Interpretação no tempo do falasser
Invenção e sinthoma
Invenção e sinthoma[1]
por Charles-Henri Crochet

Considerar, à maneira de Jacques-Alain Miller, “que uma literatura que especula sobre o sintoma, que o imita, é constituída de forma totalmente diferente daquela que se funda sobre a fantasia”[2] implica, para o corpo falante, consequências diferentes. O século XXI, em especial, dá corpo à segunda solução. Outras vias se engajam numa invenção menos ready-made. Em literatura, Joyce contra Sade, nos dá seu alcance.
O Marquês compõe com sua fantasia. Esse oculus através do qual olha o mundo é uma interpretação do desejo do Outro. Como um escriba, Sade copia ”a épura”[3] de uma “fábula”[4] congelada no cruzamento do desejo com a lei. Testemunha “uma técnica orientada para o gozo sexual”[5], verdadeiro tratado didático sobre a arte da perversão. O sentido pulula, os sentidos se agitam. Isso gira em círculos, ronca, range, até o “grelhado”[6]. Desde as primeiras páginas de Justine ou os males da virtude apreende-se “seu extravagante sistema”.[7] De fato, ele se dedicará a reescrever Justine… incansavelmente. Entregando-se impetuosamente a um trabalho colossal, ele opera uma prodigiosa exploração do imaginário à qual Lacan recorrerá em seu primeiro ensino. Do¨limbo da fantasia, Sade faz “literatura experimental”.[8]
Do lado de Joyce, a malha literária é totalmente outra. Sua invenção desafia a fantasia. A trama tecida por James Joyce não limita seu trabalho de escrita, pois aporta a estrutura mesma do sintoma. O Dublinenses se apoia em sua cidade[9] e na História, “pesadelo do qual tenta despertar”[10], mas para melhor se apoiar na letra.
Desde os primeiros ensaios teóricos de Joyce até Finnegans Wake, Lacan destaca “que uma certa relação com a fala lhe é cada vez mais imposta”[11]. Essas “epifanias”[12], espécies de gemidos, silvos, barulhos estridentes da língua que se faz estranha e estrangeira, o engajam num labor titânico. O herói das letras é então conduzido “a desafiar a gramática”[13]. Ele desarticula as línguas, decompõe a língua inglesa. Quebra a frase, esmaga o significante, e isso até “dissolver a linguagem”, pulverizando assim toda “identidade fonatória”[14]. No leito da letra, Joyce refunda a literatura e engendra assim um estilo a nenhum outro semelhante.
Ensinado pela arte de Joyce, Lacan negociará uma virada epistêmica consequente para a psicanálise. A escrita de Joyce revela a essência mesma do sintoma, segundo sua raiz helênica[15],- nomeado novamente sinthoma por Lacan -, que se torna assim a fabricação de uma medida com a qual se mensura um fim de análise.
Joyce decifra seu enigma à luz não de um porque existencial, mas de um como fazer com o corpo falante. Em Joyce, o significante e o corpo se disjuntam. O imaginário desliza e “só pode cair fora”[16]. Ele será testemunha dessa delitescência[17]. Em seguida a uma surra aplicada por seus pares, ele é despojado de seu envelope. Esse corpo que cai como uma casca ele o enlaçará, para fazê-lo se sustentar no entrelaçamento da escrita.
Sua dimensão criadora é de uma precisão literalmente cirúrgica. Ele inscreve sua arte no ponto mesmo em que a função simbólica falta. Para Joyce, esclarece Miller,
A língua não conseguiu se ordenar no regime do pai, e então ela se pôs a murmurar com ecos. A hipótese de Lacan é que este era o sinthoma de Joyce e que ele soube convertê-lo em produto de sua arte. Ele acolheu seu sintoma para fazer uso dele[18].
Querendo um nome, fazendo uso desse nome, Joyce compensa um pai fundamentalmente carente. Atrelado a um trabalho vital ao pé da letra, ele sustenta seu nome próprio disjunto do pai.
De sua solução sinthomática, Joyce faz um objeto de transmissão que, segundo seu voto, mobiliza os universitários. No apogeu de sua arte, ele encarna esse modo do escrito “a-não-ler”[19]. Em uma leitura pública de Finnegans Wake[20], ele oferece o precioso de seu ser, o agalma de sua arte:
Ouve-se aí, pela primeira vez: a flexibilidade; a audácia; a multiplicidade dos papeis; do grave ao agudo; do cochicho ao grito; [..] A récita de Finnegans Wake lido por Joyce [é] uma chave do mundo futuro[21].
REFERÊNCIAS:
[1]Texto originalmente publicado em Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o Inconsciente no Século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, p. 180-183, 2016. Tradução: Cássia M.R. Guardado. A coordenação da 25ª. Jornada da EBP-MG agradece ao autor, psicanalista, membro da ECF-AMP, pela gentileza da sua autorização para publicação neste Boletim.
[2] .MILLER, J.-A. Extraits de la discussion après l’éxposé de J. Aubert: “Galerie pour um portrait” aux “Conférences du Champ freudien”. Analytica, Paris, n. 4, p. 16, 1977.
[3] LACAN, J. Kant com Sade. In: Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 1998. p. 798.
[4] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: JZE. 1988. p. 256.
[5] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 243. Na presente edição em português, falta a palavra sexual (N.T.).
[6] LACAN, J. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: JZE, 1992. p. 73.
[7] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 246.
[8] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 246.
[9] Cf. AUBERT, J. Introduction Générale. In: JOYCE, J. Oeuvres. Paris: Gallimard, 2006, p. XX-XXVI (Col. Bibl. de la Pléiade, t. 1).
[10] JOYCE, J. Ulysse. In: ____ OEuvres, cit., t.2 p. 38.
[11] LACAN, J. O Seminário. Livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: JZE, 2007, p, 93
[12] JOYCE, J. Stephen le Héros. In: _______. Oeuvres, cit.,t 1, p, 512.
[13] MILLER. J.-A . Extraits de la discussion après l´exposé de J. Aubert: “Galerie pour un portrait” aux “ Conférences du Champ Freudien”, cit.., p. 16.
[14] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 93.
[15] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 158
[16] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 147.
[17] JOYCE, J. Portrait de l’artiste en jeune homme. In:____. OEuvres, cit., t. 1, p. 611.
[18] MILLER, J.-A. Curso de orientação lacaniana: Piezas Sueltas (1997-1998). Buenos Aires: Paidós, 2013. cap. 2, p. 38. Lição de 24 de novembro de 2004.
[19] LACAN, J. Posfácio ao seminário 11. In:_____. Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZ, 2003. p. 504.
[20] OGDEN, C. K. James Joyce reads “Anna Livia Plurabelle” from Finnegans Wake (1929). Cambridge: Studio Orthological Society. Disponível em: <https://archive.org/details/JamesJoyceReadsannaLiviaPlurabelleFromFinnegansWake1929. Acesso em: 23 mar. 2015.
[21] SOLLERS, Ph. Comme si le vieil Homére… . Le Nouvel Observateur, Paris, 6 fev. 1982. Disponível em: <www.pileface.com/sollers/spip.php?article744>.Acessoem:23 mar. 2015.
Sobre uma passagem do seminário O Ser e o UM, Miller
Sobre uma passagem do seminário O Ser e o UM, Miller
por Graciela Bessa

“Et chez le parlêtre, ce choc initial, ce traumatisme introduit une faille qui est aussi bien le phallus, qui est aussi bien la faute, le péché ou, dit Lacan – en prenant la première syllabe de sinthome, sin – en anglais le sinn, le péché.
Et la faille, cette faille initiale tend à s’agrandir toujours, sauf, dit-il, à subir le cesse de la castration.”[1]
Nesta passagem do Curso de Miller, o trauma se dá a partir de um choque inicial que introduz no parlêtre uma falha que tende a crescer sempre. Mas, o que faria cessar o sinthoma, seria a castração, na medida em que “isso pudesse se escrever em um discurso que não fosse semblante, mas sim real. Este é o novo sentido da castração: o que faz cessar as embrulhadas do sentido”[2]
A elaboração sobre “Há Um” presente no Seminário 19, … ou pior, marca uma mudança radical no modo de pensar o funcionamento psíquico. No primado do Um o gozo vem em primeiro plano, o gozo do corpo próprio. “Trata-se de um gozo primário no sentido em que apenas secundariamente ele é objeto de uma interdição”[3]. Um corpo marcado por lalíngua que faz nele acontecimento. “Esse acontecimento de corpo que é gozo aparece como a verdadeira causa da realidade psíquica”[4].
Para Laurent[5], esse choque inicial de lalíngua com o corpo, não é uma inscrição do tipo impressão, mas a inscrição de um furo que determinará circuitos. Ou seja, lalíngua é a entrada do gozo no corpo, mas desse enxame de S1, é preciso que um deles alce voo, se destaque desse enxame, e se escreva como letra. “Lalíngua é o início do gozo, enquanto a letra é sua marca, o recorte de um modo singular de gozo”[6], resultando numa localização do gozo que irá se repetir no sintoma. Sob essa perspectiva a letra é marca de uma cicatriz, desse buraco em lalíngua pela extração de um S1. É isso que funcionará como trauma. “O trauma é o elemento contingente que marca o corpo, que escreve no corpo a letra de gozo, e que ao mesmo tempo, esburaca o real”[7].
Só a partir da inscrição da letra, consequentemente a inscrição do furo, dessa falha, como nos diz Miller, é possível a articulação de um S1 com um S2. Patricio Álvarez constitui três tempos lógicos para pensar a articulação entre lalíngua, a letra e a linguagem. Num primeiro tempo, temos lalíngua como enxame de significantes. O segundo tempo se caracteriza pela extração de um S1 como efeito do troumatisme. Sua extração produz uma borda e um furo. Esse S1 destacado funcionará como letra que se repetirá no sintoma. No terceiro tempo lógico esse S1 se articula ao S2, produzindo a linguagem como elucubração de saber. Há aqui uma amarração do Um com o Outro da linguagem.
