{"id":1079,"date":"2026-09-16T04:12:36","date_gmt":"2026-09-16T04:12:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/?post_type=portfolio&#038;p=1079"},"modified":"2026-09-16T10:13:32","modified_gmt":"2026-09-16T10:13:32","slug":"a-interpretacao-analitica","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/a-interpretacao-analitica\/","title":{"rendered":"A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;181754&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;381558&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]texto de orienta\u00e7\u00e3o[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-jevc&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;132511&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<strong>A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong>[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;166924&#8243;]<strong>Patr\u00edcia Ribeiro (EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong><br \/>\n<\/strong>[&#8230;] o que constitui propriamente a interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 que ela vai al\u00e9m do sentido sexual, ela aponta [&#8230;] na dire\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<br \/>\n<span style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, Oxygen-Sans, Ubuntu, Cantarell, 'Helvetica Neue', sans-serif;\">(MILLER, 2009, p. 69)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<p>Partirei de algumas observa\u00e7\u00f5es que extra\u00ed do artigo de Mauricio Tarrab (2026) publicado recentemente no boletim do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, intitulado \u201cQual interpreta\u00e7\u00e3o?\u201d. Tarrab abre seu texto assinalando que interpretar \u00e9 um fen\u00f4meno pr\u00f3prio da cultura ou, tamb\u00e9m podemos dizer, a cultura se constr\u00f3i a partir de nossas fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Contudo, para abordar a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, esse autor parte da impossibilidade de defini-la de modo un\u00edvoco, dadas as suas diversas vari\u00e1veis, assim como tamb\u00e9m ressalta a impossibilidade de se ensinar um modo de us\u00e1-la, de oferecer t\u00e9cnicas sobre como interpretar. No que concerne \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, ele sublinha: \u201cassim como no encontro sexual, no corpo a corpo, n\u00e3o h\u00e1 manual de instru\u00e7\u00f5es que valha\u201d (TARRAB, 2026, p. 3).<\/p>\n<p>Entretanto, conforme enfatiza \u00c9ric Laurent (2020, p. 169), se ela n\u00e3o possui um m\u00e9todo a ser ensinado, \u00e9 imprescind\u00edvel dizer tamb\u00e9m que a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 destitu\u00edda de regras. Segundo Laurent (2020, p. 169), um dos princ\u00edpios que regem a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana \u00e9 que a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma metalinguagem, n\u00e3o se trata \u201cde uma linguagem objeto sobre a qual se aplicaria uma outra de n\u00edvel distinta \u00e0 primeira\u201d, como se houvesse \u201ca linguagem do inconsciente e que este convocaria uma metalinguagem\u201d, ou, ainda, a interpreta\u00e7\u00e3o sob a forma de um saber, de um S<sub>2<\/sub>.<\/p>\n<p>Temos um exemplo esclarecedor de uma an\u00e1lise que se orienta por esse dom\u00ednio do saber do analista, e que, n\u00e3o por acaso, se alinha \u00e0 ideia de que uma an\u00e1lise visaria fortalecer o ego. No Semin\u00e1rio <em>A ang\u00fastia<\/em>, Lacan comenta o famoso caso do \u201cHomem dos miolos frescos\u201d, em que Ernest Kris intervinha explicando ao seu paciente as raz\u00f5es pelas quais ele n\u00e3o seria um plagi\u00e1rio. Lacan assinala que a interpreta\u00e7\u00e3o que caberia seria t\u00ea-lo feito escutar que \u201cele rouba nada\u201d, apontando assim para o desejo e demarcando que o desejo inconsciente \u00e9 a sua interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 interessante, nesse sentido, a constata\u00e7\u00e3o feita por Miller de que foram justamente os psicanalistas que conduziram a sua pr\u00e1tica pela via da mestria, da transmiss\u00e3o de um saber sobre o sintoma, \u201cos primeiros a teorizar as resist\u00eancias do paciente. [&#8230;] Para Lacan, esta resist\u00eancia \u00e9 a resist\u00eancia do desejo, \u00e9 o esfor\u00e7o do paciente por realizar uma an\u00e1lise, ao inv\u00e9s de ser doutrinado.