{"id":1080,"date":"2026-09-16T04:16:44","date_gmt":"2026-09-16T04:16:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/?post_type=portfolio&#038;p=1080"},"modified":"2026-09-16T04:16:44","modified_gmt":"2026-09-16T04:16:44","slug":"interpretar","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/interpretar\/","title":{"rendered":"Interpretar"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;181754&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;381558&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]texto de orienta\u00e7\u00e3o[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-jevc&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;381938&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<strong>Interpretar<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/strong>[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;961286&#8243;]<strong>Maria Jos\u00e9 Gontijo (EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio de Abertura da 28\u00aa Jornada da EBP-MG, as coordenadoras M\u00f4nica Campos e Maria de F\u00e1tima Ferreira indicaram as orienta\u00e7\u00f5es para a investiga\u00e7\u00e3o proposta para o tema. Inicio este texto com a quest\u00e3o lan\u00e7ada por Maria de F\u00e1tima Ferreira (2026) ao apresentar o eixo \u201cInterpretar\u201d. Ela assinala, seguindo a refer\u00eancia de Jacques-Alain Miller (2003), que o pressuposto para interpretar \u00e9 a exist\u00eancia de enigmas, enfatizando que a interpreta\u00e7\u00e3o opera a partir de um enigma. No mesmo texto, Miller acentua que a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 um modo particular, e at\u00e9 mesmo bizarro, de fala (2003, p. 3). Desde Freud, a psican\u00e1lise faz um uso diferente da ordem comum da fala, ou seja, a comunica\u00e7\u00e3o. Ao extraviar a fala do uso corrente, o enigma da interpreta\u00e7\u00e3o se coloca.<\/p>\n<p>Hoje, em uma \u00e9poca marcada pela precariza\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico, cabe perguntar que lugar resta \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o quando o dizer tende a apresentar-se acompanhado de um \u201cdireito ao sentido\u201d (MILLER, 1999, p. 53). Se, segundo Miller (1999), a experi\u00eancia anal\u00edtica pode operar como um espa\u00e7o no qual o sujeito pode, por um tempo, \u201cfaltar a ser aquilo que [&#8230;] o identifica\u201d (p. 54), a psican\u00e1lise n\u00e3o encontraria, portanto, sua orienta\u00e7\u00e3o em ratificar as identifica\u00e7\u00f5es pelas quais um sujeito se apresenta, mas em preservar alguma dist\u00e2ncia entre o sujeito e aquilo que pretende defini-lo. Como interpretar, ent\u00e3o, quando essa dist\u00e2ncia parece reduzida e a palavra chega menos sob a forma de um enigma do que de uma certeza sobre si?<\/p>\n<p>Tomando como orienta\u00e7\u00e3o o t\u00edtulo da nossa Jornada, <em>Psican\u00e1lise: modos de usar<\/em>, consideramos as diferentes modalidades de interpreta\u00e7\u00e3o e seus distintos modos de uso, nos diversos contextos em que a pr\u00e1tica nos desafia. H\u00e1 um percurso da interpreta\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise, e ele pode ser colocado nos seguintes termos: inicialmente, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 usada por Freud para decifrar o sentido inconsciente dos sintomas; j\u00e1 no ultim\u00edssimo ensino de Lacan, a interpreta\u00e7\u00e3o incide sobre o acontecimento que toca o corpo e se aproxima da leitura. Contudo, mesmo que haja mudan\u00e7as no modo de interpretar, a interpreta\u00e7\u00e3o persiste como a ferramenta do analista para operar com a fala do analisante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Freud e a interpreta\u00e7\u00e3o: a inven\u00e7\u00e3o do inconsciente <\/strong><\/p>\n<p>Ao conceber o inconsciente como um sistema distinto do consciente, com leis pr\u00f3prias, Freud (1915\/1974) elaborou a hip\u00f3tese, para ele necess\u00e1ria, de relacionar o inconsciente, e suas forma\u00e7\u00f5es, com o mecanismo do recalque. O sentido recalcado do sintoma pode ser decifrado pela interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, a partir da associa\u00e7\u00e3o livre. Freud usava a l\u00f3gica da interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos para interpretar os sintomas. Ou seja, chegar ao conte\u00fado latente inconsciente, a partir da an\u00e1lise do enigma presente na elabora\u00e7\u00e3o on\u00edrica. Do mesmo modo que ele se deparou com o umbigo dos sonhos, ele tamb\u00e9m se deu conta dos restos sintom\u00e1ticos. No decorrer de sua cl\u00ednica, Freud defrontou-se com os limites na opera\u00e7\u00e3o de decifra\u00e7\u00e3o: os restos sintom\u00e1ticos que n\u00e3o cediam com a interpreta\u00e7\u00e3o que visava o sentido. Dessa forma, ele destacou a presen\u00e7a da satisfa\u00e7\u00e3o persistente nos sintomas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o em Lacan: fazer existir o inconscie<\/strong><strong>nte <\/strong><\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o II do escrito \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d, Lacan (1958\/1998, p. 598) lan\u00e7a uma pergunta: \u201cQual \u00e9 o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o?\u201d. Ele reafirma a import\u00e2ncia da interpreta\u00e7\u00e3o e critica seu desprest\u00edgio entre os p\u00f3s-freudianos. De acordo com ele, as interven\u00e7\u00f5es verbais t\u00edpicas dos analistas da \u00e9poca \u2013 explica\u00e7\u00f5es, gratifica\u00e7\u00f5es, respostas \u00e0 demanda \u2013 n\u00e3o tocavam na fun\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise: a decifra\u00e7\u00e3o das repeti\u00e7\u00f5es inconscientes. Nesse sentido, acentua o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o como o que permite a abertura ao Outro, diferente das interven\u00e7\u00f5es que fechavam um sentido. Lacan concebe a interpreta\u00e7\u00e3o como uma opera\u00e7\u00e3o para fazer o inconsciente existir como linguagem.<\/p>\n<p>Destaco aqui duas observa\u00e7\u00f5es importantes de Lacan tamb\u00e9m nesse escrito. A primeira se refere \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o ir\u00e1 fornecer as regras da interpreta\u00e7\u00e3o (LACAN, 1958\/1998, p. 601). Ele pr\u00f3prio, posteriormente, destaca os modos de interpretar, a partir das leis da fala e da linguagem. Todavia, n\u00e3o se trata de modelos a serem seguidos: diferente de um sistema de regras, a interpreta\u00e7\u00e3o se aproxima da arte e se trata de uma inven\u00e7\u00e3o do analista diante do dizer do analisante. A segunda se orienta \u00e0 cr\u00edtica da pr\u00e1tica corrente entre os p\u00f3s-freudianos de adiar a interpreta\u00e7\u00e3o at\u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia (LACAN, 1958\/1998, p. 602). Lacan prop\u00f5e outra temporalidade e menciona as interven\u00e7\u00f5es de Freud nos casos do Homem dos Ratos e de Dora, que tiveram fun\u00e7\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o, antes da instala\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia. Jacques-Alain Miller (1997, p. 255) destacou essa modalidade de interpreta\u00e7\u00e3o que visa a introdu\u00e7\u00e3o ao inconsciente e que produz como efeito a retifica\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>H\u00e1 diferen\u00e7as no uso da interpreta\u00e7\u00e3o no decorrer de uma an\u00e1lise, desde a introdu\u00e7\u00e3o ao inconsciente at\u00e9 sua conclus\u00e3o. Nesse percurso, distintos modos de interpretar s\u00e3o usados. As mudan\u00e7as na interpreta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e3o presentes ao longo do ensino de Lacan, devido aos desdobramentos cl\u00ednicos e epist\u00eamicos de sua obra. \u00c0 medida que ocorreram transforma\u00e7\u00f5es na concep\u00e7\u00e3o do inconsciente, o modo de interpretar se ampliou.