{"id":1194,"date":"2026-10-20T10:13:59","date_gmt":"2026-10-20T10:13:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/?post_type=portfolio&#038;p=1194"},"modified":"2026-10-27T19:01:33","modified_gmt":"2026-10-27T19:01:33","slug":"o-desejo-e-a-forma","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/o-desejo-e-a-forma\/","title":{"rendered":"O Desejo \u00e9 a F\u00f4rma"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;181754&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;201218&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]bricolagem[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-jevc&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;135770&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]O Desejo \u00e9 a F\u00f4rma<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;214102&#8243;]<strong>Entrevista com Fabi\u00e1n Naparstek<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gabriela Grinbaum:\u00a0<\/strong>Como voc\u00ea poderia explicar o que \u00e9 o desejo?<\/p>\n<p><strong>Fabi\u00e1n Naparstek:\u00a0<\/strong>Ontem, justamente, comentei um caso cl\u00ednico na Faculdade: um homem tinha uma compuls\u00e3o por sexo. Ele dizia que n\u00e3o conseguia deixar de ser infiel, que tinha uma voracidade imposs\u00edvel de parar e que ficava com todas as mulheres poss\u00edveis. O que eu destacava ali era que sua infidelidade se devia ao fato de estar casado. Ele n\u00e3o tinha um prazer pela infidelidade, mas simplesmente n\u00e3o conseguia parar de fazer sexo com qualquer mulher. Tratava-se de uma psicose.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que tentei explicar aos alunos foi, justamente, que isso n\u00e3o era o desejo. N\u00e3o era o desejo por uma mulher, e que, em todo caso, depois ele o repetiria com outra mulher seguindo o mesmo tra\u00e7o. Na realidade, era a compuls\u00e3o que n\u00e3o o deixava parar. Tentei explicar-lhes que o desejo sempre tem uma particularidade, um tra\u00e7o, sempre aponta para algo. Algo que ter\u00e1 a ver com a inf\u00e2ncia de cada um, como diz Freud, com a condi\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, e que determina sempre algo muito localizado. O desejo \u00e9 sempre algo muito localizado, e o que esse homem trazia era que n\u00e3o havia nada localizado, era uma deslocaliza\u00e7\u00e3o total, uma coisa que n\u00e3o podia parar e da qual padecia. Ele n\u00e3o tomava isso como um triunfo masculino.<\/p>\n<p>Parece-me que este \u00e9 um bom exemplo para a fala de J.-A. Miller sobre os desbussolados e para pensar a \u00e9poca atual. H\u00e1 algo do desejo que se perdeu, porque o desejo \u00e9 uma b\u00fassola, o desejo orienta as pessoas. Trabalhei isso em rela\u00e7\u00e3o ao fantasma perverso, tomando-o de Lacan, quando ele prop\u00f5e que tal fantasma \u00e9 a avers\u00e3o masculina a enfrentar o Outro sexo. Outro exemplo que mencionei foi um caso em que a pessoa passava por todas as alternativas que encontrava ao alcance da m\u00e3o: travestis, transexuais, homossexuais e heterossexuais. E dizia: &#8220;\u00e9 como se eu n\u00e3o soubesse quanto cal\u00e7o&#8221;, &#8220;vou comprar sapatos e sei o sapato que gosto. Sei o que \u00e9 uma mulher bonita, um homem bonito, uma travesti bonita; o que n\u00e3o sei \u00e9 quanto cal\u00e7o, \u00e9 um problema de f\u00f4rma&#8221;.<\/p>\n<p>Efetivamente, isso \u00e9 o desejo: \u00e9 a f\u00f4rma que orienta cada um. O mesmo acontece com o pr\u00edncipe e a Cinderela: ele sabe qual \u00e9 a sua f\u00f4rma, \u00e9 um sujeito orientado na vida, vai com o sapato e, quando encaixa em alguma, \u00e9 aquela. O desejo faz com que se saiba o que se vai buscar.