Fazer-se um corpo

O que fazer de seu corpo?

O que fazer de seu corpo?


por Cristiana Pittella

O que singulariza o corpo do UOM é a incidência contingencial da língua sobre o corpo.

J.A- Miller[1] nos mostra como o corpo oferece a sua matéria, a sua realidade, ao significante. E Lacan não cessou de escrever o processo de elevação ao significante, a Aufhebung, que provoca uma certa anulação da coisa. O ideal da sublimação da coisa em face do significante, implica assim o saber incorporal.

Mas contingencialmente o significante também afeta o corpo, é incorporado e causa de gozo. Essa afecção desarranja as funções do corpo vivo, cujo efeito no falasser é uma repercussão desse gozo fora-de-sentido, que Lacan escreve lalíngua de cada um. Lalíngua traumatiza e esburaca o corpo que, vazio, como uma câmara de eco não dá o significado do significante, o que Lacan chamou da não-relação.

Com a palavra S.K.belo (que lemos escabelo), com essa escrita enigmática, Lacan desnuda o real que o falasser se confronta e que a sublimação tenta velar. No coração do belo e do sublime, um S.K enigmático e fora-de-sentido[2].

“O S.Kbelo é aquilo que é condicionado no homem pelo fato de que ele vive do ser (= esvazia o ser) enquanto tem…seu corpo: só o tem, aliás, a partir disso”[3]. Ele tem um e não é um.

O corpo do ser falante está comprometido, implicando o gozo e a satisfação da pulsão. O sintoma como metáfora e formação do inconsciente sai, para entrar o falasser e o sinthoma enquanto um acontecimento de corpo. Um modo singular de fazer-se um corpo a partir dos detritos desse acontecimento de gozo fora-de-sentido.

O S.K.belo faz assim decair o ideal de elevação, a perfeição e a tradição, destronando a esfera de Das Ding. Ele é modesto e ordinário, tem mais a ver com o descostume e o imundo. Nessa montagem, restos e peças soltas não exigem o sentido e a interpretação, com o S.K.belo podemos pensar uma outra forma de sublimação pois, ao se entrecruzar com o narcisismo, o corpo e o olhar estão de volta à cena.

Na arte contemporânea, ler a obra de Ernesto Neto – que se considera um autodidata -, seu gosto, nos encanta. Entre esculturas e instalações imersivas, ele utiliza materiais diversos como aqueles flexíveis que se assemelham a epiderme, as tramas e amarrações de chochês em formas orgânicas e sons que percutem no corpo. Suas obras podem ser tocadas e tocam o público que as penetram, elas envolvem e convidam o espectador não só a olhar, mas a sentir, experimentar e respirar.

Ernesto Neto traz no cerne de suas obras e preocupações, a natureza, o feminino e a mística. O artista falou em uma ocasião que quer que as pessoas “pensem com seus poros” e que seus objetos de arte acontecem e reverberam no mundo.

Eles são a forma de sentir a ‘sua própria pele’ no trabalho, como se eles, ao se reproduzirem e se multiplicarem, fossem uma extensão sua, “pedaços de mim que proliferam”. Ernesto Neto agora vem optando por declarar, de forma evidente, a sua presença dentro da obra. Ele coloca no centro dela o corpo e o acontecimento[4].

O belo é contemplado ao nível do sinthoma.

 

[1] Jacques Alain-Miller, Biologia Lacaniana p.65, Opção Lacaniana 41, Revista Brasileira Iternacional de Psicanálise, Dezembro 2004.

[2] Hervé Castanet. Escabelo/ S.K.belo (e Duchamp), in Silicet O corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI, Associação Mundial de Psicanálise, Escola Brasileira de Psicanálise, Rio de Janeiro 2016.

[3] Jacques.Lacan, Joyce o Sintoma, p. 561, Outros Escritos, 2003, Jorge Zahar Editor

[4] HTTPS://www.escritoriodearte.com/artista/ernesto-neto

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Fazer-se um corpo

Fazer-se um corpo


por Lilany Pacheco (mais-um)

Cartel: Bernardo Micherif, Cristiana Ferreira, Cristiana Pittella, Inês Seabra, Luciana Silviano Brandão, Marcelo Quintão, Maria José Salum, Rodrigo Almeida

 

O tema concernente a este eixo de nossa 25ª jornada está presente, já há algum tempo, nas conversações do campo freudiano, seja em atividades locais de cada seção e seus institutos, seja nas atividades das escolas que compõem a Associação Mundial de Psicanálise, seja em seus Congressos.

 

No Congresso da AMP que aconteceu no Rio de Janeiro em 2016, intitulado “O corpo falante: sobre o Inconsciente no século XXI”, pudemos escutar de Miller que a ênfase dada ao corpo no último ensino de Lacan não exclui o Inconsciente, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[1]. É nosso desafio, portanto, nos dedicarmos às formalizações do último ensino de Lacan e transmitirmos os ecos deste em nossa experiência como psicanalistas de orientação lacaniana, ou, ainda, como escreveu Miller, analisar o falasser  é o que já fazemos; resta-nos saber dizê-lo[2].

 

Estamos imersos em um mundo repleto de uma diversidade de manifestações sintomáticas nas quais o corpo está em evidência, como o uso de drogas; a pornografia; o culto à aparência; o exibicionismo; as mais variadas intervenções no corpo; as manipulações estéticas ou cirúrgicas; a body art; o cutting; os esportes radicais; as técnicas cirúrgicas e hormonais para transformação de gênero; a medicalização disseminada apoiada na tecnologia médico-científica, na qual está em jogo a recomposição da imagem do corpo: a busca pela amarração da imagem ao gozo e suas inconstâncias.

 

Miller chamou esses fenômenos de “corporização” por tratar aí do corpo como superfície sobre a qual escrevemos, decoramos, pintamos, mas também o corpo onde ferimos a substância, mutilamos ocasionalmente e fazemos tantas outras operações nas quais se evidencia a corporização do significante. Trata-se da corporização contemporânea, sem o valor tradicional de formas outras de corporização significante existentes no laço social. Na corporização contemporânea destes tempos do Outro que não existe, o corpo tende a ser deixado ao abandono pelas normas, e, então, retorna como sede das invenções que tendem a responder à questão “o que fazer de seu corpo?”[3].