\u201d (MILLER, 1980\/2015, p. 242, tradu\u00e7\u00e3o nossa)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o em Freud\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Desde os prim\u00f3rdios da cl\u00ednica psicanal\u00edtica freudiana, a interpreta\u00e7\u00e3o se apresentou como um modo de operar com os sintomas por meio do qual o que se visava era desvendar a causa significante dos sofrimentos que se apresentavam inintelig\u00edveis aos pacientes. O ato de interpretar buscaria restituir o sentido a partir de fragmentos aparentemente desordenados, na perspectiva de fazer falar o desejo recalcado. Miller (2009, p. 69) chega a afirmar que a doutrina freudiana da interpreta\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 essencialmente uma tradu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa orienta\u00e7\u00e3o interpretativa de Freud embasada no sentido aponta para o \u201csentido sexual, porque articulado \u00e0 significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica decorrente da met\u00e1fora paterna\u201d (ALVARENGA; CAMPOS, 2026, p. 22). Nesse contexto, Freud (1910\/2013, p. 275) conduziu a sua pr\u00e1tica interpretativa pelo que formulou como o \u201c<em>complexo nuclear <\/em>de toda e qualquer neurose\u201d, o que, pouco tempo depois, se tornou c\u00e9lebre como o Complexo de \u00c9dipo.<\/p>\n<p>Se a interpreta\u00e7\u00e3o freudiana buscava decifrar a opacidade do sintoma neur\u00f3tico pelo sentido ed\u00edpico, seus efeitos adversos n\u00e3o tardaram a aparecer. Uma interpreta\u00e7\u00e3o fundada nessa l\u00f3gica em que um saber, S<sub>2<\/sub>, confere sentido de forma retroativa ao S<sub>1<\/sub> enigm\u00e1tico tende a se infinitizar, pois, se h\u00e1 decifra\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 em seguida uma nova cifra\u00e7\u00e3o, em um movimento que desvela a satisfa\u00e7\u00e3o ou o gozo que lhe \u00e9 intr\u00ednseco. Um outro modo de interpretar conduz a uma via oposta, a do signo, o que permite produzir n\u00e3o efeitos de sentido, mas de perturba\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica do sentido, desorganizando a fic\u00e7\u00e3o que se repete e sustenta o discurso do analisante, colocando de seu lado o saber, na condi\u00e7\u00e3o de que ele escute o que diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As doutrinas da interpreta\u00e7\u00e3o em Lacan<\/strong><\/p>\n<p>Se em sua pr\u00e1tica anal\u00edtica Freud descobriu que h\u00e1 um saber no sintoma do qual o sujeito se queixa e que, uma vez decodificado, ele desaparece, descobrir\u00e1 tamb\u00e9m algum tempo depois que, apesar da decifra\u00e7\u00e3o, o sintoma retorna, ainda que sob outras vestes. Essa compuls\u00e3o a repetir lhe revelou que um sintoma n\u00e3o se constitui unicamente de uma causa significante. Algo mais o habita que \u00e9 da ordem de uma satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal, tamb\u00e9m denominada por Freud como o enigm\u00e1tico \u201cfator quantitativo\u201d. Em outras palavras, Freud concluiu que a libido integra a estrutura da linguagem no lugar do significado (MILLER, 1996):<\/p>\n<blockquote><p>uma elucida\u00e7\u00e3o significante n\u00e3o \u00e9 suficiente para operar; resta alguma resist\u00eancia, n\u00e3o a do paciente, mas a da pr\u00f3pria coisa, uma resist\u00eancia do isso, da libido, de sua viscosidade, da fixa\u00e7\u00e3o. