bússola
Psicanálise: modos de usar
Argumento
Mônica Campos Silva (EBP/AMP)
Coordenadora da 28ª Jornada da EBP-MG
“Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis.” (LACAN, 1966/1998, p. 873)
Gostaria de começar o argumento de nossa Jornada com uma pergunta de Éric Laurent (1984, p. 7, tradução nossa): “por que reler um texto de 1958?”. Ele nos responde: “esta releitura testemunha o classismo de Lacan […] um texto da atualidade, seguindo assim até os dias de hoje”.
Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” Lacan estabelece formulações clássicas sobre o tratamento psicanalítico e aborda as transformações no que se refere à psicanálise, dando sua orientação política. Nesse escrito, de 1958, ele apresenta a questão de como o analista conduzirá seu ofício para que o analisante alcance um fim digno para o tratamento.
Quem analisa hoje? O que analisa? Como analisa? Às voltas com essas questões é que Lacan, então, escreve o referido texto. É a sua forma de poder lançar luz àquele momento em torno da psicanálise, bem como à sua própria posição ao modo como esta vinha sendo conduzida. Lacan nota o desvio da ação analítica e decide “não se submeter ao poder na psicanálise para defender a verdade da experiência analítica” (MILLER, 2009, p. 185, tradução nossa). Ele irá se posicionar frente ao que chama de “reeducação emocional do paciente” e à psicologia do ego, nomeando essa condução como impostura e antifreudiana (LACAN, 1958/1998). Ele é radical ao assinalar que a contratransferência não deve ser usada como vetor para guiar o tratamento, evidenciando a dissimetria das posições de responsabilidade do analista e do analisante.
Através de três designações – a política da análise, sua estratégia e sua tática (termos de guerra) –, Lacan interroga o exercício da psicanálise e busca reformular a própria prática, e não apenas a doutrina que está sendo postulada pelos analistas da época. De fundo, temos sua crítica à IPA, que demonstrava, em 1958, já considerar a obra freudiana obsoleta, se gabando de ir além da doutrina de Freud. Lacan questiona, então: como é possível ir além de uma doutrina que se ignora? Segundo Laurent (1984, p. 7, tradução nossa), parafraseando a ciência, “uma ciência que vacila e esquece seu fundador é uma ciência perdida”. Lacan, por sua vez, intitula seu trabalho, naquele momento, de “retorno a Freud”.
Patrick Monribot (2014, p. 2, tradução nossa), em sua leitura sobre o escrito de Lacan de 1958, demonstra que há uma discordância entre a teoria e a prática, sendo necessária uma práxis em que a “prática alimenta uma doutrina que nunca cessa de ser escrita”. Segundo esse autor, é preciso inventar para responder aos fragmentos de realidade que emergem no tratamento.
Como defender o tratamento como experiência do real? É um desafio encontrado por Lacan já naquela época. Para ele, em vez da impotência covarde, um enfrentamento do impossível, sem o “uso do poder” para encobrir a impotência, se faz indispensável.
Associados à tática, à estratégia e à política, Lacan aborda, então, três termos com os quais ele se opõe à pretensa ortodoxia da IPA: respectivamente interpretação, transferência e a relação do ser. Para tal, e na responsabilização pelo seu ofício, Lacan colocará que o analista paga:
Primeiro, com a palavra, que se refere à interpretação, sendo esta última alcançada de duas maneiras: em palavras e em ato. Em ambos os casos, a condição seria deixar de lado todo pensamento e juízo pessoal, mesmo o mais íntimo, sendo esse o alto preço a pagar.
Segundo, com sua pessoa, pois o analista acolhe a transferência, sendo sua presença a implicação de uma escuta, sustentando a demanda. Este momento inclui o amor do analisante ao analista e o ato deste último.
Terceiro, com o seu ser, visando o desejo do analista, em seu julgamento mais íntimo, como algo que está em jogo na condução de uma análise. O analista está envolvido no tratamento pelo que diz e faz, e não pelo que é, ou seja, ajustado à sua própria falta-a-ser, o que significaria a subjetivação de sua própria castração, assumida pelo analista em seu final de análise. De tal modo que, com a falta-a-ser, Lacan põe um limite ao poder e à paixão do analista.
