texto de orientação

A interpretação analítica[1]

Patrícia Ribeiro (EBP/AMP)


[…] o que constitui propriamente a interpretação lacaniana é que ela vai além do sentido sexual, ela aponta […] na direção da inexistência da relação sexual.
(MILLER, 2009, p. 69)

 

Partirei de algumas observações que extraí do artigo de Mauricio Tarrab (2026) publicado recentemente no boletim do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, intitulado “Qual interpretação?”. Tarrab abre seu texto assinalando que interpretar é um fenômeno próprio da cultura ou, também podemos dizer, a cultura se constrói a partir de nossas ficções.

Contudo, para abordar a interpretação analítica, esse autor parte da impossibilidade de defini-la de modo unívoco, dadas as suas diversas variáveis, assim como também ressalta a impossibilidade de se ensinar um modo de usá-la, de oferecer técnicas sobre como interpretar. No que concerne à interpretação analítica, ele sublinha: “assim como no encontro sexual, no corpo a corpo, não há manual de instruções que valha” (TARRAB, 2026, p. 3).

Entretanto, conforme enfatiza Éric Laurent (2020, p. 169), se ela não possui um método a ser ensinado, é imprescindível dizer também que a interpretação não é destituída de regras. Segundo Laurent (2020, p. 169), um dos princípios que regem a psicanálise de orientação lacaniana é que a interpretação não é uma metalinguagem, não se trata “de uma linguagem objeto sobre a qual se aplicaria uma outra de nível distinta à primeira”, como se houvesse “a linguagem do inconsciente e que este convocaria uma metalinguagem”, ou, ainda, a interpretação sob a forma de um saber, de um S2.

Temos um exemplo esclarecedor de uma análise que se orienta por esse domínio do saber do analista, e que, não por acaso, se alinha à ideia de que uma análise visaria fortalecer o ego. No Seminário A angústia, Lacan comenta o famoso caso do “Homem dos miolos frescos”, em que Ernest Kris intervinha explicando ao seu paciente as razões pelas quais ele não seria um plagiário. Lacan assinala que a interpretação que caberia seria tê-lo feito escutar que “ele rouba nada”, apontando assim para o desejo e demarcando que o desejo inconsciente é a sua interpretação. É interessante, nesse sentido, a constatação feita por Miller de que foram justamente os psicanalistas que conduziram a sua prática pela via da mestria, da transmissão de um saber sobre o sintoma, “os primeiros a teorizar as resistências do paciente. […] Para Lacan, esta resistência é a resistência do desejo, é o esforço do paciente por realizar uma análise, ao invés de ser doutrinado.” (MILLER, 1980/2015, p. 242, tradução nossa)

 

A interpretação em Freud 

Desde os primórdios da clínica psicanalítica freudiana, a interpretação se apresentou como um modo de operar com os sintomas por meio do qual o que se visava era desvendar a causa significante dos sofrimentos que se apresentavam ininteligíveis aos pacientes. O ato de interpretar buscaria restituir o sentido a partir de fragmentos aparentemente desordenados, na perspectiva de fazer falar o desejo recalcado. Miller (2009, p. 69) chega a afirmar que a doutrina freudiana da interpretação “é essencialmente uma tradução”.

Essa orientação interpretativa de Freud embasada no sentido aponta para o “sentido sexual, porque articulado à significação fálica decorrente da metáfora paterna” (ALVARENGA; CAMPOS, 2026, p. 22). Nesse contexto, Freud (1910/2013, p. 275) conduziu a sua prática interpretativa pelo que formulou como o “complexo nuclear de toda e qualquer neurose”, o que, pouco tempo depois, se tornou célebre como o Complexo de Édipo.

Se a interpretação freudiana buscava decifrar a opacidade do sintoma neurótico pelo sentido edípico, seus efeitos adversos não tardaram a aparecer. Uma interpretação fundada nessa lógica em que um saber, S2, confere sentido de forma retroativa ao S1 enigmático tende a se infinitizar, pois, se há decifração, haverá em seguida uma nova cifração, em um movimento que desvela a satisfação ou o gozo que lhe é intrínseco. Um outro modo de interpretar conduz a uma via oposta, a do signo, o que permite produzir não efeitos de sentido, mas de perturbação dessa lógica do sentido, desorganizando a ficção que se repete e sustenta o discurso do analisante, colocando de seu lado o saber, na condição de que ele escute o que diz.

