bússola
Elisa Alvarenga (AME-EBP/AMP)
Freud e a sugestão
Ao buscar em Freud os fundamentos da transferência, encontramos a ambição, reencontrada no Lacan de “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, de distinguir a transferência da sugestão, inicialmente atrelada ao tratamento pela hipnose. No entanto, desde 1912, em “A dinâmica da transferência”, Freud (1912/2017, p. 116) considera que “cuidamos da autonomia final do paciente, na medida em que utilizamos a sugestão para fazê-lo desempenhar um trabalho psíquico que tem como resultado necessário uma melhora duradoura de sua situação psíquica”. Já nesse texto, Freud define a transferência como repetição, dirigida ao analista, das maneiras de estabelecer vínculos eróticos, ao mesmo tempo veículo de cura e resistência poderosa ao tratamento. Este último procura rastrear a libido, torná-la acessível e útil, liberando-a de seus complexos inconscientes.
Em “Observações sobre o amor transferencial”, Freud (1915/2020, p. 177) enfatiza o caráter “autêntico” do amor de transferência, reafirmado por Lacan, e, em sua Conferência XXVII, ele dirá que “abandonamos a hipnose apenas para redescobrir as sugestões na forma de transferência” (FREUD, 1917/1976, p. 519). O que não surpreende, se em “Psicologia de grupo e análise do ego” ele define a sugestão como “uma convicção que não está baseada na percepção e no raciocínio, mas em um vínculo erótico” (FREUD, 1921/1976, p. 161).
Lacan (1958/1998), em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, critica os pós-freudianos por pensarem que a interpretação deve aguardar a consolidação da transferência, pois foi ao localizar, através de uma primeira interpretação, a posição do Homem dos Ratos e de Dora, que Freud estabeleceu a relação transferencial. Assim, Lacan mostra que, para Freud, não se trata de adaptar o paciente à realidade, mas de perturbar sua estranha adaptação e até fabricação dessa realidade. Por isso os casos de Freud são tão preciosos:
Pois ele reconheceu prontamente que nisso estava o princípio do seu poder, no que esse não se distinguia da sugestão, mas também que esse poder só lhe dava a solução do problema na condição de não se servir dele, pois era então que assumia todo o seu desenvolvimento de transferência. (LACAN, 1958/1998, p. 603)
A presença do analista e o sujeito suposto saber
No Seminário 11, Lacan (1964/1985, p. 121) introduz a presença do analista como uma manifestação do inconsciente, que se abre e se fecha em uma certa pulsação temporal. É na “Proposição de 9 de outubro” (LACAN, 1967/2003, p. 253) que ele formaliza o matema do sujeito suposto saber, embora a figura de Sócrates, no Seminário A transferência, já encarne o objeto de amor agalmático suposto portar em si um saber. No algoritmo do sujeito suposto saber, o significante da transferência, que faz enigma para o sujeito, se dirige ao significante qualquer do analista, do qual se espera obter o sentido do primeiro, produzindo a emergência de uma cadeia significante inconsciente no sujeito.
S ———–> Sq
———————
s (S1,S2,…Sn)3
Mas, se debaixo da barra, o s representa o sujeito resultante que implica dentro dos parênteses o saber, supostamente presente, dos significantes no inconsciente, essa significação faz as vezes de referencial ainda latente na relação que o liga ao par significante-significado, reintroduzindo a dimensão libidinal da transferência. Não mais em termos imaginários, como no Seminário A transferência, mas em termos de objeto, real, de gozo, que o analisante deposita no analista para constituir o Outro da transferência.
Em 1973, Lacan (1973/2003, p. 555) diz que a transferência “é amor que se dirige ao saber”, “sentimento que assume aí uma forma tão nova, que esta introduz a subversão, não porque seja menos ilusória, mas porque dá a si um parceiro que tem a chance de responder”. Amor, e não desejo, porque a grande paixão do ser falante é a ignorância. Lacan acrescenta que o que faz a entrada na matriz do discurso não é o sentido, mas o signo. Assim, se o que vem primeiro é o signo de gozo, e não o desejo de saber, podemos entender porque, ao falar da transferência na clínica contemporânea, Miller (2005, p. 18) nos aponta uma inversão quanto ao fato de dizermos que o sujeito suposto saber é o pivô da transferência: “parece-me que o último Lacan diz outra coisa. Diz ele: a transferência é o pivô do sujeito suposto saber […] o que faz existir o inconsciente como saber é o amor”.
