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Poesia, modo de usar
Poesia, modo de usar
Lucíola Macêdo (EBP/AMP)
Década de setenta. A opressão e a censura silenciosamente disseminadas eram inaladas no ar que se respirava. O negacionismo e a desmemória perpassavam, e mais que isso, atravessavam como uma flecha amolada os interditos e os segredos de família.
Fui uma criança buliçosa. Preferia gavetas apinhadas de coisas escritas às bonecas. Nessas incursões pelas gavetas encontrava bilhetes, cartas, poemas e às vezes segredos guardados embaixo das fotografias amareladas pelo tempo. A casa dos avós e as casas da infância eram os lugares onde os livros estavam, e uma espécie de refúgio. O gosto pelas palavras escritas me levou ao encontro dos poemas de um tio que havia morrido precocemente. Uma tragédia familiar naqueles tempos já muito difíceis.
Existir passou a ter uma densidade diferente a partir da leitura daqueles poemas escritos pouco antes de sua morte. Quando o impronunciável foi tocado pela poesia, veio junto uma intimidade com a escrita poética. Teve início o pensar lendo e escrevendo como algo consubstancial à própria vida. Poemas jorravam em folhas soltas arrancadas dos cadernos de escola e dos diários que se extraviaram. Escrevia o que não encontrava pouso na linguagem. Escrevia o extravio.
A leitura daqueles poemas me permitiu e me permite ainda hoje me aproximar dessa zona de opacidade e de enigma consubstancial à finitude, à perda, ao que é sem por quê. Desde aquele instante, diante dos afetos para os quais não encontrava palavras, me punha a escrever, e isso me vinha em versos. Acontecimentos banais, fugidios, intermitências, paisagens marítimas, conflitos, estranhamentos, fracassos, mas também as mais ínfimas alegrias, tanto o insuportável quanto o intangível.
Mais tarde veio a psicanálise, um novo modo de operar com a linguagem e de colocar a angústia a trabalho, extrair seus rastilhos e fazer do resto traumático, resto fecundo. Nesse exercício, leitura e escrita se cruzam e se impactam mutuamente, são parceiras numa mesma dança.
Por ocasião do doutorado tive um reencontro com Primo Levi. O primeiro aconteceu na adolescência. Cursava o liceu científico, na Sardenha. Tinha com um pequeno grupo de amigas um clube de leitura. Conversávamos sobre poesia e livros que não líamos na escola. Naquele ano Levi havia falecido. Um dos seus livros, É isto um homem?, circulou entre nós. Foi o único livro que não consegui acabar de ler. Já no doutorado, pesquisando o testemunho, o real e a política, li O que resta de Auschwitz, e lá Giorgio Agamben trabalha Os afogados e os sobreviventes, de Levi. Eu não tinha uma recordação vívida daquele tempo anterior, na juventude, e dos afetos inomináveis provocados pela escrita de Levi naquele momento. Quando comecei a ler Os afogados e os sobreviventes – e dessa vez só consegui avançar muito lentamente até concluir a leitura –, aquilo lá de trás voltou.
O reencontro décadas mais tarde com esse autor foi um verdadeiro acontecimento. Ele me permitiu ler o enigma que havia se constituído como tal na minha primeira infância – relacionado ao modo como a ditadura militar impactou a minha vida e história familiar, com suas lacunas e silêncios em torno dos entes queridos, que me cercavam. Só assim foi possível elucidar, já em análise, as coordenadas do trauma, e em alguma medida fazer borda ao desamparo radical presente em um fantasma de desaparecimento. O poema foi o único recurso à mão, à época (porque íntimo, solitário e em alguma medida seguro), a contornar o vazio da desaparição.
Por essas e por outras coisas, entre o que se lê e o que resta ilegível, os enlaces entre psicanálise e poesia têm me mostrado que um livro é algo vivo. Uma escrita é uma coisa viva. Hoje posso dizer que o fio da pesquisa em psicanálise ora impacta e adensa, ora areja e insufla a escrita poética e vice-versa. A cada ensaio ou livro teórico, tenho escrito, concomitantemente um livro de poesia, sem que isso me venha de um planejamento prévio ou decisão pensada. A poesia vai se infiltrando… como labor de palavra trazendo o extravio, a desaparição, dentro. Bem rente ao vazio, ora despejando objetos flutuantes em torrentes de linguagem, ora detritos, cinzas de incêndios, palha queimando 1 __
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[1] Cf. São Tomás de Aquino, Sicut palea & Shakespeare, Hamlet, Ato IV, cena IV: por uma palha.