<\/p>\n<p>D\u00e9bora Rabinovich:\u00a0Nesta \u00e9poca, as pessoas perderam a f\u00f4rma?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> E por que se perdeu?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> A\u00ed est\u00e1 a queda do Nome-do-Pai, de toda a autoridade, dos ideais. H\u00e1 uma indica\u00e7\u00e3o que tomo de Lacan, que est\u00e1 no &#8220;Pequeno discurso aos psiquiatras&#8221;. Ali ele compara a psicose com a \u00e9poca, fala sobre a famosa frase do\u00a0objeto <em>a<\/em> no bolso, mas antes disso diz que: &#8220;os objetos <em>a<\/em> soltos, isolados, entram por toda parte, entram pelas orelhas, pelos olhos&#8221;. Parece-me que \u00e9 preciso sublinhar o &#8220;isolados e soltos&#8221;, porque a \u00e9poca solta o objeto <em>a<\/em>\u00a0do sujeito, o que \u00e9 uma vers\u00e3o para pensar o\u00a0objeto <em>a<\/em>\u00a0no z\u00eanite da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que J.-A. Miller apresenta duas vers\u00f5es disso: a primeira \u00e9 que isso aumenta a pervers\u00e3o. Mais ainda, diz que aumenta a pervers\u00e3o nas mulheres, e que elas a enfrentam pelo lado masculino, tomando os homens como objeto. A segunda vers\u00e3o \u00e9 que o objeto se desprende do sujeito, e ent\u00e3o os\u00a0objetos a\u00a0soltos se convertem em frases soltas, vozes soltas. \u00c9 o que acontece, por exemplo, quando se entra em um bar: as c\u00e2meras est\u00e3o nos olhando por todos os lados. H\u00e1 dez televisores ligados, s\u00e3o dez vozes soando. Parece-me que h\u00e1 um desprendimento do\u00a0objeto <em>a<\/em>, o la\u00e7o do fantasma n\u00e3o se estabelece, e isso \u00e9 algo muito caracter\u00edstico desta \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Quando voc\u00ea diz &#8220;o la\u00e7o do fantasma n\u00e3o se estabelece&#8221;, parece que o objeto <em>a<\/em> n\u00e3o est\u00e1 ali onde deveria estar, na f\u00f3rmula do fantasma. Parece que se pode dizer que o objeto foi passear.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Foi passear, e qualquer objeto pode ir parar nesse lugar. O que o fantasma d\u00e1 \u00e9 a fixidez ao objeto. Um sujeito se liga a um objeto de maneira muito precisa, e quando ele diz que est\u00e3o soltos e isolados, quer dizer que qualquer coisa pode ocupar esse lugar. Quando escrevi a tese sobre as toxicomanias, propus que a \u00e9poca atual vai contra a pervers\u00e3o, porque a pervers\u00e3o \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 o contr\u00e1rio do &#8220;vale tudo&#8221; de hoje.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> Claro, porque a pervers\u00e3o tem o objeto muito preciso.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Trata-se de passar da pervers\u00e3o polimorfa para uma pervers\u00e3o orientada.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim, claro. O que Freud chama de polimorfo \u00e9 na diacronia da vida de uma pessoa; uma vez estabelecido, para cada um, torna-se unimorfo.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Por isso, seria como permanecer no estado polimorfo.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Polimorfo no sentido de variar as formas.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> De fato. Concordamos com o que voc\u00ea diz, e por isso quer\u00edamos abordar este tema, o desejo, para a\u00a0Registros. Quando nos aproximamos da psican\u00e1lise lacaniana, h\u00e1 bastante tempo, ressoava fortemente a frase do Semin\u00e1rio 7: &#8220;A \u00fanica coisa da qual o sujeito pode ser culpado \u00e9 de ter cedido de seu desejo&#8221;. Tinha-se a ideia de que a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana era uma cl\u00ednica do desejo \u2014 agora falamos da cl\u00ednica do singular. Era uma cl\u00ednica na qual se devia apontar para que o sujeito se responsabilizasse por seu desejo. Era o desejo que estava no z\u00eanite da quest\u00e3o. Hoje, vejo que o desejo nesse n\u00edvel est\u00e1\u00a0demod\u00e9, ningu\u00e9m fala disso quando apresentamos um caso, quando os AE testemunham.