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Entrevista com Carolina Koretzky
Entrevista realizada pela equipe do Boletim Artefato com Carolina Koretzky (ECF/AMP), sobre o texto “Du nouage par le social”,[1] publicado na Revue Mental, n. 50, em novembro de 2024.
- No seu texto, você aponta que o amor pelo próprio inconsciente e o desejo de produzir ligações entre os significantes parecem estar se “rarefazendo na época da inexistência do Outro”. Com sujeitos que chegam cada vez mais refratários ao simbólico, como a psicanálise opera nos dias de hoje, para despertar ou sustentar esse amor?
Essa ideia me ocorreu ao ler a última frase do último capítulo do Seminário XXI. Esse Seminário tem um título bastante equívoco: Os não-tolos erram (Os nomes do pai).[2] Como podemos ouvir esse equívoco? Talvez a crença em um pai da tradição, este um cujo fundamento é sempre religioso, aquele pai que proibia o gozo pela lei e que determinava um destino, tenha moldado a ligação do sujeito com seu desejo. Lacan (2015, p. 8) constatou gradualmente que esse pai se revelou progressivamente como semblante, se “evaporou”, como ele mesmo constatou.
Parece-me que o deslizamento que vai de “os nomes do pai” (no plural) para “os não-tolos erram” indica, talvez, uma das consequências atuais dessa revelação do pai como semblante, que é própria à nossa época: uma certa errância, em todo caso, uma “recusa”, diz Lacan. Essa errância se mostra consubstancial a uma recusa “à captura do espaço do ser falante” (LACAN, 1973, lição de 13 de novembro de 1973, tradução nossa). A palavra-chave me parece ser “captura”, de sujeitos que se recusam cada vez mais a serem capturados pelos significantes que nos determinam e nos constituem e que traçam, à nossa revelia, um destino e uma repetição, uma recusa portanto a essa captura do simbólico, a sermos nós mesmos os “cativos” de algo que ignoramos.
Portanto, é um dizer “não” em nome de uma liberdade sobre a qual Lacan falou muito durante o seu ensino, sem jamais a elogiar abertamente. Em um texto formidável intitulado “Sobre a lição das psicoses” (em Actes de l’ECF, n. 13, de junho 1987), Miller relembra a célebre frase de Jean-Jacques Rousseau em Os devaneios do caminhante solitário: “O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado (preso aos ferros)”. E ele reelabora a fórmula tal como a psicanálise concebe a liberdade: “o homem nasce acorrentado, pelas correntes do significante, e por toda parte encontra-se acorrentado – exceto o alienado”, que rejeitou essa alienação primordial. E acrescenta: “Ele não quis de modo algum trocar o gozo pelo significante”, e, por esse fato, ele não colocou no Outro a causa do seu desejo, ou seja, o que lhe falta não está localizado no Outro, não está alojado no Outro, ele não tem que buscá-lo no Outro. Consideremos o sintoma de solidão vivenciado pelos sujeitos, tão prevalente hoje em dia.
Portanto, há esse “ferro”, esse acorrentamento da linguagem, que nos aliena desde o início, já que somos falados antes mesmo de falar, e é isso o que uma psicanálise traz à luz. Mas, para isso, é preciso consentir em entrar nessa outra cena do seu inconsciente e não se crer mestre em sua própria casa; entrar, portanto, na dimensão de sua captura. Não há outra saída, dizia Lacan (1973-74, lição de 13 de novembro de 1973, tradução nossa) no início desse Seminário XXI, senão a de “colar-se à estrutura”, pois, ao denunciar que tudo é apenas semblante em relação ao gozo, posição cínica, é o real que escapa, pois ele não pode ser capturado senão pelos semblantes. Lacan (1973-74, lição de 11 de junho de 1974, tradução nossa) sublinhava, no fim do Seminário XXI: “é preciso amar seu inconsciente” – não precisa se saber apaixonado, mas somente consentir em ser tolo (dupe) dele. Amar, quer dizer, amar fazer mediação entre os Uns-sozinhos (MILLER, 2005, p. 27), pois o amor faz “relação simbólica” entre S1 e S2 no lugar da relação que não existe.
