Month: outubro 2021

Comentário sobre a entrevista de Marie-Hélène Brousse à Lacan Web Télévision

Breve comentário sobre a entrevista de Marie-Hélène Brousse à Lacan Web Télévision


por Rodrigo Almeida

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim no papel.
Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Recorto dois fragmentos da entrevista de Marie-Hélène Brousse, em uma entrevista à TV Lacan no YouTube, que orientam a clínica psicanalítica atual.

“O que a subjetividade da época efetua é o corte entre o corpo e o falante. […] A perspectiva da psicanálise é precisamente a de manter ligado o corpo com o falante” (LES MODES, 2021, [s. p.]).

Brousse é precisa em dizer que estamos num período de mutação dos semblantes, como se a dimensão do real se impusesse, não havendo mais tanta diferença entre a palavra e o real – como se passasse a vigorar uma emancipação do real biológico sobre o real da palavra. Ela também afirma que o que a subjetividade de nossa época efetua é um corte entre o corpo e o falante.

Para a psicanálise, essa divisão entre corpo e palavra não funciona. O discurso da ciência contradiz a dimensão significante ao tratar o órgão como real, deixando de fora a singularidade do processo de sexuação de cada sujeito. Um desafio se impõe à psicanálise: cabe ao psicanalista acolher os falasseres em suas identidades considerando aquilo que do gozo lhes ressoa no corpo, apostando nas invenções e amarrações de cada um.

No segundo recorte, ela aponta um direcionamento, uma bússola para a clínica atual e aborda o fenômeno trans e as modificações corporais.

Alguém que tenha feito uma operação biológica em seu corpo, que terá transformado seu corpo: será que ele terá menos vontade de falar disso?  Será que ele sofrerá menos da relação que passará ou não passará por seu fantasma? Será que ele sofrerá menos do laço social? Não! O que leva uma pessoa à análise é um sofrimento, seja ele qual for. (LES MODES, 2021, [s. p.]).

Se Miller propõe toda uma discussão a partir de sua belíssima entrevista com Éric Marty sobre o fenômeno trans e as teorias de gênero, parece possível incluí-lo como mais um dos efeitos do contemporâneo sobre o corpo dos falasseres. Diante da feminização do mundo e da pluralização das identidades, cabe ainda recolher suas consequências – e a cada um se posicionar, considerando a ética e a política da psicanálise, questionando sempre as soluções oferecidas pela ciência para o tratamento do gozo.

 

Referências bibliográficas

LES MODES du sex//Marie-Helène Brousse. France: [s. n.], 23 maio 2021. Publicado pelo canal Lacan Web Television. 1 vídeo (21 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kM2Ogcq3CaU&t=667s. Acesso em: 24 maio 2021.

MILLER, Jacques-Alain; MARTY, Éric. Entrevisa sobre Le sexe des modernes. Correio Express, São Paulo, 21 mar. 2021. Disponível em:  https://www.ebp.org.br/correio_express/2021/04/14/entrevista-sobre-le-sexe-des-modernes/. Acesso em: 23 mar. 2021.

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Resenha: ROY, Daniel. Quatro perspectivas sobre a diferença sexual.

Resenha

 

ROY, Daniel. Quatro perspectivas sobre a diferença sexual.


por Cristina Pinelli

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Daniel Roy produziu essa intervenção como um saber frente às desordens da clínica sensíveis no campo da infância que testemunham a deriva de nossas convicções, os semblantes que nos mantêm, os gozos que nos convêm e, produz linhas de falha e zonas de fratura. A diferença sexual é o nome de uma dessas zonas privilegiadas. Ele propõe quatro perspectivas sobre a “diferença sexual”, extraídas das obras de Freud e de Lacan, nos referindo à leitura de Jacques-Alain Miller. [1]