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim, acho que tem a ver com a \u00e9poca e tamb\u00e9m com o decl\u00ednio da concep\u00e7\u00e3o de fantasma no ensino de Lacan, ou mais precisamente, na comunidade anal\u00edtica. Porque come\u00e7ar a falar do\u00a0sinthome colocou o pr\u00f3prio desejo em quest\u00e3o. De fato, um dos problemas que temos hoje \u00e9 como pensamos o desejo do analista a partir do \u00faltimo ensino de Lacan. Com a l\u00f3gica do fantasma, e para al\u00e9m das varia\u00e7\u00f5es ao longo do ensino, o desejo do analista \u00e9 compreendido com muita clareza, e, na minha opini\u00e3o, possui uma l\u00f3gica impec\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Como voc\u00ea pensa a articula\u00e7\u00e3o entre o fantasma e o desejo do analista?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Partimos da premissa de que o desejo \u00e9 sustentado pelo fantasma, e que para ser analista \u00e9 preciso atravessar o fantasma \u2014 entre outras coisas. Mas para que \u00e9 preciso atravess\u00e1-lo?\u00a0Para poder situar-se no lugar do objeto do fantasma de cada analisante. Ou seja, para que n\u00e3o se receba os pacientes a partir da perspectiva de seu pr\u00f3prio fantasma. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o desejo que sustenta isso?\u00a0Entendo que Lacan diz que o desejo do analista \u00e9 um desejo vazio ou deslocado do pr\u00f3prio desejo fantasm\u00e1tico; parece-me que essa \u00e9 a l\u00f3gica. E entende-se muito bem por que o fim da an\u00e1lise transforma algu\u00e9m que era analisante em analista \u2014 independentemente de praticar ou n\u00e3o a psican\u00e1lise. Analista \u00e9 aquele que pode suportar deslocar-se de seu pr\u00f3prio fantasma e encarnar o objeto do fantasma de cada analisante. Caso contr\u00e1rio, o que se faz \u00e9 aceitar com o pr\u00f3prio fantasma ou rejeitar com o pr\u00f3prio fantasma, e em nenhum dos dois casos h\u00e1 an\u00e1lise. Acontecer\u00e1 outra coisa, mas n\u00e3o an\u00e1lise. Na minha opini\u00e3o, isso tem uma l\u00f3gica impec\u00e1vel, pensada a partir do fantasma. O que acontece com o desejo do analista no \u00faltimo ensino, no\u00a0sinthome?\u00a0\u00c9 algo que J.-A. Miller vem colocando em quest\u00e3o h\u00e1 algum tempo: como pensar isso em rela\u00e7\u00e3o ao\u00a0sinthome?<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o, a do desejo no z\u00eanite, concordo com o que voc\u00ea diz, porque naquela \u00e9poca a singularidade era a do desejo de cada um. Em Lacan, o singular n\u00e3o permanece no mesmo lugar que a singularidade do desejo. Aceitamos de bom grado \u2014 e a \u00e9poca tamb\u00e9m coloca\u00a0isso \u2014 que \u00e9 preciso ir para uma escola mais ou menos progressista para que diretores e professores incentivem com a frase: &#8220;que cada um encontre seu pr\u00f3prio percurso, que aprenda a acrescentar atrav\u00e9s do seu pr\u00f3prio pensamento&#8221;. E chega um momento em que isso n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. \u00a0Ou seja, a ideia de que o caminho pr\u00f3prio \u00e9 o certo est\u00e1 por toda parte. E acredito que seja uma consequ\u00eancia da psican\u00e1lise. Na realidade, trata-se do pensamento oriental; \u00e9 o que a psican\u00e1lise deve a ele, que j\u00e1 o tinha de antes. Na primeira frase do Semin\u00e1rio 1, diz: &#8220;Mestre Zen&#8221;. J.