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Psicanálise: modos de usar – Separar, Fazer par, Interpretar
Cristiana Pittella (EBP/AMP)
Prólogo
Foi-me solicitado, por Maria de Fátima Ferreira, um “apanhado” do que viemos trabalhando ao prepararmos nossa 28ª Jornada da EBP-MG, Psicanálise: modos de usar. Tarefa hercúlea, certamente, que carrega consigo o impossível, sobretudo porque trabalhamos, a partir das contribuições da Coordenação da Jornada e dos cartéis dos três eixos de investigação sobre o tema, conceitos novos e complexos na experiência de nossas conversações e pudemos começar a investigá-los e fazer ressoar seus modos de usar, em work in progress, no esforço de falar do que fazemos na clínica com o falasser.
Cada eixo da 28ª Jornada da EBP-MG – Separar, Fazer par e Interpretar –, ao abordar as novas formas de subjetividade, revisitou tais conceitos desde a invenção da psicanálise com Freud até o ultimíssimo Lacan.
O modo como os discursos capturam o corpo e os efeitos de gozo (LACAN, 1971-72/2012, p. 21) coloca questões para a nossa clínica e interroga os nossos conceitos fundamentais. O material produzido por cada eixo é muito rico e continuará em nossa biblioteca, servindo para nossa formação e para nossas investigações, quando publicado em nossa revista Curinga.
Desse material, destaquei uma questão formulada pelos autores de cada eixo, extraída da atualidade de nossa clínica:
Eixo 1: Separar: como pensar a separação na chamada “nova alienação”?
Eixo 2: Fazer par: como conceber a transferência quando há Um, e nada do Outro? (LACAN, 1977/1998 apud BESSA, 2026, s.p.)
Eixo 3: Interpretar: “como interpretar, quando a distância entre o sujeito e aquilo que pretende defini-lo está reduzida e a palavra chega sob a forma de uma certeza sobre si?” (GONTIJO, 2026, s.p.)
1º Ato
As vinhetas clínicas apresentadas nos cartéis e comentadas nos seminários preparatórios, ao transmitir a psicanálise em seus modos de usar, elucidam, cada uma a seu modo, como cada praticante, orientado pela psicanálise, enfrenta o real em jogo em cada caso.
Vimos que não se trata de qualquer uso. Como nos diz Lacan no Seminário O ato psicanalítico, trata-se de uma prática com um psicanalista, “com”, no sentido instrumental do termo (LACAN, 1967-68/2025, p. 185).
O psicanalista não é, portanto, aquele que aplica a psicanálise, isto é, como uma técnica. Ele é a condição para que uma experiência analítica possa acontecer, na medida em que funciona como sua causa (a), como causa da tarefa psicanalisante, um saber-fazer produzido pelo analisante.
As vinhetas clínicas demonstraram no decorrer de nossos encontros o quanto “o objeto-psicanalista é surpreendentemente versátil, disponível, multifuncional” (MILLER, 1999, p. 55) – da docilidade ao confronto. Muitas foram as invenções que incidiram sobre a relação do falasser com seu gozo e que, ao se servir delas, deram lugar ao sujeito como diferença absoluta.
Ao responder, o psicanalista não faz, do poder que lhe é conferido pela posição de escuta, o mesmo uso que o mestre. Ao dar lugar ao silêncio, à palavra de cada sujeito, um a um, entra em jogo a lógica do que acontece no encontro entre um analista e um analisante.
A psicanálise não se reduz à escuta: o direito à escuta é solidário ao direito à interpretação. Escutar, por parte do analista, é escutar o escrito no dito, como nos diz Jacques-Alain Miller (2018, p. 278) em “Modalidades de rechaço”.
Isso quer dizer que se escutam as marcas de uma estrutura que se escreve na fala. Não se trata apenas do sentido ou do significado inconsciente a ser decifrado, mas da posição do sujeito e da leitura daquilo que se fixa e se repete na cadeia significante, em sua materialidade (moterialidade), a saber, um modo de gozo: ponto em que o significante encontrou o corpo e nele se fixou como gozo.
E, se o analista fala, não é “a torto e a direito” como lembrou Elisa Alvarenga, retomando Lacan (1976) em “Conferências e entrevistas em universidades norte-americanas”. A fala do analista não consiste em impor significantes arbitrários e nem em dar sentido à fala do analisante visando a sua adaptação. Ela visa operar nessa materialidade do significante, ali onde aponta a causa do desejo.
Esses modos de uso colocam a questão do que torna o psicanalista preparado para encarnar esse objeto, posição que não está garantida de uma vez por todas.