Em tempos do Outro que não existe, cada um fala sozinho, qualquer que seja a estrutura, exceto, como diz Lacan (1977/1998, lição de 10/05/1977, p. 12) no Seminário 24, se nos abrimos ao diálogo com um psicanalista: “Há Um, mas não há nada do Outro. O um dialoga sozinho, pois recebe sua própria mensagem de forma invertida. É ele quem sabe, e não o suposto saber”.
Jean Luc Monnier (2023) acrescenta que ele recebe sua mensagem a partir do Outro que ele mesmo constrói para lhe fornecer a resposta, o que leva Lacan (1977/1998, lição de 19/04/1977, p. 9) a se perguntar se a psicanálise não seria um autismo a dois. O que Lacan chama de sujeito suposto saber não passa de uma ficção, um fato de linguagem, que tem valor de uso, incidência sobre o gozo. Colocar o analista como sujeito suposto saber é uma construção do analisante, que supõe colocar, no Outro, o objeto a.
Mas essa montagem constitui o analista como aquele que segue o paciente, como diz Lacan (1977/1998, lição de 10/05/1977, p. 12) no Seminário 24. O analista acompanha a construção do fantasma na neurose e do delírio, ou outras amarrações, na psicose. Ele faz par com o sintoma do paciente, que se encontra ligado ao seu parceiro analista, parceiro de gozo.
Retorno à sugestão
No Seminário 24, Lacan (1977/1998, lição de 19/04/1977, p. 10) diz que todo discurso tem um efeito de sugestão, é hipnótico, adormecedor, salvo quando não se compreende – então ele desperta. E, assim, ele pergunta se a psicanálise opera por um efeito de sugestão (LACAN, 1977/1998, lição de 17/05/1977, p. 13). Já no Seminário 25, Lacan (1977-78, lição de 15/11/1977) diz que o psicanalista é um rhéteur, o que implica que ele retifica, opera por sugestão. Ele não impõe o que quer que seja, mas maneja os recursos da linguagem, operando no nível do gozo, e não da decifração. A psicanálise opera no e pelo discurso, fazendo uso de cortes, homofonias, equívocos, deslocamentos, silêncios. Ela usa os efeitos do significante, através da forma de dizer.
Se Freud abandonou a hipnose, ele constatou que a psicanálise também operava por sugestão. Embora Lacan (1957-58/1999, p. 435) tenha se esforçado para distinguir a transferência da sugestão, situando-as respectivamente no segundo e no primeiro andar do grafo do desejo, para o último Lacan não há discurso sem sugestão. A fala, que opera sobre o gozo, tem um efeito de sugestão. Porém, se na sugestão hipnótica o analista-mestre impõe um sentido, na análise lacaniana o analista-causa descompleta o saber do sujeito, desidentifica. Se não se pode eliminar a sugestão, pode-se fazer bom uso dela. Não para adaptar ou normalizar o paciente, ambição de uma psicoterapia, mas para permitir uma outra relação com o sintoma: fazer uso do seu sinthoma como diferença. O analista rhéteur desfaz pela palavra o que se fez pela palavra. Ao dar-se conta do alcance das palavras para seu analisante, ele faz verdadeiro o Um de gozo do paciente, faz com ele par, possibilitando, conforme o caso, deslocamentos do gozo, deslizamentos da cadeia significante e novas fixações de gozo para o paciente.
Inconsciente transferencial e inconsciente real
Se, na época do Seminário 11, o inconsciente era reconhecido pelos seus tropeços, lapsos, esquecimentos e sintomas em seu lado significante, interpretável em função de uma causa, Miller (2010, p. 144-145) diz que, no Seminário 24,
isso quer dizer outra coisa. Aqui o tropeço, ou o deslizamento de palavra a palavra situa-se como fenômeno em um tempo anterior àquele no qual pode aparecer o inconsciente, já que este só aparece a partir da une-bévue, na medida em que acrescentamos uma finalidade significante, uma significação.
Éric Laurent (2018, p. 58) articula essa frase de Miller com a transferência:
É nesse contexto que uma nova versão da transferência positiva se introduz, uma transformação por acréscimo de sentimento, por acréscimo de significação, que permite um novo uso do parceiro de gozo para ultrapassar os tropeços do um-equívoco do sujeito, quando confrontado com lalíngua e sua instabilidade, com seus deslizamentos permanentes.
Se o sentido diz respeito à cadeia significante e está articulado ao inconsciente transferencial, a significação grampeia algo do gozo e tem relação com a emergência do inconsciente real.
Miller esclarece que se vai do sinthoma, do equívoco, ou da bévue, em direção ao inconsciente, acrescentando-se um toque de sentido. Mas isso permanece um semblante, que Lacan decompõe em um sens-blanc – sentido vazio – que valoriza o arbitrário do sentido. Quando acrescentamos o sentido, a intenção inconsciente, o equívoco se torna efeito do inconsciente (MILLER, 2010, p. 145).
