Month: junho 2021
Tru-no-ar – Episódio
Tru-no-ar - 2ª versão
Tru-no-ar – Episódio
por Sérgio de Mattos
Neste episódio, buscamos fazer ressoar os sons graves que suportam materialmente o LOM. É curioso notar como, nestas frequências, nosso corpo vibra, percutido pelas ondas sonoras mais baixas. Os trombones, violoncelos, tambores são uma prova. São um exemplo de como o som afeta o LOM. Os monges que soam no início deste episódio fazem de suas litanias, usando essa faixa sonora, um modo de tocar o corpo que assim esvazia-se e com ele seus pensamentos. Lacan, no seminário As psicoses”, nos lembra de algo mais próximo de nossa cultura:
Há uma lindíssima prece na prática cristã que se chama Ave-Maria. Ninguém suspeita, aliás, que isso começa pelas três letras que os monges budistas resmungam o dia todo. AUM, deve haver aí alguma coisa radical na ordem do significante, mas que importa. Eu a saúdo Maria.[1]
Nesta convergência, Lacan indica algo radical no interior da ordem significante, ouçamos, e aqui é preciso ouvir em francês, Je vous salue, Marie … Le seigheur est avec vous …, sonoridades básicas que fornecerão, não sem consequências para o ser falante, as primeiras materialidades sonoras para os significantes. Justo aquelas que os bebês têm mais facilidade para vocalizar e, porque não, gozar em seus primeiros balbucios. Corpo tambor, tubo, corda, corpo falante. Os “gritos” ouvidos, fazem nesta Sketch contraponto ao conforto e sobriedade trazido pelos graves, a outra face terrível do som, expressão jaculatória, prévia à divisão enunciação/enunciado, emitida de um corpo impactado pelos excessos, que nos remete em sua natureza àquele grito ao qual Lacan se refere no seminário “Problemas cruciais da psicanálise”, grito insólito, ao mesmo tempo de terror e de apelo irresistível, que evoca na tradição do Zen, o grito, Khât, que seria capaz de ressuscitar um morto.
[1] Lacan.J. O Seminário, livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p.322.
Editorial – Ecos 2

Editorial
por Henri Kaufmanner
Bem-vindos ao ECOS 2, nosso boletim que ressoa o trabalho de construção das XXV Jornadas da Seção Minas/EBP.
Neste número encontrarão o texto de Lilany Pacheco, Mais Um do cartel do Eixo 1 da jornada: Fazer-se um corpo que, em seu working progress, já reverbera como foi nossa primeira Conversação Preparatória. Na conclusão de seu texto, Lilany reforça a ideia de que a incidência de alíngua em cada corpo, produz ressonâncias singulares e contingentes em cada falasser. Isso pode ser verificado na discussão dos casos apresentados durante a conversação. Tal observação é também um convite a que nossa comunidade analítica participe destas nossas conversações preparatórias, pois há algo desse real contingente, que acontece em cada conversa, que não se escreve no boletim.
Seguindo, ECOS 2 nos apresenta uma gama de trabalhos que ajudam a encorpar ainda mais nosso tema, apontando também caminhos para a segunda Conversação Preparatória: A transferência e o corpo do analista.
Angelina Harari nos leva ao momento inaugural da psicanálise, quando Freud se via diante das histéricas, assinalando que o enamoramento, como fato transferencial, inaugura essa experiência com a qual nos ocupamos até hoje. Lembra Angelina que a análise se faz aos pares e que para ser analisante é preciso consentir que, do psicanalista, venha algo que perturbe sua defesa.
No relato de sua análise, Paola Bolgiani nos apresenta momentos distintos, dividindo em tempos lógicos sua experiência de análise. A cada tempo um ”despender”. Comentando seu relato, Éric Laurent assinala; “seu relato nos ensina os paradoxos daquilo que nomeamos de Sujeito Suposto Saber”.
A comissão de Bibliografia nos traz citações que nos ajudam a localizar o analista e a transferência, bem como referências bibliográficas que podem ajudar no trilhamento dessa investigação.
Seguindo pela Comissão de Bibliografia nossa ex AE, Ana Lydia Santiago, escreve sobre um acontecimento de corpo em sua análise que remete aos destinos do objeto a e, em video , nossa AE em exercício, Tania Abreu, no frescor de sua recente nomeação, relata dois acontecimentos de corpo definidores na conclusão de sua análise.
Poderão ainda ler nas resenhas feitas por Maria de Fátima Ferreira, Rodrigo Almeida e Samyra Assad, dos textos de Laurent Dupont, Alain Merlet e Laure Naveau, um interessante mosaico de diversas leituras de acontecimento de corpo.
Lucíola Macêdo em seu texto aborda a dimensão do gozo místico, mais além da religião. Ela nos lembra do reposicionamento de Lacan sobre o gozo feminino que diz respeito, fundamentalmente, a esse “corpo que se goza”. O gozo feminino é um “puro acontecimento de corpo” o que se desvela na experiência mística: um gozo extático, um turbilhão. Em certo contraponto a este turbilhão, Cristiana Pittella nos apresenta a arte de Ernesto Neto, uma arte fora do espelho, um SKbelo, algo menos grandioso, mais ordinário e modesto, que permite um uso do corpo fora do sentido. Uma arte que acontece a partir dos restos do corpo.
Amarrando tudo isso, as Ecolalias seguem com a contribuição de nossos colegas na lalação asemântica nos sugerida por Lacan. Temos uma segunda versão do Tru-no-Ar, uma sonoridade grave que acontece no corpo, como nos explica Sergio de Mattos e também, a bela composição Nanquin, do Dj Dolores, remanescente do movimento Manguebeat e que nos contempla com uma agradável entrevista.
Visualizem, leiam , escutem, deixem que seus corpos ressoem, enfim, vivam o ECOS 2. Aproveitando toda essa vivacidade façam já suas inscrições nas XXV Jornadas da Seção Minas/EBP: Acontecimento de Corpo: da contingência à escrita.
Acontecimento de corpo

Acontecimento de Corpo
por Ana Lydia Santiago
Lacan define o sintoma como “um acontecimento de corpo” em Joyce o Sintoma[1], conferencia proferida em 1975. Essa expressão, mencionada apenas nessa ocasião, foi extraída e destacada por Jacques-Alain Miller como uma noção crucial no ultimo ensino de Lacan. A perspectiva inédita introduzida em O seminário, livro 20, Mais, ainda, do significante produzindo efeitos de gozo e não apenas de mortificação, levou à proposição do inconsciente como falasser e do sinthoma enquanto “algo que acontece no corpo por causa de lalíngua”[2].
