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Analisar e separar: duas questões sobre a “nova alienação” e os discursos
Frederico Feu de Carvalho (EBP/AMP)
“Tudo que se passa no nível do que se chama juventude é muito sensível, pois o que penso é que se o discurso analítico tivesse tomado corpo, eles saberiam melhor o que se há de fazer para fazer a revolução.”
(LACAN, 12/05/72, Milão)
Proponho desenvolver aqui algumas relações entre a escrita dos discursos e o que J.-A. Miller (2022) chamou de “nova alienação” em seu comentário do Seminário 14, A lógica do fantasma.
Segundo Miller, a escrita do discurso do mestre, formalizada por Lacan no Seminário 17, O avesso da psicanálise, comporta as duas formas da alienação que orientaram as discussões do Cartel dedicado ao Eixo 1 da 28ª Jornada da EBP-MG, “Separar”. De acordo com essa escrita, o acesso ao laço social, a alienação significante do sujeito, supõe a moeda de troca da fantasia. A perda do ser de gozo (a marca significante do sujeito, S1/$) é compensada pela recuperação do mais-de-gozar por meio do trabalho do saber inconsciente (S2/a). A alienação do sujeito no inconsciente, no campo do Outro, comporta então essa dupla face: sua divisão pelo significante (penso onde não sou) e a extração do objeto da fantasia (sou onde não penso), recortado do campo da realidade.
A separação, como operação analítica, implicaria a conjunção entre o resíduo do “eu não penso” e o resíduo do “eu não sou”, a → $, que define o sujeito como “resposta do real”.
A “nova alienação”, por sua vez, seria equivalente ao rechaço do inconsciente. Se retomamos a homologia estrutural entre o discurso do mestre e o discurso do inconsciente, é o discurso do mestre em sua forma tradicional que seria então rechaçado. O sujeito escolhe o seu ser sob a forma do “ser eu” (modulado para a nova forma do cogito: eu sou o que eu digo que eu sou), o que exclui a “pergunta pelo ser” que caracteriza a posição analisante ($ → S1, conforme o discurso da histérica).
Tomando como referência o quadro acima da divisão do sujeito (trabalhado por Lacan no Seminário 10), na “nova alienação” o sujeito não se dirige ao campo do Outro, mas toma partido de Ⱥ, desde que possamos ler o “rechaço do inconsciente” também como um modo de recusa do Outro.
A primeira questão que gostaria de remeter ao Eixo 1 de nossa Jornada é se podemos considerar a modificação produzida no discurso do mestre pela escrita do discurso do capitalista como um índice da “nova alienação”.
Podemos nos apoiar na afirmação de Lacan de que a manobra do discurso do capitalista equivale a um repúdio à castração. Se estamos corretos ao ler o circuito desse discurso seguindo a direção de suas setas, podemos perceber que se trata de um circuito contínuo que estabelece uma relação direta entre os seus termos:
Lacan (1978) fala do discurso do capitalista, em 1972, em uma conferência em Milão. É curioso que abaixo de sua escrita ele inclua a frase: “que se diga fica esquecido por trás do que se diz no que se ouve”. E acrescenta: “este enunciado, que é assertivo por sua forma, que qualifiquei de universal, pertence ao modal por aquilo que emite de existência”. Estranha forma assertiva, por incluir um tipo de negação, isto é, o esquecimento do fato do dizer. Em outros termos, se estou correto em minha interpretação dessa frase nesse contexto, o ato de enunciação, que comporta a existência, se descola do enunciado, e torna impossível o ato performativo que me permitiria dizer que eu sou o que eu digo. O dizer não autoriza nenhum dito. “Que se diga” é um puro enunciado de existência, como o S1 em lugar de agente no discurso do mestre que, em sua homologia estrutural com o discurso do inconsciente, pode ser lido como a marca do Um que põe o inconsciente a trabalho a fim de elucubrar um saber sobre essa marca.