Numa análise, para chegar a esse choque inicial, que é o choque do corpo com lalíngua, é preciso a partir da proliferação de sentido produzida por essa elucubração de saber da linguagem, se extrair os S1 de lalíngua, marcas de gozo. Ou seja, cernir o real do sinthoma, fazendo cessar as embrulhadas do sentido.
REFERÊNCIAS:
[1] MILLER, J.-A., Curso de Orientação Lacaniana. O Ser e o Um. Lição 25/5/2011. Inédito. “E no parlêtre, este choque inicial, este trauma introduz uma falha que é também o falo, que também é falha, pecado ou, diz Lacan – tomando a primeira sílaba de sinthome, sin – em inglês sinn, o pecado. E a falha, essa falha inicial, tende a ficar cada vez maior, exceto, diz ele, para suportar a cessação da castração” (tradução livre)
[2] Idem
[3] Miller, J.-A., Curso de Orientação Lacaniana. O Ser e o Um. Aula de 11 de maio de 2011. Inédito.
[4] idem
[5] LAURENT, E., Por que o Um? In: GORSKI, G. G.; FUENTES, M. J. S., Leituras do Seminário … ou pior de Jacques Lacan. Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise, 2015.
[6] ALVAREZ BAYÓN, P., El autismo, entre la lengua y la letra. Olivos: Grama Ediciones, 2020, p. 85.
[7] Idem, p. 93
A interpretação nos tempos do falasser
A interpretação nos tempos do falasser
por Antônio Teixeira (mais um)
Cartel: Andréa Eulálio, Cleyton Andrade, Fernanda Costa, Gilson Iannini, Graciela Bessa, Lúcia Grossi, Renata Dinardi e Sérgio de Mattos.

Ao nos reunirmos para preparar este relatório, orientados pelo título proposto pela comissão organizadora, tentamos pensar como a interpretação se articula à dimensão do falasser, termo forjado por Lacan na última fase de seu ensino para se referir ao que antes era indicado pelo sintagma “sujeito do inconsciente”. Essa alteração não se limita, como todos bem o sabem, a uma simples mudança de designação. O que está em questão na substituição pelo termo parlêtre do que se chamava “sujeito do inconsciente”, na fase dita estruturalista de sua doutrina, resulta de uma constatação que se impõe na experiência clínica, a propósito do estatuto do significante. A saber, que o significante não se reduz, como fazia crer a ciência linguística, ao puro elemento diferencial de um sistema simbólico, destituído de propriedade intrínseca, do qual o sujeito emerge como um referente vazio. O significante na verdade comporta uma positividade, um efeito de gozo que se manifesta em sua ressonância sobre o corpo do ser falante e que, por ressoar, o afeta no nível não somente formal, mas predominantemente pulsional da linguagem. Diante disso, para operar sobre esse efeito ressonante do significante sobre o corpo do falasser, a interpretação deve ir além do que seria a revelação de uma significação sexual oculta na fala do sujeito. A interpretação comporta algo que se aproxima da dimensão corporal, no sentido em que interpretar implica aliar a palavra ao gesto que indica, para o falasser, o núcleo pulsional do sintoma como condição traumática de gozo que habita o seu sofrimento.
É bem verdade que a percepção de que a interpretação não se reduz à explicação de um sentido oculto já se encontrava formulada por Freud (1910/2018), em seu escrito “Sobre a psicanálise selvagem”, de 1910. Assim como Espinosa (2009) afirmava, na proposição 7 do livro 4 de sua Ética, que não se pode modificar um estado afetivo pela simples compreensão mental de sua representação, Freud há muito nos advertia que a elucidação intelectual do sentido recalcado teria, sobre o sintoma, o mesmo efeito que a leitura de um cardápio para um sujeito faminto. Visto que a ação do recalque diz respeito à representação de uma satisfação que o analisante se recusa a admitir, só é possível conduzir o sujeito ao conteúdo recalcado pela via de um outro afeto determinado pelo vínculo do amor transferencial, que lhe permite substituir sua paixão original de ignorância pelo desejo de saber.
A ideia, portanto, é que se a interpretação comporta uma dimensão de sentido, relativa à verdade sexual do desejo inconsciente, para operar ela precisa se aliar à promessa de satisfação semântica promovida pelo amor transferencial. É nesse sentido que Jacques-Alain Miller (2009, p. 68) se permite dizer que para dar início à experiência psicanalítica, necessitamos criar o Inconsciente por meio da dimensão semântica da interpretação. Ela se estabelece a partir da dialética transferencial que permite ao analisante decifrar, por meio da construção da narrativa de sua história individual, o porquê de seu sintoma aparentemente absurdo, assim como dos seus sonhos e atos falhos, cuja razão de ser se desvela nas significações ocultas que o determinaram, sem que ele soubesse, e apontam para a verdade do inconsciente como algo distinto das representações identificatórias em que ele antes se reconhecia como “Eu sou”.
Mas isso não basta. A experiência psicanalítica não se resolve pela via das múltiplas interpretações de sentido, nem tampouco se conclui através da desestabilização transferencial das identificações que conduz à produção da verdade do desejo inconsciente como falta-a-ser. Embora a criação do inconsciente transferencial, pela via da interpretação semântica, seja uma condição essencial para o início de uma psicanálise, ali permanecer significa ficar, como diz Lacan (1967-1968) em seu seminário sobre o Ato, no deixar rolar da análise infinita que deixa intocado o núcleo real do sintoma. Pois o que está em questão – para além da multiplicidade dos sentidos interpretativos e das narrativas que o sujeito constrói, pela dialética da transferência, para tentar desvelar o porquê ou a razão de ser do seu sintoma –, diz respeito à dimensão do real que ali se manifesta como algo que não se dialetiza nem tampouco apresenta porquê ou razão de ser. Sua opacidade revela-se no nível de um circuito pulsional encerrado sobre si mesmo, fechado a toda dialética, o qual diz respeito à incidência contingente, sobre o seu corpo, de uma declaração significante traumática, igualmente desprovida de razão de ser. O real se manifesta nessa palavra sem resolução semântica, que ressoa sobre o corpo do ser falante e da qual ele procura se defender.
Assim sendo, embora, em sua dimensão semântica, a interpretação se coloque como um dizer apofântico, no sentido de um proferimento que revela, para o analisante, a causa do desejo que anima sua enunciação, no momento em que ela toca no ponto do real sem lei, do real sem razão de ser, a revelação do sentido não tem mais pertinência. Diante desse elemento heterogêneo que aponta para um lugar vazio no campo da linguagem, a revelação do sentido não tem valia, diz ainda Jacques-Alain Miller (2009), posto que nenhum predicado convém ao real ao qual essa via conduz. A interpretação somente comporta alguma eficácia sobre esse elemento heterogêneo do sintoma se ela se ligar a uma dimensão distinta do sentido produzido pela linguagem.
Ao lermos, então, um comentário recente de Éric Laurent sobre o tema da interpretação (LAURENT, 2021, p. 171), não podemos deixar de notar como se articulam, em relação a esse vazio central da linguagem, o ultimíssimo Lacan do seminário 24, que propõe fazer ressoar a interpretação no nível corporal de uma jaculatória, ao primeiríssimo Lacan da abertura do seminário 1, que se vale da referência à técnica zen do mestre budista, na qual o discurso cede lugar ao gesto sarcástico de um pontapé para indicar a verdade quando o aluno está a ponto de encontrá-la (LACAN, 1979, p. 9). Mas seja qual for o valor a ser dado a essas periodizações, cumpre notar que o interesse inicial de Lacan pela técnica de intervenção do mestre Zen – ao qual retornará em vários momentos, para aproximá-la finalmente da intepretação por ocasião do seminário 20, em seu comentário sobre o budismo como renúncia ao pensamento (LACAN, 1972-1973/1985, p. 104) 2 -, diz respeito a essa necessidade, que para a psicanálise se impõe, de articular a dimensão do real como sem porquê à assunção subjetiva de seu vazio semântico. Assim como a dimensão do clarão, evocada na técnica Zen – e relida a partir do comentário de Heráclito por Heidegger, em seu escrito sobre o fragmento 50 (HEIDEGGER, 1997, p. 202) –, manifesta-se como condição transcendental que permite ver de súbito o ambiente sem dele fazer parte, o real que se coloca no horizonte da psicanálise é o que permite discernir a singularidade do falasser, sem, contudo, fazer parte dos predicados que o determinam.
Importa, nesse sentido, salientar, conforme nos indicaram Cleyton Andrade e Sérgio de Matos em nossos primeiros encontros, que se a dimensão de vacuidade promovida pela meditação oriental interessa a Lacan, é na medida em que, no lugar de responder a qualquer tipo de demanda sujeito, ela o permite revogar como ilusórias as representações discursivas que ligam os objetos de sua demanda às suas identificações. É nesse exato sentido que o pontapé do mestre Zen, assim como o uivo ou a jaculatória e o impasse semântico do Koan, ali são modos de desfazer essas ilusões das demandas articuladas aos predicados identificatórios, para liberar o si mesmo no próprio nível de sua destituição subjetiva. Nesse ponto se situa o limite que o psicanalista pode colocar na fala virtualmente infinita do paciente, mediante a localização, indicada por Éric Laurent (2021, p. 175), de um “é certo que isso não quer dizer nada” que reduz, no fechamento de seu circuito pulsional, a tagarelice discursiva do significante ao silêncio literal da fórmula escrita.