Cada sujeito responde de uma maneira singular ao banho de lalíngua, no momento de sua chegada ao mundo. O que faz corpo para o ser falante é que seu gozo sofre a incidência da palavra[3]. O acontecimento de corpo é a percussão da língua sobre o corpo, é o traumatismo da própria língua, que se situa no encontro sempre faltoso entre a linguagem e a carne. Concebido como um advento de gozo, o acontecimento de corpo está no cerne, repercute e itera, nutrindo autisticamente o sintoma. Por isso, em uma experiência de análise, alguns temas podem ser interpretados à posteriori como versões, roupagens do acontecimento de corpo.
É preciso diferenciar o sintoma como formação do inconsciente, decifrável e revelador do desejo inconsciente, do sinthoma acontecimento de corpo, que sobressai do registro de um gozo indecifrável, “gozo opaco, por excluir o sentido”[4]. Em uma análise, estes dois opostos são explorados: deciframos os sintomas, buscando saber o que querem dizer, e também a quê satisfazem, de que gozam[5]. O gozo do sintoma testemunha que houve um acontecimento, um acontecimento de corpo depois do qual, o gozo natural do corpo vivo, transtornou-se e se desviou[6]. Seguimos seus traços pela trama de sentido do sintoma que o sujeito lhe dá, que é sua face interpretável, até o ponto em que, esvaziado do sentido inconsciente e reduzido a seu osso de gozo, não demanda mais nada, revelando o enodamento entre imaginário, simbólico e real.
Muitos testemunhos de passe mencionam algo que sobrevém ao corpo, no final de análise, uma perda que se acompanha de uma vivificação. Na minha experiência um dos acontecimentos de corpo foi assinalado pela perda do brilho do objeto olhar. Ao atravessar a Pont Royal, mirando a Concorde, no horizonte, não vejo mais Paris como antes. De repente, este lugar considerado como uma das mais belas paisagens urbanas do mundo, perde todo o seu deslumbramento e, aos meus olhos, sua beleza deixa de ter o esplendor exuberante de antes. O desinvestimento escópico é correlato à inscrição do vazio no objeto olhar.
O objeto, antes aprisionado em sua face imaginaria, perde o brilho; opera-se, então, a redução do real do gozo do objeto escópico. Considera-se que o imaginário é o corpo[7], e o corpo é impensável sem o gozo, afirma Lacan. Freud, em Mal-estar na civilização, observa que a beleza é a do corpo humano. O que se vê na paisagem é a própria beleza, na paisagem. A interpretação do analista, a esse respeito, sinaliza a retirada do objeto de seu esconderijo e a instauração, para o sujeito, da separação entre o valor de gozo do objeto e seu valor de semblante. O objeto não é mais creditado ao Outro, não há mais o Outro para assegurar ao sujeito esse seu brilho narcísico. É nesse ponto que a operação de “menos” sobre o brilho do olhar que cai, produz um “mais”, um mais de vida.
Outras referências:
LECOEUR, B. Acontecimento de corpo. In Scilicet: semblantes e sinthoma. São Paulo: EBP, 2009. p. 26-29.
LYSY, A. “Évenement de corps et fin d’analyse”. In nsl-messager, Traces, 3662.fr.
MANDIL, R. “Há um acontecimento de corpo”. Opção Lacaniana online, Ano 5, n 13, março 2014.
MILLER, J.-A. Elementos de Biologia Lacanina. Belo Horizonte: EBP-MG, 1999.
[1] Conferência proferida no Ve Symposium international James Joyce, acontecido em Paris, em 20 de junho de 1975. Para o texto estabelecido ver: LACAN, J. “Joyce le Symptôme”. In: Autres Écrits, Paris: Seuil, 2001. p. 596. Na versão brasileira, p. 565, de Outros Escritos, a expressão foi traduzida por “um evento corporal”.
[2] MILLER, J.-A. Piéces détachées (2004-2005). Disponível em: https://pt.scribd.com/doc/166445600/J-A-Miller-Pieces-detachees-Cours-2004-2005
[3] MILLER, J.-A. (1998). “Lacan avec Joyce: le séminaire de la section clinique de Barcelone”. In: Revue de la Cause freudienne, n. 38. Paris: Navarin Éditeur, 2011. “Ler um sintoma”. Blog da AMP. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2011/08/jacques-alain-miller-ler-um-sintoma.html.
[4] LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 566.
[5] MILLER, J.-A. “L’économie de la jouissance”. Choses de finesse en psychanalyse, 2008-2009. In Revue de la cause freudienne, n.77, p. 169.
[6] Miller, J.-A. “Ler o sintoma”.
[7]Lacan, J. (1975-1976). O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: JZE, 2007, p. 64.
Laurent Dupont
Bibliografia

DUPONT, Laurent. De um dizer que faz acontecimento ao acontecimento de dizer. In: Revue La Cause du Dèsir n. 100, p. 80-83.
Laurent Dupont nos indica que, em uma análise, que é feita de palavras, pode-se fazer emergir um dizer que fará acontecimento. A condição essencial para que isso ocorra parte da transferência estabelecida ao analista.
O autor aborda a questão, que ocupa o título deste texto “de um dizer que faz acontecimento ao acontecimento do dizer”, partindo do pressuposto de que um sujeito vai buscar uma análise e esta se inicia quase sempre quando ocorre uma falha na significação. De modo que se dirige a um analista para buscar uma explicação disso que fez um furo no sentido ou que fez um enigma. É nesse sentido que a transferência ao analista é, para Laurent Dupont, o divisor de águas e, portanto, o que distingue a posição do analista em relação à psicologia.
Por essa via, ao não responder à falha de sentido, o analista viabiliza a entrada do analisante no dispositivo analítico, à medida que possibilita que o enigma inicial se desenrole, buscando um sentido sobre o qual o analisante se debruça do início ao fim de sua análise. Nesse contexto é que “a transferência repousa sobre o enigma que o sujeito é para ele mesmo e o fim da análise se opera, uma vez que todos os sentidos estão esgotados, todas as construções elaboradas […] sobre este ponto central do indizível […] do singular de cada um. Existe então um mais além do sentido que permite esperar este ponto que, se não se pode dizê-lo, pode se experimentar por um efeito do dizer.”
