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Transferência, fazer par?[1]

Graciela Bessa (EBP/AMP)

 

O relatório “Fazer par”, escrito por Elisa Alvarenga (2026), apresenta uma leitura rigorosa e atualizada da transferência, acompanhando o deslocamento que vai da descoberta freudiana da presença da sugestão na transferência até as formulações do último ensino de Lacan sobre o inconsciente real, o gozo e o sinthoma. É muito interessante o modo como ela apresenta o conceito de transferência como uma montagem que se transforma conforme se modifica a própria concepção do inconsciente.

Foi muito interessante ler em seu texto que a sugestão estava em Freud desde sempre, e não atrelada apenas à prática da hipnose; não é possível eliminá-la, mas importava definir o uso que dela podia ser feito em uma análise. Na passagem que ela traz do texto “Psicologia das massas e análise do Eu”, fica claro que Freud (1921/2020) não isolava a sugestão como forma de persuasão, adaptação ou até mesmo introdução de um sentido para o paciente. Para ele, a sugestão, tal como nos trouxe Elisa (2026), funda-se num vínculo erótico. É por isso que o analista pode se valer da sugestão no tratamento analítico.

Se, para Freud, a sugestão, fundada no vínculo erótico, está imbricada na transferência, e o analista se serve dela para “rastrear a libido, torná-la acessível e útil, liberando-a de seus complexos inconscientes”, como nos diz Elisa (2026) em seu texto, eu pergunto se podemos pensar que aí a sugestão seria o elemento que permite fazer par. A partir do que você trouxe sobre a sugestão em Freud, seria possível dizer que o fazer par não evoca a simetria? O fazer par não é entre analista e analisante, mas entre o analista e o inconsciente, uma vez que a transferência, tal como Lacan (1964/1985) a define no Seminário 11, é “a atualização da realidade do inconsciente” (p. 139)?

No matema da transferência, é possível identificar o fazer par na articulação entre o significante da transferência, o que faz enigma para o sujeito, e o significante qualquer do analista. Há um par, mas não entre sujeitos: um par do significante com o saber. O sujeito está representado como “s”, sob a barra; ele é resultante dos significantes no inconsciente.

Segundo Miller (2000), se, no Seminário 11, Lacan confere à transferência um caráter próprio de realidade, ou seja, não se trata de uma ilusão, com o sintagma do sujeito suposto saber o inconsciente se vincula essencialmente com a transferência e é apresentado como “um saber suposto, um saber em espera” (p. 34), mas um saber que diz respeito ao discurso analítico: “fora da análise, o inconsciente não existe como real” (p. 34).

Observamos que essas mudanças na concepção da transferência estão ainda centradas no Outro, no saber e na interpretação.

Como pensar a transferência no último ensino de Lacan, marcado pelo aforismo “Há Um, mas não há nada do Outro” (1977/1998, lição de 10/05/1977, p. 12)?

No texto “Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos”, Lacan (1973/2003) afirma que “a transferência é amor (…), é amor que se dirige ao saber” (p. 555). Um outro fazer par se estabelece. Isso fica claro na citação que você destaca do texto: “sentimento que assume aí uma forma tão nova, que esta introduz a subversão, não porque seja menos ilusória, mas porque dá a si um parceiro que tem a chance de responder” (LACAN, 1973/2003, p. 555). Mesmo sendo ilusório, o fazer par presente na concepção da transferência faz do analista um parceiro que tem a chance de responder. O analisante “dá a si um parceiro” (LACAN, 1973/2003, p. 555); ele constitui um Outro como parceiro. Isso é uma ficção, como aponta Monnier (2023) em seu texto “Transferência e interpretação no último ensino de Lacan”. Uma ficção no sentido de um fato de linguagem dotado de valor de uso. Sendo assim, ela é uma construção que pode produzir efeitos sobre o gozo. Então, a afirmação lacaniana de que a transferência é amor, amor ao saber, constitui uma montagem simbólica que recobre uma dimensão mais real, na qual o analista é colocado como parceiro do gozo.

Lacan, no Seminário 24, afirma o seguinte: “Há do Um, mas não há nada do Outro. O Um, eu disse, dialoga sozinho, pois recebe sua própria mensagem sob forma invertida. É ele quem sabe, e não o suposto saber” (1977/1998, lição de 19/04/1977, p. 9). Esse Outro que está aqui implícito, do qual o falasser recebe sua mensagem, é um Outro que ele próprio constrói. Daí Lacan (1977/1998, lição de 19/04/1977) se questionar se a psicanálise não seria um autismo a dois. Se cada um fala sozinho, o que permite que a análise não seja apenas o encontro de dois monólogos?

O próprio Lacan (1977/1998, lição de 19/04/1977) responde que lalíngua é o que permite forçar esse autismo, por ser uma tarefa comum. Mesmo sem oferecer compreensão, há uma materialidade comum: sons, equívocos, homofonias e ressonâncias que podem ser compartilhados. Lalíngua é uma tarefa comum na medida em que oferece o material a partir do qual um laço e uma interpretação podem se produzir.

