadro, mas a m\u00e9dia\u201d (Garcia, 2001, p. 13). Assim, a refer\u00eancia passa a ser a opini\u00e3o comum ou mesmo o que convencionamos chamar de politicamente correto. Dessa forma, as normas, hoje em dia, se multiplicam recaindo, por exemplo, sobre a linguagem, sobre como devemos nos dirigir e falar com cada sujeito ou grupo de forma inclusiva, de tal maneira que ele n\u00e3o seja considerado ou designado, por seu gozo, como anormal. Logo, se, por um lado, a norma tornou-se o meio de produzir um direito social mais inclusivo, por outro, ela d\u00e1 consist\u00eancia a uma exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o cada vez maior.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o empuxo ao gozo tornou-se um fator prevalente na cl\u00ednica da neurose, na qual constatamos que a n\u00e3o interdi\u00e7\u00e3o do gozo acaba por se transformar em um imperativo de gozo e, assim, o direito ao gozo se converte de maneira generalizada em um dever de gozar, em uma ordem, em uma lei insensata que comanda: <em>goza!<\/em> Estamos no reino do supereu. Afinal, como nos esclarece Lacan (1972-1973\/1985, p. 11), \u201cnada for\u00e7a ningu\u00e9m a gozar, sen\u00e3o o supereu!\u201d. \u00a0Na cl\u00ednica da neurose, observamos que os pacientes se sentem culpados de n\u00e3o alcan\u00e7arem esse gozo esperado, prometido, exigido: afinal, \u201cse n\u00e3o h\u00e1 nada que me impe\u00e7a de gozar por que n\u00e3o estou feliz, por que estou sofrendo, a culpa, ent\u00e3o, \u00e9 minha?\u201d, \u201cQual \u00e9 meu erro?\u201d.\u00a0 Logo, a culpa da n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de um gozo que seria todo recai sobre o <em>falasser<\/em>: \u00e9 uma culpa que n\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 diferen\u00e7a entre o gozo obtido e o gozo esperado, culpa de n\u00e3o ser inteiramente satisfeito e feliz. Nas palavras de Lacan (1972-1973\/1985, p. 75), \u201calguma coisa derrapa no que manifestadamente \u00e9 visado\u201d e, o que resta \u00e9 um gozo experimentado sempre como inadequado, um gozo que n\u00e3o conviria \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual&#8230; se ela existisse.<\/p>\n<p>Portanto, conforme nos esclarece Lacan (1972-1973\/1985, p. 11), \u00e9 no supereu que encontramos \u201co ponto girat\u00f3rio\u201d, o que faz o neur\u00f3tico girar em c\u00edrculos, dar voltas e mais voltas em torno desse limite do gozo e no qual ele se recusa a reconhecer o imposs\u00edvel, a n\u00e3o exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Por conseguinte, podemos dizer que o supereu como <em>ponto girat\u00f3rio <\/em>\u00e9 o que provoca o atordoamento e esse \u201cefeito de n\u00e1usea do qual Lacan fala\u201d (Mouillac, 2016-2023, p. 157) e que se manifesta no t\u00e9dio, na desorienta\u00e7\u00e3o concernente ao desejo, na falta do que dizer e na desesperan\u00e7a t\u00e3o presentes nas queixas dos neur\u00f3ticos hoje.<\/p>\n<p>Por isso, o supereu, com seu imperativo de gozo, \u00e9 tomado por Lacan como um correlato da castra\u00e7\u00e3o: ao ordenar algo imposs\u00edvel, ele aponta sempre no sentido de seu fracasso, isto \u00e9, para o furo da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. Resulta da\u00ed um paradoxo no qual constatamos, por um lado, que a castra\u00e7\u00e3o nunca foi t\u00e3o evidente e, por outro, que ela nunca foi t\u00e3o velada porque embora o furo, pela aus\u00eancia do sentido ed\u00edpico, torne-se cada vez mais vis\u00edvel no mundo contempor\u00e2neo, esse furo \u00e9 sempre encoberto pela exig\u00eancia do supereu, isto \u00e9, pelo empuxo em dar mais uma volta. Portanto, quando n\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel definir claramente a neurose pelo complexo de \u00c9dipo, o que nos autoriza a dizer que ainda se trata de uma neurose \u00e9, justamente, a presen\u00e7a da castra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aquela ligada \u00e0 castra\u00e7\u00e3o paterna, mas aquela que prov\u00e9m do furo da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00a0Da\u00ed a import\u00e2ncia de fazermos esse furo surgir em meio \u00e0s voltas do gozo em torno do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Lacan (1972\/2003, p. 