Neste contexto, temos um acontecimento de um dizer que pode levar a um dizer que faz acontecimento. Como Laurent articula isso?
Existe uma trajetória que vai do sintoma com sua parte interpretável – o sintoma do inconsciente estruturado como uma linguagem – ao sinthoma enquanto traço de um corpo marcado, que se repete infinitamente apontando aí a marca traumática do encontro inicial com a linguagem. É, pois, através dessa repetição que se pontua este mais além do sentido. Por exemplo, uma palavra ouvida na infância, quando lembrada e falada na sessão de análise, por meio da presença do analista, pode fazer um acontecimento, se fazendo dizer. É no dispositivo analítico, sustentado pela transferência e pelo desejo do analista, que essa operação é possível. Ao manter a brecha aberta entre o dizer (uma palavra falada, que foi ouvida na infância) e o S2, é que a singularidade absoluta de cada um pode advir. Então, o desejo do analista visa isto: “obter o mais singular disso de que é feito seu ser.”
Laurent Dupont nos guiará, neste texto, até o final de uma análise e o testemunho do passe de um AE, no qual este se confronta com a experiência do acontecimento de dizer, dizer através do seu testemunho: “Os AE testemunham esses momentos que podem se cristalizar em um nome que passa a encapsular o gozo”.
Para concluir, existe no passe, no testemunho público, um acontecimento de dizer, um corpo que toma a palavra. É assim que Jacques Alain Miller propõe este momento de testemunho como uma demonstração, ou seja, alguma coisa que se mostra no oco, no oco disto que a palavra não alcança, mas que o dizer, que inclui o corpo permite fazer passar, ou não. Nenhuma garantia nos testemunhos, apenas um acontecimento, transmitir uma palavra que pode ou não ser um acontecimento. Com isso, nos testemunhos há uma ressonância do que é o dizer que faz acontecimento e o acontecimento de dizer.
Maria de Fátima Ferreira
Alain Merlet
Bibliografia

MERLET, Alain. La mort comme acte manqué. In: Révue Cause Freudienne, n. 44. Paris : École de la Cause Freudienne, fev. 2000, p. 73-82.
Mors certa, hora incerta. A frase em latim traz a questão do tempo e da contingência como acontecimento que põe fim à vida. A morte é um acontecimento na convergência do ser e do não ser. Lacan, em RSI, nos diz: “Para o obsessivo a morte é um ato falho. Não é nada bobo, pois a morte só é abordável por um ato, ainda que para ser bem-sucedido seja preciso que alguém se suicide sabendo ser um ato[1]. O sintoma, em RSI, pode ser lido como algo que está errado no campo da realidade. No caso do obsessivo, é possível localizar um ponto de real que pode ganhar valor de sintoma, ao se articular de forma conivente com o inconsciente e o modo de gozo. Ainda nessa referência ao ato suicida, Lacan localiza um saber embutido no próprio ato, que é interpretado no inconsciente pelo obsessivo como um ato falho, pois não traz a dimensão da estranheza, mas de uma encenação. Como nos diz Freud, há uma permissão inconsciente para o suicídio[2].
Neste texto, Alain Merlet lança luz sobre o tratamento de um obsessivo que não conclui a análise, pois morre de câncer.O autor evidencia a transferência como motor de entrada em análise para este sujeito, a partir de um ato falho pelo qual o paciente vai dizer de seus atos compulsivos durante o sintoma da insônia. Ao trazer o caso de forma retroativa, é possível reconhecer a intenção suicida e, consequentemente, o desejo de morrer do paciente já anunciado no início do tratamento. Merlet questiona o lugar do analista na condução desse caso. O que escapou ao analista quando o paciente anunciou que iria morrer? Ele teria se recusado a acreditar na forma explícita de o paciente dizer que iria morrer? Se o obsessivo se antecipa tardiamente, o analista precisa ser preciso e estar uma jogada à frente na partida.
Como nos orienta Lacan: “A análise é isso. É a resposta a um enigma, e uma resposta […] completamente besta. Corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual.”[3]
Se, como dizem, uma análise termina quando desaparece o corpo, neste caso clínico, leva-se em conta a morte na medida em que arruína um corpo e revela um fracasso mais ou menos bem-sucedido, que é a vida humana.
Rodrigo Almeida
[1] LACAN, Jacques. O seminário, livro 22: RSI. (Inédito) Lição de 18 fev. 1975. p. 37.
[2] FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (v. VI). In: FREUD, Sigmund. Obras completas de Sigmund Freud: edição standard. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 167-192.
[3] LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975/1976. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 70.
Laure Naveau
Bibliografia

O corpo: na falta de poder falar dele
O corpo: na falta de poder falar dele
NAVEAU, Laure. Le corps: faute d’en pouvoir parler. In: Révue Cause Freudienne, n. 44. Paris: École de la Cause Freudienne, fev/2000, p. 82-86.
Esse texto de Laure Naveau traz a experiência de um caso clinico, Ana, uma mulher com 30 anos de idade que passou a ter uma doença evolutiva em seu corpo, o que a impedia de se locomover normalmente. Se a presença da analista “em carne e osso” a apaziguava, o horizonte de sua análise teve como suporte o acontecimento especular do corpo da analista para que a ressonância da cadeia significante do sujeito se colocasse a partir de uma marca no corpo. Interroga-se, portanto, em que o corpo da analista faria cumprir uma consistência fálica que restaurasse a sua imagem, lá onde o Outro da linguagem falha para que ela se sinta viva. Se “o corpo grita” através do sintoma, supõe-se que o banho de linguagem instaura uma operação inadequada entre o uso e o gozo do significante.
A identificação de Ana com a precariedade da mobilidade de sua mãe alcóolatra estava em jogo, bem como a violência do pai para conter essa mãe, quem não conseguiu resistir à destruição operada por ela.