-A. Miller conta que essa frase foi de fato de Lacan, mas que ele foi quem a colocou no in\u00edcio, quando editou o semin\u00e1rio. H\u00e1 m\u00faltiplas refer\u00eancias ao pensamento oriental; \u00e9 uma d\u00edvida que a psican\u00e1lise tem com ele.<\/p>\n<p>Todo mundo est\u00e1, em geral, de acordo com isso: que o singular faz bem. O problema \u00e9 definir o que \u00e9 o singular, e podermos justificar por que o singular faz bem. Para mim n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o claro. Escutamos qualquer testemunho de passe e notamos como todo mundo encontrou sua singularidade. E de repente algu\u00e9m vem e diz: &#8220;que \u00f3timo, voc\u00ea encontrou sua singularidade!&#8221; (risos). Mas por que isso faz bem?\u00a0Parece-me que vale a pena fazermos o esfor\u00e7o, porque tomamos isso como garantido.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Voc\u00ea prop\u00f5e ent\u00e3o situar o norte da dire\u00e7\u00e3o do tratamento pelo fantasma ou pelo\u00a0sinthome, tomando-as como duas orienta\u00e7\u00f5es diferentes?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim, \u00e9 o norte, e todo mundo est\u00e1 de acordo. Mas em Lacan, na \u00e9poca do fantasma, a singularidade estava ligada ao fantasma, e na \u00e9poca do\u00a0sinthome, a singularidade est\u00e1 ligada ao sintoma. E n\u00e3o \u00e9 a mesma singularidade. A respeito da \u00e9poca do fantasma, tenho argumentos sobre por que ela \u00e9 ben\u00e9fica. E quanto \u00e0 \u00e9poca do sintoma, n\u00e3o tenho certeza se \u00e9 t\u00e3o claro. De fato, encontro pacientes, especialmente nas psicoses, para os quais empurr\u00e1-los em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 singularidade n\u00e3o faz bem nenhum; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 melhor que se colem aos outros e sigam pela vida assim. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o sobre a qual, na minha opini\u00e3o, temos uma d\u00edvida a pagar: pensar sobre onde localizamos o singular e por que partimos da ideia de que ele \u00e9 ben\u00e9fico.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> A prop\u00f3sito da quest\u00e3o do desejo do analista, quando saiu o Semin\u00e1rio 6, Graciela Brodsky dizia que, desde que terminou sua an\u00e1lise e levando em conta sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica, o desejo do analista para ela \u00e9 o\u00a0sinthome.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong>\u00a0Sim. Seria necess\u00e1rio precisar o que ela chama de\u00a0sinthome.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Eu gosto da defini\u00e7\u00e3o que J.-A. Miller deu h\u00e1 muito tempo: que o\u00a0sinthome\u00a0\u00e9 sintoma mais fantasma.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> \u00c9 uma defini\u00e7\u00e3o milleriana, e precisamos ser capazes de explicar o que isso significa. O que se sabe \u00e9 que n\u00e3o se trata da defini\u00e7\u00e3o que d\u00e1 Lacan, ela n\u00e3o est\u00e1 formulada dessa maneira em lugar nenhum. Precisamos tamb\u00e9m considerar os acr\u00e9scimos que J.-A. Miller fez recentemente a respeito do que s\u00e3o os restos do fantasma. Na entrevista concedida a \u00c8ve Miller-Rose e Daniel Roy, ele fala em fazer um uso pr\u00f3prio do fantasma &#8220;heroico&#8221; \u2014 f\u00f3rmula para o sintoma \u2014, para extrair dele a energia necess\u00e1ria e poder fazer tudo o que faz. Ele marca a diferen\u00e7a entre fazer uso do fantasma e o fantasma usar voc\u00ea. \u00c9 uma refer\u00eancia interessante, porque est\u00e1vamos acostumados a presumir que &#8220;fazer uso&#8221; era necessariamente fazer uso