{"id":1182,"date":"2026-10-20T09:52:22","date_gmt":"2026-10-20T09:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/?post_type=portfolio&#038;p=1182"},"modified":"2026-10-29T09:36:25","modified_gmt":"2026-10-29T09:36:25","slug":"psicanalise-modos-de-usar-separar-fazer-par-interpretar","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/psicanalise-modos-de-usar-separar-fazer-par-interpretar\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise: modos de usar \u2013 Separar, Fazer par, Interpretar"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;181754&#8243;][vc_raw_html]JTNDc2NyaXB0JTNFJTBBTWF0aEpheCUyMCUzRCUyMCU3QiUwQSUyMCUyMHRleCUzQSUyMCU3QiUyMGlubGluZU1hdGglM0ElMjAlNUIlNUIlMjclNUMlNUMlMjglMjclMkMlMjAlMjclNUMlNUMlMjklMjclNUQlNUQlMjAlN0QlMEElN0QlM0IlMEElM0MlMkZzY3JpcHQlM0UlMEElM0NzY3JpcHQlMjBhc3luYyUyMHNyYyUzRCUyMmh0dHBzJTNBJTJGJTJGY2RuLmpzZGVsaXZyLm5ldCUyRm5wbSUyRm1hdGhqYXglNDAzJTJGZXM1JTJGdGV4LWNodG1sLmpzJTIyJTNFJTNDJTJGc2NyaXB0JTNF[\/vc_raw_html][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;520184&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]b\u00fassola[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_custom_heading auto_text=&#8221;yes&#8221; text_color=&#8221;color-jevc&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;323610&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<strong>T\u00edtulo<\/strong>[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;762963&#8243;]<strong> Cristiana Pittella (EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3logo<\/strong><\/p>\n<p>Foi-me solicitado, por Maria de F\u00e1tima Ferreira, um \u201capanhado\u201d do que viemos trabalhando ao prepararmos nossa 28\u00aa Jornada da EBP-MG, <em>Psican\u00e1lise: modos de usar<\/em>. Tarefa herc\u00falea, certamente, que carrega consigo o imposs\u00edvel, sobretudo porque trabalhamos, a partir das contribui\u00e7\u00f5es da Coordena\u00e7\u00e3o da Jornada e dos cart\u00e9is dos tr\u00eas eixos de investiga\u00e7\u00e3o sobre o tema, conceitos novos e complexos na experi\u00eancia de nossas conversa\u00e7\u00f5es e pudemos come\u00e7ar a investig\u00e1-los e fazer ressoar seus modos de usar, em <em>work in progress<\/em>, no esfor\u00e7o de falar do que fazemos na cl\u00ednica com o falasser.<\/p>\n<p>Cada eixo da 28\u00aa Jornada da EBP-MG \u2013 Separar, Fazer par e Interpretar \u2013, ao abordar as novas formas de subjetividade, revisitou tais conceitos desde a inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise com Freud at\u00e9 o ultim\u00edssimo Lacan.<\/p>\n<p>O modo como os discursos capturam o corpo e os efeitos de gozo (LACAN, 1971-72\/2012, p. 21) coloca quest\u00f5es para a nossa cl\u00ednica e interroga os nossos conceitos fundamentais. O material produzido por cada eixo \u00e9 muito rico e continuar\u00e1 em nossa biblioteca, servindo para\u00a0 nossa forma\u00e7\u00e3o e para nossas investiga\u00e7\u00f5es, quando publicado em nossa revista <em>Curinga<\/em>.<\/p>\n<p>Desse material, destaquei uma quest\u00e3o formulada pelos autores de cada eixo, extra\u00edda da atualidade de nossa cl\u00ednica:<\/p>\n<p>Eixo 1: <em>Separar<\/em>: como pensar a separa\u00e7\u00e3o na chamada \u201cnova aliena\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>Eixo 2: <em>Fazer par<\/em>: como conceber a transfer\u00eancia quando h\u00e1 Um, e nada do Outro? (LACAN, 1977\/1998 <em>apud<\/em> BESSA, 2026, s.p.)<\/p>\n<p>Eixo 3: <em>Interpretar<\/em>: \u201ccomo interpretar, quando a dist\u00e2ncia entre o sujeito e aquilo que pretende defini-lo est\u00e1 reduzida e a palavra chega sob a forma de uma certeza sobre si?\u201d (GONTIJO, 2026, s.p.)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1\u00ba Ato<\/strong><\/p>\n<p>As vinhetas cl\u00ednicas apresentadas nos cart\u00e9is e comentadas nos semin\u00e1rios preparat\u00f3rios, ao transmitir a psican\u00e1lise em seus modos de usar, elucidam, cada uma a seu modo, como cada praticante, orientado pela psican\u00e1lise, enfrenta o real em jogo em cada caso.