A partir de uma cena de horror, na qual Ana, quando adolescente, chuta a sua mãe bêbada ao chão, gritando para que ela se levantasse, toda a dimensão de culpabilidade e punição que o seu sintoma no corpo encobria, veio à tona. Surge a angústia do lugar vazio deixado por uma mãe alcoólatra e pela relação entre os pais na ausência de todo o laço vivo entre os sexos. A mãe que só queria a decadência e não se curar, negando todas as tentativas de cuidados médicos, transmitia ainda o desespero e a infelicidade reservados à condição feminina, bem como o que buzina sempre em seu ouvido: “ Você nasceu sem sorte”. Para o pai, uma frase: “ele é um ogro. Sempre eu me escondia sob a mesa quando ele chegava em casa”. Tudo isso alimentava sua culpa edipiana. O que esperar do destino funesto da culpabilidade que a levou para a doença do seu corpo sofrido, se toda esperança de felicidade é reduzida a nada?
Desde a infância, entretanto, alguns cenários fantasmáticos ocuparam o lugar desse vazio. São cenários onde ela se colocava como uma Amazona que combatia o mundo dos homens, sua crueldade, barbárie. A partir das inúmeras versões desse cenário infantil, as palavras tomaram corpo em sua análise: “Fui uma amazona, não tinha medo, eu defendia com vigor a causa das mulheres, depois fiquei doente, deitada na cama, agora um divã, de onde só consigo me curar pela palavra, a minha e aquela de um homem que diz me amar”. As variações do cenário infantil tornam marcantes a constância e a fixidez do seu corpo deitado, que pode, inclusive, responder à cena real da mãe alcoolizada deitada ao chão. A interpretação do sujeito é que sua doença seria um retorno sobre seu corpo dos golpes dados sobre o corpo da mãe – uma espécie de avatar de “Espanca-se uma criança”, de Freud.
Mas, a presença da analista com o seu corpo torna viva a imagem do próprio corpo de Ana; além de acolhê-la, introduzir um corte ou uma vacilação sobre o sentido de ela se tornar sua mãe, promove um não-sentido, irredutível, traumático, ao qual o sujeito poderá se ver assujeitado – é o duplo efeito do significante, de sentido e de buraco. A presença da analista, mais do que aquilo que Ana se põe a falar, traz a chance de restaurar uma junção suportável entre o simbólico e o real, já que, como diz Miller em “A experiência do real” (1998-99), “ o real do corpo do analista, é o de que se trata no horizonte da análise”, suscitado em seu ato.
O sujeito, enfim, reconheceu seu dom de se curar dos sintomas, reintegrando sua história ao objeto que lhe causou, até o ponto onde um único sintoma, fundamental, restabelece uma certa humanidade, lá onde o preço, em sua origem, foi muito alto. Trata-se de um deslocamento da identidade significante ao modo de gozar, onde o significante ganha corpo no sentido real, introduzindo um novo afeto.
Se o traço unário recobre a marca invisível do significante, alienando o sujeito à identificação primária que forma o Ideal do eu, no buraco da linguagem está a causa da repetição onde surgiu a função do objeto perdido.
Samyra Assad
Referências Bibliográficas para o Eixo 2: Transferência e corpo do analista
Bibliografia
Referências Bibliográficas para o Eixo 2: Transferência e corpo do analista
Referências Bibliográficas para o Eixo 2: Transferência e corpo do analista
ALVARENGA, Elisa. Do escabelo ao sinthoma e retorno. Correio. São Paulo, EBP, n. 78, 109-113, 2016.
BASSOLS, Miquel. The Paradoxes of Transference. LC Express, Lacanian Compass, Estados Unidos, vol. 2, issue 8, 2014. Disponível em : https://static1.squarespace.com/static/53080463e4b0e23db627855b/t/5329e095e4b0f59c29773aa8/1395253397614/LCE+%2803.14.2014%29%5B1%5D+%282%29.pdf
BARROS-BRISSET, Fernanda Otoni. Transferência: amor, saber e algo mais… CURINGA. Belo Horizonte, Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas, n.34, p. 49-62, 2012.
DUPONT, Laurent. De um dizer que faz acontecimento ao acontecimento do dizer. La Cause Du Désir. Paris, ECF, n.100, p.80-83, 2018.
FEU DE CARVALHO, Frederico Z. – O caso Davi. Curinga. Belo Horizonte, EBP-MG, n. 14, p. 116-123, 2000.
FREUD, Sigmund. (1911). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 12. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p.15-87.
FREUD, Sigmund. (1926). Inibições, sintomas e ansiedade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 79-172.
FREUD, Sigmund. (1910). A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 11. Rio de Janeiro: Imago,1996. p.217-228.
FREUD, Sigmund. (1933). Novas conferências sobre a psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. 22. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p.11-178.
GERMÁN, G. Actualidad del trauma. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2005.
KUPERWAJS, Irene. Apontar para a tripas. Papers 8. Congresso AMP 2016. Disponível em: http://www.congressoamp2016.com/pagina.php?area=10&pagina=136
LACAN, Jacques. (1974). A terceira. Opção Lacaniana, São Paulo, Eolia, n.62, p.11-34, 2011.
LACAN, Jacques. (1970). Radiofonia. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 400-447.
LAURENT, Éric. A Interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, Belo Horizonte: EBP-MG, n. 50, p. 168-188, 2020.
LAURENT, Éric. O Trauma ao avesso. Papéis de Psicanálise, Belo Horizonte, IPSMMG, n. 1, p. 21-28, 2004.
LAURENT, Éric. Disrupção de gozo nas loucuras sob transferência. Opção Lacaniana, São Paulo: Ed.Eolia, n.79, p.52-63, 2018.
LA SAGNA, C. D. Avoir um corps ou avoir um mur pour appui. La Cause du désir. Paris, no 100, p. 91-96, 2018.
MANDIL, Ram. Há um acontecimento de corpo. Opção Lacaniana online nova série, Ano 5, n. 13, 2014.
MERLET, Alain. La mort comme acte manqué. La Cause Freudienne, Paris, ECF, n. 44, p. 73-76, 2000.
MILLER, Jacques-Alain. Biologia lacaniana e acontecimento de corpo. Opção Lacaniana, São Paulo, Edições Eolia, n. 41, p. 07-67, 2004,
MILLER, Jacques-Alain. (1998-1999). La experiencia de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003.
MILLER, Jacques-Alain. (1998-1999). Perturbar la defensa. In: La experiência de lo real en la cura psicoanalítica. Buenos Aires: Paidós, 2003. p. 35-53.