469), em \u201cO aturdito\u201d, inventou um neologismo para nomear esse supereu que se satisfaz apenas pela metade sem jamais satisfazer-se: <em>surmoiti\u00e9 <\/em>(\u201csuper<em>&#8211;<\/em>m<em>eu<\/em>tade\u201d). Trata-se do supereu feminino, articulado ao n\u00e3o-todo e que, portanto, n\u00e3o corresponde a uma consci\u00eancia universal, \u00e0 interdi\u00e7\u00e3o do gozo encontrada do lado masculino. Bem ao contr\u00e1rio, tal supereu revela, reiteradamente, a inadequa\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico na abordagem do real e na apreens\u00e3o do gozo. \u00a0Trata-se do supereu como empuxo ao gozo fora do falo, que tende \u00e0 infinitiza\u00e7\u00e3o, fazendo apelo a um gozo imposs\u00edvel de ser satisfeito. No que diz respeito \u00e0 an\u00e1lise, essa preval\u00eancia de um gozo fora do simb\u00f3lico, em sua vertente real, funciona, como nos esclarece Miller (2006-2007\/2013, p. 238), como um \u201cdissolvente conceitual\u201d do qual encontramos os efeitos no ultim\u00edssimo ensino de Lacan: ao deparar-se com o sil\u00eancio do real, com o fato de que \u201co real n\u00e3o fala\u201d (Miller, 2006-2007\/2013, p. 235) \u2013 fato que podemos relacionar \u00e0 lei silenciosa do supereu \u2013 o simb\u00f3lico, sempre privilegiado por Lacan como ferramenta fundamental para analisar, acaba por revelar-se como um instrumento inadequado para fazer frente a esse gozo do supereu. Lacan (1977-1978) tamb\u00e9m nos adverte que, se uma an\u00e1lise se prende ao simb\u00f3lico para abordar o real, ela acaba por \u201cconsumir-se nela mesma\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, em suas voltas e, assim, corre o risco de fracassar. Ent\u00e3o, retornando \u00e0 pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo ao nosso texto \u2013 <em>quando tudo \u00e9 normal, o que se analisa?<\/em> \u2013, podemos responder, inicialmente: o supereu. Mas, diante dessa inadequa\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico com rela\u00e7\u00e3o ao real, como analisar o supereu?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Interpreta\u00e7\u00e3o: a manipula\u00e7\u00e3o, o corte e o equ\u00edvoco<\/em><\/p>\n<p>Diante da preval\u00eancia do gozo, o analista depara-se com um limite da interpreta\u00e7\u00e3o. O gozo n\u00e3o \u00e9 interpret\u00e1vel, ele coloca em primeiro plano n\u00e3o o sentido, mas a mat\u00e9ria, o tecido, o corpo e o que pode funcionar como estofo. Por isso, somos advertidos, por Lacan (1977-1978), de que uma an\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica, n\u00e3o uma abstra\u00e7\u00e3o e, segundo ele, \u201cse fazemos da an\u00e1lise uma abstra\u00e7\u00e3o, n\u00f3s a anulamos\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> porque perdemos o tecido que constitui \u201co fato\u201d de uma an\u00e1lise (Lacan, 1977-1978)<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, ou seja, o que lhe confere uma exist\u00eancia. Se tentamos ordenar esses fatos a partir do simb\u00f3lico, articul\u00e1-los, encade\u00e1-los, perdemos o tecido, a tela a partir da qual um real pode ser assegurado.<\/p>\n<p>Assim, a inadequa\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico para abordar o real leva Lacan a uma promo\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio no que concerne \u00e0 apreens\u00e3o do real e na qual a unidade n\u00e3o \u00e9 mais da ordem do significante, mas da imagem. Miller (2006-2007\/2013, p. 246) chega mesmo a dizer que o significante novo, evocado por Lacan no semin\u00e1rio <em>O momento de concluir<\/em>, n\u00e3o \u00e9 um significante, mas uma imagem. Ent\u00e3o, se o tecido de uma an\u00e1lise \u00e9 um fato real, ser\u00e1 atrav\u00e9s da imagem que ele ganhar\u00e1 suporte porque, se o real n\u00e3o pode ser formulado, ser\u00e1 preciso imagin\u00e1-lo, torn\u00e1-lo visual, mostr\u00e1-lo, \u201capont\u00e1-lo com dedo\u201d (Miller, 2006-2007\/2013, p. 249). Trata-se de \u201crecorrer ao imagin\u00e1rio para se ter uma ideia do real\u201d (Miller, 2006-2007\/2013, p. 258).<\/p>\n<p>Desse modo, nossa quest\u00e3o inicial \u2013 \u201co que se analisa?\u201d \u2013, desloca-se para a pergunta: \u201cComo operar?