A primeira perspectiva é aquela indicada por Freud em 1910.[2] O fator sexual, tal como ele o introduz no discurso universal, é de fato uma novidade que não pode ser “universalmente admitida”. A posição que o sujeito, desde a infância, assume em relação a esse elemento de novidade, de singularidade, o germe de sua diferença absoluta. Nenhum código permite ao sujeito decifrar o que lhe acontece e, portanto, ele não sabe por que aquilo lhe acontece, nem o que quer dizer. Contudo, está a seu cargo e é diante dessa falha que vão se construir as teorias sexuais infantis e se edificar as diversas identificações da infância. A segunda perspectiva abre-se em 1923[3] e continua em 1925, [4] introduzindo um órgão muito particular, o falo, que, nos termos de Freud, exerce uma “primazia” sobre a vida sexual infantil para os dois sexos, cuja eficácia se sustenta em ser possivelmente perdido. A terceira perspectiva foi elaborada por Lacan entre 1956 e 1959 [5] e em seu texto de 1958 “A significação do falo”, no qual propõe o falo como terceiro termo, que vai ser o eixo em torno do qual pode se operar uma repartição dialética entre homem e mulher. Falo do qual se pode dizer que há uma relação do sujeito ao falo que se estabelece sem considerar a diferença anatômica entre os sexos, falo como significante, significante do desejo do Outro.

Mas se esse falo assume possivelmente toda a responsabilidade do que há de sexual na diferença e, se para responder “a esse falo, o que a criança tem não vale mais do que o que ela não tem”, [6] Roy se interroga sobre como fica a pulsão sexual, seus objetos e os acontecimentos do corpo que deixam traços de seu impacto, coisas que escapam ao Outro e que estão no fundamento da solidão e da diferença. Seriam esses os elementos que fazem reiterar o gozo do Um, conforme questão levantada nesse eixo?

A quarta perspectiva toma forma no ensino de Lacan dos anos 1970-1972 no curso dos quais ele reformula as coordenadas da inscrição de cada ser falante no “discurso sexual”. Lacan parte de uma constatação que não precisamos esperar pela fase fálica para distinguir uma menina de um menino; há uma diferença, não é “sexual”, pois se houvesse diferença sexual, ela estabeleceria com efeito uma relação entre os dois sexos, uma relação de diferença. Essa dita “diferença” responde ao fato real de que “na idade adulta é próprio do destino de seres falantes distribuírem-se entre homens e mulheres” [7]. Distribuição de puro semblante que é o que define o homem em sua relação à mulher e vice-versa, eles não têm outra existência que significante como os sites de encontro exploram tão bem.

Há uma forte tese de Lacan de que no encontro dos corpos sexuados o real do gozo sexual é o falo [8] o “obstáculo” feito à relação entre os sexos e, portanto, “à bipolaridade sexual” [9]. Ele não é o nome do gozo sexual na relação de um sexo a outro, mas de preferência o index do gozo sexual enquanto ele se interpõe entre um sexo e o outro.

A família aparece, assim, tanto como o lugar onde se transmite a falha do sexual, como o lugar em que ela se mascara, sem a mediação do Édipo, mas não sem a castração, aqui castração do gozo. Esta falha adquire nome de “diferença sexual” –, correndo o risco de todos os mal-entendidos e erros. Nós acolhemos como tal as ficções da criança que nos fala, ficções que carregam a marca da diferença absoluta que elas contêm, sempre sexual.

 

 

NOTAS:

[1] MILLER, J. A. Os seis paradigmas do gozo. (2000). In: Opção Lacaniana. n. 26/27. São Paulo: Ed, Eolia, 2000, pp. 87-105.

[2] FREUD, S. (2016 [1901-1905]). Obras completas, volume 6: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”). Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 14.

[3] FREUD, S. (2011 [1923-1925]). A organização genital infantil. In: Obras completas, volume 16: O eu o id, e outros textos. Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 168.

[4] FREUD, S. (2011 [1923-1925]). Algumas consequências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos. In: Obras completas, volume 16: O eu o id, e outros textos. Trad. Paulo Cezar Souza. São Paulo: Cia das Letras, p. 283.