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud est\u00e1 ligado ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifra\u00e7\u00e3o. [&#8230;] Quando Freud diz: \u201cEsqueci o fator econ\u00f4mico\u201d, ele extrai essa conclus\u00e3o de suas dificuldades com seus pacientes. (MILLER, 2018, p. 43)<\/p><\/blockquote>\n<p>Lacan tamb\u00e9m se deparou com esse fen\u00f4meno, que chamar\u00e1 de gozo e que o levar\u00e1 a reformula\u00e7\u00f5es sobre a sua doutrina da interpreta\u00e7\u00e3o e sobre o inconsciente. Para tratarmos dessas distintas modalidades da interpreta\u00e7\u00e3o em Lacan, tomarei como norte as elabora\u00e7\u00f5es de Monribot (2023) presentes em seu texto \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana do sintoma\u201d, no qual o autor se guia pelos tr\u00eas registros: Imagin\u00e1rio, Simb\u00f3lico e Real.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o sob a \u00e9gide do Imagin\u00e1rio \u00e9 desenvolvida por Lacan em seus primeiros Semin\u00e1rios e em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d, tendo como fundamento o inconsciente estruturado como um discurso: O inconsciente \u00e9, nesse momento do primeiro ensino de Lacan, \u201co lugar do c\u00f3digo completo\u201d (MONRIBOT, 2023, p. 79)<em>.<\/em> Trata-se de um per\u00edodo vinculado \u00e0 estrutura da fala no qual a interpreta\u00e7\u00e3o opera como pontua\u00e7\u00e3o, rompendo a cadeia de significa\u00e7\u00f5es e abrindo a uma nova<em>. <\/em>O que marca esse momento do ensino de Lacan \u00e9 o lugar conferido ao registro do Imagin\u00e1rio como algo que se interp\u00f5e fazendo obstru\u00e7\u00e3o ao acesso \u00e0 cadeia significante inconsciente, tal como ele o demonstrou em seu Esquema L. Trata-se do modelo pelo qual Lacan condensava sua teoria sobre a rela\u00e7\u00e3o antit\u00e9tica entre o Simb\u00f3lico e o Imagin\u00e1rio. Nesses termos, interpretar seria, ent\u00e3o, fazer com que o analisante viesse a ter acesso ao simb\u00f3lico, para fazer advir a verdade do sintoma (MONRIBOT, 2023, p. 80), \u00e0 revelia do Imagin\u00e1rio. E como obter isso? \u00c0 maneira de S\u00f3crates, Lacan buscaria recuperar um saber que estaria retido e, por essa via, lograria tampar os furos do saber (MONRIBOT, 2023, p. 80). Tal modelo de interpreta\u00e7\u00e3o se aproxima do freudiano, se tomarmos como exemplo o caso do Homem dos Lobos, no qual Freud muitas vezes \u00e9 o autor ou coautor das fic\u00e7\u00f5es que preenchem as lacunas (MONRIBOT, 2023, p. 80) para alcan\u00e7ar a verdade do trauma.<\/p>\n<p>Em um segundo momento, ainda no primeiro ensino, Lacan passa a se guiar pela dial\u00e9tica hegeliana, tendo como baliza a no\u00e7\u00e3o de intersubjetividade. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 que o analisante possa se perceber como um sujeito. Interpretar passa a ser extrair, do fluxo de falas vazias, sem ponto de basta, a chamada \u201cfala plena\u201d, almejando assim desembara\u00e7ar o Simb\u00f3lico do Imagin\u00e1rio. Tal estrat\u00e9gia implica em que o analista se posicione \u201cno lugar do morto\u201d, em sil\u00eancio, para n\u00e3o se deixar capturar como semelhante, mas visa tamb\u00e9m \u201cse recusar a se identificar a esse lugar do sujeito suposto saber\u201d (MONRIBOT, 2023, p. 81), fazendo com que o pr\u00f3prio analisante possa extrair seus significantes mestres.<\/p>\n<p>A doutrina da interpreta\u00e7\u00e3o sofre nova mudan\u00e7a, dessa vez marcada pela entrada em cena do estruturalismo. Nessa perspectiva, interpretar seria liberar o desejo do sujeito da pris\u00e3o do sintoma, reencontrando assim \u201co movimento permanente da libido\u201d (MONRIBOT, 2023, p. 83). Essa vertente da interpreta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m segue os passos da interpreta\u00e7\u00e3o freudiana, pois sua dire\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pela decodifica\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora que captura o desejo presente no sintoma, liberando, desse modo, sua verdade. A interpreta\u00e7\u00e3o do sintoma, ou de seu envelope formal, como prop\u00f5e Lacan, visa tocar na fantasia que o sustenta desvelando sua significa\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica (MONRIBOT, 2023, p. 83).