Um psicanalista se define na experiência, por seu ato. Pudemos verificar que há analista pontualmente, quando há ato analítico, e isso só o sabemos a posteriori, pela leitura de seus efeitos.
O ato analítico ultrapassa, surpreende, tanto o analista quanto o analisante. Não há dois atos analíticos iguais: ele não é passível de repetição nem de retificação. Ele instaura um antes e um depois, um início e/ou um fim. Pode tanto produzir um novo sentido quanto produzir uma ruptura com o sentido, apontando para o real.
O ato analítico coloca em jogo uma separação, uma mudança de posição do sujeito: seja em relação ao saber – descompletando-o, permitindo ler de outro modo –, seja em relação ao desejo, ao possibilitar uma desidentificação ou um descongelamento significante, ou seja, ainda, em relação ao gozo – pela cessão de algo do gozo, por seu deslocamento ou pela afirmação de uma satisfação.
Verificamos assim a passagem da materialidade para o moterialismo e, em alguns casos, trata-se de uma “salvação pelos dejetos”, como interveio Helenice de Castro. Samyra Assad, por sua vez, levanta a questão de saber se se trataria, nesses casos, de um sujeito suposto operar, fazendo referência a Jacques-Alain Miller ao aproximar a psicanálise da arte.
Em outras situações clínicas, o analista intervém, por sua vez, como um sujeito suposto interessar-se, em expressão de Guy Briole citada por Araceli Fuentes (2025), e esse signo coloca também em jogo um Outro e um saber prévio, o ato de palavra possibilitando uma certa cessão do gozo e permitindo fazer par.
Segundo Graciela Brodsky (2026)[1], ao comentar o “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, para Lacan todos os casos são casos de urgência.[2] A clínica psicanalítica, ressalta Brodsky (2026) ao citar Lacan (1977/2001), é o real enquanto impossível de suportar. E para suportá-lo, é preciso um corpo que possa “fazer par” com o corpo falante e seu gozo.
Como trabalhado no eixo 2, o “fazer par”, presente na concepção da transferência, “faz do analista um parceiro que tem a chance de responder” (BESSA, 2026, s.p.). Outro é “um Outro que o próprio falasser constrói” (BESSA, 2026, s.p.). Enquanto “amor ao saber”, a transferência “constitui uma montagem simbólica que recobre uma dimensão mais real, na qual o analista é colocado como parceiro do gozo” (BESSA, 2026, s.p.).
O ato analítico conecta o sintoma ao inconsciente, constituindo-o como sintoma analítico, e implica a dimensão de um não-saber. Ele não é resultado de um cálculo, de um ritual ou de um protocolo – esses são, ao contrário, defesas ao ato, tentativas de eliminar a contingência, o furo e o equívoco, estruturais para um falasser.
Destacar esse ponto implica considerar que é por um ato que separar, fazer par e interpretar se enlaçam e encontram lugar em uma análise.
2º Ato
Na clínica atual, o corpo sobressai e, por consequência, encontramos um rechaço ao Outro e disrupções de gozo – seja nas passagens ao ato, seja no acting out –, uma presença do inconsciente real, que acarreta consequências sobre a economia psíquica do falasser.
“O saber e o gozo estão no bolso”, nos diz Miller (2016) em “Em direção à adolescência”. Os efeitos da ciência, atrelados aos do capitalismo, operam na mesma direção ao forcluir o sujeito ($), impedindo-o de subjetivar e de se responsabilizar pelo que lhe acontece.
Lacan (1973-74, lição de 13/11/1973, tradução nossa), ao dizer que os “Não-tolos são aqueles que se negam a ser capturados pelo espaço do ser falante”, demonstra que, nesse rechaço ao Outro, a subjetividade de nossa época tende a separar a palavra do corpo e do sofrimento psíquico.
O rechaço ao inconsciente e à captura pelo simbólico produz uma “nova alienação”, ou, como Jacques-Alain Miller (2022a) a nomeia pela fórmula de nosso tempo, o “Dico”, que seria uma espécie de cogito contemporâneo – sou o que digo –, ou seja, uma tendência a fazer do enunciado uma garantia do ser (o ser-eu; sou, não penso).
E, como nos trouxe Suzana Barroso (2026), trata-se também do efeito do declínio da linguagem, em que a transmissão é substituída pela informação – e não pela experiência –, ou pela propaganda, assim como pela difusão de um suposto saber científico, como os do diagnóstico (quantos pais nos apresentam seus filhos a partir de um diagnóstico, não a partir de um desejo!).