Mas se o ponto de incidência da interpretação assemântica diz respeito ao que, na fala do sujeito, aponta para o vazio discursivo de uma fórmula sem porquê, isso não nos exime de proceder ao cálculo relativo ao modo – assim como ao momento – de nossa intervenção interpretativa. É como se estivéssemos conduzidos a formular paradoxalmente o porquê desse sem porquê para alcançar o cálculo da interpretação. Do ponto de vista de sua localização discursiva no campo do Outro, Lacan nos ensinava que o sujeito dali recebe sua mensagem invertida, conforme se vê no exemplo clássico citado no seminário 3, em que ao enunciar a alguém “tu és meu mestre”, eu dele recebo a mensagem “tu és meu seu discípulo” (LACAN, 1955-1956/1988, p.306 e 362). Isso, porém, supõe a crença no Outro como lugar de regulação simbólica de uma racionalidade discursiva. O panorama que se abre, todavia, com a dimensão de ressonância corporal do Outro como instância do real sem regulação simbólica, no último Lacan, nos convoca, no dizer ainda de Éric Laurent, a reformular essa noção para conceber o sem porquê do sintoma como resposta do falasser à mensagem que lhe chega do Outro, de forma invertida (LAURENT, 2021, p. 182), na forma, dessa vez, de uma declaração traumática que se impôs, em algum momento de sua história, de modo arbitrário, carente de regulacao simbólica, sem que ele pudesse entender a sua razão de ser.
O real, portanto, da palavra que fere, que dá título à conferência acima citada de Jacques-Alain Miller, diz assim respeito à incidência traumática de uma declaração significante que afetou o corpo do ser falante e nele continua a ressoar, sem lhe dar meios de articular uma pergunta sobre o seu porquê. É o que notamos no caso de uma jovem que se achava preferida por seu pai, a quem tentava sempre agradar, mas que no dia em que, ainda menina, se enfeitou minuciosamente para visitá-lo no bar em que trabalhava, surpreendeu-se com a reação enfurecida com que ele a expulsou brutalmente, contrariado, sem que ela o soubesse, com os olhares indecorosos dirigidos a ela pelos frequentadores do seu comércio. Ao sintoma de tensão muscular recorrente produzido pela ressonância corporal do brado “saia daqui” que ela escutou perplexa, sem entender o porquê, sua analista, que me trouxe o caso em supervisão, respondeu, numa longa risada, olhando para seu vestido, com a jaculatória “mas que bela saia”, gerando, através da irresistível gargalhada produzida por esse equívoco sonoro, um efeito de alívio sobre sua inibição.
Se existe, nesse sentido, uma eficácia que pode ser atribuída a esse novo uso do significante que tem o poder de apagar o sintoma, como afirma Éric Laurent, em sua leitura do seminário 21, ela deve ser atribuída a uma contra-ressonância desse modo de intervenção. Uma psicanálise nessa perspectiva consiste, conforme elucida Jacques-Alain Miller, em isolar a palavra que fere no discurso do ser falante, dando lugar à interpretação como uma operação que, por sua vez, permite dissolver corporalmente essa declaração, por meio de outra ressonância igualmente contingente, em catexias colaterais menos traumáticas, conforme assinalou Gilson Iannini. O exemplo clássico, já citado várias vezes nos seminários preparatórios anteriores, é a intervenção por meio da qual Lacan busca transformar a terrível incidência da palavra Gestapo, de quem sua paciente recebia visitas diárias na madrugada, durante a ocupação francesa, na carícia de um geste-à-peau, dando assim a esse significante um destino diferente daquele que a deixava extremamente angustiada.3 A interpretação é nesse sentido comparável, para retomar outra feliz metáfora de Jacques-Alain Miller (2002), ao ato de enviar antimísseis de linguagem para pulverizar os enunciados que fazem o sujeito sofrer.
O exemplo clínico trazido por Andréa Eulálio, de sua paciente Bia, ilustra claramente em que sentido a palavra do analista pode operar como antimíssil. O interessante no seu caso, que recebeu, da parte de seu pediatra, o diagnóstico de hiperatividade, é que Bia se apresenta numa espécie de profusão pulsional permanente. É uma menina de oito anos que se agita, que mastiga os cabelos, que apresenta acessos constantes de raiva, num comportamento insolente e desafiador de quem não tolera limites e somente faz o que lhe dá prazer. Chegando ao analista, ela fala ininterruptamente, mas sem querer significar algo com seu dizer. Para encontrar algum lugar de endereçamento, sua analista tenta se introduzir como avatar de uma jogadora de Roblox, personagem de um jogo eletrônico a que Bia estava acostumada com o qual uma narrativa se estabelece. Não passa desapercebido à analista que Bia se serve comicamente, durante o jogo, de uma prosódia carregada com o sotaque nordestino do pai, ao qual ela se refere com ironia e desfaçatez, respondendo a analista responde com o mesmo sotaque, passando em seguida a uma lalação em francês para finalmente chegar a uma fala em inglês, sempre acompanhada de sua analista.
Ao final, então, de uma sessão, encerrada por sua analista com a locução “see you later”, Bia indaga, com visível excitação, “você está no cio?”, pergunta que a analista lhe devolve ao mesmo tempo em que a encaminha até a porta e, no momento em que ela faz menção de voltar, a empurra com firmeza para fora da sala. O interessante é que, depois disso, a agitação de Bia parece se dissipar, ela chega surpreendentemente tranquila e uma série de perguntas começa a se articular. Ao se referir a uma figura e dizer “olha, é um gay”, ela agora prossegue numa explanação semântica de que “um gay é um homem que gosta de outro homem”, e daí por diante. A fala deixa de ser pura vociferação dirigida ao “sem-razão” do pai, e passa, então, a articular um significante com outro significante, na tentativa de produzir sentidos discursivos sobre o enigma da sexualidade que antes lhe agitava o corpo.
Importante enfatizar que o “see you later”, que ela escuta como “cio later”, só funciona como um antimíssil na medida em que sua analista o faz ressoar com o gesto de contenção no corpo de sua paciente. Outro exemplo paradigmático desse efeito antimíssil da palavra se encontra testemunhado por Caetano Veloso (1997), em sua autobiografia, na passagem Narciso em férias, do livro Verdade tropical, convertida num excelente filme documentário pelo cineasta Renato Terra (2020). O sem-razão, no caso de Caetano, não é o personagem do pai débil que privava Bia de articular uma significação sobre o sexual. O sem-razão para ele se apresenta na ferocidade do Outro sem lei, representado pela figura obscena do estado ditatorial que separa o artista de seus laços sociais e o pune por algo que ele efetivamente não fez: ter cantado o hino nacional em versão paródica. Em resposta à exposição do corpo aos caprichos cruéis de uma autoridade sem lei, o jovem cantor se empenha a construir um registro de sentido comparável a um verdadeiro sistema delirante, em que cada acontecimento aleatório era interpretado como signo do que lhe iria acontecer. Sua realidade se insere num jogo de adivinhação, conforme ele mesmo nos diz em seu relato autobiográfico:
Eu tinha desenvolvido um cada vez mais complicado sistema de sinais e de gestos mágicos. E uma monstruosa sensibilidade para interpretar os sinais, aliada a uma não menos monstruosa imaginação para criar os gestos […]. Eu agora percebia que um esquema de números, imagens e perguntas era capaz de me dar acesso ao conhecimento do que estava por vir, se lido com perícia. Assim, no meu esquema, o pior sinal era ver uma barata – o pior gesto (que não fiz até sair dali), masturbar-me. Por outro lado, matar uma barata (ato em princípio quase impossível) significava que eu avançaria na direção da liberdade com sofrimento, enquanto a audição de certas canções assegurava surpreendentes boas novas… (VELOSO, 1997, p. 270-272)
Uma mântica vem suprir, como se percebe, toda uma carência de ordenação semântica. E no final de sua prisão, ao chegar em Salvador, quando ele se vê finalmente liberto, quando ele finalmente pode habitar algum espaço simbolicamente regulado, a ausência pontual de seus familiares provocada pelo incidente na comunicação de sua chegada faz novamente ressoar em seu corpo a ameaça de dissolução que lhe chega do Outro sem lei e se traduz na dolorosa experiência de despersonalização. E é nesse momento que seu pai, ao vê-lo completamente transtornado, faz soar a jaculatória precisa como o antimíssil que atinge a violência do Outro com a violência reguladora de sua lei, devolvendo-lhe um pouco de realidade no brado que restitui ao significante sua possibilidade de ressignificar…
NOTAS
1 Texto escrito a partir do trabalho do Cartel “A interpretação no tempo do falasser”, composto por trabalhos do mais-um Antônio Teixeira (relator) e dos demais integrantes: Andrea Eulálio, Cleyton Andrade, Fernanda Costa, Gilson Iannini, Graciela Bessa, Lúcia Grossi, Renata Dinardi e Sérgio de Mattos. Trabalho apresentado na segunda Terceira preparatória da 25ª Jornada da EBP-MG.
2 Além das passagens acima mencionadas, Sérgio de Mattos localiza a referência à técnica do mestre no seminário 3 (As psicoses), assim como nos seminários 12 (Problemas cruciais da psicanálise), 13 (O objeto da psicanálise) e 14 (A lógica da fantasia).
3 Referência ao documentário Rende-vous avec Lacan. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=9Xvfb8mpp18>. Acesso em: agosto. 2021
REFERÊNCIAS
ESPINOSA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
FREUD, S. “A psicanálise “selvagem” (1910). In Observações sobre um caso de neurose obsessiva [“O homem dos ratos”], uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos (1909-1910). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
HEIDEGGER, M. “Logos (Heráclito, fragmento 50)”. In: Ensaios e conferências. Petrópolis: Editora Vozes, 1997.
LACAN, J. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979.
LACAN, J. O seminário, livro 3: As psicoses. (1955-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. Le séminaire livre 20 : Encore. (1972-1973). Paris : Seuil, 1973.
LACAN, J. Le séminaire, livre XV : L’Acte psychanalytique. 1967/1968. Seminário inédito.
LAURENT, É. “A interpretação: da verdade ao acontecimento”. Curinga, Belo Horizonte, EBP-MG, n. 50. 2021.
MILLER, J.-A. “A palavra que fere”. Opção lacaniana, São Paulo, EBP, n. 56/57 2009.
MILLER, J.-A. « Vous avez dit bizarre ». Quarto, Bruxelles : Agalma, n. 78, 2003.
