corte e costura
“Só a transferência muitas vezes pode eliminar os sintomas do sofrimento, mas de forma provisória, enquanto ela própria subsistir. Isso então será um tratamento por meio de sugestão [Suggestivbehandlung], e não Psicanálise. O tratamento só merecerá esse último nome se a transferência tiver utilizado a sua intensidade para superar as resistências.”
FREUD, S. Sobre o início do tratamento. In: Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. (Trabalho original publicado em 1913). p. 146.
“Digo que é numa direção do tratamento que se ordena, como acabo de demonstrar, segundo um processo que vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, e depois, à interpretação, que se situa o horizonte em que a Freud se revelaram as descobertas fundamentais que até hoje experimentamos, no tocante à dinâmica e à estrutura da neurose obsessiva. Nada mais, porém também nada menos.”
LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (Trabalho original publicado em 1958). p. 604.
“É com um psicanalista que a psicanálise entra no que está em questão, ou seja, o inconsciente, se ele existe, e se o definimos como parece que podemos fazê-lo depois do longo caminho percorrido por anos nesse campo. Ir ao campo do inconsciente é propriamente encontrar o âmbito disso que pode ser mais bem definido como efeito de linguagem. […]
A psicanálise nos ensina que as coisas se dão de modo diferente – pelo próprio efeito do significante, o sujeito só se institui como dividido, de maneira irredutível, e o que se refere ao saber permanece sempre como um resíduo que, de certo modo, é constitutivo de seu estatuto. Eis o que exige de nós o estudo do que é o sujeito como efeito de linguagem. Saber como isso é acessível e o papel que o psicanalista aí desempenha: eis o que seguramente é essencial estabelecer.”
LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar, 2025. (Trabalho original proferido em 1967-1968). p. 185.
“Quando o esp de um laps – ou seja, visto que só escrevo em francês, o espaço de um lapso – já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente.”
LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. (Trabalho original publicado em 1976). p. 567.
“Quando declara ter negligenciado o fator econômico, Freud se refere ao que nós constatamos nos relatos de caso: uma elucidação significante não é suficiente para operar; resta alguma resistência, não a do paciente, mas a da própria coisa, uma resistência do isso, da libido, de sua viscosidade, da fixação. O encantamento provocado pela leitura dos casos de Freud está ligado ao mito de uma libido fluida, que estaria inteiramente na decifração […]. Quando Freud diz: ‘Esqueci o fator econômico’, ele extrai essa conclusão de suas dificuldades com seus pacientes.”
MILLER, J.-A. Sobre o desencadeamento da saída da análise. In: Aposta no passe. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018. p. 43.
“Sempre que uma interpretação falha, ela nos traz de volta a esse real separado do sentido. Mas, ao mesmo tempo, a prática analítica opera com o sentido, ou seja, com a conexão, seja ela da associação livre ou da interpretação. A prática analítica que opera a partir do sentido pressupõe uma relação que denomino com o losango lacaniano e que é a relação entre o sentido e o real.”
MILLER, J.-A. La idea de lo real. In: El Ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 156. (Tradução nossa).
“Definir a interpretação do lado do simbolicamente real exigiria elaborar o que Lacan chamou de um significante novo. Esse significante novo não é um significante particular, mas um novo modo do significante, um novo modo de existência do significante, ou pelo menos um novo uso do significante que, como o real, não tenha nenhum tipo de sentido.
Daí a referência de Lacan à poesia em uma proposição que deve ser situada neste esquema: ‘Somente a poesia permite a interpretação’. Mas isso só é válido sob a condição de se demonstrar que a poesia está duplamente articulada. A poesia produz um efeito de sentido, mas produz também e ao mesmo tempo um efeito de furo, um esvaziamento. Por seu efeito de furo, ela seria adequada ao objeto a.”
MILLER, J.-A. La idea de lo real. In: El Ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 161-162. (Tradução nossa).
“A operação analítica consiste em afrouxar os laços estabelecidos entre significante e significado, os laços que são estabelecidos pela rotina no seio de um vínculo social ou de uma comunidade de linguagem, aquela em que nos entendemos uns aos outros. Nós nos entendemos justamente para silenciar o murmúrio que surge da própria linguagem. O analista está lá – como é bem sabido – para ajudar a afrouxar os laços estabelecidos entre o significante e o significado. Ele está lá para fazer o papel de burro. Ele está lá para não compreender, exatamente para frear a passagem do significante ao significado, para retardá-la, para colocar pontos de interrogação, os x, para dizer, finalmente, ao analisante: ‘para mim, isso é chinês’. […].
[…] Se ele não compreende, ele está em seu papel. Basta que ele não fale muito para que ele possa perceber a raiz da coisa.”
MILLER, J.-A. Vous avez dit bizarre? In: Quarto, n. 78, fevereiro 2003. p. 8. (Tradução nossa).