MILLER, Jacques-Alain. Le divan, XXIe siècle. Demain la mondialisation des divans? Vers le corps portable. Interview par Éric Favereau. Libération, 1999. Disponível em: https://www.liberation.fr/cahier-special/1999/07/03/le-divan-xx1-e-siecle-demain-la-mondialisation-des-divans-vers-le-corps-portable-par-jacques-alain-m_278498/
NAVEAU, Laure. Le corps: faute d’en pouvoir parler. La Cause du Désir, Paris, ECF, n. 44, p. 82-86, 2000.
SALMAN, Sílvia. Ânimo de amar. Opção Lacaniana, São Paulo, Ed. Eolia, n. 58, p. 103-112, 2010.
SEYNHAEVE, Bernard. Pas sans le corps. Quarto, Belgique, ECF, n.126, p.40-45, 2020.
Do ‘fulgor das ausências’ à mística como acontecimento de corpo

Do ‘fulgor das ausências’ à mística como acontecimento de corpo
por Lucíola Macêdo
“…a relação sexual não existe… é meu verdadeiro tema deste ano, por trás desse mais, ainda e é um dos sentidos do meu título… talvez assim eu chegue a fazer aparecer algo de novo sobre a sexualidade feminina”[1].
Já nos anos sessenta, em “Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina”, a arquitetura de mais, ainda parece encontrar alguns dos seus pilares fundamentais. Lacan inicia esse artigo ressaltando certa negligência, algumas suspensões e marcadas ausências sobre o modo como os psicanalistas pós-freudianos se arvoraram sobre o tema, mascarando o embaraço ao recobrir inteiramente o enigma do feminino com o campo do sentido[2]. A questão fundamental posta por Lacan ao abordar as vicissitudes da sexualidade feminina naquele Congresso é precisa e fulgurante: “convém indagar se a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de pulsional na mulher, e notadamente, toda a corrente do instinto materno”[3].
É num horizonte de “desconhecimentos e preconceitos” que as teorias sobre o masoquismo feminino e a frigidez em voga naqueles tempos é rebatida por Lacan, já com algumas formulações e esboços dos caminhos retomados na década seguinte, em mais, ainda. Quanto à frigidez, diferenciará as formas transitórias daquelas que se constituem sob os auspícios do sintoma: “o homem serve aqui de conector para que a mulher se torne esse outro para ela mesma, como é para ele”[4].
O masoquismo é reconduzido ao âmbito daquilo que não é drenado pela mediação fálica. Quanto ao lugar da passividade na economia libidinal das mulheres, Lacan é preciso: o dito masoquismo da mulher é uma fantasia do desejo do homem. A sexualidade feminina por sua vez, “surge como um esforço de um gozo envolto em sua própria contiguidade”[5], como modalidade do gozo não drenada pela mediação fálica, esse suplemento, esse mais, ainda, a partir do qual Lacan fará surgir algo novo.
Ou seja, o que está em jogo aí, é um corpo que se goza, porquanto o gozar-se, do lado não toda, comporta um genitivo que tem uma nota extática. Lacan dedicará a esta nota extática a exuberante aula VI de mais, ainda, abrindo-nos a um riquíssimo campo de investigação: tanto no âmbito da relação amorosa com deus, ou seja, de uma transcendência, como é o caso de Hadewich d’Anvers, Teresa D’Ávila e João da Cruz; quanto da experiência mística como imanência, sem a presença de deus, cujos testemunhos nos dão alguns escritores no âmbito da literatura e da escrita poética[6], tal como é possível notar, de modo exemplar, na poética de Mar Becker[7], para quem a experiência mística seria um estado do próprio poema. O encontro com a dimensão do sagrado se daria num momento de desaviso do leitor, de espanto e deslumbre no instante fulgurante da fratura entre significante e significado, diante da emergência de silêncio que compõe o discurso poético: há “uma dimensão inalcançável e indizível dentro do próprio poema e isso é a dimensão de deus no poema, mesmo que seja um deus deposto, um deus que está ali como carcaça e como hybris”. Nessa perspectiva, a poesia seria “uma oração para um não-deus”, ela diz. Na mística como imanência, toca-se nos limites da linguagem, mas continua-se a dizer, a escrever. Não se trata de uma ontologia, de uma experiência do ser, nem de algo que estaria fora da linguagem. Neste forçamento, em que a própria linguagem é fruição e ferida, fala e silêncio, morada e desterro, a experiência mística como acontecimento de corpo é também um acontecimento de linguagem.
O recurso à poesia mística cristã e à experiência extática que lhe é correlata, é sabido, são determinantes para Lacan em sua formulação de um gozo não negativado pelo falo. Tal proposição situa esse gozo do lado “não-toda” Ⱥ® S(Ⱥ), sem que isto implique uma anulação da vertente fálica Ⱥ®f: “não é porque ela é não-toda na função fálica que ela deixa de estar nela de todo”[8]. Ou seja, é possível afirmar com Lacan que o gozo na experiência mística não esteja exatamente no mesmo plano do arrebatamento como correlato da devastação, e nem tampouco seria facilmente localizável na seara das psicoses[9].
Tal qual Lacan nos faz notar, o testemunho da aventura mística e a fruição do êxtase que nas bordas do indizível arrebatam o corpo, não prescindem da linguagem em suas formas poética e jaculatória. No horizonte desta experiência que se dá entre a pura ausência, numa mistura entre gozo, amor extático, e abertura ao Outro[10] e a iminência da presença de um corpo vivo que se goza, não estaríamos diante da jaculação de um corpo que se vivifica, o que se diferencia do enquadre clássico presente na infinitização da demanda de amor, em que o arrebatamento advém como “a outra face da devastação”[11]?
Em “O ser e o Um” J.-A. Miller retoma o que Lacan isola sob a égide do gozo feminino como um “puro acontecimento de corpo”[12]. Este gozo “não simbolizável, indizível, que tem afinidades com o infinito”[13] é por vezes experimentado nos sonhos. Ele o exemplifica por meio de um sonho relatado por uma analisante, que não deixa de evocar os estados extáticos: um gêiser efervescente, como um turbilhão de vida inesgotável que aparecera a uma mulher como aquilo a que sempre havia buscado.
