Bibliografia 4

O buraco negro da diferença sexual - Marie Hélène Brousse

O buraco negro da diferença sexual - Marie Hélène Brousse[1]


por Virginia Carvalho

Dyana Santos, Relicário, pintura objeto, 2012

Nessa Conferência, Marie Helène Brousse (2019) trabalha o tema da diferença sexual na contemporaneidade, tempo em que “o gênero suplantou o sexo” (s.p.). Para ela, “desde o momento em que se entra no campo da diferença sexual, tudo o que define a singularidade dos modos de gozar e das posições subjetivas torna-se inacessível” (s.p.), tal como ocorre no buraco negro. De acordo com a teoria da relatividade, “tudo o que entra no interior do buraco negro – toda a informação, toda a matéria –, é assimilada”(s.p.) a ele.

A diferença, ao mesmo tempo em que é um “dos fundamentos da ordem linguística” (s.p.), ligando e separando pares significantes, é “também um modo de satisfação que produz gozo, tanto se afirmando – pois cada falasser goza de sua diferença –, quanto se apagando” (s.p.). Por isso, a ordem diferencial pode resvalar-se para uma ordem segregativa, já que “não há segregação que não se prenda a uma diferença atribuída aos modos de gozo” (s.p.).

A psicanalista lembra que a abordagem lacaniana da diferença sexual nos seres falantes não ocorre a partir da natureza e sim da linguagem e do sujeito. Mudança radical que demarca a distinção entre o pênis e o falo, “metasignificante” (s.p.) que se reduz a um menos cujo valor comum permite aos corpos falantes entrarem em intercâmbio. A passagem do sujeito ao corpo falante nos permite considerar a  “oposição não binária entre o Todo, incluindo todos os seres falantes de qualquer gênero que sejam, e o não-todo, que precisamente não permite mais à diferença binária consistir” (s.p.).

Brousse nos apresenta fragmentos clínicos sobre versões dessa diferença nos dias atuais, indicando que ela só pode se formular no campo da identificação e da fantasia: “ser classificado por gênero só é possível do lado da lógica do todo e da exceção fálica”(s.p.), pois tanto o homem, o macho, como A mulher são criações de discurso. E, nesse sentido, com Lacan, conclui que “o sexo é o efeito de um dizer” (s.p.).

Trata-se de uma Conferência que nos convida ao trabalho, abrindo várias perguntas que concernem ao tema da nossa 25ª Jornada. Questões que nos remetem às invenções das crianças, as perverso polimorfas apontadas Freud. Teriam elas novas teorias sexuais? De que palavras elas se servem hoje para dizer de seu pertencimento e de seus singulares modos de gozo? Estariam elas mais para perversas polimorfas ou para puritanas?

Aprendemos com Brousse (2019) que diante de tantas modificações na cultura, “a única coisa que permanece estável é a própria diferença como função engendrada pela linguagem e, portanto, o real da escolha que é a definição mínima da castração” (s.p.). Nesse panorama, ela lembra a ideia lacaniana de que não existe segundo sexo e também sua assertiva de que o terceiro sexo “não subsiste na presença dos outros dois” (Lacan citado por Brousse, 2019, s.p.), dependendo apenas do amor.

Da diferença sexual ao amor, Brousse conclui sua contribuição questionando se “o amor zomba da diferença sexual”. E, com Lacan (1973-74), sabemos que “o amor não é outra coisa que um dizer enquanto um acontecimento” (p.74).

 

REFERÊNCIAS

LACAN, J. O Seminário, livro 21: Os não tolos erram. (inédito)

 

NOTAS

[1] BROUSSE, M.H. O buraco negro da diferença sexual. In: Cien Digital, n.23, nov. 2019. Disponível em: https://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/?print=print

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Quando um acontecimento de corpo se produz - Pierre Naveau

Quando um acontecimento de corpo se produz -  Pierre Naveau[1]


por Mariana Vidigal

Dyana Santos, Sem Título, da série Pó de Estrelas, 2012

Naveau (2017) percorre o ensino de Lacan para situar a relação entre o “inconsciente, o sintoma, o gozo e a letra que se escreve e que, por isso mesmo, é para ser lida” (p.221). Destaca que na aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI, Lacan especificou que a variável x é “o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra” e que essa escrita é “o que o sintoma opera selvagemente” (LACAN, 1975). Naveau (2017) extraí daí que o selvagem diria respeito a esta operação na qual o sintoma se apresenta como da ordem do necessário, do não cessa de se escrever e que acarreta uma irrupção de gozo. E, ainda acrescenta em Lacan (1975), que “o sintoma não é definível senão pelo modo como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina”.

Naveau (2017) retoma que, na mesma lição, Lacan (1975) articula uma mulher ao lugar de sintoma para o homem, pelo fato de ser impossível, para ele, gozar do corpo dela, na medida em que o falo faz obstáculo. Como consequência, é preciso que homem acredite nela, il y croit, que ele acredite nessa mulher (LACAN, 1975).

Diante dessas perspectivas, Naveau (2017) faz a hipótese de que “uma mulher é, para o homem, um sintoma, mas não de qualquer forma e sim relativamente a um acontecimento traumático”, mas um “acontecimento que concerne à língua que se fala e, assim, ao inconsciente” (NAVEAU, 2017, p.221). Trata-se do encontro com a contingência de um real, relativo ao instante no qual se escreve algo do que recorre de uma “desordem de uma contingência (…). Um acontecimento de corpo se produz relativamente à contingência de um dito, ou seja, no instante em que um dizer atinge seu alvo, tem um impacto real” (NAVEAU, 2017, p.223).