\u201d (Lacan, 1977-1978)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Em outros termos, como intervir nessa mat\u00e9ria, como transform\u00e1-la? \u00c9 nessa mesma medida que o Sujeito Suposto Saber ser\u00e1 redefinido por Lacan (1977-1978) como Sujeito Suposto Saber como operar<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Encontramos, no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, um apelo feito a outro modo de interpreta\u00e7\u00e3o, a partir do qual ele buscava a renova\u00e7\u00e3o de sua pr\u00e1tica: a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzida \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o e ao corte. N\u00e3o se trata mais da palavra que faz existir a coisa, mas do corte que muda a estrutura dos objetos representados, assim como faz Lacan com os objetos topol\u00f3gicos. O real torna-se mat\u00e9ria, um tecido a ser cortado, manipulado, deformado, para que se possa extrair dele o efeito de furo, isto \u00e9, um dizer que fa\u00e7a escutar que a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>\u00c9 importante sublinhar que dizer \u00e9 diferente de falar. O analisante fala, e o analista corta. O analisante faz poesia, mas o que o analista diz n\u00e3o \u00e9 poesia, mas corte, participa da escritura, segundo Lacan (1977-1978)<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, faz parte do equ\u00edvoco que passa pela escrita, pela subvers\u00e3o da ortografia, por outro jeito de escrever o mesmo, de maneira a fazer ressoar outra coisa diferente do que foi dito. O equ\u00edvoco recorta a palavra da mesma maneira que recortamos um objeto topol\u00f3gico, de tal forma que o mesmo objeto, a mesma palavra, passa a se comportar de maneira diferente. O manejo da sess\u00e3o anal\u00edtica torna-se, ent\u00e3o, um saber fazer que pode dar forma, a partir de cortes praticados aqui e ali, a cada sess\u00e3o e a cada vez, ao real de um gozo do qual n\u00e3o se sai. Assim, pela fala, no decorrer da experi\u00eancia anal\u00edtica o real, que n\u00e3o \u00e9 comunic\u00e1vel, ganha corpo.<\/p>\n<p>O ato de cortar, de acordo com Miller (2006-2007), reenvia ao que uma psican\u00e1lise tem de estofo, \u00e9 atrav\u00e9s do corte que se encontra o tecido, \u00e9 tamb\u00e9m o que possibilita o momento de concluir. Podemos dizer, ent\u00e3o, que a interpreta\u00e7\u00e3o assim concebida se aproximaria, cada vez mais, do ato anal\u00edtico, que n\u00e3o passa pelo pensamento, mas pelo gesto cir\u00fargico de cortar, que seria a \u201csalvaguarda da psican\u00e1lise\u201d (Miller, 2006-2007\/2013, p. 195). Na neurose, conforme demonstrou Ana Lydia Santiago em nosso Primeiro Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio, h\u00e1 um real do qual n\u00e3o se sai, mas, se n\u00e3o nos \u00e9 poss\u00edvel sair disso, podemos faz\u00ea-lo se comportar de um outro jeito. Conforme esclarece Lacan (1972\/2003, p. 480), em \u201cO aturdito\u201d, trata-se de produzir \u201cuma outra fix\u00e3o do real\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, em seu ultim\u00edssimo ensino, Lacan se esfor\u00e7ar\u00e1 para fazer, com a topologia, uma geometria que tem um corpo, uma geometria do tecido. Imaginar o real, passar\u00e1, ent\u00e3o, por essa estranha manipula\u00e7\u00e3o dos objetos topol\u00f3gicos. As figuras topol\u00f3gicas \u00e0s quais Lacan recorre s\u00e3o figura\u00e7\u00f5es do fato de que o analista corta, figura\u00e7\u00f5es obtidas pelo corte, na medida em que este tem o poder de mudar a estrutura das coisas, seu modo de se comportar. Quando se faz um corte, o real responde com uma nova forma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cRecrea\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><strong>[7]<\/strong><\/a> e pr\u00e1tica anal\u00edtica<\/em><\/p>\n<p>Lacan (1972\/2003, p. 487) designa o toro como sendo a estrutura da neurose, com suas voltas em torno do furo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-730 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-1-300x215.