Trata-se, assim, de uma alienação em um saber que não porta a singularidade. Essa “nova articulação com o saber” pode “resultar no congelamento da lógica binária do significante” (BARROSO, 2026, s.p.) \( \left(\frac{S_2}{a}\right) \), favorecendo o gozo autístico e uma posição do sujeito como objeto silenciado ou encarnando o dejeto.
A operação do analista visa encontrar, nesse ser de objeto, algo do sujeito, nos disse Sérgio Laia ao apresentar o eixo 1, Separar. Ou, ainda, como nos diz Miller (2022b) em “Uma nova alienação”: “É precisamente o esforço para identificar o sujeito ali onde havia desaparecido sob o significante”, e abrir a possibilidade de uma nova leitura. Efetua-se assim a passagem da alienação à verdade: sair do falso ser (o ser do “eu não penso”), inautêntico em relação ao inconsciente, para uma verdade do sujeito, verdade situada no “eu não sou” (MILLER, 2022b).
Trata-se, portanto, na “nova alienação”, de um uso da linguagem que não suporta o que ultrapassa o ser-eu, pois está fundada na negação do inconsciente, mediante a qual o sujeito se sente o amo de seu próprio ser.
Os enunciados carregados de certeza e de rigidez restringem o espaço da interpretação, ou, ainda, a desautorizam, como Maria José Gontijo (2026) enfatizou em seu texto acerca do eixo 3, Interpretar. Essa rigidez substitui o diálogo não apenas com o Outro, mas também consigo mesmo – trata-se de sujeitos que estão submetidos a uma ordem de ferro (KORETZKY, 2026).
Na medida em que o ato analítico introduz a possibilidade de haver algo “além do que se diz que é”, é possível que haja uma eleição pelo inconsciente. E é precisamente a transferência que permite esse deslocamento.
A linguagem não é uma maquininha simbólica que entra na vida da pessoa, mas uma resposta ao encontro traumático da língua no corpo, a saber, resposta ao encontro com o gozo hetero e singular. Temos assim que a perspectiva da psicanálise, como nos lembra Marie-Hélène Brousse (2021, transcrição e tradução nossas), “é a de restabelecer a palavra, onde ela foi cortada do corpo” e, desse modo, propiciar uma subjetivação.
Isso implica a intrusão do analista, um ato analítico, seja o de interpretar em seus modos de uso diversos – alusão, corte, pontuação, citação, equívoco, silêncio e o bom uso da sugestão –, seja como grampo, como rétheur.
3º Ato
Um ato que produza tanto uma abertura ao inconsciente transferencial quanto uma parceria com o inconsciente Real.
No inconsciente transferencial, como explicitou Graciela Bessa (2026) ao comentar o texto de Elisa Alvarenga (2026), trata-se de um par entre o significante S1 e o S2, o saber. O analista, como sujeito suposto saber, é uma construção do analisante, que supõe colocar, no Outro, o objeto a.
Se, na neurose, estão em jogo uma historização, a novela familiar, o deciframento e a queda das identificações, com o analista acompanhando a construção do fantasma, nos deparamos também com um falasser que não adere à suposição de uma relação entre o real que golpeia seu corpo e um saber a ser decifrado, que não acredita numa verdade escondida. Ele dá testemunho de um corpo afetado, perturbado por algo, que antes funcionava e deixou de funcionar. Trata-se mais de uma resposta do falasser do que de uma questão do sujeito, uma resposta ao imperativo de gozo que pode importuná-lo, mas não o divide. Portanto, não uma busca pelo objeto perdido, mas um gozo que itera.
Quando essa abertura ao inconsciente transferencial não é possível – pois, como nos trouxe Elisa Alvarenga (2026), o analista, enquanto parceiro do gozo, acompanha, na psicose, o delírio ou outras amarrações possíveis –, a dimensão é a do inconsciente real.
Ao acompanhar e identificar, no sujeito, o que provocou o desenganche, com o ato de nomeação – uma fórmula peculiar –, opera-se não para explicar o que ocorre a ele, mas para fazer um grampo entre o gozo do Um e o Outro do significante, permitindo ao falasser circular com sua singularidade de gozo.
Ao alojar algo do gozo, o analista propicia a instalação de uma borda, permitindo que algo da satisfação encontre um rumo distinto daquele mortífero.
É uma separação que também inclui o gozo. O ser-eu, rígido, dá lugar a outra coisa quando o gozo autístico ressoa na análise. E o analista, ao manter o diálogo com o falasser, inventa, a cada vez, um modo de perturbar o arranjo de gozo, quando este o empurra a um sem limite mortífero.