TERRA, R. Narciso em férias. Documentário, 104 min. 2020. Disponível em: <https://globoplay.globo.com/v/8836951/>.
VELOSO, C. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das letra, 1997.
A - M - O - R - T - E – S/C - E – R

A - M - O - R - T - E – S/C - E – R
por Mariana Ruas Rodrigues
Amortecer o assALTO do gozo
No corpo
Instante da letra
No hiato
Na hiância
Na ânsia
Da língua
Que ressoa
Ser
Ter sido
Tecido
De sujeito
No equívoco
A morte
Do saber
Sobre o amor
Acontece.
Miller em O escrito na fala tece:
“Tudo reside no fato de que significante e significado não são verso/reverso. Ao contrário, há tanto mais significância quando há menos semantismo. Há tanto mais significância quanto mais o significante funciona como uma letra, separado do seu valor de significação. Esse mais-de-significante é o que podemos chamar de efeito poético.”
Miller, J-A. O escrito na fala. Opção Lacaniana online nova série, São Paulo, n. 8, p.1-23, Jul. 2012.
Acontecimento do dizer no cartel, um clarão?!
Acontecimento do dizer no cartel, um clarão?!
por Marisa Renna de Vitta
“…o que será que será, que está na natureza…será que será…por que todos os sinos irão repicar…”
Chico Buarque de Holanda
Neste escrito, trabalho o acontecimento do dizer a partir da lógica de funcionamento do Cartel, orientada pelo segundo ensino de Lacan, que marca a dimensão real do inconsciente. Para Laurent, “o significante novo permite elevar o dizer à altura de um acontecimento, como o sintoma”. (LAURENT, 2020, p.184)
“notem que eu não disse a fala, eu disse o dizer, nem toda fala é um dizer, se o fosse, toda fala seria um acontecimento, o que não é o caso, pois, se o fosse, falas vãs não seriam faladas. Um dizer é da ordem do acontecimento. (LACAN, 1973-1974, sessão de 18/12/1973)
E por que o Cartel é um espaço propício ao acontecimento do dizer? Diferentemente do grupo, que visa um trabalho em torno de uma causa comum e igual para todos, constituído pelo discurso do mestre fenômenos imaginários, no Cartel os sujeitos trabalham a partir da sua radical diferença, a partir da solidão de cada um, não sem alguns outros, e não sem um Outro – o Outro da linguagem. É o dizer, com o brilho dos significantes da história de cada sujeito, que ilumina e bordeia a elaboração e a produção em torno do tema de pesquisa, sempre único e singular. No Cartel, ao falarmos, algo da surpresa acontece! Ali onde não há nada previsto, esperado ou sabido, acontece um dizer! O vivo da enunciação faz ressonância a partir da letra de cada um, abrindo um campo novo de elaborações… Perguntas nascem e fertilizam-se, as subjetividades marcam a vivacidade do trabalho com seu ponto inédito. O efeito desse encontro com o inédito produz uma quebra no discurso que faz surgir uma opacidade! É com essa dimensão opaca no saber que nos reinventamos e avançamos… Miller no capítulo Causalidade e Liberdade, ao trabalhar a técnica analítica, pontua:
“quando nos afastamos deste registro de operabilidade para apontar para uma dimensão que não é, que é apresentada como opaca – embora a técnica seja apresentada como clara – o mistério sobre a psicanálise tem chances de ‘desentrañarse’.( MILLER, 2019, p.12-13)
Desentrañarse, em espanhol, significa desentranhar, fazer sair das entranhas, do ventre materno, parir. O que pode ser desentranhado numa experiência de Cartel, na literalidade da palavra parir, deixar de ser par, para ir…separar-se de seja lá o que for para ir a algum outro e novo lugar. Para então decolar…, segundo Lacan, em seu texto D’ecolage³.
Este trabalho implica suportar um impossível, ali onde nenhuma luz de sentido se inscreve mais. É nesse encontro opaco com o impossível que um ponto da significação se solta, bem como o gozo contido nela. O vazio como efeito dessa experiência, é o lugar que o trabalho de Cartel ajuda bordear, bordear o que acontece ali numa nova superfície – a superfície de um novo significante em que o gozo pode ser vivido como o gozo feminino, um gozo não-todo, distinto do gozo fálico.
Laurent distingue a visada do uso do significante na poesia da visada do uso do significante a partir da ética da psicanálise:
“O uso que o psicanalista faz da metáfora e da metonímia não tem, entretanto, a mesma visada pela qual o poeta visa o efeito estético, que libera um mais de gozar que lhe é próprio. O psicanalista, como no chiste, deve visar à ética, isto é, ao gozo. (LAURENT, 2020, p. 184)
E acrescenta: “Esse novo uso nessa nova visada define bem então o significante em um uso novo, e até a possibilidade de produção de um significante novo, sob medida”. (LAURENT, 2020, p. 184)
Tal possibilidade se fundamenta na mudança de perspectiva trazida por Lacan: “Por que não se inventaria um significante novo? Nossos significantes são sempre recebidos. Um significante que, como o Real, não teria nenhuma espécie de sentido. A gente não sabe, isso talvez fosse fecundo. Talvez fosse fecundo, talvez isso fosse um meio, um meio, de todo modo, de sideração’”. (LACAN apud LAURENT, 2020, p.184)
Podemos pensar em significantes novos como significantes de sideração? Com efeitos de natureza sideral? Lacan no Seminário 18, a partir da escrita chinesa, afirma:
“…o significante pulula por toda parte na natureza. Eu lhes falei de estrelas, de constelações, para ser mais exato, já que existem estrelas e estrelas. Durante séculos aliás o céu foi isso – o primeiro traço, aquele que ficava no alto, que era importante”. (LACAN, 1971/2009, p.48)
Podemos pensar o acontecimento do dizer como um significante novo que marca o corpo, assim como estrelas marcam o céu? Em sua dimensão misteriosa e real de sua matéria, de sua temporalidade e espaço. Que emite uma luz, um brilho, um clarão?!
Revisão de Português: Cecília Lana
BIBLIOGRAFIA:
LACAN, J., Decolage o despegue de Escuela. Disponível em: CLIQUE AQUI.
LACAN, J. (1971) O Seminário, Livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
LACAN, J. (1973-1974). O Seminário, Livro XXI: Os não tolos erram. Lição de 18 de dezembro de 1973. Inédito.
LACAN, J. (1976-1977) Le séminaire, livre XXIV: L‘insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Séances 19 avril et 17 mai 1977. Inédit.
LAURENT, É. “A Interpretação: da verdade ao acontecimento”. In: Curinga, no. 50, 2020, p 168-188.
MILLER, J-A. “Causalidad e Libertad”. In: Causa y consentimiento. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. 1a. ed. –Buenos Aires: Paidós, 2019.
Interpretação acontecimento: a jaculação
Interpretação acontecimento: a jaculação
por Maria Aparecida Farage
A tese de Miller do “inconsciente intérprete” situa a passagem, no ensino de Lacan, entre a interpretação que dá sentido e seu avesso. A interpretação é o próprio inconsciente, ela faz valer que o inconsciente se escreve de rupturas, surgindo como revelação. A tese do “inconsciente intérprete” faz apelo à interpretação ao avesso, onde se trata de obter um franqueamento do limite, fora do fluxo semântico, não se tratando mais da busca pela verdade do sujeito. A passagem de uma à outra se situa “no laço entre a interpretação heterogênea e o vazio inaugural”[1]. A escansão é trazida de volta, isolando o significante mestre recalcado, colocando em jogo a extração dos S1 depositados na lalíngua. A interpretação ao avesso visa o corte que produz o sujeito desabonado do inconsciente.
Na interpretação ao avesso, o corte expõe a ilusão do Sujeito Suposto Saber, uma vez que se desfaz da referência à história, mantendo-se sobre o “estava escrito”, registrado no corpo. Vemos que, em um primeiro plano, está a leitura em ato do inconsciente. Assim, só a substância fônica, como tal, é que permitirá o contato com o passado. O que era a história do sujeito se torna efeito de um equívoco, enquanto ruptura, fazendo valer a hiância entre a palavra e o escrito.
Seguindo com Miller, localizamos aqui uma substituição, feita por Lacan, da palavra pela apalavra estabelecendo algo como um monólogo, isto é, na apalavra o sujeito não terá “o querer dizer” ao Outro. A apalavra surge quando a palavra, dominada pela pulsão, assegura o gozo e não a comunicação. Vemos aí a fala surgindo a partir do real. O tema do monólogo é caro a Lacan nos anos 1970 e a apalavra abre um campo de interrogação: “lalíngua serve primeiro ao diálogo? Nada é menos certo”.[2] A jaculação de Lacan Yad’lun, se distingue por toda diferença que existe entre escrita e fala, introduz outra vertente singular da interpretação: a interpretação como jaculação. Yad’lun designa um novo uso do significante, todo só, o Um sozinho, produzindo um vazio de significação, que visa reduzir a conexão entre sentido e gozo. Da lógica do Yad’lun se desprende primeiro a equivocidade de lalíngua e, depois, a topologia poética.
Eric Laurent assinala que, para dar conta da força do texto poético, a palavra jaculação foi usada por Lacan, por várias vezes, começando pela abertura do Seminário I. Ainda no Seminário XX: “O que há de melhor no budismo é o Zen, e o Zen consiste nisto: em te responder com um mugido, meu amiguinho”[3]. Lacan, também, fez do “Fort-Da” freudiano uma jaculação. Entretanto, é no Seminário XII que encontramos uma referência central ao mestre Zen, que nos autoriza a vincular a jaculação com a interpretação: “Cada um sabe que um exercício zen tem certa relação, ainda que não se saiba bem o que isso quer dizer, com a realização subjetiva de um vazio”.[4] Lacan se serve da língua japonesa para fazer valer a relação de uma escritura-referente ao vazio. Assim, interpretar seria fazer o laço entre a produção do vazio subjetivo e a jaculação, indicando que tem sempre um impossível de dizer, não sem se valer do fechamento do nó em torno do acontecimento de corpo
A interpretação opera por ressonância, pondo em função o corpo e a linguagem: é preciso que haja no significante algo que ressoe. A vociferação é o nome dado por Miller à voz que retorna na jaculação, que acrescenta valor à fala, dando peso à voz. Para Lacan, a voz é aquilo que, no significante, não participa do efeito de significação, ela ultrapassa a divisão do enunciado e da enunciação, vai além do sentido, compartilhando a voz e o gozo. Assim, a voz faz um retorno, marcando o novo uso do significante.
