corte e costura

Vinícius Lima (EBP/AMP)

A nova alienação de Lacan, o que é? A antiga alienação servia para definir o recalque mediante a escolha forçada, inclusive para indicar do modo mais simples como poderia inscrever-se no campo do inconsciente como eclipse do sujeito. A nova alienação funda algo completamente distinto. Funda, pelo contrário, o rechaço do inconsciente.

MILLER, J.-A. 1, 2, 3, 4: Los cuatro de Lacan – Tomo II (1984-85). Buenos Aires: Paidós, 2022. p. 156, tradução nossa.

Esta citação indica a novidade introduzida por Lacan nos Seminários 14 e 15. No Seminário 11, a alienação era introdução ao inconsciente, pelo par alienante S1-S2, que eclipsava o sujeito, ao consentir com a perda do ser para entrar no sentido. Agora, trata-se de seu avesso: uma alienação à pulsão, que rechaça o inconsciente. Seu matema: S(Ⱥ). Uma alienação sem Outro, correlata de uma época em que “ninguém acredita [no] Outro” (LACAN, 1966-67/2024, p. 115), de modo que cada um está sozinho com o próprio gozo.

No Seminário 14, o ser muda de estatuto e se opõe não ao sentido, mas ao pensamento. No cogito lacaniano, o pensamento não alcança o ser; pelo contrário, o exclui: sou onde não penso, penso onde não sou. E, diante de um Outro “desaparecido” (LACAN, 1966-67/2024, p. 116), a constituição do sujeito o leva a uma escolha forçada pelo ser, que consiste num “ser-Eu”, esse “falso-ser” de todos nós, implicando um “Não penso” para adormecer no ser das identificações. A novidade é que essa escolha pelo “ser-Eu” carrega consigo um “não-Eu”: “essa estranha anomalia positivada” (LACAN, 1966-67/2024, p. 103) que é o Isso, oposto ao inconsciente.[1]

Se o inconsciente é correlato do “vazio”, expresso na surpresa que suas formações produzem no sujeito ao ver desaparecer sua estabilidade no ser, o Isso é marcado pelo “cheio”, como o caldeirão pulsional freudiano, mais próximo da dimensão do gozo (MILLER, 2022, p. 175, tradução nossa). Assim, a nova alienação – a escolha forçada pelo ser-Eu, implicando um “Não penso” e, logo, um rechaço do inconsciente – seria caracterizada pela presença das pulsões e do gozo, mediante a rejeição do Outro: o sujeito, então, “imagina ser senhor de seu ser, isto é, não ser linguagem” (LACAN, 1969/2003, p. 324), visando “manter seu ser de identidade” (MILLER, 2022, p. 135, tradução nossa), o que resulta num “sujeito sem inconsciente”. Concluímos com uma pergunta pelas invenções que essa conjuntura exige: o que pode ser um analista na clínica da nova alienação?

Referências

LACAN, J. O Seminário, livro 14: A lógica do fantasma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2024. (Trabalho original proferido em 1966-67).

LACAN, J. A lógica da fantasia. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 323-328. (Trabalho original proferido em 1969).

MILLER, J.-A. 1, 2, 3, 4: Los cuatro de Lacan – Tomo II (1984-85). Buenos Aires: Paidós, 2022.

[1] Conforme nos orienta Sérgio Laia no cartel do Eixo “Separar”, o Isso como presença da pulsão é o fator de novidade nessa nova alienação. O trabalho nesse cartel foi decisivo para as extrações deste texto.

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