Estabelecida essa direção, Lacan indica que o analista goza, depois dos três pagamentos, da liberdade de interpretação. Lembrando que a interpretação não está aberta a todos os sentidos, pois ela visa o “cerne do ser”. Vale ainda ressaltar que Lacan oporá a interpretação sob transferência ao desejo de interpretar a transferência, podendo a interpretação induzir a transferência. A interpretação é livre, a transferência não é livre.
No mesmo sentido, como uma questão ética, como aquilo em que devemos nos apoiar, Lacan marcará que o analista dirige o tratamento, mas não o analisante e sua vida. O analista não atua como um guia moral, devendo agir para produzir uma ação no “cerne do ser”, no “coração do ser”, ou seja, atingir a parte pulsional do ser do analisante, a parte que divide o sujeito. “O desejo do analista […] fundamentado na inexistência do Outro, é o desejo de ‘obter a diferença absoluta’ [LACAN, 1964/1988], um desejo de descompletar” (ESQUÉ, 2025, p. 5, tradução nossa), estando a dimensão de real presente no que visa o tratamento analítico.
Sabemos que, desde Freud em seus Escritos Técnicos (1911-1915), muitos impasses já estão presentes. Perguntamo-nos, então, a partir do momento biográfico e de seus efeitos políticos da década de 1950 até meados de 1960, o que se renovou para a psicanálise, também em relação ao psicanalista, à sua prática e aos problemas que a psicanálise hoje em dia enfrenta (MILLER, 2023, p. 18, tradução nossa). Percebemos que muitas questões se renovam no que se refere à direção do tratamento e como orientar-se na clínica. Contudo, nos diz Miller (2009, p. 186, tradução nossa), “os princípios de seu poder” – segunda parte do título do escrito de Lacan – visam essencialmente a questão ética, o estatuto do ser. Esse ponto ético amarra toda a obra de Lacan.
Ao longo de seu ensino, Lacan avança em sua concepção de analista. A partir do Seminário sobre a angústia (LACAN, 1962-63/2005), ele introduz o objeto como causa de desejo, possibilitando que um analista venha ocupar esse lugar, ou seja, o analista como objeto a, um objeto encarnado pelo analista para o analisante – como semblante do objeto a. O analista não opera no tratamento como sujeito do inconsciente, e sim enquanto objeto. Outro salto na obra lacaniana é o conceito de gozo, que permite, na experiência, ir mais além do simbólico e seu resto, confrontando a dimensão real do fim de uma análise.
Frente ao percurso do ensino de Lacan e às modificações que a época exige, como podemos interrogar e enodar os três termos que ele utiliza em “A direção do tratamento” em sua dimensão clínica?
A interpretação: qual é sua visada quando se dirige ao inconsciente real? Sabemos que seu trabalho é perturbar, abalar a defesa contra o real, tendo a ética do bem-dizer – a palavra justa que pode desfazer uma identificação desconhecida ou nomear um gozo obscuro – como sua tática, operando no particular e contando com a contingência.
O que comporta a transferência hoje, no tempo da queda do sujeito suposto saber? Em um tempo em que não há um endereçamento ao Outro, evidenciando mutações da/na transferência, a estratégia seria a transferência possível. Entretanto, com quem se joga a partida? Miller toma a teoria do parceiro, o analista como parceiro-sintoma. No ato psicanalítico, a interpretação depende da transferência e da contingência.
Qual a política do tratamento hoje? Em um tempo em que há o rechaço do inconsciente, quando um sujeito não acredita, repete e não quer saber, fixado em seu gozo autístico, ou seja, quer tratar o sintoma, parar de sofrer sem se responsabilizar, como conduzir? Como operar com o inconsciente que desaparece nos tempos atuais? Temos ainda, como desafios de uma política que leve em consideração a ética da psicanálise, os movimentos identificatórios, a inteligência artificial, entre outros. Nessa medida, “enquanto a operação analítica da interpretação concerne à ordem tática, o ato se enoda à estratégia pelo lado da transferência, mas sobretudo à política” (ESQUÉ, 2025, p. 3, tradução nossa), que, ao visar o fim do tratamento, aponta para o real.