A interpretação como jaculação apresenta duas dimensões: a moterialidade da linguagem, entendida como a junção entre o som e o sentido, e o vazio, operando por ressonância com a moterialidade, um modo de tocar simbolicamente o real. Ecos de uma operação que produz acontecimento de corpo.
[1] Laurent, E. (2020). A interpretação: da verdade ao acontecimento. Curinga, n. 50. Belo Horizonte, EBP-MG, jul./dez., p.174.
[2] Lacan, J. (1985 [1972/1973]) O seminário, livro XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.189.
[3] Lacan, J. (1985 [1972/1973]) O seminário, livro XX: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,p.157.
[4] Lacan, J. [1964/1965] O seminário, livro XII: problemas cruciais para a psicanálise, lição de 27.02.1965. Inédito.
O Inconsciente e o Acontecimento de Corpo
O Inconsciente e o Acontecimento de Corpo
Entrevista com Éric Laurent para a Revista La Cause du Désir [1]

O inconsciente: real, simbólico ou imaginário?
La Cause du désir – Lacan, em um de seus seminários, diz: “vocês acreditam que o inconsciente, é Simbólico. Mas, não! Vocês se enganam, é Imaginário ou Real”[2]. Como o Sr. entende isso?
Éric Laurent – É um giro fundamental no ensino de Lacan. Ele colocou várias vezes em destaque as dimensões e consistências desse ternário, que ele promoveu desde o início de seu ensino RSI. Primeiramente ele explorou muito o Imaginário, antes mesmo de isolar essas três categorias, e em seguida, o Simbólico. Mas, mesmo que ele desse prioridade a uma consistência particular, não perdia de vista o ternário. Por exemplo, quando ele desenvolve a função da negação, sua importância simbólica pelo aspecto criacionista do Simbólico ligado a um “não” fundamental que permite fazer existir o vazio, Lacan mantém uma referência ao Real.[3] Temos também o testemunho das dificuldades de Jean Hyppolite, que, como hegeliano, era sensível ao trabalho da negação, ao mecanismo da Aufhebung, mas teve problemas com a montagem das três consistências no esquema dos dois espelhos.[4] Lacan já mantinha essa articulação.
Depois de ter explorado as voltas e reviravoltas do Simbólico, no momento da crise, da fratura que separa no pensamento francês o momento estruturalista do momento pós-estruturalista, Lacan se serviu de seu ternário para situar os impasses da estrutura segundo Lévi-Strauss. A partir do Seminário XI, ele mostrou como seu sujeito não é mais somente abordável pelos tropos da significação, a metáfora e a metonímia. Ele dá cada vez mais lugar à lógica da alienação e da separação, que colocam em jogo o objeto a, misto de imaginário e de real. Isso foi levado até as últimas consequências na declaração de igualdade das consistências, como indica Jacques-Alain Miller.[5] Ele retomará tudo a partir do Seminário XXII[6] no qual nenhuma consistência domina a outra. Essa igualdade das consistências dá um peso formidável a essa báscula que teve lugar no Seminário “A lógica da Fantasia”, onde Lacan diz que o lugar do Simbólico não é o espírito, como alguns acreditam, mas o corpo.[7] A partir daí, temos um remanejamento em série.
Consequências clínicas
La Cause du désir – O Sr. poderia nos dar alguns exemplos?
Éric Laurent – Partamos da indicação dada por J.-A. Miller desde 2005, ano em que publica o Seminário O Sinthoma[8]: retomar todo o ensino de Lacan a partir desse Seminário. As diferentes etapas foram as seguintes: 2005, a publicação do Seminário, com o comentário que o acompanha, em seguida o Parlamento de Montpellier[9] em 2011, em que J.-A. Miller propôs comentar um certo número de frases extraídas do Seminário O Sinthoma, e que indicavam uma transformação da clínica a partir daquele momento. Em seguida, em 2014, nós temos a conferência preparatória ao Congresso da AMP de 2016. Em cada uma dessas etapas, J.-A. Miller explora as reformulações clínicas sucessivas. Este ano, no quadro dos Estudos Lacanianos, tentei prosseguir com essas pistas[10].
Em Montpellier, a fecundidade da igualdade das consistências, da não dominação do simbólico, surpreendeu. O primeiro desenvolvimento clínico incidiu sobre as psicoses, em particular as psicoses esclarecidas por Joyce. “Joyce o Sintoma”[11], faz aparecer a grande diversidade das psicoses “não desencadeadas”, e introduz um novo modo de foraclusão, a foraclusão “de fato”. Ali se separa o modelo de carência do pai para Joyce e a foraclusão em ação no caso de Lucia, a filha de Joyce. Sua ruptura com Beckett provocará um verdadeiro desencadeamento. No mais, Lacan encontra um fenômeno particular, capturável a partir de seu nó, o famoso, “o corpo que está pronto para se esvair”[12] e que se mantém por uma consistência suplementar, o Ego, como instrumento para mantê-lo junto. O termo Ego é utilizado aí numa acepção nova, uma espécie de corpo separado de sua forma, um misto de consistências. Assim, a partir desse Seminário, no campo das psicoses, essa clínica permite sair da oposição demasiadamente mecânica entre foraclusão e não-foraclusão. Abre-se então um continente para explorar que vai mais além da “psicose ordinária”. Trata-se, em cada caso, de tentar encontrar uma montagem dos nós que dê conta de um sujeito, mais além de sua inserção num pequeno quadrado ou numa classe clínica.
Para as neuroses, a conferência de Montpellier fez valer que a declaração de igualdade das consistências permitia situar a histeria sobre numa abordagem não menos renovada. A histeria é abordada a partir do “sintoma de sintoma”, não mais como o impacto primeiro da linguagem sobre o corpo, que era o sintoma histérico segundo Freud, mas como mediação pelo Imaginário. O sintoma de sintoma é sintoma em segundo grau, emprestado de um outro corpo. A histeria se inscreve em uma série em que não é mais o sintoma histérico que é o primeiro corte do corpo. Há primeiro a posição feminina, que se define em reduzir seu ser ao ser sinthoma de um outro corpo. A clínica da histeria encontra-se profundamente remanejada, o que é compatível com a clínica contemporânea da histeria, que não tem muito a ver com a clínica freudiana. Estamos lidando com uma extensão de fenômenos muito maior, que não pode ter como epônimo simplesmente “Dora”.
Para a obsessão, J.-A. Miller coloca em destaque que Lacan situa o obsessivo como aquele que não chega a se desprender do olhar. É portanto o corpo enquanto tomado sob o olhar, na medida em que ele tem uma forma ou não a tem, em relação ao olhar que o domina. O corpo real sob o olhar permite abordar o campo da obsessão, ele também, a partir do corpo e do acontecimento de corpo. O campo da obsessão parecia a priori bem longe das questões do corpo, uma vez que centrado sobre o pensamento. Assim situando a conjunção tão difícil de desfazer do olhar e do corpo real informe, temos um acontecimento de corpo, remanejamento do que é a obsessão. Isso permite pensar a divisão subjetiva como divisão a partir do Imaginário e do Real.
Histeria e corpo falante
La Cause du désir – Na perspectiva freudiana da histeria havia no primeiro plano a somatização enquanto fenômeno da mesma ordem que o Simbólico, já que ele se deixava decifrar unicamente pelos significantes, sendo feito e desfeito por eles. Com esse remanejamento, o que se torna o fenômeno somático na histeria?
Éric Laurent – Lacan se distanciou de muitas maneiras em relação a isso. Ele pôde reformular a dita “complacência somática” como uma recusa da feminilidade corporal.[13] Nessa recusa baseada na ideia de um corpo que não há, o corpo-histérico se dava através da identificação a um outro corpo, aquele dito da “outra mulher”, que tinha como função fazer suplência a esse corpo que não há. Simplesmente, esse corpo da outra mulher, é a outra mulher como tendo uma relação com A mulher. Frequentemente, queremos reduzir a outra mulher a uma igual, à rival. Mas Madame K. é A mulher, razão pela qual Lacan diz, depois de longas linhas de raciocínio lógico: a histérica é aquela que, do ponto de vista feminino, faz existir o universal da mulher, que se empenha em fazer existir esse universal. A posição feminina como tal é o contrário, desfazer-se do universal feminino para fazer existir a sua singularidade. Esta consiste em se fazer o sintoma a ser decifrado para um outro corpo; especialmente homem, mas este pode ser mulher. Esse tipo de determinação não é simplesmente a encarnação “ser o falo para”.[14] Lacan em um momento, sustentou que a passagem da posição histérica à posição feminina se fazia pela travessia do ser fálico, na dialética do ser e do ter. Além disso, o que se constitui, é o sintoma a ser decifrado de um corpo particular, que depende de uma fantasia particular. Lacan pôde dizer que Deus intervém de modo constante nos casos humanos[15], a prova disso é que, cada vez que uma mulher intervém na vida de um homem, isso não é a partir do universal. Os deuses são do Real, não do Simbólico. A respeito disso, crer não é uma função simbólica, é uma função real, um acontecimento de corpo. Isso toca o ponto fundamental sobre todo o desenvolvimento simbólico. Os fatos da histeria se veem deslocados por todo esse conjunto.
La Cause du désir – O que o Sr. diria dessa passagem em que Lacan diz: “Eu sou um histérico perfeito”[16], porque não há o bastão “Nome-do-pai”?