<\/p>\n<p>Todavia, conforme mencionamos, Lacan, assim como Freud, se deparou tamb\u00e9m com a composi\u00e7\u00e3o heter\u00f3clita da constitui\u00e7\u00e3o do sintoma: o gozo, como o significante, dele faz parte, o que o torna incur\u00e1vel. A esse novo impasse, Lacan responde por meio de uma alegoria, qual seja, a da imagem do dedo levantado de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Desse modo alusivo, Lacan indica que n\u00e3o h\u00e1 a verdade \u00faltima do sintoma, ou seja, ela jamais ser\u00e1 alcan\u00e7ada pelo significante. Disso decorre que n\u00e3o h\u00e1 como tampar os furos do saber a partir do significante: o sujeito \u00e9 marcado pela falta-a-ser. O ser que h\u00e1 \u00e9 o ser de gozo. O que ent\u00e3o se desvela \u00e9 que a interpreta\u00e7\u00e3o se defronta com o imposs\u00edvel de dizer ou, em outros termos, com o real. Consequentemente, Lacan transmuta a ideia de \u201cuma\u201d verdade na express\u00e3o <em>varit\u00e9,<\/em> condensando verdade e variedade, assinalando com isso sua multiplicidade de sentido \u2013 n\u00e3o sem advertir que a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aberta a todos os sentidos, isto \u00e9, n\u00e3o se trata de fazer qualquer jogo de palavras. Seu prop\u00f3sito \u00e9 fazer surgir a causa do desejo \u2013 objeto <em>a<\/em> \u2013 por excel\u00eancia, fora do sentido.<\/p>\n<p>Nesse momento, a doutrina da interpreta\u00e7\u00e3o passa a se valer da ideia do or\u00e1culo de modo a fazer com que o dito do analisante tome o car\u00e1ter de \u201cum enigma a decifrar\u201d (MONRIBOT, 2023, p. 84), a partir de diferentes vers\u00f5es, tais como:<\/p>\n<blockquote><p>a pontua\u00e7\u00e3o, que aponta o desejo na demanda; a cita\u00e7\u00e3o que, ao repetir o que o analisante disse, visa transformar o enunciado em enuncia\u00e7\u00e3o; a alus\u00e3o, que desloca o sentido de maneira indireta com o meio-dizer, instituindo um novo ponto de basta; o enigma, que mant\u00e9m aberto o furo no simb\u00f3lico, que o sentido visa tamponar; o corte, que esvazia o sentido e faz vacilar os significantes mestres, ou, ainda, separa o sujeito do objeto com o qual ele se identifica; e [&#8230;] o equ\u00edvoco, homof\u00f4nico, gramatical ou l\u00f3gico [&#8230;] que interrompe a repeti\u00e7\u00e3o e ocasiona um rearranjo no modo de gozo. (ALVARENGA; CAMPOS, 2026, p. 237)<\/p><\/blockquote>\n<p>No \u00faltimo per\u00edodo de seu ensino, Lacan toma o Real como refer\u00eancia para a interpreta\u00e7\u00e3o, reformulando o conceito de inconsciente tamb\u00e9m sob esse enfoque: surge o inconsciente real. Correlativamente, Lacan prop\u00f5e tamb\u00e9m o conceito de sinthoma, em oposi\u00e7\u00e3o ao sintoma, que apela por interpreta\u00e7\u00e3o. O sinthoma, elemento do n\u00f3 borromeamo que enoda os tr\u00eas registros, RSI, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do sujeito para lidar com a puls\u00e3o, como uma letra de gozo, fora do campo do sentido, que permite que algo do insuport\u00e1vel do gozo seja reduzido.<\/p>\n<p>Essa import\u00e2ncia conferida ao registro do Real o levar\u00e1 tamb\u00e9m a uma mudan\u00e7a te\u00f3rica sobre a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de sujeito. Lacan vai al\u00e9m da primazia do sujeito \u2013 que existe articulado ao significante \u2013, em dire\u00e7\u00e3o a uma outra no\u00e7\u00e3o de sujeito que considera tamb\u00e9m o corpo tomado por um tipo de satisfa\u00e7\u00e3o que escapa \u00e0 articula\u00e7\u00e3o dos significantes e seus poss\u00edveis sentidos. Surge, assim, o conceito de falasser, implicando o sujeito do inconsciente e o corpo gozante.