Eu não tenho resposta definitiva para essa questão de como operar… Nós estamos todos, em nossa grande comunidade de trabalho, que é a Escola Una, em processo de tentar respostas possíveis. De minha parte, penso que se esse sujeito errante bateu à porta de um psicanalista quer dizer que algo do seu cinismo e de sua recusa falhou. Portanto, ele não chega totalmente só, e assim é preciso apostar que o despertar desse Eros, desse amor pelo inconsciente, talvez possa se produzir. Em um curto vídeo, Sérgio de Mattos[3] fala do analista como um “cupido das palavras”, que vai, pouco a pouco, favorecer uma amizade entre as palavras, propor uma relação entre o sintoma atual e uma repetição do passado, um laço novo entre as palavras, que permita ao sujeito apreender a si mesmo de uma maneira diferente. É muito justo o que ele diz. E pode ser que a época atual nos empurre a sermos um pouco mais ativos nas entrevistas preliminares, a fim de produzir esse amor ao inconsciente.
- Se a demanda de muitos sujeitos hoje não é mais subjetivar a lógica de sua alienação ao desejo do Outro, mas sim buscar um espaço de “respiração” contra o imperativo do “Goza!”, como a direção do tratamento pode ser pensada na contemporaneidade?
Nós constatamos o imperativo a uma vida intensa, uma aceleração no nível do tempo, produzindo patologias do excesso, do demasiado, do tipo burnout. No consultório, ouvimos a reação a esse excesso: uma culpabilidade ligada à “perda de tempo” por ter passado horas a fio “rolando a tela” nas redes sociais, o que acaba por deixar o sujeito com um sentimento de completo vazio.
A proliferação dos objetos de consumo busca apagar a divisão subjetiva. O supereu ordena gozar sem limites e, ainda assim, o sujeito vem dizer ao analista que há uma falta de satisfação. Há alguns anos, Marie-Hélène Brousse (2012) deu uma conferência em que lembrou a canção dos Rolling Stones: “I can’t get no satisfaction, and I try, I try, I try”, eles são gênios! Eles interpretam a época de uma maneira tão engraçada e irônica. É assim que alguns sujeitos chegam ao consultório: eu já tentei tanto e, não, eu não consigo encontrar satisfação!
Não tenho resposta pronta, mas talvez esse amor pelo inconsciente lhe abrirá um lugar para a própria respiração, convidando-o a entrar em uma outra dimensão de si mesmo, de uma experiência outra da existência que não visa nem a remediar, nem a tamponar a perda, mas sim aliviá-la, o que implica dar um lugar ao vazio e à perda como causas do desejo, e não sua recusa.
- Atualmente, de que Supereu se trata, este que vem com toda esta potência? Seria o do pai gozador (Supereu arcaico) ou o do pai morto?
Essa resposta mereceria um desenvolvimento muito grande e eu prefiro direcionar o leitor ao último capítulo do Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante (LACAN, 1971/2009), que Miller intitulou na edição: “Do mito forjado por Freud”. Lacan se entrega a uma luminosa leitura invertida entre o mito de Édipo e o de Totem e Tabu, mostrando as modificações do laço que enoda a lei, o desejo e o gozo. O que é certo é que o antigo modo – primeiro a interdição e depois o desejo (sempre transgressivo), com a mãe ocupando o estatuto de objeto desejável pois é o interdito absoluto –, essa relação entre a interdição e o objeto do desejo, se modificou hoje, pois o discurso capitalista não apresenta os objetos como proibidos, mas como uma possível fonte de satisfação total e sem resto – menos interdição e mais mandato.
Tradução: Michelle Sena
Revisão: Daniela Viola
Referências
BROUSSE, M.-H. Conferencia “I can´t get no satisfaction”: una interpretación de los Rolling Stones a la luz del Psicoanálisis. In: El superyó, del ideal hacia el objeto: perspectivas políticas, clínicas y éticas. Córdoba: Babel Editorial, 2012, p. 9-26.
LACAN, J. Le séminaire, livre XXI: Les non-dupes errent. 1973-74. (Trabalho inédito).
LACAN, J. O Seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. (Trabalho original proferido em 1971).
LACAN, J. Note sur le père. La Cause du désir, n. 89, mar. 2015.
MILLER, J.-A. Une fantaisie. Mental, n. 15, fev. 2005.
[1] Cf.: KORETZKY, C. Du nouage par le social. Mental – Revue internationale de psychanalyse: Gourmandise du Surmoi, n. 50, p.67-72, nov. 2024.
[2] Jogo de palavras em francês com Les non-dupes errent (“Os não tolos erram”) e Les noms du père (“Os nomes do pai”).
[3] Disponível no perfil do Instagram da EBP-Bahia. Cf.: Acesse aqui