<\/p>\n<p>Patrick Monribot (2023) considera que o alcance da interpreta\u00e7\u00e3o varia de acordo com o estatuto dado ao inconsciente. Ele ressalta que n\u00e3o se interpreta da mesma forma quando Lacan preconiza o esvaziamento do registro imagin\u00e1rio ou privilegia a ordem simb\u00f3lica ou se orienta pelo real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O percurso da interpreta\u00e7\u00e3o em <\/strong><strong>Lacan <\/strong><\/p>\n<p>De acordo com Monribot (2023), no in\u00edcio do seu ensino, Lacan estava \u00e0s voltas com a presen\u00e7a do imagin\u00e1rio que deveria ser simbolizado. Por isso, a interpreta\u00e7\u00e3o deveria favorecer a emerg\u00eancia da verdade simb\u00f3lica. Nesse contexto, encontramos nuances dessa opera\u00e7\u00e3o. Inicialmente, Lacan considerou a opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica como a busca da verdade desconhecida da cena traum\u00e1tica (MONRIBOT, 2023, p. 80). O efeito da interpreta\u00e7\u00e3o era a produ\u00e7\u00e3o da verdade. Depois, com a distin\u00e7\u00e3o entre fala plena e fala vazia, a interpreta\u00e7\u00e3o passa a ser a valida\u00e7\u00e3o dos significantes da fala plena, a marca\u00e7\u00e3o dos significantes. Nesse contexto, o analista convida o analisante \u00e0 fala para produzir os significantes que ser\u00e3o validados pela interpreta\u00e7\u00e3o do analista. Nesse tempo do seu ensino, Lacan estava \u00e0s voltas com o problema da intersubjetividade e da refer\u00eancia \u00e0 dial\u00e9tica hegeliana. Quando esta perde o valor em seu ensino e o inconsciente passa a ser concebido a partir do simb\u00f3lico, a interpreta\u00e7\u00e3o muda de estatuto.<\/p>\n<p>A preval\u00eancia do simb\u00f3lico demarca um longo per\u00edodo no ensino de Lacan. Nesse tempo, o inconsciente \u00e9 estruturado pelas figuras de linguagem. O sintoma \u00e9 pensado pela figura da met\u00e1fora e o desejo pela meton\u00edmia. Nesse sentido, a interpreta\u00e7\u00e3o do sintoma visa liberar o desejo aprisionado na representa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica. Todavia, Lacan estava advertido de que a interpreta\u00e7\u00e3o dos sintomas n\u00e3o incide, necessariamente, sobre a satisfa\u00e7\u00e3o \u2013 os restos sintom\u00e1ticos como se referia Freud. Como consequ\u00eancia, Lacan passa a considerar o fantasma como a base do sintoma e a interpreta\u00e7\u00e3o tem a fun\u00e7\u00e3o de apontar o objeto, o n\u00facleo de gozo do sintoma. Monribot (2023, p. 83) faz refer\u00eancia \u00e0 indica\u00e7\u00e3o de Lacan da imagem de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista apontando o dedo, no quadro de Leonardo da Vinci. Com isso, Lacan considera que a verdade do sintoma n\u00e3o pode ser dita e a interpreta\u00e7\u00e3o aponta o ser de gozo, o objeto <em>a<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse tempo do ensino de Lacan, os modos de interpretar se apresentam. Como destaca Monribot (2023), a interpreta\u00e7\u00e3o tem valor de or\u00e1culo e o enigma \u00e9 o paradigma desse estatuto. Na sequ\u00eancia, destacamos os modos de interpreta\u00e7\u00e3o indicados por Lacan:<\/p>\n<ul>\n<li>A pontua\u00e7\u00e3o da cadeia significante: opera como ponto de basta do discurso. Invalida uma significa\u00e7\u00e3o, para fazer destacar outra.