Voltando à escrita do discurso do capitalista, Lacan diz que se trata de um discurso “loucamente astuto”. Podemos dizer que se trata de dupla astúcia: em lugar da disjunção entre sujeito e objeto (a // $), como produto da alienação ao inconsciente no discurso do mestre, teríamos a relação direta entre o objeto mais-de-gozar e o sujeito (a-$); e em vez do intervalo no qual um significante representa o sujeito para um outro significante (S1 → S2), teríamos o acoplamento entre enunciado e enunciação (S1-S2). O discurso capitalista seria aquele que, ao mesmo tempo em que impele ao gozo, rechaça o inconsciente.
Essa manobra astuciosa tem implicações no laço analítico e na transferência. O dizer: “eu sou o que eu digo que eu sou”, nascido da cópula entre S1 e S2, rejeita o sujeito do inconsciente (que fica esquecido por trás do que se diz no que se ouve). Essa rejeição repercute na análise como uma ausência de suposição de saber, isto é, como desinvestimento na ficção inconsciente. É essa ficção, que resulta do saber posto a trabalho no discurso do mestre, que seria desdobrada na temporalidade própria do sujeito suposto saber em uma análise.
O resultado dessa rejeição do discurso do capitalista é a impenetrabilidade da interpretação, que parece ser assim despossuída de seus meios. Por outro lado, o objeto a, que no discurso do mestre é extraído do campo da realidade, cavando aí um furo, é reapropriado pelo sujeito na forma do objeto gadget a ser velozmente consumido. Razão pela qual Lacan considera o discurso do capitalista, além de astucioso, insustentável.
Uma das consequências que podemos conjecturar para a prática analítica frente à vigência atual do discurso do capitalista é que o analista se torna, ele mesmo, o objeto da separação, enquanto causa do desejo, seja por meio de sua intrusão, na fenda aberta pelo equívoco, entre o par S1.S2, seja por sua estranheza, entre o par a.$, por não se apresentar como objeto de consumo, ao modo das “pesterapias” (neologismo de Lacan nessa conferência para expressar o engajamento das psicoterapias no discurso do capitalista).
A segunda questão que remeto ao Eixo 1 da Jornada parte da constatação de que o chamado “discurso identitário” pode ser tomado como uma variante do discurso da universidade, que seria a sua matriz discursiva. De fato, é especialmente nas universidades que o discurso identitário é proferido e onde ele mais prospera.
A fim de desenvolver esse segundo aspecto, seria preciso percorrer o caminho que vai do discurso do mestre ao discurso da universidade. Resumidamente, o saber do escravo foi traficado para a universidade, antes que o capitalista pudesse tomá-lo em seu poder ao se associar ao discurso da ciência, a partir do momento em que o saber se torna unidade de valor.
Podemos dizer que essa progressão histórica do discurso do mestre para o discurso da universidade é uma das condições para se chegar ao discurso do capitalista. O termo de comparação seria, aqui, o S1 no lugar da verdade em ambos os discursos.
A ascensão do saber (S2/S1), no discurso da universidade, é o resultado da eliminação da equivocidade da cadeia significante (S1 → S2). É essa eliminação que caracteriza a tomada do significante no discurso da ciência, na medida em que esse discurso reduz essa equivocidade à letra matemática, onde se exige que um elemento b seja sempre igual a ele mesmo. O saber em lugar de comando, no discurso da universidade, supõe a assunção do significante tomado em sua unicidade, o significante idêntico a si, a partir do qual o mestre exerce o seu domínio sobre o outro, que só pode figurar aí reduzido à posição de objeto desse saber. Seguindo essa leitura, o que se produz é o $ como dejeto do saber.
A produção do sujeito como dejeto, no lugar onde o objeto mais-de-gozar se alojava no discurso do mestre, é um efeito do discurso da universidade obtido graças a uma estrita redução da verdade ao enunciado do mestre. Como produto do discurso da universidade, o sujeito está impedido de relançar um discurso a partir de seu próprio S1 (S1 // $), tendendo a reproduzir esse discurso a partir do S1 do mestre. Um saber que se enuncia como verdade, eis o que caracteriza o S1 no lugar da verdade no discurso da universidade. Dele se deduz o Eu transcendental no qual se sustenta o “tudo-saber” do discurso da universidade.
O Eu transcendental é aquele que qualquer pessoa que de uma certa maneira enunciou um saber contém como verdade, é o S1, o Eu do mestre.