<\/p>\n<p>Vimos que n\u00e3o se trata de qualquer uso. Como nos diz Lacan no Semin\u00e1rio <em>O ato psicanal\u00edtico<\/em>, trata-se de uma pr\u00e1tica <em>com<\/em> um psicanalista, \u201ccom\u201d, no sentido instrumental do termo (LACAN, 1967-68\/2025, p. 185).<\/p>\n<p>O psicanalista n\u00e3o \u00e9, portanto, aquele que aplica a psican\u00e1lise, isto \u00e9, como uma t\u00e9cnica. Ele \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para que uma experi\u00eancia anal\u00edtica possa acontecer, na medida em que funciona como sua causa (<em>a<\/em>), como causa da tarefa psicanalisante, um <em>saber-fazer<\/em> produzido pelo analisante.<\/p>\n<p>As vinhetas cl\u00ednicas demonstraram no decorrer de nossos encontros o quanto \u201co objeto-psicanalista \u00e9 surpreendentemente vers\u00e1til, dispon\u00edvel, multifuncional\u201d (MILLER, 1999, p. 55) \u2013 da docilidade ao confronto. Muitas foram as inven\u00e7\u00f5es que incidiram sobre a rela\u00e7\u00e3o do falasser com seu gozo e que, ao se servir delas, deram lugar ao sujeito como diferen\u00e7a absoluta.<\/p>\n<p>Ao responder, o psicanalista n\u00e3o faz, do poder que lhe \u00e9 conferido pela posi\u00e7\u00e3o de escuta, o mesmo uso que o mestre. Ao dar lugar ao sil\u00eancio, \u00e0 palavra de cada sujeito, um a um, entra em jogo a l\u00f3gica do que acontece no encontro entre um analista e um analisante.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o se reduz \u00e0 escuta: o direito \u00e0 escuta \u00e9 solid\u00e1rio ao direito \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Escutar, por parte do analista, \u00e9 escutar o escrito no dito, como nos diz Jacques-Alain Miller (2018, p. 278) em \u201cModalidades de recha\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que se escutam as marcas de uma estrutura que se escreve na fala. N\u00e3o se trata apenas do sentido ou do significado inconsciente a ser decifrado, mas da posi\u00e7\u00e3o do sujeito e da leitura daquilo que se fixa e se repete na cadeia significante, em sua materialidade (<em>moterialidade<\/em>), a saber, um modo de gozo: ponto em que o significante encontrou o corpo e nele se fixou como gozo.<\/p>\n<p>E, se o analista fala, n\u00e3o \u00e9 \u201ca torto e a direito\u201d como lembrou Elisa Alvarenga, retomando Lacan (1976) em \u201cConfer\u00eancias e entrevistas em universidades norte-americanas\u201d. A fala do analista n\u00e3o consiste em impor significantes arbitr\u00e1rios e nem em dar sentido \u00e0 fala do analisante visando a sua adapta\u00e7\u00e3o. Ela visa operar nessa materialidade do significante, ali onde aponta a causa do desejo.<\/p>\n<p>Esses modos de uso colocam a quest\u00e3o do que torna o psicanalista preparado para encarnar esse objeto, posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 garantida de uma vez por todas.<\/p>\n<p>Um psicanalista se define na experi\u00eancia, por seu ato. Pudemos verificar que h\u00e1 analista pontualmente, quando h\u00e1 ato anal\u00edtico, e isso s\u00f3 o sabemos <em>a posteriori<\/em>, pela leitura de seus efeitos.<\/p>\n<p>O ato anal\u00edtico ultrapassa, surpreende, tanto o analista quanto o analisante. N\u00e3o h\u00e1 dois atos anal\u00edticos iguais: ele n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de repeti\u00e7\u00e3o nem de retifica\u00e7\u00e3o. Ele instaura um antes e um depois, um in\u00edcio e\/ou um fim. Pode tanto produzir um novo sentido quanto produzir uma ruptura com o sentido, apontando para o real.<\/p>\n<p>O ato anal\u00edtico coloca em jogo uma separa\u00e7\u00e3o, uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o do sujeito: seja em rela\u00e7\u00e3o ao saber \u2013 descompletando-o, permitindo ler de outro modo \u2013, seja em rela\u00e7\u00e3o ao desejo, ao possibilitar uma desidentifica\u00e7\u00e3o ou um descongelamento significante, ou seja, ainda, em rela\u00e7\u00e3o ao gozo \u2013 pela cess\u00e3o de algo do gozo, por seu deslocamento ou pela afirma\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Verificamos assim a passagem da materialidade para o <em>moterialismo<\/em> e, em alguns casos, trata-se de uma \u201csalva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, como interveio Helenice de Castro. Samyra Assad, por sua vez, levanta a quest\u00e3o de saber se se trataria, nesses casos, de um <em>sujeito suposto operar<\/em>, fazendo refer\u00eancia a Jacques-Alain Miller ao aproximar a psican\u00e1lise da arte.