do sintoma. Isso foi publicado no in\u00edcio deste ano em uma Lacan Quotidien. Ele levanta essa quest\u00e3o e, na minha opini\u00e3o, isso implica uma mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao fantasma. E a\u00ed, sim, encontro algo do desejo em outra ordem, \u00e9 outro tipo de desejo diferente daquele articulado \u00e0 lei. Isso tamb\u00e9m representa uma mudan\u00e7a quanto \u00e0 formula\u00e7\u00e3o lacaniana do pai, porque toda a formula\u00e7\u00e3o do pai como pai da pervers\u00e3o se refere ao pai que tem um desejo, que faz de uma mulher a causa do seu desejo. \u00c9 um pai articulado a um desejo que n\u00e3o \u00e9 a lei. Quando Lacan fala do aperitivo (a-p\u00e9re-itive), o pai do aperitivo, parece-me uma refer\u00eancia fant\u00e1stica, porque o aperitivo \u00e9 sempre algo muito limitado. Poder\u00edamos dizer: &#8220;cada um tem seu pr\u00f3prio aperitivo&#8221;. N\u00e3o \u00e9 a refei\u00e7\u00e3o, nem a grande comilan\u00e7a que seria o protopai, que anda de m\u00e3os dadas com o &#8220;como tudo&#8221;, mas sim o gozo desmedido da \u00e9poca, um empuxo ao gozo desmedido. Ou seja, o outro \u00e9 a refei\u00e7\u00e3o e este \u00e9 o aperitivo. Com que coisa limitada e pontual o pai goza. Essa no\u00e7\u00e3o de pai est\u00e1 muito mais ligada ao desejo, em termos do fantasma \u2014 que \u00e9 o que diz\u00edamos antes \u2014, porque \u00e9 o pai da pervers\u00e3o que orienta, porque ele tem um desejo. H\u00e1 algo do desejo bem articulado ao singular, que \u00e9 localizado e preciso, n\u00e3o est\u00e1 do lado do excesso, e \u00e9 o contr\u00e1rio da \u00e9poca atual. N\u00e3o me parece coincid\u00eancia que Lacan fale desse pai ao final de seu ensino, revisando sua no\u00e7\u00e3o a respeito dele. Porque o outro \u00e9 o pai universal, e este \u00e9 o pai que tem a ver com o singular de cada um; e, finalmente, o que vale \u00e9 o pai que cada um construiu para si. Claro, tem a ver com o pai de carne e osso de cada um. No primeiro Lacan, em &#8220;De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose&#8221;, o pai de carne e osso n\u00e3o importava nada; por outro lado, em dire\u00e7\u00e3o ao final, a quest\u00e3o \u00e9 como cada um constr\u00f3i esse pai, que \u00e9 uma vers\u00e3o e que, al\u00e9m disso, tem algo de encarnado, que por sua vez tem a ver com o Outro sexo, com o feminino.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Diante dessa falta de b\u00fassola nos tratamentos de hoje, a cura apontaria para captar algo dessa fissura, ou simplesmente se registra como um efeito da contemporaneidade?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Acredito que Lacan tem uma dire\u00e7\u00e3o que vai rumo \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o. Em alguns casos isso j\u00e1 est\u00e1 localizado e a quest\u00e3o \u00e9 o que fazer com isso; em outros casos isso assume a forma de uma devasta\u00e7\u00e3o. A forma da devasta\u00e7\u00e3o hoje est\u00e1 generalizada, veem-se muitos homens devastados, n\u00e3o necessariamente mulheres. Na minha opini\u00e3o, esse \u00e9 o efeito mais interessante do que se chama &#8220;feminiza\u00e7\u00e3o da \u00e9poca&#8221;. \u00c9 fato que as mulheres ocupam posi\u00e7\u00f5es no mundo todo, mas o que n\u00f3s acrescentamos ao dizer isso?\u00a0Podemos dizer que h\u00e1 um sofrimento inerente \u00e0 estrutura feminina, que \u00e9 a estrutura da devasta\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca atual, sofre-se mais ao modo feminino, porque a devasta\u00e7\u00e3o, se algo a marca, \u00e9 a deslocaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 &#8220;Irma&#8221;, o furac\u00e3o, que devasta tudo. S\u00e3o esses pacientes a quem se pergunta: &#8220;e o que acontece com voc\u00ea?