 

O que é um corpo?

 

Em “A tópica do imaginário”, ao inaugurar seu esquema ótico como formalização primeira do registro imaginário, Lacan demonstra que a urbild, a imagem através da qual o Eu se constitui, implica na operação capciosa de colocar um buquê real (sabendo-se o que a imagem real na fotografia é tal qual o arco-íris que vemos no céu) em um vaso virtual. Tarefa inacabada, a qual o falasser terá que se ocupar por toda a sua vida, tendo em vista que há sempre algo desse buquê real que resiste em se alojar nesse vaso virtual. Como destacou Miller, nesse esquema de Lacan em O seminário, livro 2, o germe do falasser já estava lá[4].

 

O último ensino de Lacan promove uma recondução do tema do imaginário: “O corpo, como corpo falante, muda de registro”. Já não se trata mais do imaginário especular, implicando redefinir o imaginário. A afinidade entre o corpo e o imaginário é reafirmada no ensino de Lacan sobre os nós. A construção borromeana enfatiza que é pelo viés de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo.

 

O “amor-próprio” é o princípio da imaginação.

 

O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem. Na realidade ele não o tem, mas seu corpo é a sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante. Já é um grande milagre que ele subsista durante o tempo de sua consumação, que é de fato, pelo fato de dizê-lo, inexorável. Ela, a consumação, não é reabsorvível[5].

 

A adoração é a única relação que o falasser tem com seu corpo e, nas palavras de Lacan, o mistério do corpo falante[6] é, sobretudo, o da união da fala com o corpo[7].

 

Linguagem e corpo

 

Fala-se sozinho e nunca se diz senão uma mesma coisa, uma única e mesma coisa que, em suma, atrapalha, daí sua defesa[8]. Uma única e mesma coisa que atrapalha quando a alíngua é interrogada como linguagem[9].

 

A alíngua serve para coisas inteiramente diferentes da comunicação[10]. É o que a experiência do inconsciente mostrou, no que ele é feito de alíngua, essa alíngua dita materna, e não por nada, dita assim. A linguagem é o que se tenta saber no que concerne a função de alíngua[11], registro singular do trauma da língua, uma vez que é aí que o trauma da língua escreve o que não cessa de não se escrever como letra de gozo no corpo que acontece.

 

As pulsões são, no corpo, o eco de um dizer[12]. A esse dizer, para que ressoe, para que consoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é. Porque o corpo tem alguns orifícios, os quais o mais importante é o ouvido, porque ele não se pode tapar, se cerrar, se fechar, dirá Lacan em O seminário, 23, e é por esse viés que, no corpo, responde ao que ele chamou de voz. Vejamos como um AE da Escola Una testemunhou a incidência da voz como letra de gozo em seu corpo.

 

Ele tem cinco anos. Está brincando. Ouve seu pai cantar e tocar piano. Um amigo de seu pai, que toca violino, está de pé ao lado do piano e escuta seu pai. Esse analisando, que se tornou analista, disse que a criança que estava brincando no chão é, naquele momento, essa voz. “Ele é a voz”. Ele é impressionado e capturado por essa voz que canta. É muito importante que esse sujeito tenha enfatizado que ele não ouvia a letra da música, ouvia somente a voz. Foi naquele instante que, de fato, ele se tornou essa voz. E é notável que justamente esse psicanalisando tenha dito que as palavras que seu pai estava cantando, ele as ouviu como se fossem uma língua estrangeira. Essa cena de sua infância saiu do esquecimento no momento em que ele se perguntava por que havia escolhido viver entre duas línguas: a língua espanhola e a língua francesa. Às vezes, acontece-lhe ter a impressão de não saber qual é a língua que ele fala, de não compreender a língua que fala. Assim, um dia, em sua análise, não teve outra escolha a não ser perguntar ao seu analista: “Senhor, diga-me, qual é língua que eu falo?”. Essa interrogação quanto à língua que ele fala foi esclarecida quando a lembrança daquela cena lhe veio à memória. Ele não sabia mais que língua falava porque ele era a voz do pai. Ele não dizia nada. O gozo do pai toma corpo nessa voz no instante em que a criança é capturada por ela[13].

 

Lacan toma de Platão a forma do corpo como um saco vazio que, com sua potência de cativação, incha. Como demonstrá-lo? Há um ponto de partida. Toda demonstração é sustentada para demonstrar o imaginário que ela implica. O saco, tal como configurado na teoria dos conjuntos fundada por Cantor, manifesta-se, ou mesmo demonstra-se ser merecedor de ser conotado por uma mistura de 1 e de 0, único suporte adequado ao que confina o conjunto vazio que se impõe nessa teoria. Daí a inscrição S1, cuja leitura Lacan especificou com S índice 1. Ela não constitui o Um, mas o indica como podendo nada conter, como podendo ser um saco vazio[14].

 

Nem por isso o saco vazio permanece um saco, ou seja, isso que só é imaginável pela ex-sistência e pela consistência que o corpo tem, de ser pote. É preciso aprender essa ex-sistência e essa consistência como reais, posto que apreendê-las é o real[15]. É por causa da forma que o indivíduo se apresenta troncho, como um corpo[16]. E esse corpo tem uma potência tal de cativação tal qual testemunhamos em nossa experiência como psicanalistas ante os impasses verificados em cada caso, quanto a deixar ex-sistir o corpo que se crê que é para ter um corpo que, como escreveu Lacan no Seminário 23, não se evapora; está aí a consistência, mas ele sai fora a todo instante.

 

O saber do Um revela, então, não vir do corpo, e por pouco que possamos saber disso, vem do significante UM que não é um qualquer entre os outros. S1, esse um, essaim, o enxame, significante mestre, é o que garante a unidade, a unidade da copulação do sujeito com o saber. O “significante Um” não é um significante qualquer — ele é a ordem significante[17]. Longe do corpo, existe a possibilidade do que Lacan chamou de ressonância ou consonância. É no nível do real que essa consonância pode ser achada. Em relação a esses polos que o corpo e a linguagem constituem, é o real que faz o acordo[18].