 

As doutrinas da interpretação em Lacan

Se em sua prática analítica Freud descobriu que há um saber no sintoma do qual o sujeito se queixa e que, uma vez decodificado, ele desaparece, descobrirá também algum tempo depois que, apesar da decifração, o sintoma retorna, ainda que sob outras vestes. Essa compulsão a repetir lhe revelou que um sintoma não se constitui unicamente de uma causa significante. Algo mais o habita que é da ordem de uma satisfação paradoxal, também denominada por Freud como o enigmático “fator quantitativo”. Em outras palavras, Freud concluiu que a libido integra a estrutura da linguagem no lugar do significado (MILLER, 1996):

uma elucidação significante não é suficiente para operar; resta alguma resistência, não a do paciente, mas a da própria coisa, uma resistência do isso, da libido, de sua viscosidade, da fixação. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud está ligado ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifração. […] Quando Freud diz: “Esqueci o fator econômico”, ele extrai essa conclusão de suas dificuldades com seus pacientes. (MILLER, 2018, p. 43)

Lacan também se deparou com esse fenômeno, que chamará de gozo e que o levará a reformulações sobre a sua doutrina da interpretação e sobre o inconsciente. Para tratarmos dessas distintas modalidades da interpretação em Lacan, tomarei como norte as elaborações de Monribot (2023) presentes em seu texto “A interpretação lacaniana do sintoma”, no qual o autor se guia pelos três registros: Imaginário, Simbólico e Real.

A interpretação sob a égide do Imaginário é desenvolvida por Lacan em seus primeiros Seminários e em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, tendo como fundamento o inconsciente estruturado como um discurso: O inconsciente é, nesse momento do primeiro ensino de Lacan, “o lugar do código completo” (MONRIBOT, 2023, p. 79). Trata-se de um período vinculado à estrutura da fala no qual a interpretação opera como pontuação, rompendo a cadeia de significações e abrindo a uma nova. O que marca esse momento do ensino de Lacan é o lugar conferido ao registro do Imaginário como algo que se interpõe fazendo obstrução ao acesso à cadeia significante inconsciente, tal como ele o demonstrou em seu Esquema L. Trata-se do modelo pelo qual Lacan condensava sua teoria sobre a relação antitética entre o Simbólico e o Imaginário. Nesses termos, interpretar seria, então, fazer com que o analisante viesse a ter acesso ao simbólico, para fazer advir a verdade do sintoma (MONRIBOT, 2023, p. 80), à revelia do Imaginário. E como obter isso? À maneira de Sócrates, Lacan buscaria recuperar um saber que estaria retido e, por essa via, lograria tampar os furos do saber (MONRIBOT, 2023, p. 80). Tal modelo de interpretação se aproxima do freudiano, se tomarmos como exemplo o caso do Homem dos Lobos, no qual Freud muitas vezes é o autor ou coautor das ficções que preenchem as lacunas (MONRIBOT, 2023, p. 80) para alcançar a verdade do trauma.

Em um segundo momento, ainda no primeiro ensino, Lacan passa a se guiar pela dialética hegeliana, tendo como baliza a noção de intersubjetividade. O que está em jogo é que o analisante possa se perceber como um sujeito. Interpretar passa a ser extrair, do fluxo de falas vazias, sem ponto de basta, a chamada “fala plena”, almejando assim desembaraçar o Simbólico do Imaginário. Tal estratégia implica em que o analista se posicione “no lugar do morto”, em silêncio, para não se deixar capturar como semelhante, mas visa também “se recusar a se identificar a esse lugar do sujeito suposto saber” (MONRIBOT, 2023, p. 81), fazendo com que o próprio analisante possa extrair seus significantes mestres.

A doutrina da interpretação sofre nova mudança, dessa vez marcada pela entrada em cena do estruturalismo. Nessa perspectiva, interpretar seria liberar o desejo do sujeito da prisão do sintoma, reencontrando assim “o movimento permanente da libido” (MONRIBOT, 2023, p. 83). Essa vertente da interpretação também segue os passos da interpretação freudiana, pois sua direção é dada pela decodificação da metáfora que captura o desejo presente no sintoma, liberando, desse modo, sua verdade. A interpretação do sintoma, ou de seu envelope formal, como propõe Lacan, visa tocar na fantasia que o sustenta desvelando sua significação enigmática (MONRIBOT, 2023, p. 83).

Todavia, conforme mencionamos, Lacan, assim como Freud, se deparou também com a composição heteróclita da constituição do sintoma: o gozo, como o significante, dele faz parte, o que o torna incurável. A esse novo impasse, Lacan responde por meio de uma alegoria, qual seja, a da imagem do dedo levantado de São João Batista. Desse modo alusivo, Lacan indica que não há a verdade última do sintoma, ou seja, ela jamais será alcançada pelo significante. Disso decorre que não há como tampar os furos do saber a partir do significante: o sujeito é marcado pela falta-a-ser. O ser que há é o ser de gozo. O que então se desvela é que a interpretação se defronta com o impossível de dizer ou, em outros termos, com o real. Consequentemente, Lacan transmuta a ideia de “uma” verdade na expressão varité, condensando verdade e variedade, assinalando com isso sua multiplicidade de sentido – não sem advertir que a interpretação não é aberta a todos os sentidos, isto é, não se trata de fazer qualquer jogo de palavras. Seu propósito é fazer surgir a causa do desejo – objeto a – por excelência, fora do sentido.