&#8221;, e eles respondem: &#8220;acontece de tudo comigo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> &#8220;A onda me esmagou&#8221;.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Esmagou-o, devastou-o e est\u00e1 tudo de pernas para o ar. \u00c9 um tsunami. Nesses casos, entendo que, na cl\u00ednica, se trata de localizar algo.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> Entendo que uma coisa \u00e9 esse &#8220;passou o Irma&#8221;, e outra \u00e9 estar desbussolado com uma anorexia absoluta de desejo. Alguns sujeitos chegam totalmente mudos, n\u00e3o sabem o que fazer da vida, nem o que estudar, e n\u00e3o querem saber de nada.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Mas \u00e9 parecido. Quando n\u00e3o se pode localizar algo, quando surge esse &#8220;n\u00e3o sei o que fazer da vida&#8221;, na verdade \u00e9 um &#8220;n\u00e3o sei o que fazer com tudo&#8221;, e n\u00e3o tem por onde ir. Quando algu\u00e9m diz: &#8220;acontece isto comigo&#8221;, isso \u00e9 algo pontual, tem um sintoma, algo localizado. Diferente de quando dizem: &#8220;n\u00e3o sei o que fazer da vida, nada me interessa&#8221;, o que \u00e9 uma forma de devasta\u00e7\u00e3o. Ele poderia estar fazendo qualquer coisa, consumindo, por exemplo. Aparecem formas mais man\u00edacas ou mais depressivas, mas s\u00e3o formas da devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> E como faz o analista, que tem que fazer falar, para que o sujeito possa construir algo dessa f\u00f4rma necess\u00e1ria?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> H\u00e1 casos em que os analistas contam como conseguiram chegar a algum ponto, porque para abordar algo precisamos partir de algum lugar. Lembro-me de um paciente que dizia: &#8220;sou toxic\u00f4mano desde antes de nascer, porque meu pai j\u00e1 consumia, ent\u00e3o eu consumia na barriga da minha m\u00e3e&#8221;. Nesse momento eu lhe disse: &#8220;podemos concordar, mas quando foi a primeira vez que voc\u00ea fumou um baseado?&#8221;. Busca-se onde est\u00e1 a quest\u00e3o, onde come\u00e7a, onde come\u00e7ar a puxar o fio. Assim, como quem n\u00e3o quer nada, esse paciente diz: &#8220;\u00e9, aos 14 quando meu pai morreu&#8221;; a\u00ed j\u00e1 temos um fio. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre isso que ele disse, que talvez o sujeito n\u00e3o d\u00ea import\u00e2ncia, mas que para n\u00f3s \u00e9 como um fio ao qual podemos nos agarrar, que n\u00e3o necessariamente \u00e9 o \u00c9dipo, mas com as perguntas m\u00ednimas que fazemos, come\u00e7amos a buscar uma causa. Procuramos algo a que nos agarrar, com um m\u00ednimo indispens\u00e1vel, e em alguns casos conseguimos alguma coisa.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> No Semin\u00e1rio 6, Lacan diz que o neur\u00f3tico se deseja desejante; voc\u00ea acha que o neur\u00f3tico de hoje tamb\u00e9m se deseja desejante?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Pode ser, quando algu\u00e9m aparece dizendo &#8220;quero querer algo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> Quero que algo me impulsione, que me fa\u00e7a levantar da cama, que me acorde e quero poder me agarrar a alguma coisa.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim, isso pode ser. Tamb\u00e9m h\u00e1 o neur\u00f3tico que quer algo e sempre faz o contr\u00e1rio do que quer. Isso \u00e9 diferente porque ele j\u00e1 quer alguma coisa.