bricolagem

Artefato

Daniela Viola (EBP/AMP)
Michelle Sena (EBP/AMP)

Numa de suas primeiras publicações sobre a técnica psicanalítica, Freud (1904/2017, p. 55) define a psicanálise como a “arte da interpretação”. Essa associação da prática clínica a uma arte perdura em sua obra, o que constatamos num de seus últimos escritos, “A análise finita e a infinita”, em que apresenta o analista como alguém que aprendeu “a desenvolver determinada arte” (FREUD, 1937/2017, pp. 354-355). Entre a téchne e a poíesis, caras à filosofia grega antiga, trata-se aqui de uma habilidade ou ofício que conduz a uma produção singular, um saber-fazer. A psicanálise é, assim, uma arte, mas no sentido ético, e não estético.

No Seminário O ato psicanalítico, Lacan (1968/2025, p. 115) pontua que “a análise é um artefato”. Do latim arte factus, “feito com arte”, “artefato” é definido, entre outras acepções, como: dispositivo; aparelho; engenho; mecanismo construído para um fim determinado; artifício (HOUAISS; VILLAR; FRANCO, 2001). Nesse contexto, Lacan (1969/2025, p. 114) recorre a essa palavra para indicar o que faz um analista em sua prática, cuja estrutura lógica “é feita da conjunção entre um ato e um fazer”. Do lado do analista, trata-se de um ato que “permanece em branco” (LACAN, 1968/2025, p. 114), já que ele se recusa ao que é convocado pelo paciente – ou, nos termos de Freud (1919/2017, p. 195), “o tratamento analítico deve, na medida do possível, ser executado na privação [Entbehrung] – na abstinência”. Do lado do analisante, Lacan (1968/2025, p. 119) aponta “um fazer de pura fala”, o significante em ato, do qual o sujeito se ausenta “até um ponto tão avançado quanto possível. Essa é a palavra de ordem. Se olharmos as coisas bem de perto, aí está realmente o sentido da regra fundamental”. O artefato analítico é o dispositivo que executa a regra fundamental da psicanálise, certo modo de usar elementar.

A potência do significante em ato, esse fazer de pura fala, oferece a chance de ter acesso ao gozo. É nesse ponto que podemos considerar o inconsciente transferencial como a instalação de uma zona intermediária em que a vontade de dizer do inconsciente é colocada em cena no tratamento analítico. A experiência da análise viabiliza um modo novo de parceria humana fundada no laço transferencial. Esse artifício extraordinário requer um manejo orientado, calcado na garantia que o analista dá à transferência pelo fato de “haver atravessado a experiência psicanalítica de maneira que o mínimo que se pode dizer […] é que ela deve ser, digamos, um pouco mais avançada do que nos tratamentos” (LACAN, 1968/2025, p. 112). Isso é o que orienta a bússola do ato: conduzir o sujeito suposto saber ao ponto em que o analista é reduzido à função de objeto a, movimento que só é possível porque o analista não ocupa o lugar ao qual é convocado. Sendo assim, Lacan (1968/2025, p. 120) indica precisamente: “nunca é demais pedir aos psicanalistas que meditem sobre a especificidade da posição que é a sua […] é sob o ponto de vista do ato que devem centrar sua reflexão sobre sua função”.

Do sujeito suposto saber ao “sujeito suposto saber operar” (MILLER, 2009, p. 273, tradução nossa), a invenção dessa arte nos revela a ausência do ideal de um funcionamento perfeito. Como bem coloca Graciela Brodsky (2004, p. 45):

Trata-se de um artefato paradoxal, pois está montado para vacilar. Não é um artefato que se lubrifique para que funcione bem; ao contrário, é um artefato no qual se busca a pedra em que se tropeça. É um artefato destinado a obter a falha da engrenagem.

É a partir da referência ao artefato, essa invenção inédita, que apresentamos o boletim da 28ª Jornada da EBP-MG: “Psicanálise: modos de usar”. Convidamos os leitores a acompanhar de perto os desdobramentos dos nossos Artefatos e a construção de produções singulares que marcarão cada edição do nosso boletim.


Referências

BRODSKY, G. Short story: os princípios do ato analítico. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004.

FREUD, S. O método psicanalítico freudiano. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. Vol. 6. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 51-62. (Trabalho original publicado em 1904).

FREUD, S. Caminhos da terapia psicanalítica. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. Vol. 6. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 191-204. (Trabalho original publicado em 1919).

FREUD, S. A análise finita e a infinita. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. Vol. 6. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 315-364. (Trabalho original publicado em 1937).

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S.; FRANCO, F. M. M. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Theresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).

MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Tradução de Stéphane Verley. Buenos Aires: Paidós, 2023.

Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais

Av. Afonso Pena, 2770 – 2º Andar
Funcionários – Belo Horizonte – MG – 30130-006

(31) 99879-8679

(31) 3292-5776