Um corpo, dirá Lacan, “isso se goza… por corporizar-se de maneira significante”[14]. O significante é causa de gozo. O corpo em jogo aí não é o corpo da relação sexual, nem mesmo aquele que se define pela imagem, mas consiste unicamente como um corpo que se goza a si mesmo. Na esteira de tais formulações, Lacan interroga: “como, sem o significante, centrar esse algo que, do gozo, é a causa material”[15]? Questão retomada por J.-A. Miller nos seguintes termos: o que introduz a linguagem no registro do gozo? Freud havia postulado que é a castração. Lacan propõe algo diferente. O que da linguagem se introduz no registro do gozo é a repetição do Um, esta que “comemora a irrupção de um gozo inesquecível”[16].Tal repetição de gozo dá-se fora do sentido. É por esta via que Lacan generaliza a instância deste gozo opaco, atinente à sexualidade feminina. A linguagem, sob este prisma, é apreendida no nível daquilo que se imprime sobre o corpo como efeito de gozo, produzindo aí traços de afetação. Isto quer dizer que no nível da pulsão, da castração e do objeto a, temos ainda uma perspectiva do corpo sublimado, transcendentalizado pelo significante. A partir da jaculatória “Há Um”, o corpo advém como o Outro do significante, e o “acontecimento de corpo, como a verdadeira causa da realidade psíquica”[17].
[1] Lacan, J. Seminário 20: mais, ainda, RJ, JZE,1985, p.79.
[2] Meseguer, O. Masochistes ou frigides: diffamations. La cause du désir, n.103, 2020, p.66-69.
[3] Lacan, J. Diretrizes para um Congresso sobre sexualidade feminina, RJ Escritos, JZE,1998, p.739.
[4] Idem, p.741.
[5] Idem, p.744.
[6] Cf. Bologne, J.C. Une Mystique sans Dieu. Paris: Albin Michel, 2015.
[7] Cf. Lacan na Academia, Encontro com Mar Becker e “A mulher submersa”, disponível
l em: https://www.youtube.com/watch?v=p3_jgeogTek . Cf. Podcast Rabiscos, c/Mar Becker, Spotify.
[8] Lacan, J. Seminário 20, p.100.
[9] Cf. Macêdo, L. No ‘Fulgor das ausências’, dizer o indizível. Curinga, n. 50, jul/dez 2020, p.61-72.
[10]Laurent, É. La relación corporal, In: Miller, J.-A Piezas sueltas, p.404-405.
[11] Miller, J.-A. O osso de uma análise, 1998, p.114-116.
[12] Miller, J-A. O ser e o Um, 9/2/2011, inédito.
[13] Miller, J-A. O ser e o Um, 2/3/ 2011, inédito.
[14] Lacan, J. Seminário 20, p.35.
[15] Lacan, J. Seminário 20, p.36.
[16] Miller, J-A. O ser e o Um, 23/3/ 2011, inédito.
[17] Miller, J-A. O ser e o Um, 11/2/ 2011, inédito.
O que fazer de seu corpo?

O que fazer de seu corpo?
por Cristiana Pittella
O que singulariza o corpo do UOM é a incidência contingencial da língua sobre o corpo.
J.A- Miller[1] nos mostra como o corpo oferece a sua matéria, a sua realidade, ao significante. E Lacan não cessou de escrever o processo de elevação ao significante, a Aufhebung, que provoca uma certa anulação da coisa. O ideal da sublimação da coisa em face do significante, implica assim o saber incorporal.
Mas contingencialmente o significante também afeta o corpo, é incorporado e causa de gozo. Essa afecção desarranja as funções do corpo vivo, cujo efeito no falasser é uma repercussão desse gozo fora-de-sentido, que Lacan escreve lalíngua de cada um. Lalíngua traumatiza e esburaca o corpo que, vazio, como uma câmara de eco não dá o significado do significante, o que Lacan chamou da não-relação.
Com a palavra S.K.belo (que lemos escabelo), com essa escrita enigmática, Lacan desnuda o real que o falasser se confronta e que a sublimação tenta velar. No coração do belo e do sublime, um S.K enigmático e fora-de-sentido[2].
“O S.Kbelo é aquilo que é condicionado no homem pelo fato de que ele vive do ser (= esvazia o ser) enquanto tem…seu corpo: só o tem, aliás, a partir disso”[3]. Ele tem um e não é um.
O corpo do ser falante está comprometido, implicando o gozo e a satisfação da pulsão. O sintoma como metáfora e formação do inconsciente sai, para entrar o falasser e o sinthoma enquanto um acontecimento de corpo. Um modo singular de fazer-se um corpo a partir dos detritos desse acontecimento de gozo fora-de-sentido.
O S.K.belo faz assim decair o ideal de elevação, a perfeição e a tradição, destronando a esfera de Das Ding. Ele é modesto e ordinário, tem mais a ver com o descostume e o imundo. Nessa montagem, restos e peças soltas não exigem o sentido e a interpretação, com o S.K.belo podemos pensar uma outra forma de sublimação pois, ao se entrecruzar com o narcisismo, o corpo e o olhar estão de volta à cena.
Na arte contemporânea, ler a obra de Ernesto Neto – que se considera um autodidata -, seu gosto, nos encanta. Entre esculturas e instalações imersivas, ele utiliza materiais diversos como aqueles flexíveis que se assemelham a epiderme, as tramas e amarrações de chochês em formas orgânicas e sons que percutem no corpo. Suas obras podem ser tocadas e tocam o público que as penetram, elas envolvem e convidam o espectador não só a olhar, mas a sentir, experimentar e respirar.
Ernesto Neto traz no cerne de suas obras e preocupações, a natureza, o feminino e a mística. O artista falou em uma ocasião que quer que as pessoas “pensem com seus poros” e que seus objetos de arte acontecem e reverberam no mundo.
Eles são a forma de sentir a ‘sua própria pele’ no trabalho, como se eles, ao se reproduzirem e se multiplicarem, fossem uma extensão sua, “pedaços de mim que proliferam”. Ernesto Neto agora vem optando por declarar, de forma evidente, a sua presença dentro da obra. Ele coloca no centro dela o corpo e o acontecimento[4].
O belo é contemplado ao nível do sinthoma.
[1] Jacques Alain-Miller, Biologia Lacaniana p.65, Opção Lacaniana 41, Revista Brasileira Iternacional de Psicanálise, Dezembro 2004.
[2] Hervé Castanet. Escabelo/ S.K.belo (e Duchamp), in Silicet O corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI, Associação Mundial de Psicanálise, Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro 2016.
