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Psicanálise: modos de usar

Eixos

Maria de Fátima Ferreira (EBP/AMP)
Coordenadora da 28ª Jornada da EBP-MG

 

Lacan definia sua Escola como um refúgio contra o mal-estar na civilização. O texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” nos permite investigar e localizar o modo como esse mal-estar se inscreve tanto na economia singular de cada sujeito, quanto no dispositivo da experiência analítica, convocando-nos a uma elucidação rigorosa da prática.

A psicanálise supõe uma relação específica com o inconsciente, que não se apresenta, em sua origem, como saber constituído. Como indica Lacan, “o inconsciente primário não existe como saber” (MILLER, 2005, p. 18), e sua consistência depende de uma operação que implica o amor, concebido aqui como mediação entre os Uns-sozinhos. Trata-se, portanto, de uma ética que não prescinde da dimensão transferencial na constituição mesma do saber inconsciente.

É no contexto contemporâneo desses Uns-sozinhos que, por outro lado, assiste-se à proliferação e legitimação de identificações – de ordem grupal, espiritual, econômica, racial, étnica ou política –, sob a égide de um discurso do mestre renovado, articulado ao discurso capitalista. Tal articulação promove uma lógica de validação identitária que tende à fixação e à normatização. Contudo, essa operação entra em tensão com a lógica do falasser, cuja verdade se sustenta na divisão subjetiva e na não-coincidência consigo mesmo. Coloca-se, assim, a questão de como essas formas de identificação incidem na constituição do sujeito e de que modo a prática analítica pode acolhê-las sem se submeter à sua normatização.

Na clínica atual, observa-se a emergência de demandas sustentadas por enunciados de autodeterminação – autodicção, autonomeação –, frequentemente condensadas na fórmula: sou o que digo que sou. Tais enunciados tendem a elidir a dimensão do assujeitamento ao Outro, isto é, a anterioridade da ordem simbólica na constituição do sujeito. O problema clínico consiste, então, em operar de modo a reintroduzir a hiância entre o sujeito da enunciação e o enunciado identificatório, restituindo o lugar do Outro como instância de determinação.

Paralelamente, verifica-se um deslocamento na economia do gozo: de sua inscrição sob o regime da negativização – articulada à castração – para sua promoção sob a forma do mais-de-gozar, que opera como tentativa de tamponamento da falta estrutural. Nesse horizonte, delineia-se uma mutação discursiva na qual o gozo se apresenta sob a rubrica de um direito: “Tu tens direito ao mais-de-gozar, mesmo que isso não te sirva para nada” (MILLER, 2019, p. 161, tradução nossa). Como assinala Miller (2021), tal configuração implica uma prevalência crescente do discurso dos direitos sobre a orientação clínica.

Diante disso, a questão que se impõe à prática analítica é a de como produzir uma vacilação nos significantes mestres que se apresentam como evidências – notadamente aqueles sustentados na lógica do direito –, de modo a abrir um espaço para a interrogação sobre o desejo e sobre o sentido do que se impõe ao sujeito.

Assim, na clínica contemporânea, o analista se confronta com sujeitos que chegam já identificados a enunciados que pretendem esgotar sua posição, na medida do sou o que digo que sou. A orientação da prática não consiste em ratificar tais identificações, mas em sustentar uma escuta que reintroduza a divisão subjetiva, permitindo que o sujeito se descole de suas nomeações e se confronte com a opacidade de seu gozo e com a determinação significante que o constitui.

Esses pontos nos conduziram a extrair, a partir da discussão junto à Comissão Científica, três eixos de investigação sobre o tema desta Jornada: separar, fazer par e interpretar.

 

Eixo 1: Separar

O tema deste Eixo foi desenvolvido durante os encontros sob a responsabilidade do cartel do qual participam os colegas Sérgio Laia (Mais-Um), Cristiana Pittella, Daniela Viola, Frederico Feu, Luís Couto, Maria de Fátima Ferreira e Vinícius Lima.

Encontro no texto “Posição do inconsciente” o termo “separare” (“separar”), de onde Lacan (1964/1998, p. 857) extraiu o significado “se parere”, “gerar a si mesmo”, abrindo caminho para nossa investigação. A partir disso, lançamos perguntas sobre este Eixo, que gravitam em torno da expressão “separar’: o que traz um sujeito a um encontro com um analista? De que esse sujeito precisa se separar para entrar no dispositivo analítico?