[5] LACAN, J. (1995 [1956-57]) O Seminário, livro 4: a relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor;
LACAN, J. (1999 [1957-58]) O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
LACAN, J. (2013 [1958-1959]) O Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[6] LACAN, J. (1998). A significação do falo. In: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 701.

[7] LACAN, J. (2012 [1971-1972]) O Seminário, livro 19: …ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.30.

[8] LACAN, J. (2009 [1971]) O Seminário, livro 18: De um discurso que não seja do semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p.30.

[9] Ibid, p. 33

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Resenha: SANTIAGO, Jésus. (2021). Despertar ou fraturar a natureza interpretativa do inconsciente

Resenha

 

SANTIAGO, Jésus. (2021). Despertar ou fraturar a natureza interpretativa do inconsciente. In: Brochura Jornada de Cartéis. Belo Horizonte: EBP-MG, 2021.


por Virgínia Carvalho

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

O texto apresentado por Jésus Santiago na recente Jornada de Cartéis nos traz uma rica pontuação sobre “a clínica do despertar”, que conversa muito bem com o tema da “interpretação no tempo do falasser” – terceiro eixo da nossa 25ª Jornada.

Para Santiago (2021), a ideia de que “não se desperta jamais”, presente no último ensino de Lacan, indica que “o sujeito está sempre imerso no inconsciente” (p.106). Entretanto, “há algo na prática analítica que coincide com o esforço que vai contra a tendência hipnótica natural de todo discurso que remete ao inconsciente” (p.106). Trata-se da interpretação que se constitui como “uma contranatureza do inconsciente” (p.106). Nesse sentido, “mesmo que se avalie o despertar como um impossível, a interpretação, por sua vez, mira esse despertar” (p.106), o que Santiago (2021) demarca como um paradoxo clínico.

Com Lacan, distingue duas vertentes da interpretação na clínica do despertar: a “selvagem”, que é a que faz o próprio sonho, já que como “sentido incoerente”, ele “fabula para revestir o que se articula nele como enunciação” (p.106) e a “ponderada” [raisonné, em francês]. “Ao substituir a primeira, a segunda faz aparecer a falha que o enunciado denota” (Santiago, 2021, p.106).

A “interpretação ponderada” não visa à eternidade de sentido como faz a decifração. Diferente disso, “a leitura do relato do sonho por parte do analista precisa buscar circunscrever aquilo que, no inconsciente, está para além do sentido, aquilo que viabiliza uma experiência do inconsciente orientada para o real” (p.107).

A “interpretação ponderada” é “uma frase reconstituída, que permite captar a falha em que a enunciação, e não mais o sentido, deixa entrever o que fracassa e vacila no encontro com o real” (p.107). Por essa perspectiva, “o que falha é, também, o desejo que se apreende nesse vazio da significação” (p.107).

Santiago (2021) conclui seu texto com a ideia freudiana de que “o despertar exige o ato analítico que almeja constituir-se como contranatureza, ou seja, fraturar a natureza interpretativa do inconsciente” (p.107). Essa elaboração lança luz à questão indicada no Argumento dessa Jornada sobre “Como operar nessa dupla face da interpretação?”

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Resenha : SOLANO-SUÁREZ, Esthela. De l´évenément à l´avénement.

Resenha

 

SOLANO-SUÁREZ, Esthela. De l´évenément à l´avénement. In: La Cause du Desir. Paris, no. 100, 2018, ps. 59-63.


por Renata Mendonça

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

A psicanálise estabeleceu um ponto fundamental: temos um corpo não somos um corpo. Ele se constrói, não está posto de imediato.  Sua escrita é única, feita a cada vez e, como se constrói um corpo passa diretamente pela construção de um sintoma, os modos de gozo e pela lógica fálica.

Neste texto, Esthela Solano-Suárez apresenta-nos,  em seu testemunho,  a sua construção de corpo, sua infância, a busca pelo saber, um laço com o Outro materno que oferece a ela a religião e a devoção como saída, um modo de gozo e uma resposta ao seu ser, que se sustenta até sua análise com Lacan.