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"215\" srcset=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-1-300x215.jpg 300w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-1-768x551.jpg 768w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-1-350x251.jpg 350w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Referindo-se a esse mesmo toro, mostra-nos que o verdadeiro corte da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um corte duplo. Trata-se de um corte feito ao longo da borda do toro, em sentido longitudinal, mas, para que esse corte conclua seu giro e retorne ao ponto de partida, \u00e9 preciso que se fa\u00e7a duas voltas, ou seja, um duplo giro. Ent\u00e3o, o corte duplo no toro modifica sua estrutura, interrompendo suas voltas e produzindo, ao mesmo tempo, um ponto de estofo, de amarra\u00e7\u00e3o, em volta do furo: \u00a0o n\u00f3 borromeano de tr\u00eas.<\/p>\n<div style=\"width: 840px;\" class=\"wp-video\"><video data-keepplaying class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-729-1\" width=\"840\" height=\"476\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/video-simone.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/video-simone.mp4\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/video-simone.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dois fragmentos da pr\u00e1tica anal\u00edtica nos mostram essa opera\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica pela qual uma nova figura, uma figura inesperada, surge do duplo corte.<\/p>\n<p>O primeiro fragmento \u00e9 de um caso cl\u00ednico de nossa colega da \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF), Rose-Paule Vinciguerra (2001, p. 162-169), traduzido e publicado na <em>Curinga<\/em>, n. 17, com o t\u00edtulo: \u201cA intemperante\u201d. Trata-se de uma mulher de meia idade, bul\u00edmica, que h\u00e1 25 anos provoca v\u00f4mitos todas as noites com a justificativa de que, se n\u00e3o o fizer, ficar\u00e1 gorda. Diz que n\u00e3o quer mais ter rela\u00e7\u00f5es com seu marido, homem bonito, mais jovem que ela, mas para o qual n\u00e3o liga nem um pouco. Segundo Rose- Paule, o que vir\u00e1 a luz como ponto extremo do seu n\u00e3o querer (principalmente quanto ao sexo) \u00e9 que essa paciente \u00e9 como o pai \u2013 um pai que ingurgita, escarra, e que ela odeia. \u00c9 nesse contexto que um ato falho d\u00e1 lugar a uma interpreta\u00e7\u00e3o que joga com o equ\u00edvoco <em>homof\u00f4nico<\/em> do significante. \u00a0A paciente diz: <em>\u201cmes parents ne supportaient pas mon int\u00e9r\u00eat corp\u00e8rel\u201d<\/em>. Ela queria dizer \u201cmeus pais n\u00e3o suportavam meu interesse<em> corporal\u201d<\/em>, mas diz \u201ccorp\u00e8rel\u201d no lugar de \u201ccorporel\u201d. A analista corta: <em>\u00a0corps \u2013 p\u00e8re \u2013 elle<\/em>, corpo \u2013 pai \u2013 ela<\/p>\n<p>Essa interpreta\u00e7\u00e3o, ao jogar com o equ\u00edvoco homof\u00f4nico, interv\u00e9m diretamente sobre o gozo do sintoma como um corte, esvaziando o sentido sexual de um gozo que unia o corpo, o pai e ela, gozo que, a partir dessa interpreta\u00e7\u00e3o, a paciente poder\u00e1 definir como \u201calimento e sexo\u201d. A confus\u00e3o entre alimento e sexo revela sua identifica\u00e7\u00e3o ao pai que ingurgita e escarra, mas tamb\u00e9m seu lugar de objeto de gozo desse pai, assim como a natureza incestuosa desse la\u00e7o que ela recusa querendo-se magra e andr\u00f3gina, ao contr\u00e1rio da m\u00e3e que o pai deseja como uma mulher que \u201ctem o que deve l\u00e1 onde \u00e9 preciso\u201d.<\/p>\n<p>Podemos dizer que a interpreta\u00e7\u00e3o corta o sentido do sintoma \u2013 \u201calimento e sexo\u201d \u2013 introduzindo em seu lugar uma significa\u00e7\u00e3o vazia e sem sentido: <em>corps<\/em> \u2013 <em>p\u00e8re<\/em> &#8211; <em>elle<\/em>, que tem como efeito separar o corpo, o pai e ela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-731 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-2-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-2-300x239.jpg 300w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-2-768x611.jpg 768w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-2-350x278.jpg 350w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-2.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Esse corte, atrav\u00e9s do equ\u00edvoco, realiza o n\u00f3 a tr\u00eas no toro, enla\u00e7ando real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-732 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-3-300x239.