 

Ao homenagear Robert e Rosine Lefort, Miller afirmará que a relação direta do real com o real, sem passar pelas embrulhadas do verdadeiro, está na clínica com crianças, em especial com a criança bem pequena, e, mais particularmente, no que tange ao que esses dois designaram como o nascimento do Outro. Mas como o Outro não está lá desde sempre? Não nascemos do Outro, do banho de significantes? Não, é o Outro que nasce! O Outro se constrói a partir do Um-corpo, daí a transmissão dos Lefort de que o autismo diz do estado nativo do sujeito, uma vez que o falasser designa, a um só tempo, o sujeito e o inconsciente[19].

 

O Um encarnado na alíngua é algo que resta indeciso entre o fonema, a palavra, a frase, mesmo todo o pensamento. É o “significante Um” que Lacan ousa ilustrá-lo, ele mesmo o diz em O seminário 20, como um pedaço de barbante, no que ele faz essa rodinha, cujo nó possível, com uma outra rodinha, começa a se esboçar[20].

 

O caráter fundamental da utilização do nó por Lacan é ilustrar a triplicidade que resulta de uma consistência que só é afetada pelo imaginário, de um furo fundamental proveniente do simbólico e de uma ex-sistência que, por sua vez, pertence ao real. É preciso apreender a consistência e a ex-sistêcia como reais mostrando a homogeneidade do imaginário com o real[21]. De outro lado, a linguagem não é ela mesma uma mensagem, mas se sustenta apenas pela sua função do furo[22].

 

O nó qualificável de borromeano é insolúvel, sem que se dissolva o mito do sujeito — do sujeito como não suposto, isto é, como real que não torna mais diverso do que cada corpo que assinala o falasser, cujo corpo só tem estatuto respeitável, no sentido comum da palavra, graças a esse nó[23].

 

Ecos no corpo: acontecimento[24] [25] [26]ou fenômeno?

 

Em Biologia Lacaniana[27], Miller toma para si a sorte de definir o sintoma como acontecimento de corpo, definição que ele extrai de Joyce, O sintoma[28]. Miller toma aí a distinção feita por Lacan entre ser um corpo e ter um corpo de modo a distinguir o acontecimento de corpo de todas as corporizações e generalizações relativas aos fenômenos de corpo, tal como ele o fez na Conversação Embrulhos do Corpo[29].

 

Se o último ensino de Lacan oferece a noção de acontecimento de corpo, como pensar o fenômeno de corpo situado no seu primeiro ensino como elemento decorrente da forclusão do falo? Há uma releitura desses fenômenos a partir da noção de acontecimento de corpo e demais ressonâncias do último ensino de Lacan em nossa experiência?

 

A conversação preparatória relativa ao Eixo 1: “Fazer-se um corpo”, permitiu que recolhêssemos a partir de fragmentos de nossa experiência a ênfase de Lacan sobre o gozo que supõe um corpo, um corpo vivo, que não é a imagem especular e que se define pelo impacto da língua no corpo e o diverso de cada corpo que assinala o falasser.

 

Referências

 

LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito. mimeo.

LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

MILLER, J-A.  “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013,

MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Grama Ediciones, 2016.

MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004.

MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.

NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe”. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.

[1] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.

[2] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 26.

[3] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.

[4] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016.

[5] Ibidem, p. 64

[6] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 178.

[7] MILLER, J-A. “O corpo falante e o inconsciente no século XXI”. In: Scilicet, 2016, p. 25.

[8] LACAN, J. O seminário, livro 24, inédito.

[9] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.

[10] Ibid., p. 188.

[11] Ibid., p. 189.

[12] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 18.

[13] NAVEAU, P. “O gozo do pai e o desejo da mãe. In: Revista Curinga, n. 15/16, abril de 2001. Belo Horizonte: EBP – MG.

[14] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 19

[15] Ibid.

[16] Ibid.

[17] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. 196.

[18] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 40.

[19] Perspectivas do seminário 23. LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 120-121.

[20] LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, 196-197

[21] Ibid.

[22] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, 32

[23] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p.37.

[24] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 66.

[25]MILLER, J-A.  “Falar com seu corpo”. In: Opção lacaniana, n. 66, 2013, p. 11.

[26] MILLER, J-A. “A psicanálise liquida”, lição 11. In: Todo mundo es loco. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2016.

[27] MILLER, J-A. “Biologia lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção lacaniana, n. 41, 2004, p. 49

[28] – “deixemos o sintoma o que é: um acontecimento de corpo ligado ao que “l’on l’a, l’on l’a de l’air, l’on l’aire, de l’on l’a” (LACAN, 2003, p. 569) (…) “temos, temos com ares de… a gente o areja, disso que temos” (…) “Isso pode até ser cantado, e Joyce não se privou de fazê-lo.” LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003, p. 565.

[29] Miller, J.-A., e alii, “Conversation sur les embrouilles du corps”, Bordeaux, 1999, Ornicar?, n°50, 2002, p. 235.

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Quando o corpo acontece

Fazer-se um corpo > Acontecimentos do corpo

Quando o corpo acontece


por Sérgio Laia

Na experiência analítica, discernimos diferentes modos de aparecimento do corpo: suporte imaginário da identificação de “si mesmo” e das persistentes ameaças do “outro”; fonte ou borda para a satisfação das pulsões; matéria da qual se recorta o objeto da fantasia; local para instalação desse objeto perturbador e invasivo que se impõe nas psicoses, etc. Entre esses modos de o corpo aparecer, destacarei, aqui, a fantasia e, a partir do que a excede, procurarei localizar “o sintoma” como “um acontecimento de corpo, ligado ao que: se tem, se tem ares de, se areja/erra, do que se tem” (LACAN, 1979/2001, p. 569)[1].

A fantasia implica uma compensação em termos de ser e de libido para o sujeito mortificado pelos significantes recebidos do Outro, para essa perturbação de que, por mais que se seja, ainda não se é como se almeja. Pelo objeto a, o $ tenta reparar-se de sua falta-a-ser, de seu desvanecimento entre os significantes. Porém, quando a objetalização do sujeito ganha uma espessura a ponto de demarcar, no enquadre da fantasia, certas fissuras e, sobretudo, seu desfuncionamento, há confronto com o real do qual esse enquadre tentava ser também tela, anteparo. Nesse contexto, não é como falta-a-ser que o sujeito responde porque ela ainda lhe confere alguma identificação, embora evanescente, no campo do Outro.  Há confronto com uma destituição de ser, com uma experiência de des-ser, de dissolução das referências identificatórias, com um esvaziamento do ser bem diferente da experiência de falta-a-ser.