<\/p>\n<p>Em outras situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, o analista interv\u00e9m, por sua vez, como um <em>sujeito suposto interessar-se<\/em>, em express\u00e3o de Guy Briole citada por Araceli Fuentes (2025), e esse signo coloca tamb\u00e9m em jogo um Outro e um saber pr\u00e9vio, o ato de palavra possibilitando uma certa cess\u00e3o do gozo e permitindo fazer par.<\/p>\n<p>Segundo Graciela Brodsky (2026)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, ao comentar o \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>11<\/em>\u201d, para Lacan todos os casos s\u00e3o casos de urg\u00eancia.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> A cl\u00ednica psicanal\u00edtica, ressalta Brodsky (2026) ao citar Lacan (1977\/2001), \u00e9 o real enquanto imposs\u00edvel de suportar. E para suport\u00e1-lo, \u00e9 preciso um corpo que possa \u201cfazer par\u201d com o corpo falante e seu gozo.<\/p>\n<p>Como trabalhado no eixo 2, o \u201cfazer par\u201d, presente na concep\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, \u201cfaz do analista um parceiro que tem a chance de responder\u201d (BESSA, 2026, s.p.). Outro \u00e9 \u201cum Outro que o pr\u00f3prio falasser constr\u00f3i\u201d (BESSA, 2026, s.p.). Enquanto \u201camor ao saber\u201d, a transfer\u00eancia \u201cconstitui uma montagem simb\u00f3lica que recobre uma dimens\u00e3o mais real, na qual o analista \u00e9 colocado como parceiro do gozo\u201d (BESSA, 2026, s.p.).<\/p>\n<p>O ato anal\u00edtico conecta o sintoma ao inconsciente, constituindo-o como sintoma anal\u00edtico, e implica a dimens\u00e3o de um n\u00e3o-saber. Ele n\u00e3o \u00e9 resultado de um c\u00e1lculo, de um ritual ou de um protocolo \u2013 esses s\u00e3o, ao contr\u00e1rio, defesas ao ato, tentativas de eliminar a conting\u00eancia, o furo e o equ\u00edvoco, estruturais para um falasser.<\/p>\n<p>Destacar esse ponto implica considerar que \u00e9 por um ato que separar, fazer par e interpretar se enla\u00e7am e encontram lugar em uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2\u00ba Ato <\/strong><\/p>\n<p>Na cl\u00ednica atual, o corpo sobressai e, por consequ\u00eancia, encontramos um recha\u00e7o ao Outro e disrup\u00e7\u00f5es de gozo \u2013 seja nas <em>passagens ao ato<\/em>, seja no <em>acting out <\/em>\u2013, uma presen\u00e7a do inconsciente real, que acarreta consequ\u00eancias sobre a economia ps\u00edquica do falasser.<\/p>\n<p>\u201cO saber e o gozo est\u00e3o no bolso\u201d, nos diz Miller (2016) em \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Os efeitos da ci\u00eancia, atrelados aos do capitalismo, operam na mesma dire\u00e7\u00e3o ao forcluir o sujeito ($), impedindo-o de subjetivar e de se responsabilizar pelo que lhe acontece.<\/p>\n<p>Lacan (1973-74, li\u00e7\u00e3o de 13\/11\/1973, tradu\u00e7\u00e3o nossa), ao dizer que os \u201cN\u00e3o-tolos s\u00e3o aqueles que se negam a ser capturados pelo espa\u00e7o do ser falante\u201d, demonstra que, nesse recha\u00e7o ao Outro, a subjetividade de nossa \u00e9poca tende a separar a palavra do corpo e do sofrimento ps\u00edquico.<\/p>\n<p>O recha\u00e7o ao inconsciente e \u00e0 captura pelo simb\u00f3lico produz uma \u201cnova aliena\u00e7\u00e3o\u201d, ou, como Jacques-Alain Miller (2022a) a nomeia pela f\u00f3rmula de nosso tempo, o \u201cDico\u201d, que seria uma esp\u00e9cie de cogito contempor\u00e2neo \u2013 <em>sou o que digo<\/em> \u2013, ou seja, uma tend\u00eancia a fazer do enunciado uma garantia do ser (o <em>ser-eu<\/em>; <em>sou, n\u00e3o penso<\/em>).<\/p>\n<p>E, como nos trouxe Suzana Barroso (2026), trata-se tamb\u00e9m do efeito do decl\u00ednio da linguagem, em que a transmiss\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda pela informa\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o pela experi\u00eancia \u2013, ou pela propaganda, assim como pela difus\u00e3o de um <em>suposto saber<\/em> cient\u00edfico, como os do diagn\u00f3stico (quantos pais nos apresentam seus filhos a partir de um diagn\u00f3stico, n\u00e3o a partir de um desejo!).