Referências
ALVARENGA, E. Fazer par. Artefato, n. 5, 2026. Disponível em: https://jornadaebpmg.com.br/2026/portfolio/fazer-par/. Acesso em: 7 out. 2026.
BARROSO, S. F. Usos e desusos da linguagem e dos objetos. Artefato, n. 4, 2026. Disponível em: https://jornadaebpmg.com.br/2026/portfolio/usos-e-desusos-da-linguagem-e-dos-objetos/. Acesso em: 7 out. 2026.
BESSA, G. Transferência, fazer par? Artefato, n. 5, 2026. Disponível em: https://jornadaebpmg.com.br/2026/portfolio/transferencia-fazer-par/. Acesso em: 7 out. 2026.
BRODSKY, G. Empezar a analizarse. YouTube: Nucep – Sección Clínica de Madrid, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iUn6vavZo0. Acesso em: 7 out. 2026.
BROUSSE, M.-H. Les modes du sexe. YouTube: Lacan Web Télévision, 23 mai. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kM2Ogcq3CaU. Acesso em: 7 out. 2026.
FUENTES, A. “Hacer el par” en los casos de urgencia: conferencia de Araceli Fuentes. Podcast del Nucep, 22 out. 2025. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/1mOmNO7PMbud6B9gvZorSf. Acesso em: 7 out. 2026.
GONTIJO, M. J. Interpretar. Artefato, n. 6, 2026. Disponível em: https://jornadaebpmg.com.br/2026/portfolio/interpretar-artefato6/. Acesso em: 7 out. 2026.
KORETZKY, C. Subjetividades contemporâneas: ¿deseo o orden social? YouTube: Nucep – Sección Clínica de Madrid, 3 jul. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AnWGj5GkQVU. Acesso em: 7 out. 2026.
LACAN, J. Le Séminaire, livre XXI: Les non-dupes errent. 1973-74. (Trabalho inédito).
LACAN, J. Conferências e entrevistas em universidades norte-americanas. Scilicet, n. 6/7, 1976.
LACAN, J. Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 22, p. 6-15, 1998. (Lições do Seminário 24 proferidas em 1977).
LACAN, J. Abertura da Seção Clínica. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 30, abr. 2001, p. 6-9. (Trabalho original proferido em 1977).
LACAN, J. O Seminário, livro 19: …ou pior. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Vera Ribeiro; versão final de Marcus André Vieira; preparação de texto de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012. (Trabalho original proferido em 1971-72).
LACAN, J. O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; tradução de Teresinha N. Meirelles do Prado; versão final de Angelina Harari. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2025. (Trabalho original proferido em 1967-68).
MILLER, J.-A. As contraindicações ao tratamento psicanalítico. Opção Lacaniana: Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 25, p. 52-55, 1999.
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MILLER, J.-A. Modalidades del rechazo. In: Introducción a la clínica lacaniana: Conferencias en España. Barcelona: Gredos, 2018. p. 272-285.
MILLER, J.-A. Intervention lors de “Question d’École”. École de la Cause freudienne, Paris, 22 jan. 2022a. (Inédito).
MILLER, J.-A. 1, 2, 3, 4: Los cuatro de Lacan – Tomo II (1984-85). Buenos Aires: Paidós, 2022b.
Notas
[1] “No Prefácio da edição inglesa dos Escritos, Lacan se pergunta mais uma vez pelo desejo do analista, isso sempre foi um enigma para Lacan; segundo ‘como alguém pode dedicar-se a satisfazer esses casos movidos pela urgência que preside a análise’, casos de urgência que ele tem que fazer par, por isso ele não pode continuar escrevendo… Essa perspectiva, de colocar os inícios das análises sob a perspectiva da urgência pulsional (gozo) é distinta de colocar a psicanálise em seu início pelo desejo de saber, e isso nos diferencia da IPA. Na IPA, para analisar-se, o requisito fundamental é querer saber, em especial sobre a psicanálise. Por outro lado, os casos de urgência, eles enviam para a psicoterapia (o que seria psicanálise aplicada, visaria o terapêutico). Para Lacan, toda análise é terapêutica e todos os casos são de urgência.” (Transcrição e tradução nossas).
[2] “Urgência que o analista tem que satisfazer, tem que acolher (o gozo) e, por outro lado, urgência da satisfação que tem que permitir que se produza, sem diferenciar se é na entrada ou final de análise.” (Transcrição e tradução nossas).