Na adolescência, em que o encontro com o sexo se faz presente, em que o sujeito vive os embaraços deste encontro e a falha na fantasia, ela encontra o amor e se separa da devoção religiosa fazendo seu percurso pelo saber acadêmico. Esse percurso passa pela psicanálise, por tornar-se uma psicanalista, leitora de Freud, numa devoção ao saber e ao sentido. Ao ter alguns embaraços na própria clínica ela encontra com o texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” de Lacan. A leitura deste texto faz com que ela procure Lacan e continue sua formação e análise.

Ela o encontra na década de 70, época em que o Seminário 23 estava sendo ministrado e isso não foi sem consequências. Em seu testemunho relata o percurso de uma desconstrução de corpo no qual Lacan sustenta o fora de sentido para que ocorra uma nova escrita de corpo em que o gozo feminino possa ter lugar, bem como o fora de sentido e os embaraços da infância. O nó construído até aquele momento passa a se desfazer e assim se constrói um novo corpo, sendo uma mulher. Ela consente, então, com o impossível da relação sexual. Com o impossível do A Mulher.

“A operação de Lacan consistiu em opor uma recusa categórica na estratégia neurótica de fascínio, ruptura dos semblantes, desarticulação do Um unificante para o cessar categórico da falação, do bla blá blá, e por uma redução do gozo fálico que a análise operou, fazendo, assim, cessar os embrolhos do sentido. Isso não foi possível senão pelo secar da via de uma verdade para abrir aquela do Real.” (SOLANO-SUÁREZ, p.63)

Esse trabalho só foi possível com a “operação de Lacan, esvaziando o campo da linguagem das significações para manejar a letra fora do sentido. Uma operação que visava o acompanhamento do Real do sintoma do gozo irredutível, fora de sentido e sem lei” (SOLANO-SUÁREZ, p. 63). Esthela pôde, a partir deste trabalho, encontrar o seu lugar de uma mulher e construir um sinthoma.

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Resenha: BÉRAUD, Anne. La morsure.

Resenha

 

BÉRAUD, Anne. La morsure. In: Quarto 123, La réson du rêve, nov. 2019.


por Mônica Campos Silva

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

A partir deste testemunho de passe é possível localizar como o acontecimento de corpo fixa a marca determinante do sintoma. É com o percurso da análise que será consentido nomear este evento e suas declinações. Anne Béraud parte de que o sonho para Lacan tem a ver com o real: “O umbigo é um estigma que se resume a uma cicatriz, a um lugar do corpo que dá um nó e que esse nó é pontuável, não mais no seu próprio lugar claro, pois aí há o mesmo deslocamento que está ligada à função e campo da fala.”

Anne narra um evento, aos dez anos de idade, quando a mãe lhe enuncia: “Fazer amor é a coisa mais maravilhosa do mundo”. Tal dito remete o sujeito a uma promessa de gozo infinito e de amor que faz sintoma como imperativo de gozo ilimitado se encarnando em uma demanda devorante impossível. Ante a essa experiência o sujeito consiste um muro, ponto de devastação, entre ela e a mãe, marcado por uma inacessibilidade à última. Aliado a esse fato, Anne acrescenta o eco de uma frase do pai – “suba naquilo, você verá Montmartre” – algo que inscreve a questão sexual como promessa ligada ao objeto olhar, convocando seu olhar na perspectiva de um ideal.

Todavia, é a partir da revelação de que a mãe a deixara sozinha aos quatro meses para ir ver uma amiga, esquecendo-a bebê que há um ressoar do acontecimento traumático precoce que tinha feito a cama de seu sintoma. Este dizer, segundo Anne, produziu um acontecimento de corpo. Em análise, confrontada com o horror de saber, consente com a interpretação do analista sobre o seu ódio e o endereçamento deste, tendo como efeito o esclarecimento de que a devastação que imputava à mãe é de estrutura, “o muro da culpabilidade entre mãe e filha desaparece, a crença nos ideais cai e o gozo em andamento cede. Uma vez percebido o ódio que dava consistência à A mulher, a solidão de minha feminilidade se torna possível.”