De saída, Lacan (1967-68/2025, p. 86) indica que começar uma análise é um ato: “Uma psicanálise é uma tarefa. Alguns dizem até que é um ofício. […] É preciso ensinar-lhes seu ofício, a essas pessoas que têm que seguir a regra”. Ele dirá, anos depois, que o inconsciente primário não existe como saber. Ponto decisivo de seu ensino, e que vale reforçar aqui.

Lacan (1958/1998, p. 604) é categórico quanto aos fundamentos que se ordenam em uma direção do tratamento: “um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, e depois, à interpretação”. A partir de sua leitura de Freud, afirma que essa retificação é dialética: parte dos dizeres do sujeito para voltar a eles. Trata-se de uma retificação subjetiva que, desde o início, implica o sujeito naquilo que motiva sua demanda de análise e visa sua responsabilização por seu sofrimento.

No entanto, na época em que o Outro sofre modificações, acarretando uma pulverização a ponto de dizermos que ele não existe, nos deparamos, em nossa clínica, com demandas que apontam para um mal-estar na identificação: o sujeito localiza em si mesmo – em seu próprio corpo – efeitos dessas modificações, que recaem na subjetividade de nossa época e nos levam a indagar: que efeitos são esses?

Ao tomarmos a referência de um mal-estar na identificação, encontro no Seminário 15, O ato psicanalítico, uma expressão que me parece bastante interessante e que vale a pena investigarmos neste Eixo: “nova alienação”, que Lacan relaciona a um rechaço ao inconsciente. O que recai para um sujeito posicionado nessa “nova alienação”? Como se separar de uma posição em que não há uma questão endereçada ao saber inconsciente?

Miller contribui ao nos levar a pensar o que um analista pode fazer diante de sujeitos fixados numa posição enrijecida por um “não penso” dessa “nova alienação”, isto é, numa época em que a suposição de saber em um Outro se esmaece e perde sua força. Como manejar a demanda quando o sujeito se recusa a ser capturado pelos significantes que o constituem e o determinam, apresentando-se como sujeito de sua própria nomeação – autonomeando-se numa posição de rechaço ao inconsciente?

Ao abordar a expressão “nova alienação” e considerar o sujeito fixado nessa operação – eu não sei, mas eu sou – no esquema do “falso ser”, a pergunta que orienta este Eixo se abre não somente para a posição, mas também para o manejo do analista diante das demandas na clínica hoje. Ela aponta para a possibilidade de uma retificação: uma brecha nessa “nova alienação”, que permita se separar dela. Isso não se produz senão às custas do analista como suporte no lugar de objeto a: fazer surgir, no lugar do rechaço ao inconsciente que porta o “não penso”, um sujeito que se interrogue sobre sua verdade – isto é, a verdade do sujeito do inconsciente.

Neste Eixo, torna-se importante dizer algo sobre o que se torna a identificação quando há uma inconsistência do Outro.

 

Eixo 2: Fazer par

A discussão deste Eixo vem sendo desenvolvida pelo cartel do qual fazem parte Elisa Alvarenga (Mais-Um), Anamaris Pinto, Bárbara Afonso, Bernardo Micherif, Ernesto Anzalone, Helenice de Castro, Henri Kaufmanner.

A expressão “fazer par” surge quando Lacan se depara com os casos de urgência. Como fazer par com esses casos? Isso nos leva a investigar a noção de parceiro – ou seja, aquele com quem se joga a partida.

Aqui é necessário sermos precisos: para Lacan, o parceiro não é o Outro-sujeito, nem a imagem, nem o falo; trata-se de um objeto extraído do próprio corpo do sujeito. A partir daí, Lacan elabora o parceiro essencial em jogo numa análise: o parceiro enquanto objeto a, revelado a partir da estrutura da fantasia. Essa elaboração o leva a situar parceiro-sintoma como parceiro-gozo do sujeito.

Quais as vantagens dessa perspectiva? Para orientar uma resposta, trago uma passagem de Miller (2023, s.p.) que permite abordar as toxicomanias:

A toxicomania segue as linhas da estrutura, ela é um anti-amor, pois prescinde do parceiro sexual e se concentra, se dedica ao parceiro (a)-sexuado do mais-de-gozar. Ela sacrifica o imaginário em nome do real do mais-de-gozar.  Além disso, a toxicomania é atual: ela pertence a uma época que se prefere o objeto a em detrimento do Ideal, uma época em que I vale menos que a (I < a).