Nesse momento, a doutrina da interpretação passa a se valer da ideia do oráculo de modo a fazer com que o dito do analisante tome o caráter de “um enigma a decifrar” (MONRIBOT, 2023, p. 84), a partir de diferentes versões, tais como:

a pontuação, que aponta o desejo na demanda; a citação que, ao repetir o que o analisante disse, visa transformar o enunciado em enunciação; a alusão, que desloca o sentido de maneira indireta com o meio-dizer, instituindo um novo ponto de basta; o enigma, que mantém aberto o furo no simbólico, que o sentido visa tamponar; o corte, que esvazia o sentido e faz vacilar os significantes mestres, ou, ainda, separa o sujeito do objeto com o qual ele se identifica; e […] o equívoco, homofônico, gramatical ou lógico […] que interrompe a repetição e ocasiona um rearranjo no modo de gozo. (ALVARENGA; CAMPOS, 2026, p. 237)

No último período de seu ensino, Lacan toma o Real como referência para a interpretação, reformulando o conceito de inconsciente também sob esse enfoque: surge o inconsciente real. Correlativamente, Lacan propõe também o conceito de sinthoma, em oposição ao sintoma, que apela por interpretação. O sinthoma, elemento do nó borromeamo que enoda os três registros, RSI, é uma invenção do sujeito para lidar com a pulsão, como uma letra de gozo, fora do campo do sentido, que permite que algo do insuportável do gozo seja reduzido.

Essa importância conferida ao registro do Real o levará também a uma mudança teórica sobre a própria noção de sujeito. Lacan vai além da primazia do sujeito – que existe articulado ao significante –, em direção a uma outra noção de sujeito que considera também o corpo tomado por um tipo de satisfação que escapa à articulação dos significantes e seus possíveis sentidos. Surge, assim, o conceito de falasser, implicando o sujeito do inconsciente e o corpo gozante.

Quanto à interpretação ligada ao inconsciente real – ou, pode-se também dizer, sob a sua vertente não simbólica –, seu propósito visa “desfazer a articulação tomada como destino” (MILLER apud MONRIBOT, 2023, p. 93) valendo-se do sem sentido como forma de tocar o gozo real. É, portanto, uma operação ao avesso à do inconsciente transferencial, por se tratar de uma desarticulação. Por um lado, o que se busca é a extração do objeto a pulsional em sua dimensão de causa de desejo do campo do Outro. Por outro, cabe à interpretação isolar um S1 separado da cadeia simbólica, liberado de qualquer saber inconsciente, o que remete a um significante que não quer dizer nada, mas que porta a marca do gozo no corpo. Retornando a Freud, trata-se do que ele nomeou como “umbigo do sonho”, da presença de um furo por onde o sentido se esvai, determinando o limite da interpretação. O resto de uma experiência analítica é algo como a fórmula da trimetilamina.

 

Referências

ALVARENGA, E.; CAMPOS, S. A Interpretação no ensino de Lacan. Belo Horizonte: Topológica, 2026.

FREUD, S. Cinco lições de psicanálise. In: Obras completas: Observações sobre um caso de neurose obsessiva (“O homem dos ratos”), uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, Vol. 9, 2013, p. 220-286. (Trabalho original publicado em 1910).

LAURENT, É. A interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, n. 50, 2020.

MILLER, J.-A. Acerca de las interpretaciones. In: Seminarios en Caracas y Bogotá. Buenos Aires: Paidós, 2015, p. 241-258. (Trabalho original proferido em 1980).

MILLER, J.-A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 15, p. 96-99, abr. 1996.

MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 56-57, p. 67-70, jul. 2009.

MILLER, J.-A. Sobre o desencadeamento da saída da análise (conjunturas freudianas). In: SANTIAGO, A. L. (Org.). Aposta no passe. Rio de Janeiro: Contracapa, 2018, p. 31-44

MONRIBOT, P. A interpretação lacaniana do sintoma. Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 89, p. 78-99, jan. 2023.

TARRAB, Mauricio. Qual interpretação? In: XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: A interpretação entre a fala e a escrita. 2026. Disponível em: https://encontrobrasileiroebp2026.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Qual-interpretacao-Mauricio-Tarrab.pdf. Acesso em: 6 set. 2026.

 

Notas

[1] Texto apresentado no Seminário Preparatório para a 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: modos de usar, em setembro de 2026.

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