A esse relato acrescenta três sonhos:

O primeiro sonho a desperta para a sua relação à infinitude mortífera do gozo. “Estou em um barco com minha mãe em um rio selvagem. Eu caio na água que está cheia de crocodilos. Um crocodilo me morde na barriga. Em pé no barco, minha mãe me olha em silêncio. Eu sinto e vejo meu sangue esguichar em um fluxo hemorrágico. Sei que vou morrer.” Assim, o olhar opaco e cego da mãe, no sonho, sofre uma mudança, “a minha mãe me olha e me vê. É um olhar do qual eu não espero nada. Ela não pode fazer nada por mim. O objeto oral aparece sob a forma da devoração. O crocodilo é meu ainda”.

O segundo sonho. “Eu ando na beira de um lago com o companheiro. Na lagoa, crocodilos imóveis. Passamos na beira com cuidado”. O sujeito anota que, desta vez, há uma borda ao gozo feminino impossível de negar.

O terceiro sonho. “Ouço no sonho a seguinte frase: ‘A cicatriz da mordida do crocodilo é o que resta da perda do objeto perdido para sempre. ’ Ao ouvir a frase, vejo a cicatriz na forma de um ponto de costura. A mordida do crocodilo retorna sob a forma do resto inanalisável: a cicatriz.”

Ao articular o acontecimento que faz marca aos sonhos, Anne conclui que “a mordida poderia se ler no primeiro sonho como morte certa. Eu sou mordida no umbigo, lugar do recalque primordial, nó da vida e da morte, buraco que é o limite da análise. Desta vez é a cicatriz, a garra, o traço, a inscrição, o ponto de costura como uma escritura, no nível do umbigo. Este sonho toca um real: a marca do Outro, de minha entrada na vida, golpe do significante sobre o corpo. Da demanda devorante do início, objeto oral causa do desejo mudou de uso: mordida na vida, ser mordida – apaixonada – e nunca desista. A mordida significante, como chave do sintoma, costurou meu estilo.”

Ao comentar este testemunho, L. Dupont extrai o sonho não como efeito de verdade, mas como índex de uma marca, do traço deixado no corpo do vivente. Nesta medida, aparece um significante novo, mordida, que Anne lê como um nome de sinthome: “mais além, com a costura do umbigo presente no último sonho, se enlaça o corpo e lalangue.”

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Invenção e sinthoma

Invenção e sinthoma[1]


por Charles-Henri Crochet

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Considerar, à maneira de Jacques-Alain Miller, “que uma literatura que especula sobre o sintoma, que o imita, é constituída de forma totalmente diferente daquela que se funda sobre a fantasia”[2] implica, para o corpo falante, consequências diferentes. O século XXI, em especial, dá corpo à segunda solução. Outras vias se engajam numa invenção menos ready-made. Em literatura, Joyce contra Sade, nos dá seu alcance.

O Marquês compõe com sua fantasia. Esse oculus através do qual olha o mundo é uma interpretação do desejo do Outro. Como um escriba, Sade copia ”a épura”[3] de uma “fábula”[4] congelada no cruzamento do desejo com a lei. Testemunha “uma técnica orientada para o gozo sexual”[5], verdadeiro tratado didático sobre a arte da perversão. O sentido pulula, os sentidos se agitam. Isso gira em círculos, ronca, range, até o “grelhado”[6]. Desde as primeiras páginas de Justine ou os males da virtude apreende-se “seu extravagante sistema”.[7] De fato, ele se dedicará a reescrever Justine… incansavelmente. Entregando-se impetuosamente a um trabalho colossal, ele opera uma prodigiosa exploração do imaginário à qual Lacan recorrerá em seu primeiro ensino. Do¨limbo da fantasia, Sade faz “literatura experimental”.[8]

Do lado de Joyce, a malha literária é totalmente outra. Sua invenção desafia a fantasia. A trama tecida por James Joyce não limita seu trabalho de escrita, pois aporta a estrutura mesma do sintoma. O Dublinenses se apoia em sua cidade[9] e na História, “pesadelo do qual tenta despertar”[10], mas para melhor se apoiar na letra.

