bricolagem
Modos de uso da transferência
Dos restos, uma borda possível
Cristiane Grillo
EBP/AMP
A incidência do discurso do capitalismo na vida cotidiana provoca uma elisão da dimensão metafórica das palavras. A promessa de um discurso, de um modo de vida sem restos, eficiente e asséptico, esgarça a teia de palavras esparsas, perdidas, equivocadas, que nos constitui.
Como analistas, analistas cidadãos (LAURENT, 2007), procuramos ler essas mutações e estar à altura da subjetividade da época.
Ainda seguindo Laurent (2011, p. 61):
teremos que renunciar, não somente às soluções do supereu, mas também às do ideal do eu. Não há uma solução universal, teremos que passar ao múltiplo. Precisamos nos introduzir em uma tolerância com relação ao impossível, sem ceder nem à resignação, nem ao cansaço, diante de uma carreira que concerne ao impossível. Isso implica em uma modéstia ativa, a modéstia de como abordar esse impossível em todas as suas facetas.
Trata-se de consentir com, de acolher, o impossível e o vazio. De cavar um lugar para as singularidades no universal segregativo (BASSOLS et al, 2022).
É pela via do resto, do real, do tropeço, que um encontro com um analista pode se dar. Um analista que suporta o lugar do objeto resto, que resiste a ser tragado pelo universal da ciência, pela eficiência capitalista. Que pode fazer vibrar algo da vida, do desejo, da singularidade. Algo que nos confronta com o real da morte, com o sexual, com a linguagem que nos invade e cancela qualquer possibilidade de um encontro recíproco.
Essa vibração, esse lampejo, podem possibilitar a emergência do desejo de falar sobre os restos, de fazer algo com eles.
aquele que escrevo com o a, é, eu dizia, o objeto do qual não há ideia como tal, a não ser ao quebrá-lo […] – caso em que seus pedaços são identificados corporalmente e, como estilhaços do corpo, identificados, e isso somente pela psicanálise. (LACAN, 1974/2022, p. 35)
O analista pode se oferecer, no um a um, como um lugar no qual um laço pode ser tecido (MILLER, 2013). Talvez uma borda possa ser produzida pela escrita da face real do objeto a (LACAN, 1973-74/2018, p. 53).
Referências
BASSOLS, M. et al. Epílogo: Conversación con Miquel Bassols sobre lo trans. In: ÁLVAREZ, P. et al. Género, sexuación, cuerpo. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2022.
LACAN, J. A terceira. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. A terceira/Teoria de lalíngua. Tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2022, p. 9-62. (Trabalho original proferido em 1974).
LACAN, J. Os não tolos erram/os nomes do pai: Seminário entre 1973-1974. Tradução e organização de Frederico Denez e Gustavo Capobianco Volaco. Porto Alegre: Editora Fi, 2018. (Trabalho original proferido em 1973-74).
LAURENT, É. O analista cidadão. In: Sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Tradução de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Contracapa, 2007, p. 141-150.
LAURENT, É. “Post-war on drugs”: como a psicanálise pode contribuir para o debate político sobre as drogas. In: Loucuras, sintomas e fantasias na vida cotidiana. Belo Horizonte: Scriptum, 2011.
MILLER, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paidós, 2013.