Nada impede que essa destituição de ser se imponha, de forma selvagem e feroz, quando alguém, mesmo no início de uma análise, se vê perturbado por certas perturbações do corpo, deflagradas pelo que um analista já pode discernir como um modo de satisfação que extrapola o enquadre da fantasia. Esse esvaziamento, sem qualquer índice de selvageria (mas não sem angústia e perturbação), também se processa quando, no decorrer de um longo trabalho analítico, um analisante – sem ainda conseguir muito bem discernir outros modos de viver a pulsão – terá de se haver com a descrença de que fantasia possa continuar servindo-lhe de enquadre-anteparo para o real da satisfação pulsional.

Aludindo a uma homofonia francesa utilizada por Lacan (1979/2001, p. 565), sustento que, quando “o homem” que “vive do ser (vit de l’être)” encontra esse “vazio do ser”  (vide de l’être) como diverso de sua falta-a-ser ($) e de sua própria objetalização na fantasia (a), ele tem essa experiência que MILLER (2001) localizou como “ter um corpo… marcado essencialmente pelo sintoma… definido como acontecimento de corpo”. Considero importante esclarecer que o sintoma como acontecimento de corpo não se confunde com a “somatização” ou com o que alguém recebe, sob a forma de significado do Outro, s(A) (LACAN, 1959/1998, p. 820 ), nas referências identificatórias que marcam sua vida como falta-a-ser. O sintoma é acontecimento de corpo quando há experiência de que se tem um corpo que, mesmo sendo “seu”, não deixa de lhe ser literalmente Heteros, ou seja, uma diferença que lhe concerne sem no entanto deixar de lhe escapar. O corpo, se posso dizer assim, acontece. Logo, a concepção lacaniana do sintoma como acontecimento de corpo me parece ser melhor elucidada se lermos a expressão “de corpo” como o que a gramática nos ensina a designar como “genitivo subjetivo”: em vez de o corpo ser simplesmente o objeto de acontecimentos sintomáticos, é ele que acontece, chegando mesmo – como sintoma – a se sobrepor ao sujeito e à sua objetalização na fantasia. Por isso, tal acontecimento de corpo não é exclusivo do que se passa ao fim de uma análise, mas tampouco deve ser confundido com o que aparece aparece como perturbador ou invasivo no corpo: trata-se, de o corpo, ele mesmo, como acontecimento heterogêneo e presente para quem vive essa experiência perturbadora (mas que pode ser também liberadora) de um corpo que acontece.

 

REFERÊNCIAS

 

LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 807-842.

 

LACAN, J. Joyce le Symptôme (1979). In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 565-570.

 

LACAN, J. Joyce o Sintoma (1979). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.  560-566.

 

MILLER, J. Cours de l’Orientation lacanienne. L’être et l’Un, 2011. (inédito).

[1] Minha tradução, acima, é bem diferente daquela que se encontra na edição brasileira desse mesmo escrito de Lacan (1979/2003, p. 569). A principal diferença é que preferi traduzir événement por “acontecimento” (e não por “evento”). Destaco, ainda, que l’aire (possível de ser traduzido literalmente por “o ar”, l’air, ou mesmo “a ária”) é homófono de leurre (“engodo”) e, por isso, preferi colocar – ao lado de “areja” (que remete ao “ar”) – o verbo “errar”, mas a referência à “ária” aparece apenas de modo indireto, graças à possibilidade de, nesta frase escrita por Lacan, escutarmos uma espécie de canto, como ele próprio sustenta, na frase que vem logo depois dela.

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Os homens Ocos, T.S. Eliot

Fazer-se um corpo > UOM, o corpo que se tem

Murmúrios


por Maria Rita Guimarães

O poema Os homens ocos, de T.S.Eliot, (1888 – 1965)  nos sopra que, como trumains que somos, suportamos que “…há mais de um buraco no que se chama o “homem”. Trata-se mesmo de uma verdadeira peneira: eu entro onde?”[1].

Um corpo cheio de buracos, que se aguenta como “saco de pele, vazio, fora e ao lado de seus órgãos”.[2] E “entramos”, como sujeito,  pelo objeto a e, por outra parte,  pela morte. “O homem se apega muito a ser mortal. Ele se apodera da morte.”[3] A morte, o corte! “Assim é que o mundo acaba” … em murmúrios, diz Miller, lembrando-nos a tradução de Leyris –neste Boletim. Murmúrios, gemidos,  que, não à toa, nos lembram “o  horror , o horror” ditos magnificamente, como ecos sinistros, por Marlon Brando na pele do Coronel Kurtz  no filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Não será o caso de desenrolar a intertextualidade entre o filme e T.S.Eliot, mas, apenas lembrar que o poeta apreciava muito O Coração das Trevas, de Josef Conrad, do qual Coppola fez a adaptação livre para seu filme. A tal ponto de ter colocado como epígrafe de seu poema –  “A terra desolada”- justamente “O horror, o horror”, retirada, segundo dizem, por influência de Ezra Pound.

Este link levará você ao belo momento  no qual Marlon  Brando recita o poema em inglês.

https://youtu.be/th8Y2V0qumE

 

Os homens ocos[4]

 

Nós somos os homens ocos

Os homens estofados

Uns aos outros apoiados

Crânio recheado de palha

Ai de nós!

Nossas vozes secas

Frouxas sem sentido

São vento em capim seco

Pés de rato pisando

Em nossa adega seca

 

Figura sem forma

Sombra desbotada,

Força entorpecida, gesto sem expressão

 

Assim é que o mundo acaba

( This is the way the world ends

This is the way the world ends

This is the way the world ends)

 

 

 

 

 

 

[1] LACAN,Jacques,( 1977-78) seminaire Le Moment de conclure. Inédit. Leçon de 17 Janvier 1978.

[2] MILLER, Jacques-Alain. Nota passo a passo.  O Seminário, livro 23,  o sinthoma, 1975-1976, RJ: J.Zahar, 2007, p.213.

[3] Ibidem

[4] MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan: O sinthoma. RJ: Zahar, 2009.p.191-192. Eliot, T.S. “Os homens ocos”, in Poemas 1910/1930 (trad. Idelma Ribeiro de Faria). São Paulo, Câmara Brasileira do Livro, p. 63-7.