Desde os primeiros ensaios teóricos de Joyce até Finnegans Wake, Lacan destaca “que uma certa relação com a fala lhe é cada vez mais imposta”[11]. Essas “epifanias”[12], espécies de gemidos, silvos, barulhos estridentes da língua que se faz estranha e estrangeira, o engajam num labor titânico. O herói das letras é então conduzido “a desafiar a gramática”[13]. Ele desarticula as línguas, decompõe a língua inglesa. Quebra a frase, esmaga o significante, e isso até “dissolver a linguagem”, pulverizando assim toda “identidade fonatória”[14]. No leito da letra, Joyce refunda a literatura e engendra assim um estilo a nenhum outro semelhante.

Ensinado pela arte de Joyce, Lacan negociará uma virada epistêmica consequente para a psicanálise. A escrita de Joyce revela a essência mesma do sintoma, segundo sua raiz helênica[15],- nomeado novamente sinthoma por Lacan -, que se torna assim a fabricação de uma medida com a qual se mensura um fim de análise.

Joyce decifra seu enigma à luz não de um porque existencial, mas de um como fazer com o corpo falante. Em Joyce, o significante e o corpo se disjuntam. O imaginário desliza e “só pode cair fora”[16]. Ele será testemunha dessa delitescência[17]. Em seguida a uma surra aplicada por seus pares, ele é despojado de seu envelope. Esse corpo que cai como uma casca ele o enlaçará, para fazê-lo se sustentar no entrelaçamento da escrita.

Sua dimensão criadora é de uma precisão literalmente cirúrgica. Ele inscreve sua arte no ponto mesmo em que a função simbólica falta. Para Joyce, esclarece Miller,

A língua não conseguiu se ordenar no regime do pai, e então ela se pôs a murmurar com ecos. A hipótese de Lacan é que este era o sinthoma de Joyce e que ele soube convertê-lo em produto de sua arte. Ele acolheu seu sintoma para fazer uso dele[18].

Querendo um nome, fazendo uso desse nome, Joyce compensa um pai fundamentalmente carente. Atrelado a um trabalho vital ao pé da letra, ele sustenta seu nome próprio disjunto do pai.

De sua solução sinthomática, Joyce faz um objeto de transmissão que, segundo seu voto, mobiliza os universitários. No apogeu de sua arte, ele encarna esse modo do escrito “a-não-ler”[19]. Em uma leitura pública de Finnegans Wake[20], ele oferece o precioso de seu ser, o agalma de sua arte:

Ouve-se aí, pela primeira vez: a flexibilidade; a audácia; a multiplicidade dos papeis; do grave ao agudo; do cochicho ao grito; [..] A récita de Finnegans Wake lido por Joyce [é] uma chave do mundo futuro[21].

REFERÊNCIAS:

[1]Texto originalmente publicado em Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o Inconsciente no Século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, p. 180-183, 2016. Tradução: Cássia M.R. Guardado. A coordenação da 25ª. Jornada da EBP-MG agradece ao autor, psicanalista, membro da ECF-AMP, pela gentileza da sua autorização para publicação neste Boletim.

[2] .MILLER, J.-A. Extraits de la discussion après l’éxposé de J. Aubert: “Galerie pour um portrait” aux “Conférences du Champ freudien”. Analytica, Paris, n. 4, p. 16, 1977.

[3] LACAN, J. Kant com Sade. In: Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 1998. p. 798.

[4]  LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: JZE. 1988. p. 256.

[5]  LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 243. Na presente edição em português, falta a palavra sexual (N.T.).

[6] LACAN, J. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: JZE, 1992. p. 73.

[7] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 246.

[8] LACAN, J. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise, cit., p. 246.

[9] Cf. AUBERT, J. Introduction Générale. In: JOYCE, J. Oeuvres. Paris: Gallimard, 2006, p. XX-XXVI (Col. Bibl. de la Pléiade, t. 1).

