{"id":895,"date":"2026-08-27T02:24:22","date_gmt":"2026-08-27T02:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/?post_type=portfolio&#038;p=895"},"modified":"2026-09-04T01:13:06","modified_gmt":"2026-09-04T01:13:06","slug":"fazer-par","status":"publish","type":"portfolio","link":"https:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2026\/portfolio\/fazer-par\/","title":{"rendered":"Fazer par"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;181754&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;accent&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; text_size=&#8221;h4&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;557538&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]b\u00fassola[\/vc_custom_heading][vc_empty_space empty_h=&#8221;1&#8243;][vc_custom_heading text_color=&#8221;color-jevc&#8221; text_font=&#8221;font-175661&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;212524&#8243; text_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221;]<strong>Fazer par<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/strong>[\/vc_custom_heading][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;377136&#8243;]<strong>Elisa Alvarenga (AME-EBP\/AMP)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Freud e a sugest\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ao buscar em Freud os fundamentos da transfer\u00eancia, encontramos a ambi\u00e7\u00e3o, reencontrada no Lacan de \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d, de distinguir a transfer\u00eancia da sugest\u00e3o, inicialmente atrelada ao tratamento pela hipnose. No entanto, desde 1912, em \u201cA din\u00e2mica da transfer\u00eancia\u201d, Freud (1912\/2017, p. 116) considera que \u201ccuidamos da autonomia final do paciente, na medida em que utilizamos a sugest\u00e3o para faz\u00ea-lo desempenhar um trabalho ps\u00edquico que tem como resultado necess\u00e1rio uma melhora duradoura de sua situa\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d. J\u00e1 nesse texto, Freud define a transfer\u00eancia como repeti\u00e7\u00e3o, dirigida ao analista, das maneiras de estabelecer v\u00ednculos er\u00f3ticos, ao mesmo tempo ve\u00edculo de cura e resist\u00eancia poderosa ao tratamento. Este \u00faltimo procura rastrear a libido, torn\u00e1-la acess\u00edvel e \u00fatil, liberando-a de seus complexos inconscientes.<\/p>\n<p>Em \u201cObserva\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial\u201d, Freud (1915\/2020, p. 177) enfatiza o car\u00e1ter \u201caut\u00eantico\u201d do amor de transfer\u00eancia, reafirmado por Lacan, e, em sua Confer\u00eancia XXVII, ele dir\u00e1 que \u201cabandonamos a hipnose apenas para redescobrir as sugest\u00f5es na forma de transfer\u00eancia\u201d (FREUD, 1917\/1976, p. 519). O que n\u00e3o surpreende, se em \u201cPsicologia de grupo e an\u00e1lise do ego\u201d ele define a sugest\u00e3o como \u201cuma convic\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 baseada na percep\u00e7\u00e3o e no racioc\u00ednio, mas em um v\u00ednculo er\u00f3tico\u201d (FREUD, 1921\/1976, p. 161).<\/p>\n<p>Lacan (1958\/1998), em \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d, critica os p\u00f3s-freudianos por pensarem que a interpreta\u00e7\u00e3o deve aguardar a consolida\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, pois foi ao localizar, atrav\u00e9s de uma primeira interpreta\u00e7\u00e3o, a posi\u00e7\u00e3o do Homem dos Ratos e de Dora, que Freud estabeleceu a rela\u00e7\u00e3o transferencial. Assim, Lacan mostra que, para Freud, n\u00e3o se trata de adaptar o paciente \u00e0 realidade, mas de perturbar sua estranha adapta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 fabrica\u00e7\u00e3o dessa realidade. Por isso os casos de Freud s\u00e3o t\u00e3o preciosos:<\/p>\n<blockquote><p>Pois ele reconheceu prontamente que nisso estava o princ\u00edpio do seu poder, no que esse n\u00e3o se distinguia da sugest\u00e3o, mas tamb\u00e9m que esse poder s\u00f3 lhe dava a solu\u00e7\u00e3o do problema na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o se servir dele, pois era ent\u00e3o que assumia todo o seu desenvolvimento de transfer\u00eancia. (LACAN, 1958\/1998, p. 603)<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A presen\u00e7a do analista e o sujeito suposto saber<\/strong><\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 11, Lacan (1964\/1985, p. 121) introduz a presen\u00e7a do analista como uma manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente, que