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-3-300x239.jpg 300w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-3-768x611.jpg 768w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-3-350x278.jpg 350w, https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/texto-simone-3.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Dessa forma, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente um equ\u00edvoco de sentido a sentido, mas um for\u00e7amento que introduz, no lugar do sentido at\u00e9 ent\u00e3o opaco do sintoma, uma significa\u00e7\u00e3o vazia que anula o sentido, reduzindo-o \u00e0 dimens\u00e3o de um <em>isso n\u00e3o quer dizer nada.<\/em> O duplo corte (corpo \/ pai \/ ela) esvazia e amarra, intervindo sobre o toro, sobre o \u201cdar voltas\u201d da paciente, sobre o encher-se e o esvaziar-se da sua bulimia, modificando o desenho de seu sintoma.<\/p>\n<p>Essa nova figura\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode surgir a partir de uma opera\u00e7\u00e3o do analista sobre o gozo, tomado como mat\u00e9ria. Sua analista nos faz saber que, depois dessa interpreta\u00e7\u00e3o, os sintomas se atenuaram, diminu\u00edram de intensidade e frequ\u00eancia, embora n\u00e3o tenham cedido totalmente: \u00a0os \u201cditos do sintoma\u201d mudaram com varia\u00e7\u00f5es e tra\u00e7os que o diferenciam do que aparecia antes (Vinciguerra, 2001, p. 164). \u00c9 uma an\u00e1lise que, ao menos por ocasi\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o desse fragmento cl\u00ednico, ainda estava em curso.<\/p>\n<p>O segundo fragmento, retiro do testemunho de passe de outra colega da ECF, Sonia Chiriaco (2010, p. 9-14). O sonho do final de sua an\u00e1lise nos mostra ainda mais claramente a estrutura de duplo corte da interpreta\u00e7\u00e3o como equ\u00edvoco, pelo qual o poder de subvers\u00e3o topol\u00f3gica s\u00f3 poder\u00e1 operar concretamente a partir de duas voltas. Nesse sonho, ela deveria submeter-se a uma opera\u00e7\u00e3o que consistiria em abrir a cobertura de seu cr\u00e2nio para extrair alguma coisa, \u201ca \u00faltima palavra\u201d, ela pensa, \u201cmas qual seria?\u201d (Chiriaco, 2010, p. 12). Lembra-se de que, na noite anterior, colheu mariscos e, entre eles, aqueles chamados <em>\u201cormeaux\u201d,<\/em> para exp\u00f4-los sem as conchas, sob a forma de um quadro, ao p\u00fablico da Escola.<\/p>\n<p>O aparecimento desse significante incongruente, <em>ormeau,<\/em> em sua face repulsiva \u2013 molusco que se apresenta desnudado, sem concha, e repugnante, imagem do real que deveria ser mostrado ao p\u00fablico da Escola \u2013 vai se declinar em <em>or-mot<\/em>, \u201cpalavra de ouro\u201d, palavra preciosa onde tamb\u00e9m encontramos, de forma anagram\u00e1tica, a palavra <em>mort<\/em> (\u201cmorte\u201d) e, ainda, como <em>hors-mot<\/em>, o \u201cfora da palavra\u201d. Assim, localizamos tamb\u00e9m, nesse equ\u00edvoco, tr\u00eas pontos que formam, segundo Mouillac (2016\/2023) um trajeto de duplo giro (dois cortes):<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0\u00a0 1<\/strong>&#8211;<em>ormeau <\/em>\u2013 (molusco)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2<\/strong><em>-or<\/em>-mot (palavra de ouro &#8211; morte)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 3<\/strong><em>&#8211; hors<\/em>-mot (fora da palavra)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ormeau \/ or-mot \/ hors mot<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temos, aqui, o mesmo movimento que assistimos no v\u00eddeo do corte no toro. Nesse exemplo cl\u00ednico, notamos claramente que, com o corte simples, de apenas uma volta, o primeiro corte, entre <em>ormeau e or-mot,<\/em> permanecemos ainda no sentido. Somente no segundo giro, no segundo corte, entre <em>or-mot e hors-mot<\/em>, que um real ser\u00e1 apreendido, mostrando-nos que, aqui, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa ao sujeito, mas ao que est\u00e1 fora do sentido.