Éric Laurent – Uma histérica perfeita é ainda uma histérica? Uma histeria perfeita torna-se a posição feminina? Seria isso uma maneira de dizer: eu tento reconstruir toda a psicanálise desde a posição feminina sem crer em A mulher?
La Cause du désir – O exemplo que Lacan dá é estranho, pois ele volta a dizer que ele está sem cessar em relação com o inconsciente, todo o tempo no circuito moebiano.
Éric Laurent – Ele está todo o tempo do lado do inconsciente, quer dizer que ele diz: eu não quero mais de “moi”. Assim como no obsessivo, é uma resistência do eu (moi), e a histérica é marcada pela fraqueza de seu eu (moi) como diziam os pós-freudianos. Lacan se esforça para não ter mais eu (moi). Ele se esforçou no estilo de vida dele, em ser ao mesmo tempo pulsão e ausência de eu (moi), em contato constante com seu inconsciente entendido como falasser. Não é mais “Eu, a verdade, eu falo”, mas “eu, o falasser, eu falo”. Lacan fez de sua ética de vida alguma coisa assim.
O corpo falante, é o corpo da civilização
La Cause du désir – Questão um pouco mais política. Recentemente, em Lacan Cotidiano, o Sr. disse: “o corpo falante, é o corpo da civilização”[17]. E em PIPOL 7: “a radicalização, é a radicalização do gozo”[18]. O Sr. poderia desdobrar essas duas proposições?
Éric Laurent – Em PIPOL 7 foi evocada a polissemia do termo “radicalização” que suplantou uma série de outros termos. Tentei apreender isso, não em termos de ideais, como um de nossos colegas o sublinhava – queda dos ideais, traumatismo sobre o ideal, humilhação – mas muito mais como radicalização do empuxo-ao-gozo: a radicalização como um dos nomes do gozo, e nesse sentido, é o que faz vibrar o corpo. No processo chamado “civilização”, que tem suas mentiras, seus limites, suas inconsistências, o corpo submetido a um certo tipo de regulação é submetido a um resto, um mal-estar superegóico, mas ele pode se segurar. Na radicalização, da toxicomania ao bacanal fatal, nessa maneira de se fazer explodir com uma bomba, passamos para fora da civilização, num desenlaçamento, feito de gozo.
La Cause du désir – Fora do laço social, fora do discurso.
Éric Laurent – Marcamos no discurso um lugar de impossível e nos identificamos a esse ponto.
La Cause du désir – Em Lacan Cotidiano, o Sr, retoma a fórmula desdobrada por J.-A. Miller em seu texto “Intuições Milanesas” – “O inconsciente é a política”. O Sr. teria a ideia de que o inconsciente do psicanalista representa no entanto um limite à radicalização?
Éric Laurent – “O inconsciente é a política”, quer dizer que o inconsciente é o que se inscreve numa falha irredutível. A política mostra uma falha e o que chamamos “democracia” é apenas o nome do significante da unidade perdida. Nessa falha se enxerta a banda de Moebius, o inconsciente, que introduz nesse ponto aí alguma coisa que não é o ideal, que não é irredutível à polarização Ideal do eu/eu ideal.
La Cause du désir – A expressão “o corpo falante”[19], que J.-A. Miller coloca em destaque para todos nós como objetivo de pesquisa, é díspare em relação à ideia de um corpo decifrável, de sintomas corporais vindo no lugar das mensagens do inconsciente.
Éric Laurent – O corpo falante foi durante muito tempo o corpo histérico. É um corpo que falava perfeitamente a linguagem do sonho, portanto que dava sentido a tudo. Aqui, trata-se do corpo falante enquanto centrado num fora de sentido, quando ele é o limite ao “dar sentido”, à decifração. J.-A. Miller chegou a dizer que o acontecimento de corpo é também o que se chama os dados imediatos da consciência na fenomenologia, quer dizer, o que precede a toda consciência possível, e incluída a consciência “consciência de si mesma”, ou os objetos da consciência. A consciência é consciência de alguma coisa, ela não é consciência do ponto de vista do dado imediato que é irredutível. É o que nós chamamos o fora-de-sentido. Então o corpo falante é o corpo falante no momento em que ele escapa ao sentido e que no entanto, é traumatismo do sistema da linguagem sobre ele.
Novo imaginário?
La Cause du désir – É mais simples esclarecer a expressão “corpo falante” a partir da dimensão do Real, do fora de sentido, do fora de discurso. É mais complicado articular o “corpo falante’ tendo como consistência o Imaginário. Estaria do lado dos dados imediatos da percepção, da consciência, das primeiras marcas perceptivas? A questão é a seguinte: o que é esse novo Imaginário?
Éric Laurent – É ao mesmo tempo um novo Imaginário, e isso vai ao encontro ao desenvolvimento constante em Lacan dos paradoxos do Imaginário. Em todo caso, do que é preciso se desfazer fundamentalmente, se o corpo é uma superfície de inscrição, é da crença de que há sobre o corpo alguma coisa que vem se inscrever como um primeiro traço. Foi a tentativa de nosso colega Serge Leclaire que imaginarizava isso com as cosquinhas da mãe, as primeiras carícias; ele pensava dessa forma um pré-significante que viria se inscrever sobre o corpo, delimitando as bordas, e que se tornariam depois significantes. E não é isso! O modo de inscrição é um buraco. A marca real é um buraco que faz com que os significantes se tornem inesquecíveis para aqueles que os receberam. É alguma coisa que se inscreve como um buraco, um branco fundamental, como um impossível de se recordar. Lacan diz: o inconsciente não é as luzes diminuídas…o inconsciente é o branco no qual eu mesmo (moi-même) eu (je) não posso me lembrar, jogando sobre o equívoco de chamar/lembrar (rappel), o que se permite de extrair de um buraco e a lembrança (chamado) como memória. Trata-se aí de falta de recordação, contrariamente ao início de seu ensino, quando ele enunciava: “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado”.[20]
La Cause du désir – No texto que acaba de ser publicado, “Religiões e Real”, Lacan diz: não é Faça-se a luz (Fiat lux), mas Faça-se o buraco (Fiat trou)[21]. É no fundo a fórmula da relação entre o Simbólico e o Imaginário.
Éric Laurent – É a relação ao corpo enquanto ele obedece a uma lógica de saco e de corda, quer dizer a reta infinita, que é o exemplo do buraco que inclui ao mesmo tempo o buraco e uma borda. Há de início o saco, e em seguida vem a forma, que é um inchaço. E o que a forma dissimula, é que o saco é fundado sobre um buraco. Aí, toda a montagem que propõe Lacan, e que tem por vocação remanejar a estética transcendental kantiana, coloca um outro estatuto do sujeito, uma outra topologia do sujeito, que desarranja a intuição. É também um abandono claro de tudo o que carrega ainda a psicologia ligada a Aristóteles: a alma é a forma do corpo, as faculdades cognitivas, etc. Muitas coisas que se conta nas neurociências são reformulações de Aristóteles, retomadas nas metáforas congeladas do tipo: a experiência mostra que se encontram enfim tais inscrições no corpo de tais sistemas, onde encontramos velhas faculdades aristotélicas recodificadas. O que Lacan quer, é romper de vez com a representação aristotélica e com o remanejamento de Aristóteles ligado à nova concepção do Simbólico desenvolvido por Kant.
O analista faz parte do corpo falante
La Cause du désir – Na perspectiva do corpo falante, o que acontece com a posição de Lacan sobre o analista como fazendo parte do conceito de inconsciente?
Éric Laurent – É bastante claro que sua posição é mantida. Ele a reformula ao mesmo tempo em Televisão[22] e em seu trabalho sobre Joyce. Fazer parte do sistema do inconsciente, não é, se posso dizer, fazer parte dele passivamente; é ativamente “descaritar”, re-enviar o sujeito à questão: qual é seu desejo, fora do sistema dos bens? O analista descarita situando-se justamente para além desse ponto, para que o sujeito possa, de sua posição, torná-lo causa de seu desejo, quer dizer, colocar a si mesmo a questão de seu desejo. No Seminário A Identificação, Lacan colocará em série a mística muçulmana sufi com a mística católica[23] para colocar a questão do desejo enquanto ele se situa mais além de todo o sistema dos bens.
La Cause du désir – Lacan sempre teve a ideia de que o desejo estava mais além do sistema de bens.
Éric Laurent – Sim, mas isso vai muito longe quando concebemos o místico como ideia do desejo. No entanto, Lacan não dizia para transformar os analisantes em místicos. O desejo como mais além do sistema de bens pode se encarnar fora de uma relação com um deus. Isso se encarna na versão que dá Lacan da psicanálise como discurso. A psicanálise como modo de vida, ou a questão da psicanálise mais além do terapêutico, ou o remanejamento do terapêutico visando a um mais além, é nesse duplo movimento que se situa a psicanálise.
Sua posição deve ser suficientemente estranha no sistema da repartição dos bens. A posição do terapeuta como tal consiste em querer se reduzir a um eu quero seu bem. Isso se enuncia no sistema cliente-prestador de serviço como: nós estamos a seu serviço, nós temos uma técnica a seu serviço, é você que define o objetivo, o bem tal como você mesmo o concebe, e nós temos a técnica para responder a tudo – TCC, etc. O cognitivismo contemporâneo é diferente daquele de vinte anos atrás; ele foi remanejado pelo individualismo democrático, por esse nós estamos a seu serviço e nós trazemos para você o seu bem. Tudo isso pode ser muito inquietante, como percebemos por exemplo na Inglaterra onde um programa de saúde pública foi elaborado, no qual, para o bem dos desempregados que são depressivos vão tratá-los com algumas sessões de psicoterapia e assim eles reencontrarão o caminho do trabalho. É formidável, é um cuidado! Ora, agora as pessoas marcham nas ruas, denunciando a ausência de ética na vontade de reduzir o desemprego à doença mental.