O analista é convocado pelo contemporâneo, pelo tempo das reivindicações generalizadas, bem como pelo tempo da multiplicidade de objetos. Sustentar o tratamento hoje, sustentar a regra psicanalítica, ou seja, a associação livre à qual o analisando é convidado, coloca-se como uma provocação, inclusive por sabermos que é uma associação não tão livre, sendo um “trabalho forçado de um discurso sem escapatória” (LACAN, 1953/1998, p. 249). Por isso, a enunciação do analista está em jogo desde o início, e isso não é sem consequências para o analisante. O alcance do desejo do analista já está presente nesse momento inaugural, pois
é justamente porque o analista se abstém de exercer esse poder que, na cura, irão se desdobrar – pela via da associação livre do analisando – outros poderes, que são próprios da experiência analítica, o que permitirá dar curso à repetição, ao fantasma, à pulsão. (ESQUÉ, 2025, p. 3, tradução nossa)
Em nossa época, é preciso pensarmos a política pelo Outro que não existe, pelo real e a inexistência da relação sexual. Segundo Miller (2017, p. 99), “a via do real corresponde ao momento em que Lacan se apercebe que o ser falante não pode advir completamente na fala e que na via do simbólico ele encontrará sempre um resto”. É por essa abertura que Lacan desenvolve a via do psicanalista como via do real, formulando o fim da análise como outra coisa que não uma subjetivação.
Quando tratamos da política da psicanálise, somos levados à descoberta de Freud que Miller (2023, p. 11, tradução nossa) diz ter feito “furo no universal”. Por sua vez, em seu ensino, Lacan busca dar uma resposta a esse furo ou traumatismo. Se, cito Miller (2025, p. 13), “a obra freudiana valeu a psicanálise, dando-lhe sua existência, o respeito, a consideração e a confiança, […] o discurso de Lacan manteve aberto esse espaço”, que foi largamente ampliado. Para Miller (2025, p. 23), ao fazer furo no universal, “a via da psicanálise visa substituir a vontade de gozo e a vontade moral – equivalentes para Lacan – pelo desejo do analista”, e, de tal modo, sustentando sua política e para que possa continuar existindo, “a psicanálise precisa em nossa atualidade de psicanalistas capazes de jogar a partida com a ciência e com a civilização capitalista”.
Como podemos estabelecer os modos de usar a psicanálise? Em seu Seminário intitulado O ato psicanalítico, Lacan (1967-68/2025, p. 185) aponta que a psicanálise
se pratica com um psicanalista, ou seja, é com um psicanalista que a psicanálise entra no que está em questão, o inconsciente. […] ir ao campo do inconsciente é encontrar o efeito de linguagem… efeito esse que pode ser isolado do sujeito, apontando que há saber – saber encarnado sem que o sujeito que sustenta o discurso esteja consciente disso. […] Isto é, o sujeito só se constitui como dividido, e, o que se refere ao saber permanece sempre como resíduo.
Logo, como ponto de partida para o nosso trabalho, temos o analista e seus impasses hoje. Se, naquela época, o foco eram as questões políticas e seu ofício, cabe-nos interrogar sobre a psicanálise e seus modos de usar hoje. Qual a melhor forma de usar a psicanálise?
Nesse sentido, nossa investigação se dirige também à demanda de análise na atualidade, ao pedido de tratamento e suas repercussões, sendo o começo de uma análise um ato. É o que Lacan (1967-68/2025, p. 79) nos dirá: “o ato é um verdadeiro começo”. E pergunta: “começar uma análise é ou não um ato?”; respondendo: “Certamente que sim!” (LACAN, 1967-68/2025, p. 86).