<em> \u00a0Hors-mot<\/em> (\u201cfora da palavra\u201d) \u00e9 uma palavra fora da palavra, uma palavra que faz explodir todas as palavras, uma palavra que \u00e9 uma palavra e, ao mesmo tempo, sua dissolu\u00e7\u00e3o pelo equ\u00edvoco imediato, um dizer que designa uma ex-sist\u00eancia, que retorna ao S<sub>1<\/sub> inicial modificando-o, perfurando-o, fazendo cair todos os significantes mestres e precipitando o final da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Trata-se de uma transforma\u00e7\u00e3o importante operada pela an\u00e1lise porque, conforme nos esclarece Chiriaco (2010, p. 13), sua vida sempre havia sido ordenada por palavras s\u00e1bias, bem colocadas e com as quais tentava obter o amor de seu pai servindo-se delas como um esconderijo para seu fantasma de \u201c\u2018morrer para ser desejada\u2019\u201d. A partir do equ\u00edvoco derivado do sonho, as palavras n\u00e3o lhe servem mais de ref\u00fagio e passam a designar-lhe o fora de sentido. Chiriaco (2011, p. 128) tamb\u00e9m nos esclarece que, \u201ccontrariamente ao que parecia anunciar o sonho&#8230; n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra, nenhum significante que possa nomear definitivamente o sujeito de uma vez por todas, nenhum significante que diz toda verdade, nem todo gozo\u201d. N\u00e3o \u00e9 algo ao qual se chega por uma dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, tampouco \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o, mas o que s\u00f3 pode vir \u00e0 luz atrav\u00e9s do for\u00e7amento de uma nova forma, de uma nova imagem, de uma nova escrita.<\/p>\n<p>Podemos dizer que se trata do equ\u00edvoco incur\u00e1vel, onde o mesmo <em>ormeau\u201d<\/em> (molusco) se apresenta de outra forma, <em>hors-mot <\/em>(\u201cfora da palavra\u201d)<em>,<\/em> possibilitando ao falasser servir-se de seu modo de gozo de outro jeito. Inventa-se, com o equ\u00edvoco e atrav\u00e9s do corte que ele produz, outra forma de fix\u00e3o do gozo, que leva o real a se comportar de outra maneira, fazendo aparecer o furo no qual o <em>falasser <\/em>sustenta sua exist\u00eancia. Constatamos, aqui, a meu ver, como o equ\u00edvoco depende da imagem, isto \u00e9, da escrita, uma vez que uma escrita n\u00e3o deixa de ser, ela mesma, uma imagem. Nesse contexto, podemos dizer que o equ\u00edvoco trata a palavra como imagem, como mat\u00e9ria, como coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0Um outro retorno a Freud?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Essa captura do real pela imagem, atrav\u00e9s da qual, por um momento, pelo modo do contingente, o real para de n\u00e3o se escrever, j\u00e1 pode ser, a meu ver, localizado nos prim\u00f3rdios da psican\u00e1lise, no sonho considerado por Freud (1900\/1972, p. 113-130)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0como inaugural, marca da descoberta da psican\u00e1lise: o sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irma. Quando fez esse sonho, em 1895, Freud estava envolvido na experi\u00eancia angustiante que marca o momento de suas principais descobertas, momento decisivo em que a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente lhe era revelada. Esse sonho ganha seu valor exemplar por fazer parte do processo dessa descoberta referente ao tratamento da neurose.<\/p>\n<p>Da mesma maneira como o sonho de Sonia Chiriaco marca sua passagem de analisante a analista, o sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irma marca a descoberta da psican\u00e1lise e o advento do desejo do analista de seu criador, do desejo com rela\u00e7\u00e3o ao que Freud ent\u00e3o descobria. Assim, ambos os sonhos n\u00e3o podem ser separados de sua interpreta\u00e7\u00e3o, sonho e interpreta\u00e7\u00e3o devem ser considerados conjuntamente, isto \u00e9, como palavras que nos s\u00e3o endere\u00e7adas, como imagens que nos s\u00e3o mostradas.<\/p>\n<p>Freud, segundo Lacan (1954-1955\/1985, p. 187-217), considera um grande sucesso ter podido explicar esse sonho pelo desejo de desculpabilizar-se do fracasso do tratamento de Irma. \u00c9 verdade que, na noite anterior ao sonho, depois de ter recebido uma visita de seu amigo Otto trazendo-lhe not\u00edcias n\u00e3o muito boas dessa paciente, em um tom que lhe parece ser o de uma reprova\u00e7\u00e3o pelo fracasso desse tratamento, Freud se dedica a escrever o caso a fim de justificar-se. Mas uma quest\u00e3o essencial \u00e9 levantada por Lacan (1954-1955\/1985, p. 193): \u201ccomo \u00e9 que Freud, ele que ir\u00e1 mais adiante desenvolver a fun\u00e7\u00e3o do desejo inconsciente, contenta-se aqui em apresentar um sonho totalmente explicado pela satisfa\u00e7\u00e3o de um desejo que n\u00e3o se pode chamar de outro modo a n\u00e3o ser de um desejo pr\u00e9-consciente ou at\u00e9 mesmo consciente?