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Querer algo diferente do que se diz, \u00e9 o discurso eg\u00f3ico, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Sim, \u00e9 a inibi\u00e7\u00e3o; a pessoa est\u00e1 inibida em rela\u00e7\u00e3o a algo que deseja; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 inibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Ou est\u00e1 com um discurso do ideal e est\u00e1 fazendo outra coisa.<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Claro, mas quando algu\u00e9m se percebe inibido?\u00a0Quando deseja algo e n\u00e3o consegue. Eu n\u00e3o jogo t\u00eanis e n\u00e3o estou inibido de jogar t\u00eanis, porque n\u00e3o me interessa; mas se eu fosse jogador profissional e n\u00e3o conseguisse pegar na raquete, a\u00ed sim teria um problema. Ou seja, a inibi\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre ligada ao desejo; torna-se um problema quando o desejo j\u00e1 est\u00e1 instalado. Para n\u00f3s, como analistas, isso \u00e9 muito mais confort\u00e1vel, j\u00e1 temos o desejo colocado. Eu penso que a devasta\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 falta de desejo, isso devasta tudo, e o sujeito\/a pessoa n\u00e3o sabe por onde come\u00e7ar. Nesses casos, o que se pode fazer \u00e9 acompanhar o sujeito para come\u00e7ar por algum lugar, por exemplo, perguntando por que ele n\u00e3o sabe o que est\u00e1 acontecendo com ele. E assim transcorrem essas primeiras entrevistas; obviamente, n\u00e3o se est\u00e1 considerando uma associa\u00e7\u00e3o livre, trata-se de uma proposta muito diretiva. Tamb\u00e9m enfatizo nas supervis\u00f5es, quando os praticantes dizem aos seus pacientes: &#8220;voc\u00ea tem que associar livremente&#8221;. \u00c0s vezes o sujeito n\u00e3o tem nada para associar, n\u00e3o h\u00e1 o que associar, porque a associa\u00e7\u00e3o livre est\u00e1 ligada ao desejo. Freud acreditava no desejo: algu\u00e9m, n\u00e3o importa o que diga, sempre acabar\u00e1 voltando ao seu desejo; agora, quando n\u00e3o estamos nesse ponto, dizer para associar livremente \u00e9&#8230;<\/p>\n<p><strong>G. G.:<\/strong> \u00c9 uma cat\u00e1strofe!<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> Claro.<\/p>\n<p><strong>D. R.:<\/strong> Seria empurr\u00e1-lo para o buraco&#8230;<\/p>\n<p><strong>F. Naparstek:<\/strong> E pode ser ainda mais angustiante. S\u00e3o entrevistas em que a gente pergunta, conduz, e n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1vamos acostumados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Obrigado, Fabi\u00e1n!<\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcela Baccarini<\/p>\n<p><strong>Revis\u00e3o:<\/strong> Michelle Sena<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Entrevista realizada por D\u00e9bora Rabinovich e Gabriela Grinbaum a Fabi\u00e1n Naparstek, publicada na <em>Revista Registros Deseo<\/em> &#8211; tomo Azul, 2018. Publicada e traduzida com a am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o dos entrevistadores e do entrevistado, a quem agradecemos.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;149691&#8243;][vc_button button_color=&#8221;color-prif&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2026%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F10%2FBricolagem-Artefato-7-Entrevista-com-Fabian-Naparstek-1.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;769095&#8243;]BAIXAR TEXTO EM PDF[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Fabi\u00e1n Naparstek<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":239,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[17,9],"class_list":["post-1194","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-artefato-7","portfolio_category-bricolagem"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - 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