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o ligada ao inconsciente real \u2013 ou, pode-se tamb\u00e9m dizer, sob a sua vertente n\u00e3o simb\u00f3lica \u2013, seu prop\u00f3sito visa \u201cdesfazer a articula\u00e7\u00e3o tomada como destino\u201d (MILLER <em>apud <\/em>MONRIBOT, 2023, p. 93) valendo-se do sem sentido como forma de tocar o gozo real. \u00c9, portanto, uma opera\u00e7\u00e3o ao avesso \u00e0 do inconsciente transferencial, por se tratar de uma desarticula\u00e7\u00e3o. Por um lado, o que se busca \u00e9 a extra\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> pulsional em sua dimens\u00e3o de causa de desejo do campo do Outro. Por outro, cabe \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o isolar um S<sub>1 <\/sub>separado da cadeia simb\u00f3lica, liberado de qualquer saber inconsciente, o que remete a um significante que n\u00e3o quer dizer nada, mas que porta a marca do gozo no corpo. Retornando a Freud, trata-se do que ele nomeou como \u201cumbigo do sonho\u201d, da presen\u00e7a de um furo por onde o sentido se esvai, determinando o limite da interpreta\u00e7\u00e3o. O resto de uma experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 algo como a f\u00f3rmula da trimetilamina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ALVARENGA, E.; CAMPOS, S. <em>A Interpreta\u00e7\u00e3o no ensino de Lacan<\/em>. Belo Horizonte: Topol\u00f3gica, 2026.<\/p>\n<p>FREUD, S. Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise. In: <em>Obras completas: <\/em>Observa\u00e7\u00f5es sobre um caso de neurose obsessiva (\u201cO homem dos ratos\u201d), uma recorda\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, Vol. 9, 2013, p. 220-286. (Trabalho original publicado em 1910).<\/p>\n<p>LAURENT, \u00c9. A interpreta\u00e7\u00e3o: da verdade ao acontecimento. <em>Curinga<\/em>, n. 50, 2020.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Acerca de las interpretaciones. In: <em>Seminarios en Caracas y Bogot\u00e1<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2015, p. 241-258. (Trabalho original proferido em 1980).<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. A interpreta\u00e7\u00e3o pelo avesso. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 15, p. 96-99, abr. 1996.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. A palavra que fere. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 56-57, p. 67-70, jul. 2009.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Sobre o desencadeamento da sa\u00edda da an\u00e1lise (conjunturas freudianas). In: SANTIAGO, A. L. (Org.). <em>Aposta no passe<\/em>. Rio de Janeiro: Contracapa, 2018, p. 31-44<\/p>\n<p>MONRIBOT, P. A interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana do sintoma. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 89, p. 78-99, jan. 2023.<\/p>\n<p>TARRAB, Mauricio. Qual interpreta\u00e7\u00e3o? In: <em>XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: A interpreta\u00e7\u00e3o entre a fala e a escrita<\/em>. 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/encontrobrasileiroebp2026.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Qual-interpretacao-Mauricio-Tarrab.pdf?utm_source=chatgpt.com\">https:\/\/encontrobrasileiroebp2026.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Qual-interpretacao-Mauricio-Tarrab.pdf<\/a>. Acesso em: 6 set. 2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado no Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio para a 28\u00aa Jornada da EBP-MG, <em>Psican\u00e1lise: modos de usar<\/em>, em setembro de 2026.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;149691&#8243;][vc_button button_color=&#8221;color-prif&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2026%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F09%2FBussola-Artefato-6-Patricia-Ribeiro.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;840475&#8243;]BAIXAR TEXTO EM PDF[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patr\u00edcia Ribeiro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[4],"class_list":["post-1079","portfolio","type-portfolio","status-publish","hentry","portfolio_category-orientacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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