[10] JOYCE, J. Ulysse. In: ____ OEuvres, cit., t.2 p. 38.

[11] LACAN, J. O Seminário. Livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: JZE, 2007, p, 93

[12] JOYCE, J. Stephen le Héros. In: _______. Oeuvres, cit.,t 1, p, 512.

[13] MILLER. J.-A . Extraits de la discussion après l´exposé de J. Aubert: “Galerie pour un portrait” aux     “ Conférences du Champ Freudien”, cit.., p. 16.

[14] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 93.

[15] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 158

[16] LACAN, J. O seminário, livro 23: o sinthoma, cit., p. 147.

[17] JOYCE, J. Portrait de l’artiste en jeune homme. In:____. OEuvres, cit., t. 1, p. 611.

[18] MILLER, J.-A. Curso de orientação lacaniana: Piezas Sueltas (1997-1998). Buenos Aires: Paidós, 2013. cap. 2, p. 38. Lição de 24 de novembro de 2004.

[19] LACAN, J. Posfácio ao seminário 11. In:_____. Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZ, 2003. p. 504.

[20] OGDEN, C. K. James Joyce reads “Anna Livia Plurabelle” from Finnegans Wake (1929). Cambridge: Studio Orthological Society. Disponível em: <https://archive.org/details/JamesJoyceReadsannaLiviaPlurabelleFromFinnegansWake1929. Acesso em: 23 mar. 2015.

[21] SOLLERS, Ph. Comme si le vieil Homére… . Le Nouvel Observateur, Paris, 6 fev. 1982. Disponível em: <www.pileface.com/sollers/spip.php?article744>.Acessoem:23 mar. 2015.

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O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma

O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma


por Helenice de Castro (Mais-Um)

Cartel: Fernanda Otoni, Laura Rubião, Lucíola Macêdo, Ludmilla Féres, Marisa Vitta, Michelle Sena, Miguel Antunes e Renata Mendonça

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Então, parto do começo com a questão do que faz sintoma para um corpo, da qual se desdobraria a pergunta sobre as relações do corpo com o sintoma.

Por essa via, acompanhamos, no ensino de Lacan, um percurso que vai do sintoma como metáfora ou mesmo ciframento semântico das experiências pulsionais, produzindo um eclipse do corpo pelo simbólico, até o sintoma como acontecimento de corpo. Nessa direção de tomar o corpo como acontecimento sintomal, Lacan chega a dizer, em 1976, que “assim, indivíduos que Aristóteles toma como corpos podem não ser nada além de sintomas, eles próprios, em relação a outros corpos”[1].

É interessante como essa proposição de Lacan remete a existência humana a sintomas perambulando pelo mundo e introduz assim uma nova psicologia das massas, na qual, como nos sugere Éric Laurent[2], o laço social se dará não tanto mais fundado na identificação, mas a partir do acontecimento de corpo. Voltarei a esse ponto um pouco adiante, pois cabe ainda explorar o percurso, em Lacan, da relação do corpo com o sintoma.

 

Um lugar para o fora do corpo e o sem lugar

No Seminário 11, onde os quatro conceitos fundamentais da psicanálise são relidos de forma inédita, surge essa invenção de Lacan que é o objeto a. Temos aí uma inflexão fundamental na concepção do corpo e do sintoma, pois com o objeto a inaugura-se a dimensão do gozo que escapa ao corpo, instalando assim uma experiência de um fora do corpo.

A maneira como Lacan irá reler a brincadeira do neto de Freud esclarece essa travessia em seu ensino, que parte da busca por se recobrir o excesso corporal pela cadeia significante para o que, em 1964, surge como fracasso desse recobrimento no encontro sempre faltoso do simbólico com o real.

