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O analista como provedor de acessos ao inconsciente

Mariana Vidigal (EBP/AMP)

Lacan (1971-72/2012) enfatizou que os jovens apresentam uma sensibilidade maior aos efeitos do discurso dominante. O discurso atual é o do “neoliberalismo tecnodigital” (DESSAL, 2026), fase do capitalismo marcada pela tecno-digitalização de todos os aspectos da vida. Cabe-nos ler seus efeitos para definir uma pragmática lacaniana que permita ao sujeito uma subversão, a partir do discurso analítico.

O neoliberalismo tecnodigital opera por uma hiperconexão que promete satisfação imediata, por uma oferta incessante de objetos e “conteúdos” enredados no ideal meritocrático. Ademais, a velocidade e a urgência do tempo presente suprimem o tempo de compreender e de construir um saber próprio sobre o que é consumido. É o saber do mestre que trabalha, dos algoritmos e das IAs que tudo sabem – um saber sem sujeito. Não há tempo e espaço entre o discurso e o corpo, há uma captura do circuito de gozo do “internauta”, que se torna adicto frente à oferta do mesmo objeto nas redes sociais.

Para Lacan (1969-70/1992), o saber é o que faz com que a vida se detenha em direção ao gozo, nesse caminho para a morte. É o substrato simbólico da castração que permite um limite ao gozo e o acesso ao desejo do sujeito. Contudo, o capitalismo rechaça a castração, produzindo o retorno do real sob as formas da pulsão de morte, como vemos nos atos violentos cometidos pelos jovens contra si e os outros. Eles encontram nas comunidades digitais uma tentativa de não serem segregados do discurso e “cancelados”, campo fértil para uma identificação selvagem que oculta o menor questionamento de um sujeito sobre si. Agrupam-se como iguais, pela identificação egoica (les egaux), “uma captura imaginária pelo mesmo, um espelho mortífero que se oferece ao sujeito” (ALBERTI, 2025, s.p., tradução nossa).

Não como os grupos organizados em torno do pai como ideal, essas comunidades são fundadas como irmandades de gozo (LACAN, 1969-70/1992) que rejeitam a diferença representada pelo gozo do Outro, tomada pelo grupo como uma ameaça a ser eliminada, e se submetem até mesmo a desafios de se autoagredir ou se matar. Com algo inédito, atos filmados e transmitidos em tempo real: o olhar do Outro, que antes provocava vergonha, torna-se agora constitutivo do ato, convidando o espectador a gozar com seu olhar (MILLER, 2003).

Nesse cenário, quais os usos da psicanálise para operar uma subversão? Miller (2010, p. 20, tradução nossa) propõe o lugar do analista como “provedor (servidor) de acessos ao inconsciente” que, por meio de sua presença, pode operar sobre o tempo e sobre o saber.

A presença do analista, fundamento da instauração da experiência analítica, oferece algo a mais do que a tecnologia: seu corpo, de carne e osso. O analista encarna algo do gozo não simbolizável, do que resta fora do discurso, ao tomar a forma de objeto a. Trata-se do caráter libidinal da transferência: com seu corpo ele faz ressoar os ecos de um dizer do corpo do analisante, a língua de cada um. Aqui, a urgência não é a do tempo presente e veloz,  mas a do que pulsa no corpo como urgência de satisfação e como um querer dizer. O analista deve fazer par com essa urgência (LACAN, 1976/2003), fazer-se parte do circuito de gozo solitário do analisante, para possibilitar uma experiência analítica.

Como par, ele pode introduzir um tempo, em intervalos entre sessões, de modo a fazer o sujeito dividido trabalhar para se separar de suas identificações e do saber consistente do discurso atual, que, pelo discurso analítico, é reduzido a semblante. Basta uma pergunta que evidencie a disjunção da significação que captura o sujeito para engendrá-lo na cadeia significante, abrindo a dimensão do saber inconsciente. Uma pragmática que permite um intervalo entre o discurso e o corpo, fazendo surgir aí o sujeito do inconsciente e o desejo como causa, aquilo que faz vibrar a vida para cada um.

 

Referências

ALBERTI, C. Siempre un poco rinoceronte. Virtualia, n. 45, out. 2025. Disponível em: https://www.revistavirtualia.com/articulos/1057/apuesta/siempre-un-poco-rinoceronte. Acesso em: 28 abr. 2026.

DESSAL, G. La anulación del tiempo para comprender y el tiempo civilizatorio. YouTube, Canal Departamento Enlaces, 13 mar. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=06QiEW0ZArM&t=1043s. Acesso em: 28 abr. 2026.

LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Ary Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original proferido em 1969-70).

LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567-569. (Trabalho original publicado em 1976).

LACAN, J. O Seminário, livro 19: …ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro; versão final de Marcus André Vieira; preparação de texto de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).

MILLER, J.-A. Sobre a vergonha e a honra. Ornicar?, n. 1, 2003.

MILLER, J.-A. Los usos del laps. Buenos Aires: Paidós, 2010.

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