bússola

O enigma do ato[1]

Lucia D’Ángelo
(AME-ELP/AMP)

“O analista sabe ou não sabe
o que faz no ato psicanalítico?”
(LACAN, 1968-69/2008, p. 336)

O contexto

Nos trabalhos preparatórios das últimas Jornadas da ELP – El acto a-tiempo. Clínica de las consecuencias –, chamou nossa atenção essa pergunta que Lacan formulou e que nos interroga como analistas e como praticantes da psicanálise.

Como se evoca no texto de apresentação das Jornadas (MONTALBÁN; VICENTE, 2025), o ato analítico não é suscetível de ser ensinado, standarizado ou protocolizado, e implica, por isso mesmo, uma lógica e uma ética precisas, próprias do discurso analítico que o convoca. Dessa forma, pareceu-nos oportuno recorrer ao contexto em que Lacan se interroga sobre o ato analítico.

Uma primeira leitura nos levou à contracapa do Seminário 15, O ato psicanalítico (1967-1968), apresentado assim por Jacques-Alain Miller (2025, s.p.):

Este Seminário marca uma virada. Ele trata de uma só questão, à qual Lacan até então só havia respondido indiretamente: o que é um analista? […] é um analisante que levou a termo a experiência analítica. Qual é esse termo ideal? Para sabê-lo, convém articular a lógica do percurso de uma análise.

Miller destaca também a conclusão inesperada desse Seminário, na qual Lacan, ao final, comenta os acontecimentos de maio de 68.

O ato analítico, tal como abordado por Lacan, destaca não apenas a vertente clínica e epistêmica do conceito, mas também sua vertente política. Política que concerne, sobretudo, à formação dos analistas no contexto recente da fundação de sua nova Escola. Lacan se propõe, no âmbito das “sociedades analíticas existentes”, a fundar sua Escola e a orientar a formação dos analistas por uma ética, e não por uma “etiqueta”, a qual, segundo ele, provoca os maiores desvios da psicanálise, por se basear em uma hierarquia de “cooptação de sábios” que avalia o candidato em função de normas e regras estabelecidas: “Na ética que se inaugura pelo ato psicanalítico – menos ethiqueta, perdoem-nos, do que jamais se vislumbrou ao se haver partido do ato – a lógica manda, isso é certo, por nela encontrarmos seus paradoxos” (LACAN, 1969/2003, p. 376).[2]

Assim, em O ato analítico, quando nos referimos à vertente política, a questão do ato concerne principalmente à “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola” (LACAN, 1967/2003, p. 248). Recordemos a premissa ali evocada: “O ato psicanalítico, ninguém sabe, ninguém viu além de nós […], eis que nós o supomos a partir do momento eletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista” (LACAN, 1969/2003, p. 371).

A “Proposição” de 1967 para os analistas da Escola se baseia em um princípio: o analista não se autoriza senão de si mesmo. Que o analista se autorize de si mesmo não exclui que a Escola garanta ao analista, de acordo com sua formação. É assim que Lacan inclui o tema do ato no centro mesmo de sua Escola. Ele se pergunta, dois meses depois, se sua “Proposição” foi um ato. A resposta a essa pergunta é contundente: “É o que depende de suas consequências, desde as primeiras a se produzir” (LACAN, 1970/2003, p. 261). Ato e consequências constituem a dupla que é necessário pôr em jogo na experiência analítica. Sabemos que foi a decepção que levou Lacan a tratar do lugar do fracasso no ato. Mas, em seu caso, não se trata de um fracasso sem consequências:

Minha proposição reside neste ponto do ato; pelo qual se revela que ele nunca tem tanto sucesso como ao falhar [rater], o que não implica que o erro [ratage] seja seu equivalente, ou, dito de outra maneira, possa ser tido como um sucesso. (LACAN, 1970/2003, p. 270)

Nesse contexto complexo em que Lacan reflete sobre o ato analítico, Jacques-Alain Miller (2007) propõe uma orientação de leitura – “Uma leitura do Seminário, livro 16: ‘De um Outro ao outro’” – para periodizar logicamente os textos da época. Segundo Miller, os Seminários 14 e 15, A lógica do fantasma e O ato psicanalítico, apoiam-se no grupo de Klein, embora Lacan os utilize de modo distinto.[3]

Na articulação desses dois Seminários, Lacan introduz a “Proposição” de 1967, na qual se apoia a “prova” do passe praticada nas Escolas da AMP. Sem dúvida, o passe teve de se atualizar à luz do progresso da doutrina em Lacan – no que concerne ao final da análise –, mas o princípio desse dispositivo da Escola prossegue em seus termos iniciais.