<\/li>\n<li>O corte: ao contr\u00e1rio da pontua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz apelo a outra significa\u00e7\u00e3o. Interrompe a cadeia significante, com o efeito de suspens\u00e3o e de perplexidade.<\/li>\n<li>A alus\u00e3o: permite escutar nas entrelinhas o que ela n\u00e3o diz. A refer\u00eancia ao dedo de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista diz respeito \u00e0 alus\u00e3o.<\/li>\n<li>A cita\u00e7\u00e3o: ressoa o que foi dito. Faz eco ao dito do analisante para problematiz\u00e1-lo ou esvazi\u00e1-lo do seu sentido.<\/li>\n<li>O equ\u00edvoco: evoca a polissemia da linguagem, mostra a pluralidade de sentidos de uma frase, mesmo que n\u00e3o seja aberta a todos os sentidos. O que se busca, ao desvelar o excesso de sentidos, \u00e9 o sem sentido, o objeto fora do sentido.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Lacan, em \u201cO Aturdito\u201d (1972\/2003), refere-se a tr\u00eas formas do equ\u00edvoco na interpreta\u00e7\u00e3o: o homof\u00f4nico, o gramatical ou o l\u00f3gico. Em seu texto, Monribot (2023) traz exemplos de sua cl\u00ednica para exemplific\u00e1-los.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao equ\u00edvoco homof\u00f4nico, Monribot (2023) apresenta a vinheta de uma paciente que chega ao tratamento queixando-se do filho psic\u00f3tico que seria institucionalizado. Ela \u00e9 obesa, com um quadro de bulimia do qual n\u00e3o se queixa. Em uma situa\u00e7\u00e3o de c\u00f3lera, ao saber que o analista era pai, diz: \u201cvoc\u00ea me d\u00e1 desgosto\u201d (<em>vous me d\u00e9go\u00fbtez<\/em>), na sequ\u00eancia, ela engravida de um homem que tem o mesmo nome do analista. O analista v\u00ea a gravidez como um <em>acting-out<\/em> e o interpreta como ter um filho daquele que lhe d\u00e1 desgosto. Ap\u00f3s a interpreta\u00e7\u00e3o, ela tem um sonho: est\u00e1 na banheira e constata que se esvai como a \u00e1gua do banho, como se diz em rela\u00e7\u00e3o aos beb\u00eas. Na associa\u00e7\u00e3o, o beb\u00ea dejeto tamb\u00e9m \u00e9 ela, que vai em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 boca do esgoto (<em>\u00e9gout<\/em>). A interpreta\u00e7\u00e3o \u201cboca de esgoto \u2013 desgosto\u201d toca o objeto dejeto e o desgosto experimentado com a bulimia, localizando o objeto oral como causa.<\/p>\n<p>Um exemplo de equ\u00edvoco gramatical \u00e9 apresentado por Monribot (2023, p. 87) em rela\u00e7\u00e3o a uma paciente que nunca lhe falara sobre seu sintoma anor\u00e9xico. Ela pede uma sess\u00e3o angustiada com uma entrevista para admiss\u00e3o em um emprego. Na sess\u00e3o, ela repete: \u201co oral me angustia\u201d. Monribot lhe diz: \u201co oral me angustia&#8230; eis o que foi bem dito\u201d. Trata-se de uma cita\u00e7\u00e3o e de um equ\u00edvoco gramatical. Na sequ\u00eancia ela faz um sonho. Com a interpreta\u00e7\u00e3o, o objeto causa surgiu, permitindo a an\u00e1lise de sua anorexia.<\/p>\n<p>No equ\u00edvoco l\u00f3gico apresentado por Monribot (2023, p. 89), uma paciente se queixa do abandono do pai: \u201cele partiu sem dizer <em>at\u00e9 a vista<\/em>!\u201d Ao cortar a sess\u00e3o, Monribot lhe diz: \u201cat\u00e9 a vista!\u201d. Na sess\u00e3o seguinte, ao chegar \u00e0 an\u00e1lise, a paciente lhe diz: \u201cat\u00e9 a vista\u201d. Imediatamente, ele a conduz \u00e0 sa\u00edda. O equ\u00edvoco l\u00f3gico est\u00e1 na dimens\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo: ela sai antes de entrar e o fim da sess\u00e3o coincide com o in\u00edcio. A interpreta\u00e7\u00e3o destaca o objeto olhar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas tempos no ensino de Lacan anunciam a mudan\u00e7a de perspectiva da interpreta\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao real, de acordo com Monribot. O Semin\u00e1rio 7, <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, com