Miller (2010, p. 145) explica que colocamos o equívoco depois do inconsciente, mas
O forçamento de Lacan, a torção que ele impõe aqui ao analista em sua prática é o fato de ele re-situar o equívoco antes do inconsciente. Isto não abole o inconsciente, não abole o Outro, mas diferencia o Outro em Um e, portanto, faz surgir essa camada de semblantes que envolve a prática da análise.
Jean Luc Monnier (2023) esclarece que o analista acompanha o falasser na instabilidade de lalíngua, em seus deslocamentos permanentes, e torna o tropeço verdadeiro, com o objetivo de trazer o Outro de volta ao Um, ponto a partir do qual ele pode considerar a camada de semblantes que constitui sua histoeria. Lalíngua consiste em elementos equívocos, em contato direto com o gozo, e se prende ao corpo de gozo do falasser.
Quando Lacan (1977/1998, lição de 19/04/1977, p. 10) diz, no Seminário 24, que “lalíngua é um negócio comum”, entende-se que a partir do registro fonético, material, aberto a todas as ambiguidades, lalíngua permite um acordo comum que faz com que a psicanálise não seja um autismo a dois e que a interpretação seja possível.
Se, na neurose, lalíngua é recoberta pela linguagem, pelo fantasma e pelas identificações, parte-se do Outro, ou seja, das histórias familiares, para retornar ao sinthoma, ao Um de gozo produzido pelo impacto do significante sobre o corpo do falasser.
Na psicose e naqueles cujo enodamento RSI é menos assegurado, lalíngua apresenta-se abertamente no delírio ou nos sinais de abalo das defesas imaginárias, e o analista opera para grampear o gozo do Um ao Outro do significante.
Assim, se na psicoterapia a sugestão visa normalizar a relação do sujeito com o Outro, na psicanálise a sugestão inerente ao significante serve ao “tornar verdadeiro” que incide sobre a relação do falasser com seu gozo. Quando Lacan se propõe a inventar um significante novo, isso deve ser entendido, diz Miller, no contexto em que o significante e a sugestão foram conectados. Ele poderia ter um uso distinto da compreensão e do adormecimento e desencadear um despertar. Se a doença mental que é o inconsciente não desperta, talvez seja no nível do Um, mediante a identificação com o sinthoma, que o despertar tem a chance de cessar de não se escrever (MILLER, 2010, p. 148).
Mas para chegar até aí teríamos que passar pelo par: par que o analista faz com os casos de urgência, os traumas e os imperativos de gozo da pulsão. O analista é um dealer da palavra, frente aos sujeitos intoxicados pelo gozo (MILLER, 2026).
Fazer par com os casos de urgência
Trata-se de uma expressão de Lacan (1976/2003, p. 569) no final do seu “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, que aponta para a distinção do inconsciente enquanto real. Frente a esse inconsciente sem Outro, ganha relevo a observação de Lacan (1976/2003, p. 567) de que a psicanálise é praticada aos pares. Se a miragem da verdade mentirosa só tem como limite a satisfação que marca o fim da análise, “dar essa satisfação é a urgência que a análise preside” (LACAN, 1976/2003, p. 569). Lacan propõe então que interroguemos como alguém pode se dedicar a satisfazer esses casos de urgência. Seguindo o fio do nosso percurso, a formação do par, como resposta à presença traumática do furo do inconsciente real, antecederia a abertura ao saber. O analista é, então, em primeiro lugar, um parceiro do gozo do paciente. A clínica nos apresenta exemplos que demonstram como o analista pode fazer par, ali onde o inconsciente real se manifesta pelas disrupções do gozo e o inconsciente transferencial ou a suposição de saber podem surgir como consequência disso.
Referências
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FREUD, S. A dinâmica da transferência. In: Obras incompletas de Sigmund Freud: Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. (Trabalho original publicado em 1912).
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LACAN, J. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. (Trabalho original proferido em 1957-58).
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LACAN, J. Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 553-556. (Trabalho original publicado em 1973).
LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567-569. (Trabalho original publicado em 1976).
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[1] Texto apresentado no Seminário Preparatório para a 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: modos de usar, em 06 de agosto de 2026.
[2] Relatório do cartel do Eixo 2 da 28ª Jornada da EBP-MG, composto por: Anamáris Pinto, Bárbara de Faria Afonso, Bernardo Micherif, Ernesto Anzalone, Helenice de Castro, Henri Kaufmanner, Elisa Alvarenga (Mais-Um).
[3] Miller, 2011, p. 298.


