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Hamlet: Entre o saber e o ato – The rest is silence [1]

No capítulo XXVII, “Rumo à sublimação”, do Seminário 6, Lacan (1958-1959/2016, lição XXVII) retoma a crítica à prevalência da “relação de objeto” e à “normatização moralizante” (p. 504) que marcava parte da clínica de seu tempo, sobretudo diante dos chamados “casos-limites quanto à neurose” (p. 503). Contra uma clínica orientada pela adaptação do sujeito a um modelo de relação supostamente adequada ao objeto, Lacan recoloca em primeiro plano o desejo e a interpretação, preservando a dimensão de excepcionalidade que lhes é própria. Quase setenta anos depois, talvez a questão permaneça, embora sob novas formas: como usar a psicanálise sem fazê-la aderir aos ideais e valores de seu tempo?

Para abordar o eixo 3, Interpretar[2], gostaria de partir das sete lições que Lacan dedica a Hamlet no Seminário 6. Não por acaso, é no interior desse Seminário que Shakespeare ocupa um lugar tão privilegiado. Lacan encontra em Hamlet uma via para retomar a questão do desejo na experiência analítica. (LACAN, 1959/2016, lição XV, p. 296).

O que está em jogo não é decifrar Hamlet, tampouco localizar nele uma estrutura clínica. Lacan encontra não um caso clínico a ser decifrado, mas “o osso, o caroço da clínica, o lugar do desejo em si” (LACAN, 1959/2016, lição XV, p. 312). O que interessa é a estrutura produzida pela obra, esse “lugar vazio” no qual o leitor ou espectador pode situar sua própria ignorância (LACAN, 1959/2016, lição XV, p. 294). É nesse sentido que a peça se torna um verdadeiro aparelho para pensar o estatuto do desejo.

Lacan desloca, assim, a leitura tradicional centrada na relação de Hamlet com sua mãe. O problema não é simplesmente o desejo de Hamlet pela mãe, mas aquilo que se apresenta como enigma: o desejo da mãe. Na lição XV, Lacan insiste: “é o desejo […] de sua mãe” que está em questão (LACAN, 1959/2016, lição XV, p. 303).

O desejo materno aparece para Hamlet associado a uma dimensão de excesso e de gozo. Gertrudes encarna a opacidade de um desejo diante do qual Hamlet não consegue se situar. O fantasma do pai, ao revelar o crime de Cláudio, transmite um saber que não produz a garantia necessária para o ato o pai sabe, mas o seu saber não assegura: ele apenas transmite uma mensagem.

Essa é uma das torções decisivas da leitura. Hamlet sabe. Sabe que Cláudio matou seu pai, sabe qual é a tarefa que lhe foi transmitida e, ainda assim, não consegue realizá-la. O saber não conduz automaticamente ao ato.

A própria fala de Hamlet condensa essa suspensão: “To be, or not to be, that is the question.” (SHAKESPEARE, 1601/2015, III, 1, p. 111). A questão não é simplesmente uma dúvida entre agir ou não agir, ou uma fraqueza moral. Hamlet não é um covarde, um indeciso, ou um sujeito mal resolvido. Sua procrastinação é efeito de uma posição particular ela diz respeito à posição do sujeito diante do desejo e diante daquilo que o Outro lhe demanda.

É justamente aí que a peça permite pensar a diferença entre saber e interpretar.

Interpretar não é revelar um sentido oculto que finalmente encerraria a questão. É fazer operar, na fala do sujeito, algo que não se deixa reduzir ao sentido. O enigma não é uma insuficiência do saber a ser preenchida, mas aquilo que pode colocar o desejo em movimento.

Lacan formula, na lição XVI, uma das proposições fundamentais desse percurso: “não há Outro do Outro” (LACAN, 1959/2016, lição XVI, p. 314-328). O Outro não dispõe de um significante último capaz de garantir definitivamente a verdade do sujeito. A revelação do crime, portanto, não poderia produzir a resposta final procurada por Hamlet. O que aparece é a própria falta no Outro, posteriormente escrita por Lacan como S(Ⱥ).