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Joyce LOM e sua mulher g(Love)

Fazer-se um corpo >

Joyce LOM e sua mulher g(Love)


por Sérgio de Mattos

Lacan se serve da metáfora da luva para pensar a relação entre Joyce e Nora, explicando o que o permite ter um corpo, um amor e fazer existir sua esquisita relação sexual.[1] Esta não é uma luva prête à porter. Ele faz da luva/Nora sua própria obra, na qual pode conter o corpo que lhe escapa. Depreende-se daí a função estabilizadora para seu gozo, na medida em que a operação Ego-sinthoma não é suficiente para sustentar o seu corpo. Nora é a mulher-ajuste. Para esclarecer esta construção, usarei como contraponto uma outra história de amor.

 

Ishmael in love

Em “Ishmael is in love” [2], lemos o amor de um golfinho por Lisabeth, especialista em human-cetaceos-relations. O que é esse amor? A excitação e ânsia de estar próximo. Qual a natureza dessa atração? “É minha necessidade da sua companhia. Acredito que ela me compreende como nenhum membro de minha espécie é capaz de fazer”. O corpo é, entretanto, obstáculo. Ele175 kg e 2.9 m. Ela 1.80m e 52 kg. Ishmael: “Não estou seguro se sinto desejos sexuais, é mais como se um anseio generalizado gerasse uma perturbação generalizada por sua presença, que traduzo em termos sexuais para tornar compreensível para mim […] ela não tem os traços que busco em uma parceira, bico proeminente e elegantes barbatanas. Os traços físicos desejáveis da sua espécie não têm importância para mim e em alguns aspectos tem um valor negativo. É o caso das duas glândulas mamárias na região peitoral que certamente atrapalham seu nado. É certo que Lisabeth lamenta o tamanho e lugar destas glândulas já que cuidadosamente as cobre”.

Todo o conto converge para o desencontro. Arrebatado, deixa escapar “Lisbeth I love you!”, venha viver comigo e ser meu amor”. Ao implorar por sua companhia, ela se desnuda, na piscina, ele treme aquela feiura das glândulas e ainda aquele inesperado pedaço de pelos corporais adicionais”. Na água, esquecido de tudo, corre, aperta-a entre barbatanas, imaginando o abraço humano. Sentiu a mão que lhe batia, signo de reciprocidade, logo percebeu com o cérebro enevoado de paixão que ela não tinha mais ar. Subiu rápido para a superfície, “Minha querida Lisabeth, estava chocada, ofegante, respirou fundo e tentou escapar de mim, exausta seu pálido corpo tremendo. E em uma voz fraca disse: você quase me afogou Ishmael”.

 

O espaço de um abraço.

“A luva virada ao avesso é Nora. É o jeito de ele considerar que ela lhe cai como uma luva.”[3] Não é apenas preciso que ela lhe caia como uma luva, mas que ela o cerre como uma luva … ela não serve absolutamente para nada.

A metáfora da luva baseia-se nas correspondências de Joyce/Nora, e no opúsculo de Kant que defende o espaço real. Num texto escrito sobre a relação de Blake e sua mulher, Joyce expõe a sua própria relação.

Blake não se sentia atraído por mulheres cultas ou refinadas …, preferia … a mulher simples, de mentalidade nebulosa e sensual …desejava que a alma de sua amada fosse uma criação lenta e dolorosa sua…”[4]

Nas cartas[5] ilustra-se a solução joyceana.

“Espero que tenhas recebido bem as luvas que te obsequiei … O par mais bonito é o de pele de raposa, estão forrados de sua própria pele, simplesmente postos ao avesso e devem ser quentes, quase tanto como certas partes do seu corpo Butterfly … “

Lacan, entretanto, discorda do espaço real, localiza-o entre o imaginário e o simbólico, construção verbal e elaboração visual. Se há relação sexual[6], diz Miller, quando há relação, só pode ser em uma alteridade interna à estrutura do falasser, o Sinthoma. Lacan inventa uma geometria pautada na reviravolta da luva, a partir da especial adequação que Joyce sentia em relação à sua esposa.

“Ó acolhe-me na tua alma …Em breve meu corpo vai penetrar no teu … Oxalá que eu pudesse aninhar-me no teu útero como uma criança nascida de tua carne e teu sangue… na quente penumbra secreta de teu corpo.”

Que ela lhe caia como uma luva, o cerre e não sirva para nada são as três condições desta construção: ser uma luva fabricada a sua medida, hand-made, que ela lhe dê consistência (mantenha seu corpo como um), e não sirva para nada, ser uma mulher degradada, tornada puro objeto dejeto produzindo uma localização para seu gozo. [7]

Nora é onde o escritor pode manter-se alojado e delimitado. Nota-se como o artista veste a esposa com vestidos, joias e luvas,enfeita teu corpo para mim, caríssima. Quero-te bonita e feliz e amorosa e provocante …. Lembras dos três adjetivos que usei em “Os mortos” falando sobre seu corpo. São estes: musical e estranho e perfumado.

Lom tem um corpo

Fazer um corpo é poder tê-lo, dele gozar de maneira vivível. Assim para LOM o ter precede o ser. Tenho um corpo! Parece a primeira ideia que temos de nós mesmos. O que não ocorre sem que haja uma instauração do significante na carne pela via do gozo do significante. Não se trata então da incorporação mecânica da informação, mas de que a sonorização das palavras, acentos, tons, inflexões musicais, vibrações, configurem um gozo necessário para a instauração/grampeamento do simbólico, LOM.

Joyce se arranja, há uma compatibilidade espacial entre ele e Nora-ajuste, quando revirando a luva, reveste-se deste espaço. Ishmael não será capaz de ter o corpo de Lisabeth como superfície ajustável, apesar do simbólico adquirido, não terá o corpo da mulher mesmo virando-a ao avesso, o imaginário como registro constitutivo desta geometria da relação sexual não lhe é topologicamente compatível.

Joyce é um LOM/Luva, mas para Ishmael não há soutien[8].

 

 

[1] Lacan Jacques. O seminário. O sinthoma. livro 23. Zahar.p.81.