A partir da definição milleriana (2001) de que o acontecimento de corpo são acontecimentos de discurso que deixaram rastros no corpo que perturbam o seu funcionamento e ali fazem sintoma, Naveau (2017) acrescenta a condicionante a isto de que é preciso um sujeito apto a ler esses rastros, a decifrá-los. Que o sujeito chegue a pensar que os sintomas são rastros de um acontecimento traumático, da incidência da língua sobre o corpo do ser falante, da “palavra que fere” (MILLER, 2009) o corpo.

Sustentando-se na formulação lacaniana de que a mulher é um sintoma para um homem e um homem é para uma mulher uma devastação, Naveau (2017) propõe identificar o homem com uma palavra que fere a mulher, “uma mulher ferida” (LACAN, 1992, p.69). Uma mulher pode ser ferida pelo o que se diz ou o que não se diz, “o próprio fato de a fala ter efeitos a torna vulnerável” (NAVEAU, 2017, p.226). Com isto, sustenta a sua hipótese de que “um acontecimento de corpo é relativo à contingência de um dito” (NAVEAU, 2017, p.226), um instante em que alguma coisa se diz ou não se diz e que deixa rastros de gozo no corpo que pode acontecer como vergonha, rubor, feridas, palidez, etc. Mas, quando torna-se repetido, toma a dimensão de um sintoma.

 

REFERÊNCIAS

LACAN, Jacques. (1975). Aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI. (Inédito).

LACAN, Jacques. (1969-70). O seminário livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, Ed, 1992.

NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.

MILLER, Jacques-Alain. (2009). A palavra que fere. In: Opção Lacaniana. n.56-57. São Paulo: Ed.Eolia, 2009.

___________________(2001). Elementos de Biologia Lacaniana. Belo Horizonte: EBP-MG, 2001.

 

NOTAS

[1] NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.

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Entrevista com Ram Mandil

Entrevista com Ram Mandil sobre Acontecimento de corpo e o final de análise


Dyana Santos, Meu Corpo Não É Uma Jaula

Ram Mandil (A.E. 2012-2015)

 

Fragmento do primeiro testemunho: “Conjunto vazio”[1].

 

“A escolha pelo terceiro analista foi, à primeira vista, sobre alguém cuja transferência estava estabelecida, a princípio, em relação aos textos e conferências que eu acompanhava com grande interesse. Eu o via também como alguém um pouco mais “integrado” ao mundo, o que poderia ser um bom contraponto à minha tendência “apocalíptica”, para ficarmos com o par proposto por Umberto Eco. Só mais adiante, já na própria análise, é que pude me deparar com as razões libidinais da transferência a este analista.

Decisão tomada, logo me deparei com um momento crucial desta análise, associado a uma cena de infância/adolescência.  Nas ocasiões em que eu ficava doente, me via diante de meu pai trazendo um medicamento, na forma de uma drágea, de uma cápsula ou de uma pílula, para que eu o ingerisse. A cena adquiria ares de horror.  Eu simplesmente não conseguia engolir esse medicamento, que ficava retido em algum canto de minha boca. Colocava o remédio sobre a língua, tomava um gole de água e em seguida eu entrava numa espécie de fading, para só depois procurar saber se eu o havia engolido ou não.  Quando isso não acontecia, aumentava a cólera de meu pai, e seus gritos de “engula”, o que levava a um estado de angústia intensa diante da figura de um Outro que se apresentava de forma cruel.  A questão, desde o início, não era o fato de estar ou não tomando um medicamento, mas com a forma deste medicamento, o fato de ser um sólido, uma cápsula, um envoltório no qual o remédio estava encerrado.  Isso tinha várias consequências: por vezes escondia algum mal-estar ou doença, com receio de que a cena se repetisse; quando era inevitável, perguntava por versões em xarope, já que não tinha problemas com a forma líquida.

Quando esta cena retorna na análise, é que me dou conta da motivação libidinal envolvida na escolha do analista e que eu até então ignorava.  Há tempos, quando editava uma revista do Campo Freudiano, eu mesmo havia publicado a tradução de um artigo do analista com o título: “Como engolir a pílula?” no interior do discurso analítico.  A suposição de saber, portanto, não era algo difuso, mas recaia sobre um modo de gozo no qual eu havia me enredado na infância.  A recusa em engolir a pílula – e não há como não perceber uma certa ressonância com o feminino – repercutia a recusa do nome Avraham. Mas aqui, a dimensão corporal do que estava em jogo, torna-se mais evidente.  A recusa era também a de abrir o orifício do corpo frente a demanda do Outro, e consentir com o trânsito de um objeto através desse orifício.

A cena estava montada.  A recusa em engolir aquilo que se articulava à demanda do Outro se conjugava com o temor  de ser engolido pelo Outro.  Engolir/ser engolido, esta era a gramática da pulsão cuja pulsação estava diretamente ligada à abertura e ao fechamento dos orifícios do corpo. O trabalho analítico indicava uma direção: para  consentir em engolir a pílula, e tudo aquilo que ali estava condensado,  seria necessário encontrar um modo de desarmar a fantasia de ser engolido pelo Outro.”

NOTAS

[1] Testemunho publicado em Opção Lacaniana, n.66, agosto de 2013.

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