corte e costura
“Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe.”
LACAN, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. (Trabalho original proferido em 1975-76-). p. 18.
“Se vocês são psicanalistas, verão que o forçamento é por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido. O sentido ressoa com o auxílio do significante. Mas o que ressoa não vai longe, é antes flexível. O sentido, tampona. Mas, com o auxílio do que chamamos escrita poética, vocês podem ter a dimensão daquilo que poderia ser a interpretação analítica.”
LACAN, J. Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana, n. 22, agosto/1988. (Trabalho original proferido em 1977). p. 10.
“Não é pelo fato de o sentido de sua interpretação ter surtido efeitos que os analistas estão com a verdade, pois, mesmo que ela seja precisa, seus efeitos são incalculáveis. Ela não atesta saber algum, visto que, tomando-o em sua definição clássica, o saber se verifica por uma possível previsão.”
LACAN, J. Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1973). p. 555.
“A interpretação não é um fragmento de construção incidindo sobre um elemento isolado do recalque, como o pensava Freud. Ela não é a elucubração de um saber. Ela não é tampouco um efeito de verdade logo absorvido pela sucessão das mentiras. A interpretação é um dizer que visa ao corpo falante para produzir nele um acontecimento, para passar para as tripas, dizia Lacan. Isso não se antecipa, mas se verifica a posteriori, pois o efeito de gozo é incalculável. Tudo o que a análise pode fazer é afinar-se com a pulsação do corpo falante para se insinuar no sintoma. Quando se analisa o inconsciente, o sentido da interpretação é a verdade. Quando se analisa o falasser, o corpo falante, o sentido da interpretação é o gozo. Esse deslocamento da verdade ao gozo dá a medida do que se torna a prática analítica na era do falasser.”
MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: O osso de uma análise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p. 136.
“O psicanalista lê, mas não nos astros, não nas linhas da mão, nem nas borras de café, nem em bolas de cristal; ele lê no que se diz. Ler no que se diz, ler o que se diz, supõe uma transmutação da fala, na medida em que a fala, como tal, é precisamente isto onde não se lê o que ela diz, conforme o exprime Lacan. A interpretação supõe a transmutação da fala em escrita.”
MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção lacaniana, n. 56/57, 2010. p. 68.
“Para cada um, sua prática da interpretação é estritamente correlativa à noção que se formou a partir do inconsciente. Inconsciente e interpretação caminham lado a lado. Quando vocês dizem como interpretam, ao mesmo tempo dizem que noção do inconsciente vocês têm. Sua prática interpretativa mostra exatamente em que ponto da elucidação do inconsciente vocês estão.”
MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção lacaniana, n. 56/57, 2010. p. 68.
“A interpretação freudiana é essencialmente uma tradução. […]
Mas a interpretação lacaniana, entretanto, se diferencia disso pela seguinte razão: Freud interrompe sua interpretação no momento em que descobre o sentido sexual dessa mensagem inconsciente cifrada. A meu ver, o que constitui propriamente a interpretação lacaniana é que ela vai além do sentido sexual; ela aponta para adiante, na direção da inexistência da relação sexual. O que vejo de diferente entre a interpretação freudiana e a lacaniana, é que a primeira se satisfaz com o sentido sexual, com a sexuelle Bedeutung, e a segunda aponta, indica a não-relação sexual.”
MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção lacaniana, n. 56/57, 2010. p. 69.
“A interpretação não é uma questão, não é um ‘talvez’, é a afirmação de um ‘há’; e na extremidade, de um ‘não há’. Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma ausência, que é de estrutura: o impossível de dizer.
O que distingue propriamente a interpretação lacaniana? Ela é lacaniana na medida em que mostra o impossível de dizer, ela o torna sensível.
“A interpretação freudiana é tradução em termos sexuais. A interpretação lacaniana não é tradução, mas revelação, ela ergue o véu sobre o que é impossível de dizer, ela lê o-que-não-se-pode-dizer, para além do recalque.”
MILLER, J.-A. A palavra que fere. Opção lacaniana, n. 56/57, 2010. p. 69.
“A partir disso, a função da interpretação mudou. A interpretação não é propor um outro sentido ou girar o sentido manifesto para fazer surgir um sentido escondido. A interpretação visa desfazer a articulação do destino para mirar o fora-de-sentido, o que quer dizer que a interpretação é uma operação de desarticulação.”
MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p.82.