[2] Siverberg Robert. Ishmael in love. The Future I. Edited Isaac Asimov Fawcett Crest. New York.1980. p.95

[3] Lacan Jacques. Idem acima.

[4] Mendes de Lima, Cristiano. James Joyce e Nora: há relação sexual. Opção Lacaniana online nova série. Ano 6. Número 18. novembro 2015.

[5] Cartas de amor a Nora Barnacle – James Joyce. Ed elaleph.com. 2000

[6] Miller J-A. Perspectivas do seminário 23. O sinthoma. Zahar. RJ 2010.

[7] Idem. Cartas de amor a Nora, op. cit., p. 38

[8] A palavra soutien usado para referir-se ao feminino, vem do francês sustentação

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Acontecimento de corpo e final de análise

Fazer-se um corpo > Acontecimentos do corpo

Acontecimento de corpo e final de análise


por Anne Lysy

Entro no tema “Corpo e ressonância”[1] com uma questão que me atormenta já há algum tempo: o que é um “acontecimento de corpo” e não caberia distingui-lo daquilo que chamamos mais comumente de “fenômeno de corpo”? Ou ainda: que chamávamos, pois me parece que hoje o uso de “acontecimento de corpo” tem se generalizado e tende a ser confundido com “fenômenos de corpo”. Pode parecer que queremos entrar demais nos detalhes, mas no horizonte, essa questão diz respeito àquilo que está em jogo na operação analítica, seu fim e seus meios, a interpretação.

Inicialmente, proponho ressituar esta noção de acontecimento de corpo e direi em seguida o que certos testemunhos de passe me ensinaram sobre esse tema, ou como eles me interpelaram. Esses testemunhos nos oferecem uma visão sobre a prática analítica hoje e sobre aquilo a que uma análise pode levar.

 

Acontecimento de corpo/fenômenos de corpo

O sintagma “fenômeno de corpo” floresceu em nossa clínica das psicoses e se estendeu a uma grande variedade de fenômenos,  grosso modo, a tudo o que acontece com o corpo – sintomas de conversão histéricos, fenômenos psicóticos, psicossomáticos, dores estranhas e toda a sorte de fenômenos bizarros. Que estatuto eles têm? Por exemplo, uma pessoa que é tomada por uma vertigem quando lhe anunciam a morte de seu irmão; outra cujos olhos se infeccionam a cada vez que vai falar em público; outra ainda que é invadida por tremores ao falar de sua história. Trata-se de algo que acontece no corpo, mas poderemos chamar isso de acontecimento de corpo?

Uma primeira pista. Durante uma Conversação clínica[2], J.-A. Miller faz uma distinção entre “os fenômenos de eclipse e os fenômenos permanentes”: “Qualificamos os fenômenos de corpo de “sinthomas” quando eles se instalam permanentemente e ordenam a vida de um sujeito.”

Sinthoma – escrito com TH: é um neologismo, a escrita nova que Lacan dá ao sintoma, para marcar que se passa a um novo regime da relação entre o significante e o corpo.

Lacan define o sintoma como “um acontecimento de corpo” em seu texto “Joyce o Sintoma” de 1976[3]. É a única vez que surge a expressão, mas J.-A. Miller a extraiu para fazer dela uma noção-chave do último ensino de Lacan e situá-la na série dos novos conceitos introduzidos pela inversão de perspectiva do Seminário XX, Mais Ainda, no qual o significante tem efeitos de gozo e não mais de mortificação: o falasser, lalíngua[4] e o sinthoma. O sinthoma é “algo que acontece ao corpo pelo fato da lalíngua[5]. J.-A. Miller opõe o sintoma como formação do inconsciente, que é decifrável e revela o desejo inconsciente, ao sintoma acontecimento de corpo que é regulado pelo registro do gozo indecifrável, “gozo opaco, por excluir o sentido” escreve Lacan[6].

O gozo supõe o corpo; um corpo vivo, que não é a imagem especular, mas que se define como “o que se goza”; não de um gozo natural, primário, mas pelo impacto da língua.

O acontecimento de corpo, é a “percussão” da língua sobre o corpo[7], é o traumatismo da língua.

Essa ênfase sobre o gozo. – e, portanto, sobre o corpo – repercute na prática analítica que se torna “uma disciplina de gozo”[8], onde a questão “o que isso quer dizer?” está subordinada a uma outra: “o que isso satisfaz”? “Procurar lá onde isso goza”[9]! Em uma análise, portanto, certamente se decifram os sintomas, mas é por se visar o real do sintoma, para além do sentido, para além dos desvios do desejo. Ler um sintoma, diz J.-A. Miller, “visa o choque inicial”, “visa reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo”. É “visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real”.[10]

O acontecimento de corpo se situa no nível da fixação freudiana, lá onde o traumatismo fixa a pulsão a um ponto que será o fundamento do recalque. A experiência analítica leva, portanto, a um “aquém do recalque”[11], à zona do Urverdrängung, que é um recalque jamais anulado, um ponto opaco, um furo, dirá Lacan[12]. O choque entre lalíngua e o corpo é da ordem de um real sem lei[13]. J.-A. Miller precisa: é um acontecimento “que está nas origens do sujeito, é de certo modo o acontecimento originário e ao mesmo tempo permanente, isto é, ele reitera sem cessar”[14] Encontramos a noção de permanência. Ele é inicial, mas itera, não da mesma forma que o retorno do recalcado, mas como iteração de um mesmo Um de gozo. O sinthoma como acontecimento de corpo é, no sentido forte, condição do falasser, constitutivo, e é de alguma forma o ponto do umbigo do sujeito, opaco, fora de sentido, inapagável, incurável, “o que muitas pessoas têm de mais real”, diz Lacan[15].

Entramos num terreno escorregadio, quando utilizamos a palavra “na origem”. Trata-se de encontrá-la? O choque inicial do acontecimento de corpo é identificável como tal? Pode ser dito? Ou é experimentado – tal como o gozo feminino, impossível de ser dito? O que é o Um de gozo: uma sensação, uma letra, uma palavra que atinge, um som?

A análise pode levar a circunscrever um ponto do indizível singular. Podemos ouvir de certos testemunhos de passe que o inicial se encontra desta vez “além”, “mais além”[16]: o sinthoma é circunscrito para além daquilo que sustenta o sentido, a fantasia, as identificações maiores.