O paradoxo do sistema de bens é que, ao querer o bem, o definimos, e então só pode surgir um não é ético querer se limitar a esse objetivo que entra num utilitarismo global. O psicanalista como aquele que descarita se esforça para sair do sistema de bens tal como ele é definido em um dado momento numa civilização. Não é no absoluto, é um judô com os discursos estabelecidos. Não é a mesma coisa tentar praticar esse jogo no século XXI como em 1950, não fazemos do mesmo jeito. Aqueles que acreditam que podemos fazer como em 1950 ou em 1970 se enganam. É preciso ser resolutamente contemporâneo, senão não conseguimos. É preciso continuar a fazer o judô com o sistema de bens, tal como ele introduz seu discurso no mundo no qual estamos, e permitir assim que surja alguma coisa como o desejo enquanto que ele escapa da captura dos discursos estabelecidos.
La Cause du désir – Isso seria a passagem do axioma do Seminário A ética da psicanálise[24], “não ceder de seu desejo”, tipo Antígona, e eventualmente sufi, à posição “ser tolo do Real”.
Éric Laurent – O discurso psicanalítico consiste em propor essa solução: o psicanalista faz parte do sistema do inconsciente, o que introduz um sistema mais suportável. A posição não é a transgressão mais além, de ser Antígona ou mística. É preciso conhecer o debate Antígona-Creonte, mas isso se joga de outro modo nas análises do século XXI.
La Cause du désir – Se Antígona escolhesse uma posição moderna do tipo sobrevivente no lugar da posição heroica, que é também uma posição sacrificial, o que isso daria?
Éric Laurent – É o questionamento de Gérard Wajcman. Ele extraiu em uma conversação com François Régnault essa passagem em que Lacan diz que Antígona é uma mártir, e que o momento dos mártires é o incêndio nos discursos da civilização. É um incêndio, uma epidemia. Com efeito, isso vinha depois de uma longa reflexão sobre as epidemias de mártires no islã, e isso lembrava também que a cristandade conheceu também esse tipo de epidemia.
La Cause du désir – Absolutamente, ela até mesmo a inventou.
Éric Laurent – A cristandade conheceu uma epidemia de mártires. Peter Brown escreveu coisas muito interessantes sobre a maneira como isso se produziu, em que tipo de discurso veio essa fascinação pelo martírio.[25] Foi um verdadeiro incêndio, e foi preciso que a Igreja passasse do estatuto de perseguida àquele de agente de Estado ao fim de três séculos para que a idade dos mártires e dos eremitas do deserto ficasse distante.
La Cause du désir – Para que haja um mártir, é preciso que haja uma cena. Se não há circo romano, não há mártir. Sem o circo Internet, não há mais martírio.
Éric Laurent – Por exemplo, qual era a cena dos tigres do Ilam Tamoul? Não era a cena da Internet. Eles fizeram um pequeno avanço sobre o Hezbollah; eles fizeram 80 atentados suicidas entre 1987 e 2009-2010. Ora, os Tigres eram hindus e católicos.
La Cause du désir – Há também a imolação dos tibetanos.
É.L. – Ela é mais rara, mas sempre presente. Há também a imolação budista e birmanesa.
La Cause du désir – Mas em todo caso, é preciso alguém que assista.
Éric Laurent – Há sempre alguém que vê. Como se desfazer disso? É a questão que nos propõe o Seminário XXIII.
Tradução: Cristiana Pittella
Revisão: Márcia Bandeira e Ana Helena Souza
Revisão notas: Márcia Mezêncio
[1] Entretien avec Éric Laurent, Línconscient et i’événement de corps, La Cause Du Désir, Revue de Psychanalyse 91, Navarin Éditeur, 2015; agradecemos Éric Laurent a gentileza de nos autorizar a tradução e publicação em Ecos, Boletim da 25a Jornada EBP-MG.
[2] Lacan J. O Seminário, livro 23: O Sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 98.
[3] Cf. Lacan J. “Introdução ao comentário de Jean Hyppolite sobre a ‘Verneinung’ de Freud” (1954). In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.370-382.
[4] Cf. Lacan J. O Seminário, livro 1: Os Escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1983, p. 147.
[5] Cf. Miller, J.-A. “O inconsciente e o corpo falante”, Apresentação do tema do X Congresso da AMP, no Rio, em 2016. In: Scilicet: O corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: EBP, 2016, p. 19-32.
[6] Cf. Lacan J. Le Seminaire, livre XXII: “R.S.I”, 1974-1975. Inédito.
[7] Cf. Lacan J. Le Séminaire, Livre XIV: “La logique du Fantasme”, lição de 10 de maio 1967. Inédito.
[8] Cf. Lacan J. O Seminário, livro 23, O Sinthoma. Op. cit.
[9] Conferência pronunciada por Jacques-Alain Miller ao segundo Parlamento de Uforca que ocorreu em 21 e 22 de maio 2011 em Montepellier com o titulo “Em torno do Seminário XXIII”.
[10] Seminário de Éric Laurent, “Falar lalíngua do corpo”, realizado na École de La Cause Freudienne no quadro dos Estudos lacanianos, 2014-2015.
[11] Lacan, J. “Joyce o Sintoma” (1975). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 2003, p. 560-566.
[12] Lacan, J. O Seminário, livro 23: O Sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 145.
[13] Lacan J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992, p. 88.
[14] Lacan J. “A significação do falo” (1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.700.
[15] Lacan J. “Conférence à Yale University”. Scilicet, n. 6/7, 1976, p.32
[16] Lacan J. Le Séminaire, livre XXIV, “Linsu que sait de l’une-bévue S’aile à mourre”, leçon du 14 Décembre 1976, Ornicar?, n. 12/13, décembre 1977, p. 7-10.
[17] Laurent, É. “‘L’inconscient c’est la politique’, aujourd’hui”, Lacan Quotidien, Paris, n. 518, 2015. Disponível em: http://www.lacanquotidien.fr/blog/wp-content/uploads/2015/06/LQ-518.pdf.
[18] Intervenção de Éric Laurent em PIPOL 7, Victime!, 3o Congresso europeu de psicanálise, 4 e 5 de julho 2015 em Bruxelas.
[19] J.-A. Miller. “O inconsciente e o corpo falante”, op.cit.
[20] Lacan J. “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” (1953). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.260.
[21] Lacan J. “Religiões e Real”. Opção Lacaniana, São Paulo, n. 73, 2016, p.14.
[22] Lacan J. “Televisão” (1974). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p. 518
[23] Cf. Lacan J. Le Seminaire, Livre IX: “L’identification”, 1961-1962. Inédito.
[24] Lacan J. O Seminário, livro 7: A ética da psicanális (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
[25] Brown P. Le culte des saints: son essor et sa fonction dans la chretienté latine. Paris: CNRS éditions, 2012.
Lalíngua, letra e acontecimento de corpo
Interpretação no tempo do falasser > Lalíngua
Lalíngua, letra e acontecimento de corpo
por Paula Pimenta
A concepção de “acontecimento de corpo” surge, na obra de Lacan, à época do Seminário 23, “O Sinthoma” (1975-76/2007), contemporâneo de seu escrito “Joyce, o Sintoma” (1975/2003). Mas vemos que essa nova articulação entre corpo e gozo veio se constituindo desde o Seminário 20 (1972-73/1985). A partir dessa época, portanto, tem-se uma virada de orientação quanto ao status da interpretação analítica, que visaria esse gozo fora do sentido que causou marcas no sujeito.
Em uma intervenção no congresso da New Lacanian School, Miller (exposto por Barreto, 2018) define o acontecimento de corpo como
a percussão de lalíngua no corpo, o próprio encontro material, para o parlêtre, do significante com o corpo. A um só tempo, o acontecimento de corpo – o choque puro da linguagem sobre o corpo – seria um fato inaugural e constituinte do parlêtre e, também, algo a se reiterar sem cessar ao longo da existência, um acontecimento permanente. (Barreto, 2018, p. 39).
Temos, então, a relação estabelecida entre lalíngua e acontecimento de corpo. Para que este ocorra, todavia, é preciso a inscrição da letra. Lalíngua são os estilhaços do choque da linguagem com o corpo, que comporta gozo, mas não promove um acontecimento de corpo por não demarcar uma borda que contorna um vazio (a zona erógena freudiana), incorrendo na possibilidade de extração do objeto pulsional que localiza o gozo. O que faz isso é a letra, a marca no corpo de um dos estilhaços de lalíngua. (Álvarez, 2020).
Lalíngua é o enxame (“essaim”, homófono a S1) de significantes. Não de palavras, mas de S1s, significantes sozinhos, que não se acoplam a nenhum outro em uma estrutura de linguagem que promova sentido. O gozo de lalíngua refere-se à materialidade do som, à substância sonora em que se produzem as homofonias, assonâncias e onomatopeias.
Lalíngua institui o Um sozinho, sem o Outro, não estando a serviço da comunicação. Trata-se de um gozo anterior ao Outro, o gozo do “parlêtre”. O “sujeito” se constituirá somente em um segundo tempo lógico, pelo banho de linguagem que vem do campo do Outro. O enxame de S1s de lalíngua não produz sentido e não promove um acontecimento. É preciso que algum desses S1s se diferencie e seja alçado ao status de uma marca, que é a letra.
Se lalíngua é o impacto, a entrada do gozo no corpo, a letra implica uma localização desse gozo – que em lalíngua estava deslocalizado. Lalíngua é o início do gozo, enquanto a letra é sua marca, o recorte de um modo singular de gozo. A letra é marca de gozo e modo de gozo. É esse justamente o passo que permitirá a passagem de lalíngua à linguagem: o recorte de um S1 sintomático como o que escreve primitivamente, a letra que marca o início da repetição, se articulará em seguida ao S2 no que Lacan chama a elucubração de saber sobre lalíngua. (Álvarez, 2020, p. 85).
É uma contingência que funda um dos S1s do enxame como letra, por meio do encontro com o Outro.