Em seu texto, Elisa (2026) destaca a importância que ganha a sugestão no Seminário 24. Nesse seminário, Lacan afirma que todo discurso tem efeito de sugestão, é hipnótico. Acaba por questionar se a psicanálise opera por um efeito de sugestão, uma vez que a linguagem está presente. Sob essa mesma orientação, no Seminário 25 (LACAN, 1977-78), ele coloca o analista como um rhéteur, ou seja, o analista retifica, opera por sugestão. Se a psicanálise opera com a palavra, não é possível eliminar a sugestão; ela é inerente ao discurso. Então, o que está em jogo é definir seu uso no campo analítico. Apesar de seu efeito de sugestão, na psicanálise o significante opera não para completar o saber ou produzir um sentido, mas para incidir sobre a relação do falasser com seu gozo.

O analista torna verdadeiro o tropeço, não porque descubra nele uma mensagem oculta, mas para dar consistência a um acontecimento de lalíngua que, a princípio, não tem qualquer intenção ou destinatário. Em seu último ensino, Lacan formula que o equívoco precede o inconsciente; somente depois, pela introdução de um toque de sentido, ele pode adquirir valor de formação do inconsciente.

Isso muda o estatuto da interpretação. Cabe ao analista acompanhar o falasser em seus tropeços e produzir uma operação capaz de reconduzir o Outro ao Um, ao ponto singular em que o significante encontrou o corpo e se fixou como gozo.

Sob essa perspectiva, o analista deve fazer par não apenas com o sujeito suposto saber, mas com o sintoma e com o gozo do analisante. Na neurose, ele acompanha a construção do fantasma e o retorno do sujeito ao sinthoma. Como afirma Lacan, a neurose tem a ver com as relações sociais, ou seja, a neurose não é tanto um fenômeno do Um, mas o resultado da submersão do Um na esfera do Outro, em particular no seio das relações da família (MILLER, 2013).

A psicanálise do neurótico, segundo Miller (2013), é uma volta: parte-se do Um submergido no Outro. Os semblantes aí veiculados vacilam e se evacuam até que o sujeito tenha acesso a seu falar-se a si mesmo, até que tenha acesso ao autismo de seu discurso.

Que o analista faça par com o sintoma e com o gozo do analisante torna-se particularmente evidente nas situações em que o inconsciente transferencial não se apresenta de maneira estável ou em que o sujeito se encontra confrontado com disrupções de gozo. Assim, na psicose, o analista acompanha a construção delirante ou trabalha para grampear o gozo do Um ao Outro do significante.

Tanto na neurose quanto na psicose, trata-se de o analista fazer par com o Um, a fim de favorecer a construção de uma solução singular.

O relatório do Eixo 2 demonstra, de modo claro, que “fazer par” nomeia uma posição clínica: acompanhar o falasser em sua instabilidade, tornar o tropeço dizível, deslocar o gozo, quando possível, e favorecer a invenção de uma solução singular. O analista opera pela linguagem, fazendo uso da sugestão inerente ao significante.

Mas uma pergunta restou para mim. Sempre dizemos que Lacan não fala, ou fala muito pouco, da transferência em seu ultimíssimo ensino. A partir do percurso que o cartel fez e do que Elisa (2026) formalizou no texto, eu pergunto: “fazer par” seria uma nova perspectiva da transferência, a partir do que Lacan desenvolve em seu ultimíssimo ensino?

 

Referências

ALVARENGA, E. Fazer par. Artefato: Boletim da 28ª Jornada da EBP-MG – “Psicanálise: modos de usar”, n.5. 2026. Disponível em: https://www.jornadaebpmg.com.br/2026/artefato/

FREUD, S. Psicologia das massas e análise do Eu. In: Cultura, sociedade, religião: O mal estar na cultura e outros escritos. Tradução de Maria Rita Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Trabalho original publicado em 1921)

LACAN, J. Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 553-556. (Trabalho original publicado em 1973).

LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1964).

LACAN, J. Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 22, p. 6-15, 1998. (Lições do Seminário 24 proferidas em 1977).

LACAN, J. Le séminaire, livre XXV: Le moment de conclure. 1977-78. (Inédito).

MILLER, J.-A. Investigación sobre la temporalidad del inconsciente. In: Acerca del sujeto supuesto saber, Colección Orientación Lacaniana. Publicación de la Escuela de la Orientación Lacaniana – EOL, Buenos Aires: Paidós, 2000.

MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Tradução de Stéphane Verley. Buenos Aires: Paidós, 2013.

MONNIER, J. L. Transference and Interpretation in Lacan’s Last Teaching. LC Express, v. 7, n. 1, nov. 2023. Disponível em: https://lacaniancompass.com/wp-content/uploads/2023/11/lce_V7_issue1_compressed.pdf

 

[1] Texto apresentado no Seminário Preparatório para a 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: modos de usar, em 06 de agosto de 2026.

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