Outro ponto a ser investigado neste Eixo é pensar o analista como parceiro-sintoma. Nessa direção, como pensar a transferência quando falamos em analista parceiro-sintoma?

Hoje vivemos numa era das urgências generalizadas e cada um vem ao analista em busca de alguma pacificação para aquilo que urge em sua subjetividade. Encontramos, por exemplo, sujeitos ameaçados pelo fracasso daquilo que imaginam lhes dar segurança – e aí é que ressoa aquilo que reverbera do traumático. Nesse contexto, o sujeito se vê na urgência de solucionar o que irrompe em sua programação; enfrenta a precariedade de sua condição e demanda efeitos terapêuticos rápidos que lhe deem sentido a esse furo no discurso singular e coletivo (BELAGA, 2006).

Hugo Freda (1994, p. 41, tradução nossa) define urgência subjetiva como “a impossibilidade, num determinado momento, de ter um mínimo de palavra para significar um gozo que não encontra o significante necessário para o transformar”. Ele indica exemplos radicais – como o suicídio e as tentativas de suicídio –, em que o sujeito pensa encontrar a solução mais além do significante.

Perguntamo-nos, então: como fazer par com sujeitos que chegam trazendo uma posição em que algo urge em seu ser? É importante pensar o ofício do psicanalista, para que ele não caia na posição de “introjeção intersubjetiva”, apontada por Lacan (1958/1998, p.  613) como um erro: instalar-se numa relação dual.

Mas, por outro lado, há também aqueles que chegam portando um dizer sobre si – sou o que digo que eu sou. Como pensar um fazer par cuja função seja fazer vacilar esse ponto? Numa época em que o Outro não existe, como fazer par a partir dos imperativos de gozo da pulsão? Em que medida esse fazer par constitui um certo retorno na clínica lacaniana como uma referência ao amor de transferência?

 

Eixo 3: Interpretar

A discussão deste Eixo vem sendo desenvolvida pelo cartel do qual fazem parte Maria José Gontijo (Mais-Um), Cristina Vidigal, Fernanda Costa, Heloísa Bedê, Lilany Pacheco, Mônica Campos e Ram Mandil.

O psicanalista se insere, hoje, no espaço social recortado por múltiplas identidades. Cada uma delas, ao se configurar como um “nós”, passa a interagir, a interpenetrar e, por vezes, a se opor às demais. Nessa via, a pergunta que se impõe é: quais as ressonâncias desse fenômeno civilizatório da identidade – concebida como novo significante mestre – sobre o sujeito do inconsciente?

Extraio de Santiago (2025, p. 150) alguns pontos para este Eixo:

Quais as consequências para a experiência do inconsciente que tem lugar nesse mundo fragmentado pelas identidades? É o caso de dizer que a referência identitária incide neutralizando e dissolvendo toda referência ao sujeito e à sua enunciação? Quais as chances de preservação do lugar da interpretação analítica no contexto de um mundo habitado pelas identidades múltiplas?

Nem tudo o que se fala é interpretável.

A contemporaneidade é marcada por uma falação generalizada: todo mundo porta uma falação, e ela está por toda parte. Miller (2019, p. 165, tradução nossa) precisa isso com a expressão “falatório das massas” – Massenbavardage –, fenômeno que surge quando não se tem mais o apoio daquele que diz “não”.

Em seu último ensino, Lacan define a análise como prática de falatório. Isso não nos passa despercebido, uma vez que ele mesmo, anos antes, chamou de fala vazia aquela em que as significações aparecem flutuantes, sem efeito de sentido: ou seja, uma fala sem ponto de estofo (point de capiton). Podemos, então, tomar como pergunta orientadora deste Eixo: como uma fala sem ponto de estofo produz efeitos?

O fenômeno do tudo-dizer floresceu em nossa sociedade. Seu ápice é a internet – de onde não escapamos, ainda mais agora com a IA. Isso traz, evidentemente, problemas. Parece ter se invertido o regime do privado: o sentimento mais íntimo, que habita em cada um em sua singularidade, é capturado por uma nova realidade, cujo mandamento superegoico faz do “dizer tudo” um benefício e um senso comum. Sobre a IA, cabe lançar uma pergunta: ela seria figura de uma “nova alienação”? De que modo recolhemos, hoje, na clínica, esses efeitos? Em que consiste, pois, uma interpretação analítica?