\u201d. Podemos pensar, ent\u00e3o, que o passo essencial no que concerne a interpreta\u00e7\u00e3o do sonho n\u00e3o foi dado.<\/p>\n<p>No entanto, Lacan (1954-1955\/1985) nos adverte para o fato de que, se Freud confere tamanha import\u00e2ncia a esse sonho, \u00e9 porque tem a impress\u00e3o de que deu esse passo, e isso realmente se verifica porque, mais de cem anos depois, o sonho da inje\u00e7\u00e3o de Irma ainda \u00e9 capaz de nos guiar quanto ao real em jogo no tratamento da neurose e na forma\u00e7\u00e3o do analista. Hoje, podemos dizer, com Lacan e com Miller, que esse sonho, assim como sua interpreta\u00e7\u00e3o, preserva o tecido, a tela atrav\u00e9s do qual um real pode ser transmitido. Duas imagens do sonho nos mostram isso.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a imagem da garganta de Irma. No in\u00edcio do sonho, vemos Freud reprovando Irma por n\u00e3o ter aceitado sua solu\u00e7\u00e3o, insistindo para que ela abra a boca, pois \u00e9 disso que se tratava na realidade: ela n\u00e3o abria a boca, n\u00e3o falava. Mas, quando Irma no sonho, finalmente, faz o que ele quer, quando ela abre a boca, o que Freud encontra vai al\u00e9m do que ele esperava encontrar, \u00e9 algo diante do qual todas as palavras se estancam. Ele se depara com a imagem do fundo da garganta da paciente, \u201ccom crostas e placas esbranqui\u00e7adas sobre not\u00e1veis estruturas crespas\u201d (Freud, 1900\/1972?, p. 115): trata-se de uma imagem que ele pr\u00f3prio nomeia de aterradora e angustiante, associando-a ao feminino e \u00e0 morte. Tudo se mescla e se associa nessa imagem, desde a boca at\u00e9 os \u00f3rg\u00e3os sexuais femininos, \u00e9 a carne que jamais se v\u00ea, o avesso da face, o fundo das coisas. Lacan (1954-1955\/1985) designa essa imagem como a revela\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Normalmente, um sonho que chega nesse ponto provoca o despertar do sonhador, mas Freud \u2013 tomado por seu desejo de saber \u2013 n\u00e3o acorda, e o sonho vai adiante culminando em outra imagem: a f\u00f3rmula da trimetilamina. \u00a0Tal qual um or\u00e1culo, essa f\u00f3rmula que aparece no sonho como uma solu\u00e7\u00e3o, a derradeira palavra, n\u00e3o fornece resposta alguma ao que quer que seja, \u00e0 solu\u00e7\u00e3o da neurose ou ao sentido do sonho, pois n\u00e3o quer dizer mais nada a n\u00e3o ser que \u00e9 uma palavra, o real cifrado em letras.<\/p>\n<p>Nesse ponto extremo, Freud se liberta de sua culpa n\u00e3o porque se desculpe com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Irma, mas porque essa f\u00f3rmula da trimetilamina, ao abolir todos os sentidos, exclui o <em>falasser <\/em>de toda a participa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica na realiza\u00e7\u00e3o da verdade e, por conseguinte, na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Esse momento marca um retorno no qual, onde havia inicialmente a culpa de Freud pelo fracasso do tratamento de Irma, presentifica-se seu desejo como causa do advento da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>De todas as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, o sonho se distingue por apresentar uma particularidade: o aspecto visual, o acesso direto \u00e0 imagem. Se, como dissemos anteriormente, no ultim\u00edssimo ensino de Lacan n\u00e3o \u00e9 mais o significante, mas a imagem, que surge como recurso para enfrentar o sil\u00eancio do real, podemos considerar, ent\u00e3o, que o sonho se torna uma via privilegiada de acesso ao real, sua via r\u00e9gia? Essa nova forma de conceber a interpreta\u00e7\u00e3o que recai sobre a imagem e a mostra\u00e7\u00e3o do real, seria um recurso para despertar os neur\u00f3ticos de hoje de sua normalidade?