o conceito de <em>Das Ding<\/em>, quando a no\u00e7\u00e3o de gozo \u00e9 colocada em relevo. O Semin\u00e1rio 10, <em>A ang\u00fastia<\/em>, ao acentuar o objeto <em>a<\/em> como o que se aponta na interpreta\u00e7\u00e3o. O Semin\u00e1rio 23, <em>O sinthoma<\/em>, com a no\u00e7\u00e3o de sinthoma, no qual Lacan retira a dimens\u00e3o de met\u00e1fora, at\u00e9 ent\u00e3o concernida ao sintoma. O sinthoma faz o enodamento do real, do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio e essa mudan\u00e7a tem consequ\u00eancias na concep\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seu Curso <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>, Jacques-Alain Miller (2011) afirma que a manipula\u00e7\u00e3o dos n\u00f3s levou Lacan a buscar outra forma de operar, distinta da interpreta\u00e7\u00e3o. Pode-se mesmo considerar a exist\u00eancia de um decl\u00ednio da interpreta\u00e7\u00e3o com a perspectiva borromeana. Na li\u00e7\u00e3o \u201cCl\u00ednica del sinthome\u201d, ele assinala que, com o sinthoma, Lacan deixou de buscar o gozo pela l\u00f3gica do mais-al\u00e9m, fun\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o. Considerando que o sinthoma \u00e9 gozo, o modo de gozar singular presente no sinthoma passa a ser considerado irredut\u00edvel. Miller considera que o analista na cl\u00ednica do sinthoma \u00e9 um sujeito que se deu conta do seu modo de gozo e se deparou com o fora de sentido do gozo. Portanto, na cl\u00ednica dos n\u00f3s, o sinthoma introduz um irredut\u00edvel e isso tem como consequ\u00eancia uma queda na interpreta\u00e7\u00e3o. Mas Lacan a retoma no Semin\u00e1rio seguinte, como veremos adiante.<\/p>\n<p>Em seu Curso <em>El ultim\u00edsimo Lacan<\/em>, Miller (2014) considerar\u00e1 que o Semin\u00e1rio 24, <em>L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aille \u00e0 mourre<\/em>, e o Semin\u00e1rio 25, <em>Le moment de conclure<\/em>, constituem o derradeiro ensino de Lacan. No ultim\u00edssimo ensino, a concep\u00e7\u00e3o de inconsciente se modifica, e a import\u00e2ncia da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 retomada. Ao longo desse Curso, Miller localiza o percurso de Lacan a partir da cl\u00ednica do sinthoma, concluindo com a interpreta\u00e7\u00e3o como furo, tendo como refer\u00eancia o toro, em seus dois \u00faltimos Semin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na primeira li\u00e7\u00e3o do Curso, intitulada \u201cEl esp de un laps\u201d, Miller (2014) destaca uma frase de Lacan (1976\/2003, p. 567) encontrada nos <em>Outros Escritos<\/em>: \u201cQuando o <em>esp de um laps<\/em> \u2013 ou seja, visto que s\u00f3 escrevo em franc\u00eas, o espa\u00e7o de um lapso \u2013 j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum impacto\u00a0 de sentido (ou interpreta\u00e7\u00e3o), s\u00f3 ent\u00e3o temos certeza de estar no inconsciente\u201d. Miller observa uma disjun\u00e7\u00e3o entre inconsciente e interpreta\u00e7\u00e3o. Ele assinala que, com essa frase, Lacan ataca o estabelecimento do inconsciente transferencial pela opera\u00e7\u00e3o anal\u00edtica na cadeia significante e assinala seu interesse no inconsciente real, exterior \u00e0 m\u00e1quina significante.<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o XV do mesmo Curso, Miller (2014) destaca que o real n\u00e3o fala e acentua as consequ\u00eancias dessa defini\u00e7\u00e3o. Primeiramente, uma mudan\u00e7a de perspectiva no inconsciente \u2013 da palavra ao escrito \u2013 e, tamb\u00e9m, a coloca\u00e7\u00e3o em evid\u00eancia do corpo. Lacan nomeia o inconsciente como falasser, incluindo o corpo. No Semin\u00e1rio 25, Lacan retoma sua preocupa\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica anal\u00edtica e, por conseguinte, com a interpreta\u00e7\u00e3o. Ele aproxima a interpreta\u00e7\u00e3o da magia e assinala sua efic\u00e1cia em alcan\u00e7ar o real do gozo. Nesse sentido, a pr\u00e1tica anal\u00edtica revela o duplo efeito da interpreta\u00e7\u00e3o: a resson\u00e2ncia e o furo. Nisso reside o equ\u00edvoco da interpreta\u00e7\u00e3o, t\u00e3o caro a Lacan.