Ao mesmo tempo, Miller indica que, nos Seminários 16 e 17, De um Outro ao outro e O avesso da Psicanálise, vê-se “tremer” aquilo que concerne a uma prática lógica em psicanálise. Trata-se do objeto a, que muda de estatuto, embora, de saída, se ponha em evidência por ter perdido o privilégio do lugar que ocupava no fantasma, como objeto imaginário. Trata-se, assim, de uma mudança de paradigma da função do grande Outro e do objeto a. Esse “tremor” na prática nomeia a “confrontação” (MILLER, 2007, p. 20) entre o saber e o gozo, que abre para novos parâmetros não apenas do passe, mas da própria prática da psicanálise.

Saber e gozo

Voltando ao contexto da reflexão de Lacan sobre o ato analítico, em seu Seminário De um Outro ao outro ele retoma o conceito – cuja elucidação havia ficado interrompida no ano anterior – para dizer que a psicanálise revela que a dimensão própria do ato – do ato sexual, mas também de todos os atos – “é o fracasso” (LACAN, 1968-69/2008, p. 334). Isso porque, no centro da relação sexual, encontra-se a castração.

Jacques-Alain Miller, anos mais tarde, em Política lacaniana, enfatiza que a “política lacaniana” não é alheia à clínica, pois a política da cura depende da concepção da conclusão da análise, por meio do passe e com o conceito de Escola. Assim, julgar o ato por suas consequências, isto é, que o estatuto do ato dependa de suas consequências, “é, para mim, um princípio cardeal da política lacaniana” (MILLER, 2017, p. 94).

Coloquemos essa afirmação em contexto, na história recente das Escolas do Campo Freudiano. Esses seminários se desenvolveram no âmbito da crise que atravessou a AMP nesse período. Como é afirmado na apresentação do texto sobre Política lacaniana: “No coração desta análise se aloja a pergunta: o que é ser um analista e como se opera com o que resulta do final de análise” (MILLER, 2017, p. 7). Uma vez mais. Com efeito, na prática lacaniana que se deriva do ato analítico – prática que não responde ao standard, mas que não é sem princípios –, remetamos nossa leitura aos “Princípios diretores do ato analítico”, de Éric Laurent (2007), vigentes nas Escolas da AMP, para nos orientarmos. Se se trata de atualizar nossos conceitos, isso não pode ser feito sem elucidar uma formulação renovada do ato em seu estatuto lógico no último ensino de Lacan, sem deixar de interrogar o lugar mesmo do analista.[4]

 O paradoxo e o enigma

Voltemos à epígrafe que preside este texto e que suscitou nosso interesse por esse comentário: “O analista sabe ou não sabe o que faz no ato psicanalítico?” (LACAN, 1968-69/2008, p. 336). A pergunta surge no Seminário De um Outro ao outro, no capítulo XXII, intitulado por Miller como “Paradoxos do ato psicanalítico”.

Lacan introduz um paradoxo da seguinte maneira: o ato psicanalítico se apresenta como uma incitação ao saber, com a regra, para o analisante, de que ele pode dizer tudo o que quiser. Com efeito, se isso fosse possível, esclarece Lacan, ele diria tudo o que quisesse, com a condição de que isso fizesse sentido para ele. O “insensato” de embarcá-lo nessa empreitada é que, digam o que disserem, o que está implícito é que há um Outro que sabe o que isso quer dizer. Esse é o princípio do sujeito suposto saber.

Segundo Lacan, a experiência analítica é o privilégio do sujeito neurótico, isto é, dos sujeitos que colocam no horizonte que o Outro sabe, como lugar onde o saber se institui. Assim, a interpretação analítica se distingue porque, naquilo que se articula como saber, visa a um efeito de saber que se torna sensível à verdade. Portanto, o analista induz o sujeito a comprometer-se a percorrer o caminho que o conduz ao encontro de um sujeito suposto saber, que o leva à verdade. Ao término da operação, há a evacuação do objeto a; o analista cai. Precisamente, quanto à função do objeto a, Lacan se pergunta se deve considerá-lo apenas como aquilo que assinala o sujeito da verdade, como divisão, ou se deve outorgar-lhe maior substância (hypokeimenon).