<\/p>\n<p>Trata-se, assim, de uma aliena\u00e7\u00e3o em um saber que n\u00e3o porta a singularidade. Essa \u201cnova articula\u00e7\u00e3o com o saber\u201d pode \u201cresultar no congelamento da l\u00f3gica bin\u00e1ria do significante\u201d (BARROSO, 2026, s.p.) \\( \\left(\\frac{S_2}{a}\\right) \\), favorecendo o gozo aut\u00edstico e uma posi\u00e7\u00e3o do sujeito como objeto silenciado ou encarnando o dejeto.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o do analista visa encontrar, nesse ser de objeto, algo do sujeito, nos disse S\u00e9rgio Laia ao apresentar o eixo 1, Separar. Ou, ainda, como nos diz Miller (2022b) em \u201cUma nova aliena\u00e7\u00e3o\u201d: \u201c\u00c9 precisamente o esfor\u00e7o para identificar o sujeito ali onde havia desaparecido sob o significante\u201d, e abrir a possibilidade de uma nova leitura. Efetua-se assim a passagem da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade: sair do <em>falso ser<\/em> (o ser do \u201ceu n\u00e3o penso\u201d), inaut\u00eantico em rela\u00e7\u00e3o ao inconsciente, para uma verdade do sujeito, verdade situada no \u201ceu n\u00e3o sou\u201d (MILLER, 2022b).<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, na \u201cnova aliena\u00e7\u00e3o\u201d, de um uso da linguagem que n\u00e3o suporta o que ultrapassa o <em>ser-eu<\/em>, pois est\u00e1 fundada na nega\u00e7\u00e3o do inconsciente, mediante a qual o sujeito se sente o amo de seu pr\u00f3prio ser.<\/p>\n<p>Os enunciados carregados de certeza e de rigidez restringem o espa\u00e7o da interpreta\u00e7\u00e3o, ou, ainda, a desautorizam, como Maria Jos\u00e9 Gontijo (2026) enfatizou em seu texto acerca do eixo 3, Interpretar. Essa rigidez substitui o di\u00e1logo n\u00e3o apenas com o Outro, mas tamb\u00e9m consigo mesmo \u2013 trata-se de sujeitos que est\u00e3o submetidos a uma ordem de ferro (KORETZKY, 2026).<\/p>\n<p>Na medida em que o ato anal\u00edtico introduz a possibilidade de haver algo \u201cal\u00e9m do que se diz que \u00e9\u201d, \u00e9 poss\u00edvel que haja uma elei\u00e7\u00e3o pelo inconsciente. E \u00e9 precisamente a transfer\u00eancia que permite esse deslocamento.<\/p>\n<p>A linguagem n\u00e3o \u00e9 uma maquininha simb\u00f3lica que entra na vida da pessoa, mas uma resposta ao encontro traum\u00e1tico da l\u00edngua no corpo, a saber, resposta ao encontro com o gozo <em>hetero<\/em> e singular. Temos assim que a perspectiva da psican\u00e1lise, como nos lembra Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2021, transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o nossas), \u201c\u00e9 a de restabelecer a palavra, onde ela foi cortada do corpo\u201d e, desse modo, propiciar uma subjetiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso implica a intrus\u00e3o do analista, um ato anal\u00edtico, seja o de interpretar em seus modos de uso diversos \u2013 alus\u00e3o, corte, pontua\u00e7\u00e3o, cita\u00e7\u00e3o, equ\u00edvoco, sil\u00eancio e o bom uso da sugest\u00e3o \u2013, seja como grampo, como <em>r\u00e9theur<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3\u00ba Ato<\/strong><\/p>\n<p>Um ato que produza tanto uma abertura ao inconsciente transferencial quanto uma parceria com o inconsciente Real.<\/p>\n<p>No inconsciente transferencial, como explicitou Graciela Bessa (2026) ao comentar o texto de Elisa Alvarenga (2026), trata-se de um par entre o significante S<sub>1<\/sub> e o S<sub>2<\/sub>, o saber. O analista, como <em>sujeito suposto saber<\/em>, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do analisante, que sup\u00f5e colocar, no Outro, o objeto <em>a. <\/em><\/p>\n<p>Se, na neurose, est\u00e3o em jogo uma historiza\u00e7\u00e3o, a novela familiar, o deciframento e a queda das identifica\u00e7\u00f5es, com o analista acompanhando a constru\u00e7\u00e3o do fantasma, nos deparamos tamb\u00e9m com um falasser que n\u00e3o adere \u00e0 suposi\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o entre o real que golpeia seu corpo e um saber a ser decifrado, que n\u00e3o acredita numa verdade escondida. Ele d\u00e1 testemunho de um corpo afetado, perturbado por algo, que antes funcionava e deixou de funcionar. Trata-se mais de uma resposta do falasser do que de uma quest\u00e3o do sujeito, uma resposta ao imperativo de gozo que pode importun\u00e1-lo, mas n\u00e3o o divide. Portanto, n\u00e3o uma busca pelo objeto perdido, mas um gozo que itera.