“Eu dizia que a experiência depende da atitude analítica: é nisso que a experiência é o produto de uma prática. Eu dizia que ser analista é, em primeiro lugar, poder saber assumir a atitude analítica, uma atitude que é a condição do ato analítico, condição para que a experiência possa ser dita psicanalítica. Não há apenas a atitude, não se tomam apenas atitudes! Fala-se, faz-se o que se denomina interpretação. Primeiramente, a interpretação visa, no sujeito, ao seu não sei, de todo modo, é o mais imediato. Quando ele sabe, não há por que interpretá-lo. […] Quando há o eu sei, não há lugar para a interpretação. Então, será que a interpretação faz supor o saber daquele que a dá? Uma interpretação ali está para fazer ver [faire voir] para permitir ao sujeito isso-ver [ça-voir], poderia inclusive dizer – mas já seria a teoria bem avançada –, para permitir ver o isso [voir le ça]. O saber de que se trata é o de ver o isso, no sentido em que Lacan diz que a interpretação visa ao objeto a, mas não no nível do imediato, do que aparece. Neste, visamos ao não sei. Sob ele, com efeito, visa-se ao isso.”
MILLER, J.-A. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 145-146.
“Atribui a essa operação equívoca da interpretação um termo muito antigo, o de ressonância: ‘É preciso que haja no significante algo que ressoe’. O uso desse termo atravessa a totalidade de seu ensino desde seus começos. […] Pois bem, esse mesmo termo é posto em função no princípio do seminário O sinthoma, mas dessa vez recebe uma espécie de generalização, já que o conceito freudiano mesmo de pulsão faz referência a um efeito de ressonância. Lembro-me disso principalmente porque a dicotomia entre o efeito de sentido e o efeito de furo me parece ir contra a ressonância. Para falar de ressonância, basta que haja efeito de sentido. Os efeitos de sentido são ressonâncias. Em troca, o efeito de furo seria de uma ordem distinta ao da ressonância.”
MILLER, J.-A. Sentido y agujero. In: El Ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014, p. 169-170. (Tradução nossa).
“Podemos da mesma maneira nos aproximarmos daquilo do que se trata ao dizer que a interpretação se sustenta na função do furo, na mesma medida em que concentra a eficácia própria da linguagem.”
MILLER, J.-A. Sentido y agujero. In: El Ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014, p. 172. (Tradução nossa).
“A interpretação seria aqui, diz Lacan, ‘um forçamento pelo qual um psicanalista pode fazer ressoar outra coisa além do sentido’. Fazer ressoar outra coisa além do sentido, outra coisa além da ressonância, é, propriamente, acrescentar o vazio.”
MILLER, J.-A. Sentido y agujero. In: El Ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2014, p. 180. (Tradução nossa).
“Na psicanálise do sujeito, a interpretação está em relação com a verdade, mas ao longo da análise, não é o caso. Como Lacan o disse, não é porque o sentido de sua interpretação tenha efeitos que os analistas estão no campo do verdadeiro. Avalia-se a interpretação pelo acontecimento de gozo que, no longo prazo, é capaz de engendrar. A psicanálise está em relação com o que produz gozo.”
MILLER, J.-A. El psicoanálisis líquido. In: Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015, p. 216. (Tradução nossa).
“Uma vociferação não é uma proposição; não é nem verdadeira, nem falsa. Ela condensa, e até mesmo inaugura, a posição do analista, que não consiste apenas em tocar no significante e interpretar, mas também em apontar desde o início e verificar que o sujeito está ligado ao gozo, está inscrito no gozo, se desprende do gozo e que, com as diversas maldições que o afetam, fabrica os meios para sustentar esse gozo. Por isso também, a boa vontade, a assistência, as diferentes formas pelas quais hoje se disfarça a piedade – pronunciemos seu nome – não estão em conformidade com essa vociferação.”
MILLER, Jacques-Alain. Cada uno en su mundo. In: Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015, p.335. (Tradução nossa).
“A interpretação não é o que se escreveria como S(A). Já sabemos o que é uma interpretação que seria apenas o significante aportado pelo Outro. É o que chamamos de sugestão, que se mantém no nível do Outro da alienação. Nesse sentido, ela não realiza nada além de uma identificação. O cálculo próprio da interpretação analítica deve situar-se no nível do significante S(Ⱥ) , e não é possível evitar – é isso que defendo – calcular seu efeito de significação para que possa valer como resposta do real. Nesse sentido, a interpretação aponta para a causa do desejo.”
MILLER, J. -A. Los quatro de Lacan: 1, 2, 3, 4 – Tomo II. Buenos Aires: Paidós, 2022, p. 82. (Tradução nossa).
“O fato de que o sujeito do inconsciente possa ser qualificado como ‘eu não sou’ é indicado pelo fato de que esse sujeito não pode dizer ‘portanto, eu sou’. Ele está, ao contrário, muito mais inclinado a se manifestar como negação, ou seja, como um ‘eu não sou aí’. Ele desaparece nas formações do inconsciente. Daí o valor da interpretação, que é precisamente o esforço para identificar o sujeito ali onde ele desapareceu sob o significante.”
MILLER, J. -A. Los quatro de Lacan: 1, 2, 3, 4 – Tomo II. Buenos Aires: Paidós, 2022, p. 179. (Tradução nossa).