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia da interpreta\u00e7\u00e3o como furo \u00e9 especialmente fundamental, sobretudo, mas n\u00e3o somente, ao final de uma an\u00e1lise. Catherine Lacaze-Paule (2026), em seu testemunho de passe, marca essa incid\u00eancia rumo ao final de sua an\u00e1lise. Em uma sess\u00e3o de an\u00e1lise, ela relata ter perdido o celular, objeto que era sua \u201cmenina dos olhos\u201d. O analista interpreta com uma pantomina: um olhar vazio. Ele demarca um furo, mas ela negligencia essa interpreta\u00e7\u00e3o. O efeito, nesse momento, \u00e9 destacar sua posi\u00e7\u00e3o de \u201cser a menina dos olhos\u201d para os outros. O que permitiu o final da sua an\u00e1lise foi o esvaziamento da sua cren\u00e7a nos poderes da palavra, a partir de um sonho com as letras MAJ, onde se l\u00ea \u201cmago\u201d, um anagrama das iniciais do nome do seu analista. Ela, ent\u00e3o, se d\u00e1 conta da sua busca pelo olhar do analista. \u00c9 nesse momento que a interpreta\u00e7\u00e3o do olhar vazio tem seu efeito.<\/p>\n<p>Miller (2014) acentua que a interpreta\u00e7\u00e3o produz espanto, surpresa ou um efeito de fulgura\u00e7\u00e3o. De acordo com ele, o importante n\u00e3o \u00e9 o sentido, mas o res\u00edduo, o n\u00e3o-todo, o furo, e a interpreta\u00e7\u00e3o vale pelo efeito que produz.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O valor de intrus\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o acontece no instante em que acontece. Ao interpretar, o analista toca no que \u00e9 \u00edmpar de cada um (MILLER, 2003). Miller (2014, p. 171) acentua que a interpreta\u00e7\u00e3o vale uma vez, quando ela opera \u2013 e ela tem valor de uso. A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem valor de troca, pois n\u00e3o vale para o Outro.<\/p>\n<p>Assim, voltamos \u00e0 quest\u00e3o lan\u00e7ada no in\u00edcio deste texto: como podemos ainda recolher a atualidade da interpreta\u00e7\u00e3o? Distinguir a interpreta\u00e7\u00e3o das outras pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas de escuta torna-se crucial. A palavra toca o corpo; esse \u00e9 o ponto essencial. As pr\u00e1ticas de escuta, presentes em diferentes tradi\u00e7\u00f5es ou discursos contempor\u00e2neos, tendem a sustentar um direito de ser escutado sem ser interpretado, isto \u00e9, sem que se coloque a pergunta: \u201co que isso quer dizer?\u201d. De acordo com Miller, a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana se op\u00f5e a essa dilui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em um simples espa\u00e7o de acolhimento, como pretendem as pr\u00e1ticas ou terapias da escuta.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, funda o inconsciente. Ela abre o lapso, faz vacilar a identifica\u00e7\u00e3o, introduz um efeito de separa\u00e7\u00e3o. Seu alcance \u00e9, portanto, tamb\u00e9m pol\u00edtico. J\u00e9sus Santiago (2025) acentua esse car\u00e1ter em seu texto \u201cA pol\u00edtica da psican\u00e1lise \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o\u201d, destacando a irredutibilidade da separa\u00e7\u00e3o entre sujeito do enunciado e sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o para a psican\u00e1lise lacaniana.