 

A clínica do passe

Os testemunhos de passe nos tocam e nos surpreendem por sua diversidade. Não se trata, portanto, de efetuar um forçamento lendo-os como uma aplicação conforme uma teoria – mesmo se não pudermos fazer como se nenhuma teoria do final de análise existisse! O importante é não cair no clichê.

Muitos são os passantes que testemunham algo que acontece em seus corpos no final de análise. Frequentemente isso está associado a uma “vivificação”, um “mais de vida”. Os exemplos são singulares, surpreendentes; eles nos fazem entrar na lalíngua de cada sujeito.

Para Jérôme Lecaux, cujo primeiro testemunho de AE ouvimos durante a Jornada “Questões de Escola” em Paris no mês de janeiro, é uma história de pilar e de coluna vertebral.[17] Eis um homem que se dedicou a encarnar o bastão de pedra colocado atravessado na goela de crocodilo de sua mãe; ele se fez de pilar dela e de muitos outros, ao preço de uma grande mortificação e de um esgotamento constante (sempre “morto de cansaço”!). A desativação desta fantasia permite uma separação da mãe e é acompanhada por um “acontecimento de corpo”. Desde sempre ele percebia um furo no nível de uma vértebra, lá onde faltava o pai, o “fundamento na vida”. E eis que de repente, não somente ele teve a sensação de um aperto na bacia que conferiu uma solidez nova a seu corpo, mas também um “extravasamento” foi produzido, uma energia vital se espalhou pelo corpo todo, dando a impressão de uma carne viva. O corpo, de peso morto, torna-se fonte de energia.

Essa vivificação é, observemos, consecutiva a uma operação de desativação da fantasia. Não é o aparecimento de um significante recalcado, mas uma sensação – um corpo, de fato, “isso se sente”, escreve Lacan[18].

Outros AEs relataram “sensações” e fenômenos do mesmo tipo do sinthoma-acontecimento de corpo, no sentido da percussão inicial da língua sobre o corpo. Hélène Bonnaud, por exemplo[19], liga a sensação de queda do corpo, da qual ela tem que se arrancar a cada vez, ao impacto do significante “jogar” na frase paterna que de repente apareceu no final da análise: “se for uma menina, vamos jogá-la pela janela”.

Eu mesma constatei uma sensação corporal de efervescência, um “cheia de energia” que a interpretação “você é uma corredora[20]!” veio nomear: essa sensação é a minha mais antiga “lembrança”, mas não datável, sem forma e sem roteiro. Ela pôde se tornar força de propulsão no final da análise, quando se operou a separação do Outro, “tutor”. Sublinhei que “corredora” não é, entretanto, o achado da palavra que teria me atingido, nem uma identificação que fixa, nem o nome único que diria a coisa.[21]

O primeiro testemunho de Véronique Voruz[22] declina diferentes vertentes do corpo falante, cujo estatuto varia e que mereceriam ser comentadas uma a uma. Eu retenho quatro.

Em primeiro lugar o romance familiar é reduzido a alguns significantes, catástrofe, monstro, maldição, “marcas primeiras”, diz ela. Eu acrescentaria: elas são deixadas pela “palavra que fere”[23] – o que Lacan chamava de “ditos primeiros, oraculares”[24]– por exemplo: “você tem o corpo da mulher má”, ou “você é a enviada do príncipe das trevas”. São “significantes de destino (destinaux)”[25], diz ela, que poderiam ser desmontados para além da construção da fantasia.

Assim aconteceu também com um significante persistente, resistente às interpretações, produzido durante a análise, uma vez que ela pôde correr o risco de se tornar visível, de falar em público em seu nome: seus olhos se infeccionavam instantaneamente, tornando-se vermelhos. Até o dia em que, desfigurada, ela correu ao analista e começou: “é meu caso de olhos”[26], o analista “rugiu”: “Deus! Enfim eu o escuto!” e cortou a sessão. Esse “exorcismo pelo equívoco” fez cair a identificação ao diabo e foi “quase razão” deste sintoma.

Ela descreve também a montagem que teve que inventar para se separar do analista – ela que não conseguia jamais se separar sem se arrancar, vivendo como o “prolongamento do corpo do outro”.

No final, justamente, ela faz a descoberta, extraída de um sonho, de uma nomeação de seu modo de vida: “estou sempre um pouco aos trancos (à l’arrache)[27]”. É uma palavra de destino desativada, da qual ela pode fazer um novo uso – sua mãe tinha arrancado a perna em um acidente de montanha e neste último sonho Véronique sobe aos trancos e barrancos (à l’arrache) um caminho na montanha, fazendo cair pedras; ela se vira e vê na encosta, em meio às pedras, uma perna arrancada.

Esses diferentes exemplos me levam, para terminar, a propor três pistas a serem exploradas.

Essas histórias de “sensações corporais”, de vivificação, pedem que se retome a questão do afeto de novas maneiras. Lacan havia evocado os afetos de final de análise correlatos à travessia da fantasia, o “maníaco-depressivamente”[28] e a posição “depressiva”[29], ou ainda o entusiasmo[30]. Agora, é o corpo que é “sensível”[31]. Como podemos relatar esses afetos do corpo através do “isso se sente” de seu escrito sobre Joyce, ou dos “efeitos de afeto” de lalíngua do Seminário XX: “Lalíngua nos afeta primeiro por tudo que ela comporta como efeitos que são afetos”[32]?

Não nos deixemos obcecar pelo acontecimento de corpo “na origem”! Eu proporia ao contrário que a análise produz acontecimentos – na medida em que um “dizer faz acontecimento”[33]. É um dizer que cria; uma nomeação. Inventando “palavras que suportam[34], alojando-se na junta opaca entre lalíngua e o corpo, a análise é criacionista[35] como sublinha Eric Laurent. Eu proporia a hipótese de que a análise produz um real singular para cada um, ao invés de reencontrar, rememorar até o fim, o real que estava lá “nas origens”. Os testemunhos de passe transmitem frequentemente essas nomeações singulares (jogar fora, corredora, de-olhos-abertos, “à l’arrache”), pontos de umbigo opacos na trama dos relatos, que são como índices daquilo que escapa ao relato. Não são as “últimas palavras”, nem as palavras da origem, do choque inicial jamais diretamente restituível: elas só podem circunscrever o impacto, elas traçam a borda[36].

