corte e costura
“Na verdade, entre a técnica sugestiva e a analítica há o maior contraste, aquele contraste que o grande Leonardo da Vinci condensou para as artes nas fórmulas per via di porre e per via di levare. A pintura, diz Da Vinci, trabalha per via di porre; é que ela coloca montinhos de tinta onde eles antes não existiam, na tela sem cores; a escultura, por sua vez, procede per via di levare, já que retira da pedra o necessário para revelar a superfície da estátua nela contida. De forma muito semelhante, meus senhores, a técnica sugestiva tenta fazer efeito per via di porre, ela não se preocupa com a origem, a força e a importância dos sintomas da doença, mas aplica algo, que é a sugestão, da qual ela espera que seja forte o suficiente para impedir a ideia patogênica de se expressar. A terapia analítica, por sua vez, não quer aplicar nada, não quer introduzir algo novo, mas quer tirar, extrair, e para esse fim ela se ocupa da gênese dos sintomas da doença e do contexto psíquico da ideia patogênica, cuja eliminação é o seu objetivo.”
FREUD, S. Sobre psicoterapia. In: Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. (Trabalho original publicado em 1905/1904). p. 67-68.
“Abordamos aqui a experiência freudiana como ética, isto é, em sua dimensão essencial, já que ela nos dirige numa ação que, sendo terapêutica, está incluída, queiramos ou não, no registro, nos termos da ética. […] Reforçar as categorias da normatividade afetiva tem efeitos que podem inquietar.”
LACAN, J. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. (Trabalho original proferido em 1959-1960). p. 167.
“Em outras palavras, ele [o analista] deve sempre pôr em dúvida aquilo que compreende, e dizer-se que aquilo que procura alcançar é justamente aquilo que, em princípio, não compreende. É somente na medida em que, decerto, ele sabe o que é o desejo, mas não sabe o que esse sujeito, com quem embarcou na aventura analítica, deseja, que ele está em posição de ter em si, deste desejo, o objeto.”
LACAN, J. O seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. (Trabalho original proferido em 1960-1961). p. 195.
“Isso quer dizer que, se considerarmos a experiência, sua mola essencial, a mola dos fenômenos que nela se produzem é a atitude analítica. Não digo nem mesmo posição, pois esta supõe que os termos em relação aos quais nos situamos sejam definidos, referenciados. […] Quando o teorizamos, fazemos do analista um certo tipo de objeto: um objeto que faltaria ao sujeito falante. […] E, a partir daí, fazemos dele o lugar-tenente do que seria o objeto perdido para todo ser que fala.”
MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 144-145.