Para nos orientar, a Comissão Científica – composta por Elisa Alvarenga, Ludmilla Feres Faria, Luís Couto, Maria de Fátima Ferreira, Maria José Gontijo, Mônica Campos Silva, Ram Mandil e Sérgio Laia – pensou a Jornada e seu título e organizou os três eixos que contemplam os modos de usar a psicanálise:
Separar: Como operar a separação? Separar de quê? Como operar de modo a encontrar uma melhor solução para o sujeito?
Fazer par: Temos a transferência e o parceiro sintoma. De que lugar o analista entra na transferência hoje? Como está a transferência na época do Um sozinho? Frente aos modos de viver a pulsão e a pluralidade de se colocar o inconsciente, como transformar a demanda de análise em pedido de entrada em análise?
Interpretar: Lacan, em seu ensino, trata a interpretação principalmente pela palavra e pelo ato, não havendo para ela uma regra universal. Assim sendo, no mundo em que há certo descrédito da interpretação e em que a palavra vira nada, como criar o efeito de interpretação?
É possível concluir que a política perpassa todos os eixos, nos levando a alguns questionamentos: em nosso momento, o que é saber usar a psicanálise? O que é um analista orientado pelo real? Atualmente temos na clínica um enrijecimento do eu sou o que digo que sou; como o psicanalista irá encontrar seu lugar nessa conjuntura? (LACAN, 1967-68/2025, p. 82).
Em seu último ensino, Lacan nos sinaliza com uma certa pragmática, ou seja, com os modos de usar a psicanálise. Não se tem mais a direção do tratamento, mas um uso que se pode fazer, sem que se abandone a ética. Para cada caso, assim, é um uso que se pode fazer da psicanálise.
Gostaria de trazer aqui um ponto que me parece crucial em nosso tempo, o advento da IA – inteligência artificial. Não podemos deixar de nos perguntar os efeitos em nossa clínica, na medida em que essa tecnologia pode simular algo de uma escuta, fazendo-se de interlocutor, forjando consultas e conversas, bem como uma certa suposição de saber. Que tipo de par é constituído nesses casos? Na era do Chat GPT e de outros tantos dispositivos, como perceber a leitura da experiência? Como o analista pode entrar? É fato que as pessoas querem falar e que buscam alguém para escutar. E, por isso mesmo, a palavra tem a ver com a experiência analítica.
A partir desse argumento, temos como trabalho pensar o analista, bem como os modos de usar a psicanálise, também pelo analisante. Cito Miller (1999, p. 55) em “As contraindicações ao tratamento psicanalítico”:
Freud inventou um tipo inédito de sujeito formado, sem dúvidas, para interpretar o inconsciente e sustentar a transferência, mas, igualmente, por esta via mesmo, feito para suportar o automatismo de repetição e encarnar o objeto da pulsão. Este objeto-psicanalista é, doravante, disponível – disponível no mercado como se diz – e se presta a usos muito distintos daquele que fora concebido sob o termo de “psicanálise pura”. A “psicanálise pura” não é, assim, mais do que um dos usos aos quais o psicanalista se presta. É a nova cara da indicação à análise. […] O objeto-psicanalista é espantosamente versátil, disponível, multifuncional se posso dizer. Aqui, ele desvela as identificações ideais cujas exigências assolam o sujeito […], oferece deste modo, com o objeto-psicanalista, um lugar vacuolar, um espaço entre parênteses, onde o paciente tem o lazer, por um tempo restrito, de ser sujeito, quer dizer, de faltar a ser aquilo que, por sinal, o identifica. […] Mesmo se o sujeito não faz nada, a sessão não é menos o lugar do possível, onde, na falta de modificação, uma “mexida” é sempre possível.
Convidamos todos ao trabalho!
Referências
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LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 238-324. (Trabalho original proferido em 1953).
LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).
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LACAN, J. O Seminário, livro 10: A angústia. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão final de Angelina Harari e preparação de texto de André Telles; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Trabalho original proferido em 1962-63).
LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Theresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).
LAURENT, É. Seminario sobre La dirección de la cura y los principios de su poder. In: Concepciones de la cura en psicoanalisis. Buenos Aires: Manantial, 1984, p. 5-54.
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