Um ponto a ser destacado para trabalhar essa questão é a tendência contemporânea de tomar o que é inerente à língua – seu tecido de mal-entendidos – como se fosse possível domar o inconsciente. Além disso, esquecem que “a língua é mais fascista que bizarra” (MILLER, 2003, p. 6, tradução nossa).[1] E, ao falar que a língua é bizarra, Miller (2003, p. 6-7, tradução nossa) acrescenta que ela comporta regularidades, mas que ela é, ao menos em seu vocabulário, tecida de “irregularidades profundamente fantásticas, extravagantes e excêntricas”.

E o que nos interessa no ofício de psicanalistas é o que Miller (2003, p. 6, tradução nossa) avança ao dizer que “O sentido gozado não tem nada a ver com o bom senso. […] É o contrário. O sentido gozado é o sentido bizarro”.

Mas qual é o lugar do analista em uma interpretação? Para a interpretação analítica, é preciso admitir que o sujeito apenas existe como efeito da separação radical entre enunciado (o conteúdo da fala, o que é dito) e enunciação (o ato de dizer, o contexto, a intenção, o tom, a emoção por trás do enunciado). Valho-me novamente de Santiago (2025, p. 151-152) para destacar que:

A política da interpretação na psicanálise vai de encontro a esse descrédito da enunciação, sobretudo quando esta se mostra orientada pelo ideal identitário e excessivamente marcada pela rigidez das normas. […] Para que a interpretação tenha lugar, é preciso tomar o sujeito no nível de sua enunciação e, portanto, sem a sua identidade.

Sigo Miller (2023, p. 8, tradução nossa) no texto “Vous avez dit bizarre?” e o cito:

O analista está ali […] para brincar de burro. Para não compreender, para frear a passagem do significante ao significado, para desacelerar, para colocar pontos de interrogação, os “x”, para dizer finalmente ao analisante: “para mim, isto é chinês”. […] Além do mais, se ele não compreende, ele está em seu papel. Basta que ele não fale muito para que ele possa perceber a raiz da coisa.

E mais: a interpretação analítica pressupõe a existência de enigmas, e são eles que trazem alguém para uma análise.

Podemos extrair que é a partir desse ponto de enigma que a interpretação opera. Desse modo, distinguimos alguns pontos fundamentais: a interpretação por pontuação, por não sentido, por citação, por enigma e por equívoco.

Aguardamos, então, como poderemos apurar na clínica essas modalidades.

 

Referências

BELAGA, G. La urgência generalizada: ciência, política y clínica del trauma. In: La urgência generalizada. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2006.

FREDA, H. Urgence subjective et urgence sociale. In: Les urgences subjectives. Paris, 1994.

LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).

LACAN, J. Posição do inconsciente. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Trabalho original proferido em 1964).

LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Theresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).

MILLER, J.-A. Vous avez dit bizarre? Quarto – Revue de Psychanalyse, n. 78, 2003.

MILLER, J.-A. Uma fantasia. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 42, p. 7-18, fev. 2005.

MILLER, J.-A. Malaise dans l’identification. Mental – Revue Internationale de Psychanalyse, n. 39, p.151-174, 2019.

MILLER, J.-A. Entretien avec Navarin Éditeur, à l’occasion du 40e anniversaire de la mort de Jacques Lacan et du 120e de sa naissance. Ornicar? Lacan Redivivus. Paris: Navarin, 2021.

MILLER, J.-A. A teoria do parceiro. Pharmakon Digital, v. 4, p. 31-72, mai. 2023. Disponível em: https://pharmakondigital.com/a-teoria-do-parceiro/. Acesso em: 01 abr. 2026.

SANTIAGO, J. A política da psicanálise é a interpretação. In: ONYSZKIEWICZ, M. (Org.). 30: O um e o múltiplo da EBP. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2025.

[1] Neste momento do texto, Miller faz menção a uma “afirmação memorável” de seu “mestre” Roland Barthes. Cf.: BARTHES, R. Leçon. Paris: Seuil, 1978. p. 14.

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