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Tru-no-ar – Episódio


Tru-no-ar - 2ª versão

Tru-no-ar – Episódio


por Sérgio de Mattos

Neste episódio, buscamos fazer ressoar os sons graves que suportam materialmente o LOM. É curioso notar como, nestas frequências, nosso corpo vibra, percutido pelas ondas sonoras mais baixas. Os trombones, violoncelos, tambores são uma prova. São um exemplo de como o som afeta o LOM. Os monges que soam no início deste episódio fazem de suas litanias, usando essa faixa sonora, um modo de tocar o corpo que assim esvazia-se e com ele seus pensamentos. Lacan, no seminário As psicoses”, nos lembra de algo mais próximo de nossa cultura:

Há uma lindíssima prece na prática cristã que se chama Ave-Maria. Ninguém suspeita, aliás, que isso começa pelas três letras que os monges budistas resmungam o dia todo. AUM, deve haver aí alguma coisa radical na ordem do significante, mas que importa. Eu a saúdo Maria.[1]

Nesta convergência, Lacan indica algo radical no interior da ordem significante, ouçamos, e aqui é preciso ouvir em francês, Je vous salue, MarieLe seigheur est avec vous …, sonoridades básicas que fornecerão, não sem consequências para o ser falante, as primeiras materialidades sonoras para os significantes. Justo aquelas que os bebês têm mais facilidade para vocalizar e, porque não, gozar em seus primeiros balbucios. Corpo tambor, tubo, corda, corpo falante. Os “gritos” ouvidos, fazem nesta Sketch contraponto ao conforto e sobriedade trazido pelos graves, a outra face terrível do som, expressão jaculatória, prévia à divisão enunciação/enunciado, emitida de um corpo impactado pelos excessos, que nos remete em sua natureza àquele grito ao qual Lacan se refere no seminário “Problemas cruciais da psicanálise”, grito insólito, ao mesmo tempo de terror e de apelo irresistível, que evoca na tradição do Zen, o grito, Khât, que seria capaz de ressuscitar um morto.

 

[1] Lacan.J. O Seminário, livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p.322.


Lacan: o gosto pelos sons da surpresa

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Transfigured Night for String Sextet, Op. 4
Arnold Schoenberg

Lacan: o gosto pelos sons da surpresa


por Sérgio de Mattos

Lacan se refere à música em diversos momentos de seus seminários, como podemos localizar nos seminários 2, 7, 8, 10, 12.  Por duas vezes no seminário, livro 16, a música é considerada, junto à arquitetura, como arte suprema. Outras referências também podem ser encontradas nos seminários 18 e 24.

Segundo Judith Miller, seu pai sempre recorria a Diego Masson, quando tinha necessidade de alguma explicação se o assunto fosse música. Segundo Masson, após um concerto em Aix-en-Provence no qual foram tocados um concerto de Mozart e outro de Haydn, Lacan lhe havia dito:

“No fim das contas, Haydn é talvez ainda mais forte que Mozart! Há em Mozart sentimentos que podemos descrever com palavras, enquanto em Haydn, este, é totalmente abstrato, é como uma equação matemática, sem nenhum sentimento e, entretanto, produz um gozo extremo e é cheia de surpresas.

 

Lacan, la musique . Converse avec Judith Miller. In La Cause  freudienne Navarin Èditeur. 2011/3 .n. 79. p. 58-66.


Tru-no-Ar

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Tru-no-Ar


por Sérgio de Mattos

Apresentação

O eco é a voz do invisível. No eco o emissor não se encontra. Pascal Quignard especula que as cavernas paleolíticas não são santuários de imagens, mas grandes instrumentos musicais, ressoadores. “O eco é o guia de referência na obscuridade silenciosa onde eles penetram e onde buscam imagens.” [1]

Nossa pequena equipe animou-se a produzir pequenos sketches que ressoassem o fato de que as sonoridades das palavras, tons, inflexões musicais, configuram um gozo necessário para a instauração do simbólico no corpo. LOM.