<\/p>\n<p>Quando essa abertura ao inconsciente transferencial n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u2013 pois, como nos trouxe Elisa Alvarenga (2026), o analista, enquanto parceiro do gozo, acompanha, na psicose, o del\u00edrio ou outras amarra\u00e7\u00f5es poss\u00edveis \u2013, a dimens\u00e3o \u00e9 a do inconsciente real.<\/p>\n<p>Ao acompanhar e identificar, no sujeito, o que provocou o desenganche, com o ato de nomea\u00e7\u00e3o \u2013 uma f\u00f3rmula peculiar \u2013, opera-se n\u00e3o para explicar o que ocorre a ele, mas para fazer um grampo entre o gozo do Um e o Outro do significante, permitindo ao falasser circular com sua singularidade de gozo.<\/p>\n<p>Ao alojar algo do gozo, o analista propicia a instala\u00e7\u00e3o de uma borda, permitindo que algo da satisfa\u00e7\u00e3o encontre um rumo distinto daquele mort\u00edfero.<\/p>\n<p>\u00c9 uma separa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m inclui o gozo. O <em>ser-eu<\/em>, r\u00edgido, d\u00e1 lugar a outra coisa quando o gozo aut\u00edstico ressoa na an\u00e1lise. E o analista, ao manter o di\u00e1logo com o falasser, inventa, a cada vez, um modo de perturbar o arranjo de gozo, quando este o empurra a um sem limite mort\u00edfero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ALVARENGA, E. Fazer par. <em>Artefato<\/em>, n. 5, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/fazer-par\/\">https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/fazer-par\/<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>BARROSO, S. F. Usos e desusos da linguagem e dos objetos. <em>Artefato<\/em>, n. 4, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/usos-e-desusos-da-linguagem-e-dos-objetos\/\">https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/usos-e-desusos-da-linguagem-e-dos-objetos\/<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>BESSA, G. Transfer\u00eancia, fazer par? <em>Artefato<\/em>, n. 5, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/transferencia-fazer-par\/\">https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/transferencia-fazer-par\/<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>BRODSKY, G. <em>Empezar a analizarse<\/em>. YouTube: Nucep \u2013 Secci\u00f3n Cl\u00ednica de Madrid, 4 set. 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=iUn6vavZo0\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=iUn6vavZo0<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>BROUSSE, M.-H. <em>Les modes du sexe<\/em>. YouTube: Lacan Web T\u00e9l\u00e9vision, 23 mai. 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kM2Ogcq3CaU\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=kM2Ogcq3CaU<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>FUENTES, A. <em>\u201cHacer el par\u201d en los casos de urgencia<\/em>: conferencia de Araceli Fuentes. Podcast del Nucep, 22 out. 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/1mOmNO7PMbud6B9gvZorSf\">https:\/\/open.spotify.com\/episode\/1mOmNO7PMbud6B9gvZorSf<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>GONTIJO, M. J. Interpretar. <em>Artefato<\/em>, n. 6, 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/interpretar-artefato6\/\">https:\/\/jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/interpretar-artefato6\/<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>KORETZKY, C. <em>Subjetividades contempor\u00e2neas<\/em>: \u00bfdeseo o orden social? YouTube: Nucep \u2013 Secci\u00f3n Cl\u00ednica de Madrid, 3 jul. 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AnWGj5GkQVU\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AnWGj5GkQVU<\/a>. Acesso em: 7 out. 2026.