Tem-se aqui o acontecimento de corpo que se produz no troumatismo: a inscrição da letra e sua borda, que instaura a compulsão à repetição do sintoma e a escritura primitiva do sintoma. Essa inscrição, essa marca que se repete, é um acontecimento de corpo. (Alvarez, 2020, p. 93).
Há uma sincronia entre a inscrição da letra e o troumatismo. À medida em que ela se escreve, também se inscreve o furo. A letra fura o gozo de lalangue, esvaziando-o ao extrair o S1 do conjunto indiferenciado de uns, deixando sua marca como cicatriz.
Assim, o Um pode fazer dois, articulando-se com um S2 e compondo uma cadeia. É a partir desse S1 da letra que a linguagem pode advir, concatenando um S2 que se encadeia e promove sentido, compondo a estrutura da linguagem (Miller, 1998).
O acontecimento de corpo é, portanto, marca no corpo da inscrição desse gozo localizado que é a letra. “A repetição do sintoma é esse algo do que acabo de dizer que primitivamente é escritura” (Lacan, Sem. 22, aula de 21.1.75). Esse Um que se escreve, por sua função de letra, constitui o necessário do sintoma.
O troumatismo é trauma por ser uma irrupção de gozo que produz um furo no real. Esse furo é a não-relação sexual e se produz como uma borda simbólica que a letra demarca; trata-se da borda do furo no saber, no S2. A letra é a borda mesma; ela “escreve o zero e o Um na contingência do trauma, ou seja, escreve o furo e a borda no mesmo ato”. (Álvarez, 2020, p. 93).
E como se apresenta lalíngua na clínica? Com os autistas, vemos o parlêtre habitado por lalíngua, sem poder realizar uma elucubração de saber (Álvarez, 2020, p. 67), sofrendo, como efeito, do que Laurent (2014) ressaltou como sendo o “ruído da língua”. O autista encontra-se embaraçado na passagem de lalíngua à letra, para conseguir fazer marca e borda (daí a orientação de constituir uma neoborda, para localizar o gozo). Nas psicoses, vemos o sujeito represado entre a letra e a linguagem. Um S1 se destacou dentre os uns-entre-outros de lalíngua, mas não se enganchou em um S2 de maneira a promover a inserção em um discurso. Na clínica da neurose, onde há um discurso constituído, uma ordenação da linguagem por meio do significante do Nome-do-Pai, vemos o sujeito tendo de se haver com esse fora do sentido que é lalíngua, recorrendo à fantasia para recobrir o gozo e o furo, marcas do troumatismo da letra. Afinal, com o gozo fora do sentido de lalíngua e sua marca de letra e de acontecimento de corpo, só nos resta saber-fazer. É o que nos mostram os relatos de passe.
As formulações deste texto se apoiaram na mais recente produção teórica de Patricio Álvarez Bayón (2020), o convidado internacional de nossa jornada. Mais conhecido por sua inserção no campo do autismo, Álvarez, entretanto, orientado por Laurent, faz uma fina leitura das sutilezas da clínica de lalíngua em sua correlação com a letra e com o acontecimento de corpo, não apenas no autismo. Certamente, teremos uma boa conversa no próximo novembro!
ÁLVAREZ BAYÓN, Patricio. El autismo, entre lalengua y la letra. Olivos, AR: Grama, 2020.
BARRETO, Fábio P. Fenômeno e acontecimento de corpo na clínica da estabilização psicótica. Cythère, Rev. de la Red Univ. Amer., v. 1, ago. 2018, p. 34-43. Disponível em: http://revistacythere.com/wp-content/uploads/2018/08/CYTHERE-1.-PAES-BARRETO-Fen%C3%B4meno-e-acontecimento-de-corpo.pdf. Acesso em: 13 mai. 2021.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, Jacques. Joyce, o Sintoma (1975). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 560-566.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 22: R.S.I. (1974-1975). [Inédito]
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. (1975-1976) Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
LAURENT, Éric. A batalha do autismo: da clínica à política. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
MILLER, Jacques-Alain. Los signos del goce. Buenos Aires: Paidós, 1998. (Curso originalmente ministrado em 1986-1987).
Lalangue: o uso do lapso
Interpretação no tempo do falasser > Lalíngua
Lalangue: o uso do lapso[1]
por Alessandra Thomaz Rocha
O surgimento de lalangue ocorre a Lacan precisamente na primeira lição do seminário O saber do psicanalista (1971-1972), de 04.11.71[2], seminário no qual seus alunos, inspirados pela leitura de Georges Bataille, levantavam a bandeira do não saber. Lacan refere-se à Bataille e a suas conferências sobre o não saber, dizendo que a ideia de não saber não teria vindo de outra parte senão dali, para, em seguida, afirmar que “há o não saber”.[3] (Lacan, 1971-1972, p.09-10)[4] É então a partir do não saber de Bataille, que ele designa como sendo um achado, que escolherá partir para introduzir o que ele chamou de uma “confusão definitiva sobre um assunto delicado, aquele que é o ponto em questão na psicanálise, aquele a que eu chamei fronteira sensível entre o saber e a verdade”. (Lacan, 2011, p. 18) Será a partir deste acontecimento inconsciente que ele irá extrair o termo que mais tarde adquire toda sua importância e será elevado à dignidade de um conceito. Ao abordar o que seria seu segundo achado – que tem relação com seu discurso “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, (Idem, p.18) refere-se ao encontro do que ele acreditou terem sido os dois melhores sujeitos que poderiam trabalhar na sua linha, de modo a fiar seu fio. Neste momento lhe ocorre o lapso. Ao invés de dizer Vocabulário da Psicanálise, ele diz Vocabulário de Filosofia. O primeiro foi elaborado por Laplanche[5], seu antigo aluno, e o segundo é um dicionário de filosofia de autoria de Lalande. Lalangue é a condensação dos significantes Laplanche, Lalande e a língua – La langue –, revelando-se uma metáfora que ele irá adotar, a partir de então, como um significante mestre, um S1, representante da linguagem do inconsciente, esse não saber gozoso, lapso, que se apresenta como sendo a própria fronteira entre a verdade e o saber.
“Alíngua (Lalangue), como escrevo de agora em diante, em uma única palavra, é outra coisa”. (Lacan, 2011. p.19) Entretanto, afirma que não se trata de dizer que o inconsciente se estrutura como lalangue, mas como uma linguagem. Esclarece que lalangue nada tem a ver com o dicionário, mas tem tudo a ver com o inconsciente. O que dá passagem ao inconsciente tem a ver, de início, com a gramática e tudo a ver com a repetição. A gramática e a repetição são uma vertente na função de lalangue, uma vez que remetem a uma lógica do funcionamento do inconsciente. A gramática é da ordem do escrito e a repetição da ordem do dito.
Quanto à Laplanche, seu ex-aluno à época do Seminário 19, era seu opositor. Afirmava que o postulado lacaniano “o inconsciente está estruturado como uma linguagem” poderia ser invertido, uma vez que o inconsciente seria a condição da linguagem. Nada mais equivocado, já que sua oposição revela, mais além do desconhecimento do ensino daquele a quem acompanhara tão de perto, que se tratava de uma resistência àquele que foi para ele um mestre. Desta forma, Lacan transforma seu lapso em resposta a seus opositores, mas também em um conceito que marca seu estilo, sua interpretação pessoal e original da psicanálise. Lalangue é o significante inventado, produto do inconsciente de Lacan, que marca a impossibilidade da inversão de seu postulado ao longo de seu ensino, apontando para a ascendência da linguagem e do gozo que ela veicula sobre o corpo. O que Lacan irá desenvolver, incorporar, em seu seminário Encore (1975), não por acaso, já que faz homofonia com un corps, um corpo.
Bibliografia
Lacan, J. Estou falando com as paredes: conversas na Capela de Sainte-Anne. RJ: Zahar, 2011.
Lacan, J. Le savoir Du psychanalyste. Entretiens de Sainte-Anne. (1971-1972) Fotocopia. Inédito. Sem data.
Lacan, J. O seminário, livro 19: …ou pior. (1971-1972) RJ: Zahar, 2012.
Lacan, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. (1972-1973) RJ: Jorge Zahar Editor, 1985.
[1] Esta nota foi extraída do texto intitulado: “Interpretação acontecimento: Lalangue e o não saber”, que apresentado no Núcleo de pesquisa em Psicanálise com crianças do IPSMMG, em 05.05.21. Inédito.
[2] Esta aula e duas outras do Seminário O saber do Psicanalista, foram publicadas no livro de Lacan Estou falando com as paredes, RJ: Zahar, 2011. Este livro é apresentado por Jacques-Alain Miller como uma digressão ao Seminário 19 …ou pior. Miller desmembrou este seminário, publicando 3 lições em Estou falando com as paredes e as outras 4 lições foram diluídas ao longo do seminário 19 …ou pior, na ordem cronológica em que elas foram dadas.
[3] Na tradução de Estou falando com as paredes, (p. 17 da versão brasileira), aparece a frase modificada “Trata-se do não saber”, em francês: “Il s’agit du non savoir”(p. 16 da versão francesa). Mas no seminário inédito aparece:
Il y a le non Savoir” (p.9-10). Esta afirmação se articula com a justificativa de Lacan da lógica aristotélica sobre a diferença entre a verdade e o saber: “Ora, se a verdade não é o saber, é que ela é o não saber. Lógica aristotélica: tudo que não é preto é o não preto.” (Lacan, 2011, p.17 versão Bras.) Esta precisão me parece importante, já que é exatamente neste seminário que Lacan desenvolve a lógica do Um e que estaria ligada a esse não saber como verdade, ou seja, não há relação sexual, mas Yad’lun e “Há o não saber”.
[4] Versão inédita do Seminário Le savoir du psychanalyste. p.09-10.
[5] Lacan se refere ao Vocabulário de psicanálise de Laplanche e Pontalis. SP: Martins Fontes, 1991.








“…o que será que será, que está na natureza…será que será…por que todos os sinos irão repicar…”