Formado por Ana Paula Oliveira, bailarina que integrou os principais grupos e cias de dança, entre eles os do Palácio das artes e do Grupo Corpo. Graduada em Direito, Ana Paula atua no campo das artes pela Apu Produções. É realizadora de performances e estudante de psicanálise no IPSM-MG.

Marina Del Papa é Graduada em Psicologia pela PUC-MG, com Mestrado em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Estudante de psicanálise no IPSM-MG. E estudante de canto.

Patrícia Bizzoto é Bacharel e Mestre em Filosofia e Artista. Trabalha nos limites da música de concerto contemporânea, como compositora e performer, e com trilhas sonoras para dança teatro e vídeo. Faz análise há muitos anos, o que contribui para a manutenção de seu interesse e admiração pela clínica psicanalítica; tem trabalhado, entre outras coisas, o conceito de separação (mesmo que seu analista possa vir a discordar disso).

Sérgio de Mattos é Psicanalista Membro da EBP-MG, AMP, coordenador do Tru-No-Ar e responsável pela bateria na composição.

Inspirados no nome deste Boletim “Ecos” e nos fonogramas multissemânticos de Lacan, como “l`on lá, l`ón, lòn là de làir, lón l`aire, de l`on l`a” ou LOM, LOM de base, LOM cahun corps et nan-na Kun, nosso primeiro sketch experimental improvisou com vozes, sonoridades e um ritmo corporal e marcial (baseado na antiga peça para snare drum, three camps -1799- um toque de despertar nos acampamentos) como uma parada de sons e ecos e uma abertura por onde a voz de Lacan viaja anunciando onde vamos parar com os significantes, o equívoco, mais precisamente calembour, em francês, jogo de palavras baseado na semelhança de sons e de diferentes sentidos.
Após uma conversa sobre a atmosfera sonora que desejávamos passar, enviamos sons de voz, de batidas no corpo, e tambores para Patrícia, que os compôs na peça que poderão ouvir: Ecos XXI

 

[1]  Quignard Pascal. La haine de la musique. Gallimard. Éditions Calmann-Lévi, 1996, p. 148-149.


Roaratorio, An Irish Circus on Finnegans Wake - John Cage.

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Roaratorio, An Irish Circus on Finnegans Wake - John Cage.


por Patrícia Ribeiro

“O que nós precisamos, em Joyce e em nossas vidas, é arriscar, o mais que pudermos, voltar à poesia e ao caos, em vez de ficar sempre do lado seguro, junto do policial.” (CAGE, 1992)

 

O músico norte americano John Milton Cage Jr. (1912-1992) foi um compositor, teórico musical, escritor e pioneiro da chamada música aleatória e do uso de instrumentos não convencionais, bem como do uso não convencional de instrumentos convencionais. Para Cage, todas as atividades que compõem a música devem ser vistas como parte de um único processo e, por isso, ele integra à música sons antes considerados ruídos.

Nessa composição, Roaratorio, An Irish Circus on Finnegans Wake, de 1981, concebida como uma peça radiofônica, Cage sobrepõe ao som de palavras e outros sons mencionados por James Joyce em seu livro Finnegans Wake, ruídos ambientais captados em vários dos lugares descritos na obra de Joyce, além de outros sons próprios à música tradicional irlandesa.

O termo Roaratorio, neologismo cageano, aglutina roar (em português, rugido) e oratório, esse último, tomado sob a perspectiva de um oratório que ultrapassa os muros  da igreja, captando os sons do lado de fora, do mundo, associado, como seu título indica, à ideia de circo, seja  no sentido de uma situação que é confusa, barulhenta, seja no de  um circo “que não tem um centro, mas que melhor se define pela pluralidade de centros”[1].

 

 

 

 

 

 

[1] TERRA, V. Entre categorias: rádio música de John Cage. Disponível em: http://www.poiesis.uff.br/p25/p25-artigos-2-vera-terra.pdf