[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;832965&#8243;]<strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>CHIRIACO, S. \u201cLa plaisanterie\u201d. <em>La Cause Freudienne<\/em>, n. 76, Paris, Navarin, 2010, p. 9-14.<\/p>\n<p>CHIRIACO, S. \u201cLes noms, <em>lalangue <\/em>et le m\u00e9t\u00e9ore\u201d. <em>La Cause Freudienne<\/em>, n. 78, Paris, Navarin, 2011, p. 127-131.<\/p>\n<p>FREUD, S. A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. In: ____. <em>Edi\u00e7\u00e3o <\/em>Standard<em> Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/em>. v. IV. Rio de Janeiro: Imago, 1972 (Trabalho original publicado em 1900).<\/p>\n<p>GARCIA, C. \u201cA lei e a norma\u201d. <em>Curinga<\/em>. EBP-MG, n. 17, 2001, p. 10-19.<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio. Livro 2: o eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1985 (Trabalho proferido em 1954-1955).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio. Livro 3: as psicoses<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1985 (Trabalho proferido em 1955-1956).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio. Livro 20: mais, ainda<\/em>. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 1985 (Trabalho proferido em 1972-1973).<\/p>\n<p>LACAN, J. O aturdito. In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 448-497 (trabalho de 1972).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire. Livre 25: le moment de conclure<\/em>. (In\u00e9dito, 1977-1978).<\/p>\n<p>MOUILLAC, G. \u201cRecrea\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica\u201d. <em>Correio<\/em>. Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n.89 (edi\u00e7\u00e3o especial). S\u00e3o Paulo, 2023, p. 133-158. (Trabalho proferido em 2016).<\/p>\n<p>MILLER, J. -A. <em>El <\/em>ultim\u00edssimo Lacan. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013 (Trabalho proferido em 2006-2007).<\/p>\n<p>VINCIGUERRA, R.-P. \u201cA intemperante\u201d. <em>Curinga. <\/em>EBP-MG, n. 17, p. 162-169.[\/vc_column_text][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;124125&#8243;]<strong>Notas do autor:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 15 de novembro de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 15 de novembro de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 21 de mar\u00e7o de 1978.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 15 de novembro de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 15 de novembro de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Li\u00e7\u00e3o do dia 20 de dezembro de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Ver: Lacan (1972\/2003, p. 491).[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;30&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; align_medium=&#8221;align_center_tablet&#8221; medium_width=&#8221;2&#8243; align_mobile=&#8221;align_center_mobile&#8221; mobile_width=&#8221;6&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;654255&#8243;][vc_single_image media=&#8221;565&#8243; media_width_percent=&#8221;70&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;228692&#8243; media_link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2024%2Fwp-content%2Fuploads%2F2024%2F09%2FSouto-Simone.pdf|target:_blank&#8221;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-nhtu&#8221; heading_semantic=&#8221;h3&#8243; text_font=&#8221;font-175522&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;137017&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]Para baixar o arquivo, abra o PDF em nova aba.[\/vc_custom_heading][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Simone Souto (EBP\/AMP)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":203,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-729","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-textos"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=729"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":770,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/729\/revisions\/770"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media\/203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=729"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=729"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2024\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}