<\/p>\n<p>Em um tempo marcado pela afirma\u00e7\u00e3o \u201ceu sou o que digo que sou\u201d, a desautoriza\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o reduz o espa\u00e7o para o inconsciente e para a surpresa. Ao interpretar, o analista se intromete nos significantes do analisante e a interpreta\u00e7\u00e3o encontra seu lugar de intrus\u00e3o, visando um modo novo do significante.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>FERREIRA, M. de F. Eixos. <em>Boletim Artefato<\/em>,\u00a0 28\u00aa Jornada da EBP-MG. Dispon\u00edvel em:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/eixos\/\">https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/eixos\/<\/a> Acesso em 10 set. 2026.<\/p>\n<p>FREUD, S. O inconsciente. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIV, 1974, p. 185-245. (Trabalho original publicado em 1915).<\/p>\n<p>LACAN, J. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: <em>Escritos.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).<\/p>\n<p>LACAN, J. O aturdito. In: <em>Outros escritos. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 448-497. (Trabalho original proferido em 1972).<\/p>\n<p>LACAN, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567-569. (Trabalho original publicado em 1976).<\/p>\n<p>LACAZE-PAULE, C. \u00c7a vibre&#8230; In: <em>Le t\u00e9moignage et son Making of.<\/em> Paris: Le Champ Freudien \u00c9diteur, 2026.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. O m\u00e9todo psicanal\u00edtico. In: <em>Lacan Elucidado<\/em>: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997, p. 219-284.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. As contraindica\u00e7\u00f5es ao tratamento psicanal\u00edtico. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 25, p. 52-55, 1999.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Vous avez dit bizarre? <em>Quarto \u2013 R\u00e9vue de Psychanalyse<\/em>, n. 78, p. 3-15, fev. 2003.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>Sutilezas anal\u00edticas. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>El ultim\u00edsimo Lacan. Los cursos <\/em><em>psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de St\u00e9phane Verley. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014.<\/p>\n<p>MONRIBOT, P. A interpreta\u00e7\u00e3o lacaniana do sintoma. <em>Correio \u2013 Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 89, p. 78-99, 2023.<\/p>\n<p>SANTIAGO, J. A pol\u00edtica da psican\u00e1lise \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o. In: ONYSZKIEWICZ, M. M. S. (Org.). <em>30<\/em>: o Um e o m\u00faltiplo da EBP. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2025, p. 150-153.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado no Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio para a 28\u00aa Jornada da EBP-MG, <em>Psican\u00e1lise: modos de usar<\/em>, em setembro de 2026.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Relat\u00f3rio do cartel do Eixo 3 da 28\u00aa Jornada da EBP-MG, composto por: Cristina Vidigal, Fernanda Costa, Helo\u00edsa Bed\u00ea, Lilany Pacheco, M\u00f4nica Campos, Ram Mandil e Maria Jos\u00e9 Gontijo (Mais-Um).[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;149691&#8243;][vc_button button_color=&#8221;color-prif&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2026%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F09%2FBussola-Artefato-6-Maria-Jose-Gontijo.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;120210&#8243;]BAIXAR TEXTO EM PDF[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Jose\u0301 Gontijo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[4],"class_list":["post-1080","portfolio","type-portfolio","status-publish","hentry","portfolio_category-orientacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.9 - 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