se abre e se fecha em uma certa pulsa\u00e7\u00e3o temporal. \u00c9 na \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro\u201d (LACAN, 1967\/2003, p. 253) que ele formaliza o matema do sujeito suposto saber, embora a figura de S\u00f3crates, no Semin\u00e1rio <em>A transfer\u00eancia, <\/em>j\u00e1 encarne o objeto de amor agalm\u00e1tico suposto portar em si um saber. No algoritmo do sujeito suposto saber, o significante da transfer\u00eancia, que faz enigma para o sujeito, se dirige ao significante qualquer do analista, do qual se espera obter o sentido do primeiro, produzindo a emerg\u00eancia de uma cadeia significante inconsciente no sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S &#8212;&#8212;&#8212;&#8211;&gt; S<em><sup>q<\/sup><\/em><\/p>\n<p><span class=\"tracos\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/span><\/p>\n<p><em>s <\/em>(S<sup>1<\/sup>\u200b,S<sup>2<\/sup>\u200b,\u2026S<em><sup>n<\/sup><\/em>\u200b)\u200b<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, se debaixo da barra, o <em>s<\/em> representa o sujeito resultante que implica dentro dos par\u00eanteses o saber, supostamente presente, dos significantes no inconsciente, essa significa\u00e7\u00e3o faz as vezes de referencial ainda latente na rela\u00e7\u00e3o que o liga ao par significante-significado, reintroduzindo a dimens\u00e3o libidinal da transfer\u00eancia. N\u00e3o mais em termos imagin\u00e1rios, como no Semin\u00e1rio <em>A transfer\u00eancia<\/em>, mas em termos de objeto, real, de gozo, que o analisante deposita no analista para constituir o Outro da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Em 1973, Lacan (1973\/2003, p. 555) diz que a transfer\u00eancia \u201c\u00e9 amor que se dirige ao saber\u201d, \u201csentimento que assume a\u00ed uma forma t\u00e3o nova, que esta introduz a subvers\u00e3o, n\u00e3o porque seja menos ilus\u00f3ria, mas porque d\u00e1 a si um parceiro que tem a chance de responder\u201d. Amor, e n\u00e3o desejo, porque a grande paix\u00e3o do ser falante \u00e9 a ignor\u00e2ncia. Lacan acrescenta que o que faz a entrada na matriz do discurso n\u00e3o \u00e9 o sentido, mas o signo. Assim, se o que vem primeiro \u00e9 o signo de gozo, e n\u00e3o o desejo de saber, podemos entender porque, ao falar da transfer\u00eancia na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, Miller (2005, p. 18) nos aponta uma invers\u00e3o quanto ao fato de dizermos que o sujeito suposto saber \u00e9 o piv\u00f4 da transfer\u00eancia: \u201cparece-me que o \u00faltimo Lacan diz outra coisa. Diz ele: a transfer\u00eancia \u00e9 o piv\u00f4 do sujeito suposto saber [&#8230;] o que faz existir o inconsciente como saber \u00e9 o amor\u201d.<\/p>\n<p>Em tempos do Outro que n\u00e3o existe, cada um fala sozinho, qualquer que seja a estrutura, exceto, como diz Lacan (1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 10\/05\/1977, p. 12) no Semin\u00e1rio 24, se nos abrimos ao di\u00e1logo com um psicanalista: \u201cH\u00e1 Um, mas n\u00e3o h\u00e1 nada do Outro. O um dialoga sozinho, pois recebe sua pr\u00f3pria mensagem de forma invertida. \u00c9 ele quem sabe, e n\u00e3o o suposto saber\u201d.<\/p>\n<p>Jean Luc Monnier (2023) acrescenta que ele recebe sua mensagem a partir do Outro que ele mesmo constr\u00f3i para lhe fornecer a resposta, o que leva Lacan (1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 19\/04\/1977, p. 9) a se perguntar se a psican\u00e1lise n\u00e3o seria um autismo a dois. O que Lacan chama de sujeito suposto saber n\u00e3o passa de uma fic\u00e7\u00e3o, um fato de linguagem, que tem valor de uso, incid\u00eancia sobre o gozo. Colocar o analista como sujeito suposto saber \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o do analisante, que sup\u00f5e colocar, no Outro, o objeto <em>a. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Mas essa montagem constitui o analista como aquele que segue o paciente, como diz Lacan (1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 10\/05\/1977, p. 12) no Semin\u00e1rio 24. O analista acompanha a constru\u00e7\u00e3o do fantasma na neurose e do del\u00edrio, ou outras amarra\u00e7\u00f5es, na psicose. Ele faz par com o sintoma do paciente, que se encontra ligado ao seu parceiro analista, parceiro de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Retorno \u00e0 sugest\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>No Semin\u00e1rio 24, Lacan (1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 19\/04\/1977, p. 10) diz que todo discurso tem um efeito de sugest\u00e3o, \u00e9 hipn\u00f3tico, adormecedor, salvo quando n\u00e3o se compreende \u2013 ent\u00e3o ele desperta. E, assim, ele pergunta se a psican\u00e1lise opera por um efeito de sugest\u00e3o (LACAN, 1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 17\/05\/1977, p. 13). J\u00e1 no Semin\u00e1rio 25, Lacan (1977-78, li\u00e7\u00e3o de 15\/11\/1977) diz que o psicanalista \u00e9 um <em>rh\u00e9teur, <\/em>o que implica que ele retifica, opera por sugest\u00e3o. Ele n\u00e3o imp\u00f5e o que quer que seja, mas maneja os recursos da linguagem, operando no n\u00edvel do gozo, e n\u00e3o da decifra\u00e7\u00e3o. A psican\u00e1lise opera no e pelo discurso, fazendo uso de cortes, homofonias, equ\u00edvocos, deslocamentos, sil\u00eancios. Ela usa os efeitos do significante, atrav\u00e9s da forma de dizer.<\/p>\n<p>Se Freud abandonou a hipnose, ele constatou que a psican\u00e1lise tamb\u00e9m operava por sugest\u00e3o. Embora Lacan (1957-58\/1999, p. 435) tenha se esfor\u00e7ado para distinguir a transfer\u00eancia da sugest\u00e3o, situando-as respectivamente no segundo e no primeiro andar do grafo do desejo, para o \u00faltimo Lacan n\u00e3o h\u00e1 discurso sem sugest\u00e3o. A fala, que opera sobre o gozo, tem um efeito de sugest\u00e3o. Por\u00e9m, se na sugest\u00e3o hipn\u00f3tica o analista-mestre imp\u00f5e um sentido, na an\u00e1lise lacaniana o analista-causa descompleta o saber do sujeito, desidentifica. Se n\u00e3o se pode eliminar a sugest\u00e3o, pode-se fazer bom uso dela. N\u00e3o para adaptar ou normalizar o paciente, ambi\u00e7\u00e3o de uma psicoterapia, mas para permitir uma outra rela\u00e7\u00e3o com o sintoma: fazer uso do seu sinthoma como diferen\u00e7a. O analista <em>rh\u00e9teur<\/em> desfaz pela palavra o que se fez pela palavra. Ao dar-se conta do alcance das palavras para seu analisante, ele faz verdadeiro o Um de gozo do paciente, faz com ele par, possibilitando, conforme o caso, deslocamentos do gozo, deslizamentos da cadeia significante e novas fixa\u00e7\u00f5es de gozo para o paciente.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Inconsciente transferencial e inconsciente real<\/strong><\/p>\n<p>Se, na \u00e9poca do Semin\u00e1rio 11, o inconsciente era reconhecido pelos seus trope\u00e7os, lapsos, esquecimentos e sintomas em seu lado significante, interpret\u00e1vel em fun\u00e7\u00e3o de uma causa, Miller (2010, p. 144-145) diz que, no Semin\u00e1rio 24,<\/p>\n<blockquote><p>isso quer dizer outra coisa. Aqui o trope\u00e7o, ou o deslizamento de palavra a palavra situa-se como fen\u00f4meno em um tempo anterior \u00e0quele no qual pode aparecer o inconsciente, j\u00e1 que este s\u00f3 aparece a partir da <em>une-b\u00e9vue, <\/em>na medida em que acrescentamos uma finalidade significante, uma significa\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9ric Laurent (2018, p. 58) articula essa frase de Miller com a transfer\u00eancia:<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 nesse contexto que uma nova vers\u00e3o da transfer\u00eancia positiva se introduz, uma transforma\u00e7\u00e3o por acr\u00e9scimo de sentimento, por acr\u00e9scimo de significa\u00e7\u00e3o, que permite um novo uso do parceiro de gozo para ultrapassar os trope\u00e7os do um-equ\u00edvoco do sujeito, quando confrontado com lal\u00edngua e sua instabilidade, com seus deslizamentos permanentes.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se o sentido diz respeito \u00e0 cadeia significante e est\u00e1 articulado ao inconsciente transferencial, a significa\u00e7\u00e3o grampeia algo do gozo e tem rela\u00e7\u00e3o com a emerg\u00eancia do inconsciente real.<\/p>\n<p>Miller esclarece que se vai do sinthoma, do equ\u00edvoco, ou da <em>b\u00e9vue<\/em>, em dire\u00e7\u00e3o ao inconsciente, acrescentando-se um toque de sentido. Mas isso permanece um semblante, que Lacan decomp\u00f5e em um <em>sens-blanc \u2013 <\/em>sentido vazio \u2013 que valoriza o arbitr\u00e1rio do sentido. Quando acrescentamos o sentido, a inten\u00e7\u00e3o inconsciente, o equ\u00edvoco se torna efeito do inconsciente (MILLER, 2010, p. 145).<\/p>\n<p>Miller (2010, p. 145) explica que colocamos o equ\u00edvoco depois do inconsciente, mas<\/p>\n<blockquote><p>O for\u00e7amento de Lacan, a tor\u00e7\u00e3o que ele imp\u00f5e aqui ao analista em sua pr\u00e1tica \u00e9 o fato de ele re-situar o equ\u00edvoco antes do inconsciente. Isto n\u00e3o abole o inconsciente, n\u00e3o abole o Outro, mas diferencia o Outro em Um e, portanto, faz surgir essa camada de semblantes que envolve a pr\u00e1tica da an\u00e1lise.