[3] Jacques.Lacan, Joyce o Sintoma, p. 561, Outros Escritos, 2003, Jorge Zahar Editor

Fazer-se um corpo

Fazer-se um corpo
por Lilany Pacheco (mais-um)
Cartel: Bernardo Micherif, Cristiana Ferreira, Cristiana Pittella, Inês Seabra, Luciana Silviano Brandão, Marcelo Quintão, Maria José Salum, Rodrigo Almeida
O tema concernente a este eixo de nossa 25ª jornada está presente, já há algum tempo, nas conversações do campo freudiano, seja em atividades locais de cada seção e seus institutos, seja nas atividades das escolas que compõem a Associação Mundial de Psicanálise, seja em seus Congressos.
No Congresso da AMP que aconteceu no Rio de Janeiro em 2016, intitulado “O corpo falante: sobre o Inconsciente no século XXI”, pudemos escutar de Miller que a ênfase dada ao corpo no último ensino de Lacan não exclui o Inconsciente, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[1]. É nosso desafio, portanto, nos dedicarmos às formalizações do último ensino de Lacan e transmitirmos os ecos deste em nossa experiência como psicanalistas de orientação lacaniana, ou, ainda, como escreveu Miller, analisar o falasser é o que já fazemos; resta-nos saber dizê-lo[2].
Estamos imersos em um mundo repleto de uma diversidade de manifestações sintomáticas nas quais o corpo está em evidência, como o uso de drogas; a pornografia; o culto à aparência; o exibicionismo; as mais variadas intervenções no corpo; as manipulações estéticas ou cirúrgicas; a body art; o cutting; os esportes radicais; as técnicas cirúrgicas e hormonais para transformação de gênero; a medicalização disseminada apoiada na tecnologia médico-científica, na qual está em jogo a recomposição da imagem do corpo: a busca pela amarração da imagem ao gozo e suas inconstâncias.
Miller chamou esses fenômenos de “corporização” por tratar aí do corpo como superfície sobre a qual escrevemos, decoramos, pintamos, mas também o corpo onde ferimos a substância, mutilamos ocasionalmente e fazemos tantas outras operações nas quais se evidencia a corporização do significante. Trata-se da corporização contemporânea, sem o valor tradicional de formas outras de corporização significante existentes no laço social. Na corporização contemporânea destes tempos do Outro que não existe, o corpo tende a ser deixado ao abandono pelas normas, e, então, retorna como sede das invenções que tendem a responder à questão “o que fazer de seu corpo?”[3].
O que é um corpo?
Em “A tópica do imaginário”, ao inaugurar seu esquema ótico como formalização primeira do registro imaginário, Lacan demonstra que a urbild, a imagem através da qual o Eu se constitui, implica na operação capciosa de colocar um buquê real (sabendo-se o que a imagem real na fotografia é tal qual o arco-íris que vemos no céu) em um vaso virtual. Tarefa inacabada, a qual o falasser terá que se ocupar por toda a sua vida, tendo em vista que há sempre algo desse buquê real que resiste em se alojar nesse vaso virtual. Como destacou Miller, nesse esquema de Lacan em O seminário, livro 2, o germe do falasser já estava lá[4].
O último ensino de Lacan promove uma recondução do tema do imaginário: “O corpo, como corpo falante, muda de registro”. Já não se trata mais do imaginário especular, implicando redefinir o imaginário. A afinidade entre o corpo e o imaginário é reafirmada no ensino de Lacan sobre os nós. A construção borromeana enfatiza que é pelo viés de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo.
O “amor-próprio” é o princípio da imaginação.
O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade ele não o tem, mas seu corpo é a sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. Já é um grande milagre que ele subsista durante o tempo de sua consumação, que é de fato, pelo fato de dizê-lo, inexorável. Ela, a consumação, não é reabsorvível[5].
A adoração é a única relação que o falasser tem com seu corpo e, nas palavras de Lacan, o mistério do corpo falante[6] é, sobretudo, o da união da fala com o corpo[7].
Linguagem e corpo
Fala-se sozinho e nunca se diz senão uma mesma coisa, uma única e mesma coisa que, em suma, atrapalha, daí sua defesa[8]. Uma única e mesma coisa que atrapalha quando a alíngua é interrogada como linguagem[9].
A alíngua serve para coisas inteiramente diferentes da comunicação[10]. É o que a experiência do inconsciente mostrou, no que ele é feito de alíngua, essa alíngua dita materna, e não por nada, dita assim. A linguagem é o que se tenta saber no que concerne a função de alíngua[11], registro singular do trauma da língua, uma vez que é aí que o trauma da língua escreve o que não cessa de não se escrever como letra de gozo no corpo que acontece.
As pulsões são, no corpo, o eco de um dizer[12]. A esse dizer, para que ressoe, para que consoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é. Porque o corpo tem alguns orifícios, os quais o mais importante é o ouvido, porque ele não se pode tapar, se cerrar, se fechar, dirá Lacan em O seminário, 23, e é por esse viés que, no corpo, responde ao que ele chamou de voz. Vejamos como um AE da Escola Una testemunhou a incidência da voz como letra de gozo em seu corpo.
Ele tem cinco anos. Está brincando. Ouve seu pai cantar e tocar piano. Um amigo de seu pai, que toca violino, está de pé ao lado do piano e escuta seu pai. Esse analisando, que se tornou analista, disse que a criança que estava brincando no chão é, naquele momento, essa voz. “Ele é a voz”. Ele é impressionado e capturado por essa voz que canta. É muito importante que esse sujeito tenha enfatizado que ele não ouvia a letra da música, ouvia somente a voz. Foi naquele instante que, de fato, ele se tornou essa voz. E é notável que justamente esse psicanalisando tenha dito que as palavras que seu pai estava cantando, ele as ouviu como se fossem uma língua estrangeira. Essa cena de sua infância saiu do esquecimento no momento em que ele se perguntava por que havia escolhido viver entre duas línguas: a língua espanhola e a língua francesa. Às vezes, acontece-lhe ter a impressão de não saber qual é a língua que ele fala, de não compreender a língua que fala. Assim, um dia, em sua análise, não teve outra escolha a não ser perguntar ao seu analista: “Senhor, diga-me, qual é língua que eu falo?”. Essa interrogação quanto à língua que ele fala foi esclarecida quando a lembrança daquela cena lhe veio à memória. Ele não sabia mais que língua falava porque ele era a voz do pai. Ele não dizia nada. O gozo do pai toma corpo nessa voz no instante em que a criança é capturada por ela[13].
