corte e costura
“O trabalho através do qual trazemos à consciência do paciente o material anímico recalcado foi por nós chamado de Psicanálise. Por que ‘análise’, que significa desmembramento, decomposição e remete a uma analogia com o trabalho do químico com as substâncias que ele encontra na natureza e leva ao laboratório? Porque uma tal analogia realmente existe em um ponto importante. Os sintomas e as manifestações patológicas do paciente são de natureza altamente intrincada, bem como todas as suas atividades anímicas; os elementos dessa composição intrincada são, em última instância, motivos e moções pulsionais. […] Então lhe ensinamos a entender a composição dessas formações anímicas de alta complexidade, remetemos os sintomas às moções pulsionais que os motivaram, comprovamos nos sintomas esses motores pulsionais até então desconhecidos do doente, tal como o químico extrai a substância de base [Grundstoff], o elemento químico em meio ao sal dentro do qual encontrava-se irreconhecível por estar associado com outros elementos.”
FREUD, S. Caminhos da terapia analítica. In: Fundamentos da Clínica Psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, p. 191-204. (Trabalho original publicado em 1919). p. 192.
“Passemos à segunda operação, onde se fecha a causação do sujeito, para nela constatar a estrutura da borda em sua função de limite, bem como na torção que motiva a invasão do inconsciente. A essa operação chamaremos: separação. Nela reconheceremos a que Freud denomina de Ichspaltung ou fenda do sujeito, e compreenderemos por quê, no texto em que Freud a introduz, ele a fundamenta numa fenda não do sujeito, mas do objeto (fálico, nomeadamente).”
LACAN, J. Posição do inconsciente. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (Trabalho originalmente apresentado em 1960, retomado em 1964). p. 856.
“Esta operação segunda é tão essencial de ser definida quanto a primeira, porque é aí que vamos ver despontar o campo da transferência. Eu a chamarei, introduzindo aqui meu segundo termo, a separação.
Separare, separar, irei logo ao equívoco do se parare, se parer, em todos os sentidos flutuantes que tem em francês, tanto também vestir-se, quanto defender-se, munir-se do necessário para pôr-se em guarda, e irei mais longe ainda, no que autorizam os latinistas, ao se parere, ao engendrar-se de que se trata no caso.”
LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1988. (Trabalho original proferido em 1964). p. 202.
“Também assinalei que a alienação de que se trata aqui é uma nova alienação em relação à que antes Lacan havia oposto à separação. A alienação como oposta à verdade é distinta. […] Segue sendo, contudo, uma alienação subjetiva. Não se pode conceber uma alienação que afetaria o objeto. A alienação afeta o sujeito. Pelo contrário, pode-se admitir que a separação recai sobre o objeto. […] A antiga alienação, tal como Lacan a situa em relação à separação, é a alienação inconsciente que qualifica o sujeito das formações do inconsciente. […] A nova alienação é, pelo contrário, o rechaço do inconsciente. […] singular inversão de Lacan, que passa da alienação significante à alienação como rechaço do inconsciente.”
MILLER, J.-A. Los cuatro de Lacan: 1,2,3,4. Tomo II. Buenos Aires: Paidós, 2022. p. 166-167. (tradução nossa).