Esse é o enigma e o paradoxo do ato analítico. Se é verdade que o analista sabe o que é uma análise e a que ela conduz, como pode proceder a esse ato? Que realidade o impele a exercer essa função? Que desejo, que satisfação encontra?

Analisante – Analista

Embora essas questões do lado do analista não se resolvam de imediato, o que surpreende, no par analisante-analista, é que Lacan destaca que o ato primeiro e “decisivo” é o ato do analisante. É por seu ato que faz surgir, inaugurar-se, instaurar-se, o analista. O trabalho do analisante faz o analista, no sentido forte do termo, assim como, ao mesmo tempo em que surge o analista, é porque seu ato se reduz a se fazer de analista, isto é, a se fazer daquele que garante o sujeito suposto saber (LACAN, 1969/2003, p. 375).

Nesse jogo aparente da função do fazer fazer o, se fazer de –, Lacan se pergunta se a qualificação de psicanalista se sustenta apenas do labor – do trabalho – do analisante. É preciso estabelecer a conjunção entre o labor e o ato. Se não há analista sem analisante e o objeto a que está em jogo é o analista no lugar de “ficção” do objeto a, isso significa que o psicanalista não é todo objeto a.

É necessário que o psicanalista saiba o seguinte:

Em primeiro lugar, o sujeito suposto saber é justamente aquilo sobre o que repousava a transferência, considerado como um dom do céu. Mas, em segundo lugar, que a partir do momento em que se revela que a transferência é o sujeito suposto saber, ele, o psicanalista, é o único a poder questionar a suposição tão útil para se envolver na tarefa psicanalítica, o único a saber que há um que já sabe de tudo isso, de tudo o que vai se passar. (LACAN, 1967-68/2025, p. 134)

“O analista sabe ou não sabe o que faz no ato psicanalítico?” (LACAN, 1968-69/2008, p. 336). Um analista nunca está à altura do ato, mas sim de se fazer responsável pelo que fez.

Tradução: Cecília Lana
Revisão: Giselle Moreira

 

Referências

LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 248-264. (Trabalho original publicado em 1967).

LACAN, J. O ato psicanalítico: resumo do Seminário de 1967-1968. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 375-379. (Trabalho original proferido em 1969).

LACAN, J. Discurso na Escola Freudiana de Paris. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 288-298. (Trabalho original proferido em 1970).

LACAN, J. O Seminário, livro 16: De um Outro ao outro. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro; preparação de texto de André Telles; versão final de Angelina Harari e Jésus Santiago. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008. (Trabalho original proferido em 1968-69).

LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).

LAURENT, É. Princípios diretores do ato analítico. In: Sociedade do sintoma: a psicanálise, hoje. Tradução de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Contracapa, 2007.

MILLER, J.-A. Uma leitura do Seminário, livro 16: “De um Outro ao outro”. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 48, 2007.

MILLER, J.-A. El acto entre intención y consecuencia. In: Política lacaniana. Buenos Aires: Colección Diva, 2017.

MILLER, J.-A. Contracapa. In: LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025.

MONTALBÁN, M.; VICENTE, V. El acto a-tiempo. Clínica de las consecuencias. In: XXIV Jornadas de la ELP – Presentación. Málaga, 22-23 nov. 2025. Disponível em: www.jornadaselp.com. Acesso em: 17 mai. 2026.

Notas

[1] Texto originalmente publicado como “El enigma del acto”, no número 105 da revista Freudiana, em 2026, e traduzido para o boletim Artefato com a amável autorização da autora, a quem agradecemos.

[2] Nota do Tradutor: na edição brasileira dos Outros Escritos, ver nota 3, na p. 376, em que se lê: “Éthiquette (e não étiquette), que remete à própria ética (éthique)”.

[3] Nota da Autora: Por razões que nos impõem os limites do presente texto, não seguiremos passo a passo o desenvolvimento conceitual que propõe Miller nesses seminários, sem dúvida imprescindíveis para o tema.

[4] N.A.: Tradução de minha autoria a partir de: LAURENT, É. Cinco encuentros on-line sobre el tema “La práctica analítica y su orientación lacaniana”. Quinto encuentro: “El acto analítico”. Radio Lacan, 28/02/2020.

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