O Eu idêntico a si mesmo, é justamente daí que se constitui o S1 do puro imperativo.
O imperativo é justamente aquilo em que o Eu se desenvolve, porque está sempre em segunda pessoa.
O mito do Eu ideal, do Eu que domina, do Eu pelo qual alguma coisa é pelo menos idêntica a si mesma, a saber, o enunciador, eis precisamente o que o discurso universitário não pode eliminar do lugar onde se acha a sua verdade. De todo enunciado universitário de uma filosofia qualquer, mesmo aquela que se poderia etiquetar como sendo-lhe a mais oposta, a saber, em se tratando de filosofia, o discurso de Lacan –, surge irredutivelmente a Eu-cracia. (LACAN, 1969-70/1992, p. 59)
Podemos conceber assim a gênese do discurso da universidade na contemporaneidade: o discurso da esquerda, sob o pretexto de erigir o novo homem, recolocou em cena um novo mestre, conforme antecipado por Lacan no anexo “Analitycon”, do Seminário 17. O resultado é a produção do sujeito como assujeitado ao imperativo de gozo do mestre contemporâneo. Nada é mais evidente, segundo a estrutura do discurso universitário, do que essa produção de um novo assujeitamento (ou de “nova alienação”) onde se queria erigir o novo homem.
Parece-nos lícito atribuir ao modus operandi do discurso capitalista esse mesmo triunfo da Eu-cracia que caracteriza o discurso da universidade, na medida em que o consumo de objetos e dos recursos à sua disposição no mercado permite enquadrar a falta. A inversão entre S1 e $ no discurso do capitalista convoca, assim, o sujeito a se fazer nomear por um S1, ao se posicionar no lugar do agente nesse discurso, e imaginar-se mestre de seu ser, acionando um saber chamado a sustentar essa nomeação, gerando assim o enunciado: “eu sou o que eu digo que sou”, conforme o circuito sem lacunas do discurso do capitalista. Esse artifício discursivo produz uma inversão em relação ao sujeito como suposto ao significante que caracteriza a alienação subjetiva no discurso do inconsciente (S1/$). O S1, como marca subjetiva do Um, se mantém nessa nova configuração discursiva no lugar da verdade como rechaçada, reduzido à função de imperativo de gozo.
A aliança entre o discurso do capitalista e o discurso da universidade já tem sido explorada por nós quando se trata do discurso da ciência, ou melhor, do cientificismo. Trata-se, agora, de pensá-la em sua função de nomeação e rechaço do sujeito do inconsciente. De fato, é como consumidor que o sujeito é contabilizado no discurso do capitalista.
Para concluir, gostaria de contrapor ao novo cogito, “eu sou o que eu digo que eu sou”, um pensamento revelado recentemente por um analisante ao remontar à origem de suas angústias na adolescência: “Sou eu comigo mesmo”. Levando-se em conta o contexto dessa análise, podemos dizer que o Outro não se apresenta aqui como rechaçado, mas barrado, deixando o sujeito desamparado sob a responsabilidade da sua própria enunciação, a fim de aferir sua própria alienação inconsciente, conforme o modelo do discurso da histeria:
Por outro lado, ali onde o Outro se apresenta como rechaçado, a margem para uma aposta analítica no desejo, esquecido por trás da formulação desse novo cogito, “eu sou o que eu digo que sou”, só poderia ser alcançada pelo uso a ser feito do analista como um objeto de separação entre o dito e o dizer.
Referências
MILLER, J.-A. Los cuatro de Lacan: 1,2,3,4. Tomo II. Lição de 22 de maio de 1985. Buenos Aires: Paidós, 2022. (Trabalho original proferido em 1985).
LACAN, J. Discours de Jacques Lacan à l’Université de Milan (12 mai 1972). In: Lacan en Italie 1953-1978. Milan: La Salamandra, 1978, p. 32-55. (Trabalho original proferido em 1972).
LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Ary Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992. (Trabalho original proferido em 1969-70).
LACAN, J. O Seminário, livro 14: A lógica do fantasma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2024. (Trabalho original proferido em 1966-67).