Hamlet quer saber, quer provar, quer fazer falar o Outro. Mas cada resposta produz uma nova pergunta. O fantasma, a representação teatral, a confissão de Cláudio, Ofélia… parecem acrescentar elementos ao enigma, entretanto, sem produzir um ponto de estofo.

Ofélia ocupa, nesse percurso, uma função decisiva. Lacan acompanha sua transformação na economia do desejo de Hamlet: de objeto de exaltação amorosa, ela passa a ser violentamente rejeitada e, posteriormente, reaparece no cenário do luto. Na lição XVII, Lacan afirma que “o objeto só é reconquistado aqui ao preço do luto e da morte” (LACAN, 1959/2016, lição XVII, p. 346).

A cena do cemitério introduz então uma mudança. Diante do luto de Laertes, Hamlet encontra algo de sua própria posição. Ele salta para dentro da cova e proclama: “This is I, Hamlet the Dane!” (SHAKESPEARE, 1601/2015, V, 1 p. 179). Lacan lê esse momento como aquele em que Hamlet encontra seu desejo, numa relação renovada com o objeto (LACAN, 1959/2016, lição XV, p. 312).

É somente depois desse percurso que o ato se torna possível. No final da peça, Hamlet já não parece depender da obtenção de uma garantia absoluta. Sua frase “The readiness is all” (SHAKESPEARE, 1601/2015, V, 2, p, 188) marca uma posição diferente diante do acontecimento. Não é mais necessário saber tudo antes de agir.

A relação entre desejo e interpretação aparece, portanto, de maneira particularmente rigorosa em Hamlet. Interpretar não significa produzir o sentido último que encerraria o enigma. Ao contrário, a interpretação opera justamente onde o saber encontra seu limite.

É nesse ponto que a leitura lacaniana permanece fundamental para pensar o eixo 3: Interpretar. A interpretação não consiste em preencher a falta com um significado, mas em fazer trabalhar o ponto em que o sentido não se fecha. O que está em jogo não é eliminar o enigma do desejo, mas permitir que o sujeito se situe de outra maneira diante dele.

No fim, Hamlet diz: “The rest is silence.” (SHAKESPEARE, 1601/2015, V, 2, p. 193). Depois de toda a falação, das provas, das interpretações e das tentativas de fazer o Outro falar, resta o silêncio. Mas esse silêncio não é simplesmente ausência de palavra. Ele marca o ponto em que a cadeia significante encontra seu limite.

Talvez seja justamente aí que Hamlet nos ensine algo sobre o desejo do analista. Se a clínica não deve reconduzir o sujeito a um sistema de valores, trata-se, para o analista, de sustentar a abertura, para que, entre uma palavra e outra, no lugar mesmo onde o saber vacila, algo do desejo possa emergir.

 

Referências

HOORNAERT, G. Hamlet ou a vida segundo o significante. In: Quarto, [S. l.], n. 140, 2025. Tradução inédita de Cristina Vidigal. Originalmente publicado em: Lituraterrir: revue de psychanalyse publiée en Belgique, École de la Cause Freudienne.

LACAN, J. Sete Lições sobre Hamlet. In: O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Tradução de Claudia Berliner. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016, p. 255-363. (Trabalho original proferido em 1958-1959).

LACAN, J. Capítulo XXVII: Rumo à sublimação. In: O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Tradução de Claudia Berliner. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016, p. 503-520. (Trabalho original proferido em 1958-1959).

SHAKESPEARE, W. A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca. Tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira; ensaio de T. S. Eliot. – 1ª. Ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2015. (Trabalho original de 1601).

 

[1] O tema Hamlet com Lacan foi trabalhado no âmbito do Cartel composto por Lucíola Macedo (EBP/AMP), como Mais-um, Cristina Vidigal (EBP/AMP), Fernanda Costa (EBP/AMP), Mônica Campos (EBP/AMP), Matheus de Barros (MSC/EBP), Marina Ladeira e Renata Dinardi, bem como a partir das atividades coordenadas pela Diretoria de Biblioteca, especialmente os encontros Manhãs na Biblioteca, com a presença de Laura Rubião (EBP/AMP).

[2] Eixo 3 da 28ª Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais, intitulada Psicanálise: modos de usar.

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