Lacan toma de Platão a forma do corpo como um saco vazio que, com sua potência de cativação, incha. Como demonstrá-lo? Há um ponto de partida. Toda demonstração é sustentada para demonstrar o imaginário que ela implica. O saco, tal como configurado na teoria dos conjuntos fundada por Cantor, manifesta-se, ou mesmo demonstra-se ser merecedor de ser conotado por uma mistura de 1 e de 0, único suporte adequado ao que confina o conjunto vazio que se impõe nessa teoria. Daí a inscrição S1, cuja leitura Lacan especificou com S índice 1. Ela não constitui o Um, mas o indica como podendo nada conter, como podendo ser um saco vazio[14].
Nem por isso o saco vazio permanece um saco, ou seja, isso que só é imaginável pela ex-sistência e pela consistência que o corpo tem, de ser pote. É preciso aprender essa ex-sistência e essa consistência como reais, posto que apreendê-las é o real[15]. É por causa da forma que o indivíduo se apresenta troncho, como um corpo[16]. E esse corpo tem uma potência tal de cativação tal qual testemunhamos em nossa experiência como psicanalistas ante os impasses verificados em cada caso, quanto a deixar ex-sistir o corpo que se crê que é para ter um corpo que, como escreveu Lacan no Seminário 23, não se evapora; está aí a consistência, mas ele sai fora a todo instante.
O saber do Um revela, então, não vir do corpo, e por pouco que possamos saber disso, vem do significante UM que não é um qualquer entre os outros. S1, esse um, essaim, o enxame, significante mestre, é o que garante a unidade, a unidade da copulação do sujeito com o saber. O “significante Um” não é um significante qualquer — ele é a ordem significante[17]. Longe do corpo, existe a possibilidade do que Lacan chamou de ressonância ou consonância. É no nível do real que essa consonância pode ser achada. Em relação a esses polos que o corpo e a linguagem constituem, é o real que faz o acordo[18].
Ao homenagear Robert e Rosine Lefort, Miller afirmará que a relação direta do real com o real, sem passar pelas embrulhadas do verdadeiro, está na clínica com crianças, em especial com a criança bem pequena, e, mais particularmente, no que tange ao que esses dois designaram como o nascimento do Outro. Mas como o Outro não está lá desde sempre? Não nascemos do Outro, do banho de significantes? Não, é o Outro que nasce! O Outro se constrói a partir do Um-corpo, daí a transmissão dos Lefort de que o autismo diz do estado nativo do sujeito, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[19].
O Um encarnado na alíngua é algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento. É o “significante Um” que Lacan ousa ilustrá-lo, ele mesmo o diz em O seminário 20, como um pedaço de barbante, no que ele faz essa rodinha, cujo nó possível, com uma outra rodinha, começa a se esboçar[20].
O caráter fundamental da utilização do nó por Lacan é ilustrar a triplicidade que resulta de uma consistência que só é afetada pelo imaginário, de um furo fundamental proveniente do simbólico e de uma ex-sistência que, por sua vez, pertence ao real. É preciso apreender a consistência e a ex-sistêcia como reais mostrando a homogeneidade do imaginário com o real[21]. De outro lado, a linguagem não é ela mesma uma mensagem, mas se sustenta apenas pela sua função do furo[22].
O nó qualificável de borromeano é insolúvel, sem que se dissolva o mito do sujeito — do sujeito como não suposto, isto é, como real que não torna mais diverso do que cada corpo que assinala o falasser, cujo corpo só tem estatuto respeitável, no sentido comum da palavra, graças a esse nó[23].
Ecos no corpo: acontecimento[24] [25] [26]ou fenômeno?
Em Biologia Lacaniana[27], Miller toma para si a sorte de definir o sintoma como acontecimento de corpo, definição que ele extrai de Joyce, O sintoma[28]. Miller toma aí a distinção feita por Lacan entre ser um corpo e ter um corpo de modo a distinguir o acontecimento de corpo de todas as corporizações e generalizações relativas aos fenômenos de corpo, tal como ele o fez na Conversação Embrulhos do Corpo[29].
Se o último ensino de Lacan oferece a noção de acontecimento de corpo, como pensar o fenômeno de corpo situado no seu primeiro ensino como elemento decorrente da forclusão do falo? Há uma releitura desses fenômenos a partir da noção de acontecimento de corpo e demais ressonâncias do último ensino de Lacan em nossa experiência?
A conversação preparatória relativa ao Eixo 1: “Fazer-se um corpo”, permitiu que recolhêssemos a partir de fragmentos de nossa experiência a ênfase de Lacan sobre o gozo que supõe um corpo, um corpo vivo, que não é a imagem especular e que se define pelo impacto da língua no corpo e o diverso de cada corpo que assinala o falasser.
Referências
LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito. mimeo.
LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
MILLER, J-A. “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013,
MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Grama Ediciones, 2016.
MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004.
MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.
NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe”. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.
[1] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.
[2] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 26.
[3] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.
[4] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.
[5] Ibidem, p. 64
[6] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 178.
[7] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 25.
[8] LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito.
[9] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.
[10] Ibid., p. 188.
[11] Ibid., p. 189.
[12] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 18.
[13] NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.
[14] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 19
[15] Ibid.
[16] Ibid.
[17] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.
[18] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 40.
[19] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.
[20] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, 196-197
[21] Ibid.
[22] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 32
[23] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.37.
[24] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.
[25]MILLER, J-A. “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013, p. 11.
[26] MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016.
[27] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 49
[28] – “deixemos o sintoma o que é: um acontecimento de corpo ligado ao que “l’on l’a, l’on l’a de l’air, l’on l’aire, de l’on l’a” (LACAN, 2003, p. 569) (…) “temos, temos com ares de… a gente o areja, disso que temos” (…) “Isso pode até ser cantado, e Joyce não se privou de fazê-lo.” LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003, p. 565.
[29] Miller, J.-A., e alii, “Conversation sur les embrouilles du corps”, Bordeaux, 1999, Ornicar?, n°50, 2002, p. 235.



