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Três perguntas a Ludmilla Féres Faria, diretora da EBP – MG
Equipe Artefato – “Psicanálise: modos de usar”. Se a psicanálise se recusa ao estatuto de manual de instruções – tendo como regra única e fundamental o par associação livre/escuta equiflutuante (Freud, 1912/2016) –, como a Jornada pretende abordar a ideia de um “modo de usar”?
Ludmilla Féres – No texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan (1958/1998) parte do enigma do desejo do analista para afirmar que dirigir a cura não é dirigir o paciente, nem sua vida. A ação do analista tampouco visa ao “bem” do analisante: ele não é um guia moral. Sustentar tal posição reduziria a práxis analítica ao exercício de um poder (LACAN, 1958/1998, p. 592). A regra da associação livre aparece, então, como um antídoto a esse poder, na medida em que o saber se produz do lado do analisante. Assim, a direção do tratamento consiste em fazer com que o sujeito aplique essa regra, “fazer o paciente esquecer que se trata apenas de palavras” (LACAN, 1958/1998, p. 592).
Quem procura uma análise chega sem saber o que lhe ocorre e o modo de tratar esse “não saber” diferencia a psicanálise de uma psicoterapia. Nesta, tende-se a conduzir o sujeito à posição de saber – por meio de técnicas, conselhos e prescrições –, estabelecendo uma relação contratual em que a causa do sintoma se mantém. Já a psicanálise visa a cernir a opacidade que se repete no sintoma e no mal-estar. Pela transferência, busca-se fazer surgir uma questão própria ao sujeito, deslocando-o da queixa dirigida ao Outro para uma interrogação sobre seu desejo.
Cabe ao analista sustentar essa operação, suspendendo certezas e operando separações em relação às identificações. A interpretação, nesse contexto, não visa a produzir novos sentidos, mas desfazer fixações, abrindo caminho para o que há de mais singular em cada sujeito.
Nessa perspectiva, a direção do tratamento orienta-se por uma pragmática do real: não visa a um ideal, mas a uma nova relação com o gozo. Se, desde 1958, Lacan já afastava qualquer padronização técnica – não há standard, mas usos da transferência e da interpretação –, essa orientação avança ao conceber a psicanálise menos como um saber a aplicar e mais como uma prática a ser usada.
Ancorada na finalidade do discurso analítico, isto é, em sua dimensão clínica, convidamos os praticantes de nossa comunidade a apresentarem, na 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: modos de usar [1], a partir de sua experiência, como a presença do analista incide na direção do tratamento em sua prática.
Equipe Artefato – Ao apresentar algumas recomendações para “o exercício do tratamento analítico”, Freud (1913/2016, p. 121) lembra que não se pode aprender o jogo do xadrez por meio de livros, que representam exaustivamente apenas as jogadas de abertura e as jogadas finais, “enquanto a enorme variedade das jogadas que começam a partir da abertura acaba frustrando tal representação”. Ele indica, no entanto, que essa lacuna na aprendizagem do xadrez pode ser preenchida pelo estudo aplicado de partidas de enxadristas experientes. Nessa célebre comparação, a experiência aparece, então, como um elemento fundamental na formação. Quanto à psicanálise, Freud recomenda que cada caso seja tratado como primeiro e único, de maneira que a experiência prévia de um analista não interfira num tratamento. Como pensar nos “modos de usar”, ao considerar a complexidade de uma prática que conjuga a experiência – da análise de cada um e de sua clínica – com a singularidade de cada caso?
Ludmilla Féres – A recomendação de Freud encontra eco em Lacan, que a radicaliza: na direção do tratamento, o analista deve suspender não apenas a referência a outros casos, mas também à sessão anterior, de modo que cada sessão valha por si. Esse manejo do tempo introduz uma descontinuidade e destaca o caráter de acontecimento de cada encontro.
Nessa perspectiva, os “modos de usar” não correspondem a um conjunto de técnicas, mas a uma posição ética. A experiência – da análise pessoal e da prática clínica – não orienta pela repetição, e sim pela capacidade de sustentar o não-saber, escutar sem antecipações e responder à singularidade de cada caso.
Tratar cada caso como primeiro e único não apaga a experiência, mas transforma-a. Ela deixa de ser um repertório de soluções e torna-se condição de abertura à contingência. Assim, os “modos de usar” da psicanálise se inventam a cada vez, na articulação entre a formação do analista e o encontro singular com um sujeito.
Equipe Artefato – Em seu ensino, Lacan designa a psicanálise não como um contrato entre analisante e analista, mas, como destaca Graciela Brodsky (2009) em seu seminário El acto analítico, um artefato que visa não a consertar, normalizar, mas, inversamente, obter a falha da engrenagem, ou, ainda, a pedra em que se tropeça.
Ludmilla Féres – Lacan situa como falha estrutural a inexistência da relação sexual: nada vem suturar a distância entre os sexos. A erótica, assim, não se submete à norma; ela é extranormativa. Como indica Miller (2011, p. 36), é justamente por sustentar o direito à diferença que a prática analítica permanece sempre em risco.
Se o desejo implica o ser que fala – e é falado – como um “não como todo mundo”, o discurso analítico toma esse desvio como afirmação da singularidade, em oposição ao discurso do mestre, que tende a normatizar e a reconduzir os sujeitos ao “como todo mundo”.
Assumir essa orientação é reconhecer um limite inaugural da prática: há um impossível que não muda. Daí a advertência: “Não sonhe com curar! Não te gabes de teus êxitos terapêuticos! Olhe o que não muda!” (MILLER, 2011, p. 100). Não há Outro que nos dê a solução universal para suportar o real, mas um encontro é possível. Não se trata de buscar uma comunicação universal entre os seres falantes. Entretanto, afirmar esse ponto de impossibilidade não equivale a negar efeitos. Ao contrário, é o que torna a prática eficaz: a aposta de que se pode falhar de um bom modo.
O analista, então, aposta no material linguageiro de cada um para fazer-se um parceiro feito sob medida a outro ser falante. Nesse sentido, os testemunhos do passe demonstram como cada falasser pode se haver com esse furo da não relação sexual e inventar – isto é, escrever – uma resposta singular, ali onde se instala o impossível de dizer.
Referências
BRODSKY, G. Fundamentos. El acto analítico. Cuadernos del Instituto Clínico de Buenos Aires, n. 5, 2009.
FREUD, S. Sobre o início do tratamento. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. Vol. 6. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. (Trabalho original publicado em 1913).
LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).
MILLER, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2011.
Equipe Artefato
Coordenação:
Daniela Viola
Michelle Sena
Integrantes:
Ana Helena Souza
Cecília Lana
Francisco Matheus Barros
Giselle Moreira
Letícia Mello
Marcela Baccarini
Patrícia Ribeiro
[1] O título da 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: Modos de usar, faz menção ao livro A vida modo de usar de Georges Perec (1978), e foi sugerido por Sérgio Laia, após discussão com os participantes da Comissão Científica.


