Bibliografia 3

Entrevista com Elisa Alvarenga

Entrevista com Elisa Alvarenga sobre Acontecimento de corpo e final de análise.


Elisa Alvarenga (A.E. 2000-2003)

Na época em que fui nomeada AE, novembro de 2000, pouco se falava em acontecimento de corpo no final da análise. Buscava-se, por outro lado, seus objetos e seu nome de gozo  que, podemos dizer, nunca é definitivo. A travessia da fantasia e a travessia das identificações estava em pauta e, no horizonte, o sinthoma.

Retrospectivamente, se pensamos que o acontecimento de corpo é um acontecimento de gozo produzido pela incidência da linguagem ou do significante sobre o corpo, ele se manifesta em momentos em que há um corte na cadeia de sentido, uma separação da cadeia significante, correlativa da travessia da fantasia, da queda de uma identificação ou do ato de cernir algo do sinthoma. Podemos também pensar o acontecimento de corpo como decorrente da passagem do gozo fálico, mortificante, articulado à fantasia, ao gozo não-todo, dito feminino, como consequência da extração do objeto alojado no campo do Outro, do encontro com a inexistência do Outro (Ⱥ), ou ainda, com um furo no saber S (Ⱥ), com um efeito de vivificação do corpo.

Em minha experiência de análise, consigo isolar alguns momentos em que o significante pareceu tocar meu corpo de uma maneira vivificante, seja produzindo entusiasmo e alegria, seja produzindo angústia. Um primeiro momento foi quando fiz o passe de entrada na ECF, quando esse procedimento foi proposto por Jacques-Alain Miller nas Escolas da AMP. Foi um momento de separação do analista, ao perceber o lugar ocupado por ele em minha economia libidinal. Fui tomada de entusiasmo e grande clareza de ideias, produzindo um saber que transmiti no passe de entrada, vários anos antes de concluir minha análise.

O segundo momento foi próximo ao final da análise, momento de quebra da fantasia, em que o sujeito não mais se aloja nela como objeto, ao passo que a pulsão exige satisfação. Se a fantasia é a janela, ou a tela que cobre o real, esse real desnudado, ainda não bordeado por uma letra de gozo, provoca angústia. Foi com esse afeto de angústia, acontecimento de corpo, que tive que me haver no dispositivo do passe. O trabalho de transmissão foi um tratamento dessa angústia, circunscrevendo o furo no saber com um nome de gozo.

Muitos anos depois, no espaço do ultrapasse, em que, periodicamente, frequento um analista em controle, produzo um sonho.  “Estou em uma casa confortável, satisfeita, mas tenho que sair no escuro, sem saber o que vou encontrar lá fora. Saio e grito, mas não acordo”. Sou acordada por alguém que escuta meu grito, acontecimento de corpo produzido pelo sonho. Tomada por certa perplexidade, me dou conta que esse grito não é mais um apelo ao Outro, mas um S1 que se destaca. Aquilo que não é possível dizer é mostrado no sonho-pesadelo, acontecimento de corpo que assinala o afrouxamento da identificação a um S1 que marcou o falasser precocemente e que sempre pode reiterar, mas pode ser lido de outra forma, circunscrevendo um furo.

No espaço do ultrapasse, definido por Jacques-Alain Miller[1] como o tempo depois da experiência do passe que, por sua existência, ordena a perspectiva de uma análise, além de permitir ao analista haver-se com seus restos sintomáticos e desmamá-los de sentido, o analista encontra também no sonho um fora de sentido. O sonho se converte então em instrumento do despertar, quando mostra um ponto onde isso não se pode dizer. Algo cessa de não se escrever. “O importante é o acontecimento do surgimento desse espaço fora de sentido, diz Éric Laurent. É o esp de um son”[2]. Se o “esp de um son”, ou o espaço de um sonho, como o “esp de um laps”, o espaço de um lapso, já não tem nenhum impacto de sentido, podemos dizer, com Lacan, que “só então temos certeza de estar no inconsciente”[3]. Não o inconsciente transferencial, com suas interpretações, mas o inconsciente real. Deixando para trás os S2 que costumava acrescentar ao seu S1, para perpetuar seu des/conforto nos braços do Outro da fantasia, o falasser solta as amarras do sentido e se aventura em uma nova relação com o furo.

 

[1]     Miller, J.-A. L’Un tout seul, 04.05.2011, inédito.

[2]    Laurent, E. El despertar del sueño o el esp de un sue. In: Textos de Orientación http://congresoamp2020.com/es/articulos

[3]    Lacan, J. Introdução à edição inglesa do Seminário 11, Outros Escritos. RJ, Zahar, 2003, p. 567.

 

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Entrevista com Sérgio de Campos

Entrevista com Sérgio de Campos sobre Acontecimento de corpo e final de análise.


Sérgio de Campos (A.E. 2009-2012)

O analista interrompeu a sessão e olhou-me bem fixo nos olhos, pela primeira vez em quinze anos, com o semblante mais maroto do mundo. Sua cabeça arredondada estava incandescente, como o pôr do sol, desses que acontecem no inverno de Belo Horizonte, quando o sol beija a montanha no final do dia[1].

O acontecimento de corpo estabeleceu um divisor de águas em minha vida, entre um antes e um depois. Antes, o sintoma me prendia em um gozo enigmático expresso como uma espécie de debilidade mental. Estava suspenso, com os pés fora do chão, como um espectador distante da vida, imerso em procrastinações, fantasias e devaneios, os quais serviam de mecanismo de proteção, defesa e fuga da realidade. Era como se o tempo tivesse sido congelado em razão da cena traumática. Queria passar desapercebido, desaparecer diante do olhar do Outro. A angústia era minha companheira e a inibição ocorria no plano social e intelectual.

Após a conclusão da análise, paulatinamente comecei a constatar uma estranha precipitação sinthomática. O evento da alucinose da cabeça em brasa do analista ocorrida no ocaso da análise, no fundo, nada mais era do que a projeção da cabeça quente puxada pelos cabelos pelo pai na cena traumática. A partir de então, houve um deslocamento radical da debilidade para uma espécie de loucura. Miller destaca que o fenômeno de corpo quando ganha permanência é designado de acontecimento de corpo e tem o estatuto de sinthoma[2]. A cabeça aérea, fantasiosa, débil e anestesiada se transformou em uma cabeça inquieta, incandescente, desassossegada e fervilhante, promotora de satisfação.

Mergulhei de cabeça na Escola. Durante três anos aconteceram os depoimentos do Passe; em seguida, foram dois anos como integrante do Cartel do Passe; depois vieram a participação no Conselho da EBP e a presidência da EBP. Enfim, há seis anos, de modo dedicado e ininterrupto, abracei o desejo incandescente pelos “Seminários por conta e risco” de onde extraio a enorme satisfação de transmitir a psicanálise.

 

[1]    CAMPOS, S., Passema: testemunhos de um final de análise, 2014, Belo Horizonte: editora Scriptum, p. 30.

[2]    MILLER, J.A. La Conversación In: Embrollos del cuerpo, Buenos Aires: Paidós, 2016, p. 110.

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