<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>Le S\u00e9minaire, livre XXI<\/em>: Les non-dupes errent. 1973-74. (Trabalho in\u00e9dito).<\/p>\n<p>LACAN, J. Confer\u00eancias e entrevistas em universidades norte-americanas. <em>Scilicet<\/em>, n. 6\/7, 1976.<\/p>\n<p>LACAN, J. Rumo a um significante novo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 22, p. 6-15, 1998. (Li\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio 24 proferidas em 1977).<\/p>\n<p>LACAN, J. Abertura da Se\u00e7\u00e3o Cl\u00ednica. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 30, abr. 2001, p. 6-9. (Trabalho original proferido em 1977).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 19<\/em>: &#8230;ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro; vers\u00e3o final de Marcus Andr\u00e9 Vieira; prepara\u00e7\u00e3o de texto de Andr\u00e9 Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 15<\/em>: O ato psicanal\u00edtico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Teresinha N. Meirelles do Prado; vers\u00e3o final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. As contraindica\u00e7\u00f5es ao tratamento psicanal\u00edtico. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 25, p. 52-55, 1999.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 72, p. 20-30, 2016.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Modalidades del rechazo. In: <em>Introducci\u00f3n a la cl\u00ednica lacaniana: <\/em>Conferencias en Espa\u00f1a. Barcelona: Gredos, 2018. p. 272-285.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>Intervention lors de \u201cQuestion d\u2019\u00c9cole\u201d<\/em>. \u00c9cole de la Cause freudienne, Paris, 22 jan. 2022a. (In\u00e9dito).<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>1, 2, 3, 4: <\/em>Los cuatro de Lacan \u2013 Tomo II (1984-85). Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2022b.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u201cNo Pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o inglesa dos <em>Escritos<\/em>, Lacan se pergunta mais uma vez pelo desejo do analista, isso sempre foi um enigma para Lacan; segundo \u2018como algu\u00e9m pode dedicar-se a satisfazer esses casos movidos pela urg\u00eancia que preside a an\u00e1lise\u2019, casos de urg\u00eancia que ele tem que fazer par, por isso ele n\u00e3o pode continuar escrevendo&#8230; Essa perspectiva, de colocar os in\u00edcios das an\u00e1lises sob a perspectiva da urg\u00eancia pulsional (gozo) \u00e9 distinta de colocar a psican\u00e1lise em seu in\u00edcio pelo desejo de saber, e isso nos diferencia da IPA. Na IPA, para analisar-se, o requisito fundamental \u00e9 querer saber, em especial sobre a psican\u00e1lise. Por outro lado, os casos de urg\u00eancia, eles enviam para a psicoterapia (o que seria psican\u00e1lise aplicada, visaria o terap\u00eautico). Para Lacan, toda an\u00e1lise \u00e9 terap\u00eautica e todos os casos s\u00e3o de urg\u00eancia.\u201d (Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o nossas).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> \u201cUrg\u00eancia que o analista tem que satisfazer, tem que acolher (o gozo) e, por outro lado, urg\u00eancia da satisfa\u00e7\u00e3o que tem que permitir que se produza, sem diferenciar se \u00e9 na entrada ou final de an\u00e1lise.\u201d (Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o nossas).[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;149691&#8243;][vc_button button_color=&#8221;color-prif&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2026%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F10%2FBussola-Artefato-7-Cristiana-Pitella-ok.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;415372&#8243;]BAIXAR TEXTO EM PDF[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiana Pittella<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":240,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[17,7],"class_list":["post-1182","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-artefato-7","portfolio_category-bussola"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - 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