O que acontece com a interpretação-acontecimento? Dessas “palavras que suportam” e têm efeitos de gozo, que “passam para as tripas”[37]? A análise consegue “desfazer pela fala o que se faz pela fala”[38], mas ela o faz “en corps”[39].

 

Tradução: Márcia Bandeira

Revisão de tradução: Ana Helena Souza

Revisão de notas: Márcia Mezêncio

 

[1] Esse texto é uma versão completa de uma conferência da Jornada da ACF- Bélgica em 20 de fevereiro de 2016, “Corpos e ressonâncias” e foi publicado na Quarto 112/113, pp. 116-118.

[2] Miller, J.-A., e alii, “Conversation sur les embrouilles du corps”, Bordeaux, 1999, Ornicar?, n°50, 2002, p. 235.(Grifo nosso).

[3] Lacan, J. (1975) Joyce, o Sintoma. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 565.

NT: traduzido por “evento corporal” nessa edição brasileira.

[4] NT: Optamos por traduzir por “lalíngua”, já que lalangue circula assim no meio da psicanálise de orientação lacaniana.

[5] Miller, J.-A. Peças Avulsas. Opção Lacaniana, São Paulo, n.45, 2006, p.29. Tradução modificada.

[6] Lacan, J. op.cit., p. 566.

[7] “Choque”, “percussão”: termos utilizados por J.-A. Miller, notadamente em seu curso “O Ser e o Um”, 2010-2011 (inédito).

[8] Miller, J.-A. “The Warshaw Lecture”, Hurly Burly, 2, nov. 2009, p. 177.

[9] Miller, J.-A. “L’économie de la jouissance”, cours “Choses de finesse en psychanalyse”, 2008-2009, La Cause freudienne, 77, p. 169.

[10] Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 70, 2005, p. 21.

[11] Miller, J.-A. “O Ser e o Um”, aula 30 de março de 2011, inédito; e “Ler um sintoma”, op. cit., p. 19.

[12] Lacan, J. “Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines”, Sclicet 6/7, Paris, Seuil, 1976, p. 59.

[13] Miller, J.-A. O real para o século XXI. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 63, 2012, p. 17.

[14] Miller, J.-A. Ler um sintoma, op. cit., p. 21.

[15] Lacan, J. “Conférences et entretiens dans des universités nord-américaines”, op. cit., p. 41.

[16] É a “zona” que J.-A. Miller designou como “ultrapasse”; ver especialmente o curso “O Ser e o Um”, aula de 4 de abril de 2011.

[17] NT: Testemunho apresentado em abril de 2016, no X Congresso da AMP, pode ser lido em: Lecaux, J. A cruz e a barreira. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 75/76, 2017, p. 142-146.

[18] Lacan, J. (1975). Joyce, o Sintoma, op. cit., p. 561.

[19] Bonnaud, H., « Réel, résistance, restes », Quarto, 109, déc. 2014, pp. 68-69.

[20] NT. Em francês “coureuse” tem o sentido de “corredora” mas também de “uma mulher que constantemente está à procura de aventuras amorosas”.

[21] Ver especialmente: Lysy, A., « Savoir y faire avec un symptôme » et « Ma petite chansonnette, Variations sur l’événement de corps » (2012), in Quarto, 103, déc. 2012.

NT: Pode-se consultar também, em português: Lysy, A. «Tem que ir!». Opção Lacaniana, São Paulo, n. 58, 2010, p. 115-122.

[22] Voruz, V., « Se séparer sans s’arracher », Journée « Questions d’Ecole », Paris, 23 janvier 2016.

NT: Testemunho apresentado em abril de 2016, no X Congresso da AMP, pode ser lido em: Voruz, V. Exorcizada pela psicanálise. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 75/76, 2017, p. 104-108.

[23] A expressão é de J.-A. Miller, em uma intervenção sobre a interpretação: “A palavra que fere”. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 56/57, 2010, p. 67-70.

[24] Lacan, J. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo. Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, p. 822: “O dito primeiro decreta, legifera, sentencia, é oráculo, confere ao outro real sua obscura autoridade.”

[25] NT: Destinaux: adjetivo que em francês se refere ao destino, que caracteriza e evoca o destino.

[26] NT: “C’est mon histoire d’yeux», no original: d’yeux (de olhos) é homófono a Dieu (Deus) em francês. A tradução de histoire por caso foi feita para que o pronome objeto do verbo escutar possa se referir tanto ao caso como a Deus, reforçando o equívoco da interpretação.

[27] NT: Em francês, a expressão “à l’arrache” significa: ir muito depressa e com esforço, improvisando, sem ter se preparado. Essa expressão tem a mesma etiologia do verbo “arracher” que tem o sentido de “arrancar”.

[28] Lacan, J. (1973). O aturdido. Outros Escritos, op. cit., p. 489.

[29] Lacan, J. (1968). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros Escritos. Op. cit., p. 261.

[30] Lacan, J. (1982). Nota italiana. Outros Escritos, op. cit., p. 313.

[31] Lacan, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 2007, p.18.

[32] Lacan, J. (1972-1973). O Seminário, livro 20: mais ainda. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1985, p. 190. Tradução modificada.

[33] Miller, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: EBP, 2016, p. 28.

[34] Lacan, J. (1974) O fenômeno lacaniano. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 68-69, 2014, p. 15.

[35]Laurent, E. Entrevista transcrita, « Ça parle du corps avec … Eric Laurent », e-mail enviado antes da Journée du CPCT Paris (septembre 2015).

[36] Lysy, A., “Un trognon de réel en fin d’analyse”, Le réel mis à jour, au XXIe siècle, AMP, Ecole de la Cause freudienne, collection rue Huysmans, Paris, 2014, pp. 80-82.

[37] Miller, J.-A. O inconsciente e o corpo falante, op. cit., p. 32.

[38] Lacan, J. “Une pratique de bavardage”, Le moment de conclure, 15 nov.1977, Ornicar? 19, 1979, p.6.

[39] NT. “En corps”, em português “em corpo”, traz a assonância com “encore” que significa “ainda”, título do Seminário XX de Lacan, traduzido em português por “mais, ainda”.

 

Texto publicado com a amável publicação da autora.

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