<\/p><\/blockquote>\n<p>Jean Luc Monnier (2023) esclarece que o analista acompanha o falasser na instabilidade de lal\u00edngua, em seus deslocamentos permanentes, e torna o trope\u00e7o verdadeiro, com o objetivo de trazer o Outro de volta ao Um, ponto a partir do qual ele pode considerar a camada de semblantes que constitui sua <em>histoeria<\/em>. Lal\u00edngua consiste em elementos equ\u00edvocos, em contato direto com o gozo, e se prende ao corpo de gozo do falasser.<\/p>\n<p>Quando Lacan (1977\/1998, li\u00e7\u00e3o de 19\/04\/1977, p. 10) diz, no Semin\u00e1rio 24, que \u201clal\u00edngua \u00e9 um neg\u00f3cio comum\u201d, entende-se que a partir do registro fon\u00e9tico, material, aberto a todas as ambiguidades, lal\u00edngua permite um acordo comum que faz com que a psican\u00e1lise n\u00e3o seja um autismo a dois e que a interpreta\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Se, na neurose, lal\u00edngua \u00e9 recoberta pela linguagem, pelo fantasma e pelas identifica\u00e7\u00f5es, parte-se do Outro, ou seja, das hist\u00f3rias familiares, para retornar ao sinthoma, ao Um de gozo produzido pelo impacto do significante sobre o corpo do falasser.<\/p>\n<p>Na psicose e naqueles cujo enodamento RSI \u00e9 menos assegurado, lal\u00edngua apresenta-se abertamente no del\u00edrio ou nos sinais de abalo das defesas imagin\u00e1rias, e o analista opera para grampear o gozo do Um ao Outro do significante.<\/p>\n<p>Assim, se na psicoterapia a sugest\u00e3o visa normalizar a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o Outro, na psican\u00e1lise a sugest\u00e3o inerente ao significante serve ao \u201ctornar verdadeiro\u201d que incide sobre a rela\u00e7\u00e3o do falasser com seu gozo. Quando Lacan se prop\u00f5e a inventar um significante novo, isso deve ser entendido, diz Miller, no contexto em que o significante e a sugest\u00e3o foram conectados. Ele poderia ter um uso distinto da compreens\u00e3o e do adormecimento e desencadear um despertar. Se a doen\u00e7a mental que \u00e9 o inconsciente n\u00e3o desperta, talvez seja no n\u00edvel do Um, mediante a identifica\u00e7\u00e3o com o sinthoma, que o despertar tem a chance de cessar de n\u00e3o se escrever (MILLER, 2010, p. 148).<\/p>\n<p>Mas para chegar at\u00e9 a\u00ed ter\u00edamos que passar pelo par: par que o analista faz com os casos de urg\u00eancia, os traumas e os imperativos de gozo da puls\u00e3o. O analista \u00e9 um <em>dealer <\/em>da palavra, frente aos sujeitos intoxicados pelo gozo (MILLER, 2026).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fazer par com os casos de urg\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de uma express\u00e3o de Lacan (1976\/2003, p. 569) no final do seu \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d, que aponta para a distin\u00e7\u00e3o do inconsciente enquanto real. Frente a esse inconsciente sem Outro, ganha relevo a observa\u00e7\u00e3o de Lacan (1976\/2003, p. 567) de que a psican\u00e1lise \u00e9 praticada aos pares. Se a miragem da verdade mentirosa s\u00f3 tem como limite a satisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise, \u201cdar essa satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 a urg\u00eancia que a an\u00e1lise preside\u201d (LACAN, 1976\/2003, p. 569). Lacan prop\u00f5e ent\u00e3o que interroguemos como algu\u00e9m pode se dedicar a satisfazer esses casos de urg\u00eancia. Seguindo o fio do nosso percurso, a forma\u00e7\u00e3o do par, como resposta \u00e0 presen\u00e7a traum\u00e1tica do furo do inconsciente real, antecederia a abertura ao saber. O analista \u00e9, ent\u00e3o, em primeiro lugar, um parceiro do gozo do paciente. A cl\u00ednica nos apresenta exemplos que demonstram como o analista pode fazer par, ali onde o inconsciente real se manifesta pelas disrup\u00e7\u00f5es do gozo e o inconsciente transferencial ou a suposi\u00e7\u00e3o de saber podem surgir como consequ\u00eancia disso.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>FREUD, S. Confer\u00eancia XXVII: Transfer\u00eancia. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVI, 1976. (Trabalho original publicado em 1917).<\/p>\n<p>FREUD, S. Psicologia de grupo e a an\u00e1lise do ego. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XVIII, 1976. (Trabalho original publicado em 1921).<\/p>\n<p>FREUD, S. A din\u00e2mica da transfer\u00eancia. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017. (Trabalho original publicado em 1912).<\/p>\n<p>FREUD, S. Observa\u00e7\u00f5es sobre o amor transferencial. In: <em>Obras incompletas de Sigmund Freud<\/em>: Fundamentos da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2020. (Trabalho original publicado em 1915).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>Le s\u00e9minaire, livre XXV<\/em>: Le moment de conclure. 1977-78. (In\u00e9dito).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. (Trabalho original proferido em 1964).<\/p>\n<p>LACAN, J. A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: <em>Escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 591-652. (Trabalho original publicado em 1958).<\/p>\n<p>LACAN, J. Rumo a um significante novo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 22, p. 6-15, 1998. (Li\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio 24 proferidas em 1977).<\/p>\n<p>LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5<\/em>: As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999. (Trabalho original proferido em 1957-58).<\/p>\n<p>LACAN, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 248-264. (Trabalho original publicado em 1967).<\/p>\n<p>LACAN, J. Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de um primeiro volume dos Escritos. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 553-556. (Trabalho original publicado em 1973).<\/p>\n<p>LACAN, J. Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11. In: <em>Outros escritos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 567-569. (Trabalho original publicado em 1976).<\/p>\n<p>LAURENT, \u00c9. Disrup\u00e7\u00e3o de gozo nas loucuras sob transfer\u00eancia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 79, 2018.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. Uma fantasia. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, n. 42, p. 7-18, fev. 2005.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 23 de Lacan<\/em>: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>Donc. <\/em><em>La l\u00f3gica de la cura. Los cursos psicoanaliticos de Jacques-Alain Miller<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. <em>O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2015.<\/p>\n<p>MILLER, J.-A. A droga da palavra. <em>Pharmakon Digital<\/em>, n. 5, jan. 2026. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/pharmakondigital.com\/a-droga-da-palavra\/\">https:\/\/pharmakondigital.com\/a-droga-da-palavra\/<\/a> Acesso em: 21 jun. 2026.<\/p>\n<p>MONNIER, J. L. Transference and Interpretation in Lacan\u2019s Last Teaching. <em>LC Express<\/em>, v. 7, n. 1, nov. 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/lacaniancompass.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/lce_V7_issue1_compressed.pdf\">https:\/\/lacaniancompass.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/lce_V7_issue1_compressed.pdf<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Texto apresentado no Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio para a 28\u00aa Jornada da EBP-MG, <em>Psican\u00e1lise: modos de usar<\/em>, em 06 de agosto de 2026.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Relat\u00f3rio do cartel do Eixo 2 da 28\u00aa Jornada da EBP-MG, composto por: Anam\u00e1ris Pinto, B\u00e1rbara de Faria Afonso, Bernardo Micherif, Ernesto Anzalone, Helenice de Castro, Henri Kaufmanner, Elisa Alvarenga (Mais-Um).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Miller, 2011, p. 298.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;149691&#8243;][vc_button button_color=&#8221;color-prif&#8221; border_width=&#8221;0&#8243; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fwww.jornadaebpmg.com.br%2F2026%2Fwp-content%2Fuploads%2F2026%2F08%2FBussola-5-Elisa-Alvarenga_.pdf|target:_blank&#8221; button_color_type=&#8221;uncode-palette&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;153251&#8243;]BAIXAR TEXTO EM PDF[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elisa Alvarenga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":240,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"portfolio_category":[15,7,4],"class_list":["post-895","portfolio","type-portfolio","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","portfolio_category-artefato-5","portfolio_category-bussola","portfolio_category-orientacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.6 - 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