Portanto, nessa outra perspectiva dada ao Fort-da, o efeito do desaparecimento da mãe se torna secundário, sendo o ponto em que ela abandonou perto do filho o que ele vigia. Essa hiância introduzida pela ausência da figura materna (e que ficará para sempre aberta) aponta para a falha do significante em simbolizar essa ausência, o que faz com que o sujeito, diante desse fosso e reduzido ao silêncio, se apegue ao objeto. O carretel não é, então, a mãe reduzida a uma bolinha, nos diz Lacan, mas “alguma coisinha do sujeito que se destaca embora sendo ainda bem dele[3]”. É com esse objeto destacado e automutilado, mas que também condensa algo do gozo, esse objeto em sua condição de extimidade, que a criança saltará o fosso. É ainda com ele que começa o encantamento, poderíamos dizer, da produção dos sentidos fantasmáticos. Com o objeto a Lacan inventa algo que resta como excedente ao simbólico, que já não é mais, ele mesmo, significante.

Porém, vale ressaltar que se essa leitura introduz a dimensão de um real pulsional do corpo inassimilável pelo significante, veremos adiante, mais precisamente no Seminário 20, como Lacan assumirá a natureza de semblante do objeto a, pois mesmo que esse objeto se encontre no caminho que vai do simbólico ao real, é ainda um modo para o corpo se gozar, através de um desvio pelo roteiro ritualizado de sentido que a fantasia proporciona.

Como nos lembra Simone Souto, “na fantasia, o objeto a é capturado por um sentido que tem como coordenada o desejo do Outro: trata-se do objeto que se é para o Outro, um olhar, uma voz… etc.”[4]

Portanto, o sintoma, sustentado na lógica fálica fantasmática, visa a obturar pelo sentido a experiência do sem-lugar no corpo para o gozo, equivalendo essa experiência a uma falta-a-ser. O sintoma, por essa via, proporcionaria ao sujeito a ilusão de ganhar corpo através de uma pretensa consistência ontológica. Assim, o sintoma buscaria fazer ser.

Insistindo um pouco mais, se o Seminário 11 com o objeto a introduz o vazio, através da hiância à beira do berço com a qual a criança tem que se haver, como vimos na releitura feita ali do Fort-da, o fracasso dessa localização do gozo ficará cada vez mais premente e, de um lugar reservado ao vazio que se constitui pelo encontro sempre faltoso com o real, passa-se ao sem lugar da ausência primeira que o choque da língua inscreve no corpo.

A noção de sinthoma virá portar essa opacidade do gozo que não se deixa fazer ser.

Estamos assim na dimensão do que faz sintoma para um corpo pela via do ter um corpo, sem ser em parte alguma. Explico melhor com o auxílio de Laurent. Ter um corpo seria fazer a experiência do gozo, que se inscreve pela incidência da língua nesse corpo, porém essa experiência não produz nenhum correlato subjetivo[5]. Não há agente, não há por que, como nos descreveu tão bem o relatório apresentado por Antônio Teixeira[6]. Daí produz-se um sujeito como ausência, como furo, ou mesmo o falasser troumatisé. O neologismo troumatisme criado por Lacan, que Sérgio Laia traduziu por furotraumatismo, diz dessa experiência veiculada pelo sinthoma, que insiste em fazer o corpo se ausentar.

Esse ato de fala que tem como efeito o gozo desloca a linguagem de sua função de informação ou mesmo de comunicação, e o que se coloca em jogo é sua incidência material através da noção de lalíngua. Essa linguagem que se torna aparelho de gozo, faz com que Lacan defina lalíngua como uma obscenidade[7].

Assim, poderíamos dizer que o que faz sinthoma para um corpo é a consistência de gozo que faz com que esse corpo ex-sista. Esse gozo que não se conecta com o Outro e como gozo do Um-sozinho, não quer dizer nada a ninguém.

Com essa concepção de corpo sinthomal chegamos a um impasse que o último ensino de Lacan coloca para a experiência analítica pois, se a psicanálise é uma experiência da palavra, como forçar uma saída do autismo do se gozar do corpo, presente no sinthoma, de seu pretenso solipsismo ou individualismo? Como forjar, a partir do encontro com um analista, a construção de um laço social que salvaguarde a singularidade do sintoma como acontecimento de corpo?

 

Acontecimentos de corpo políticos e a imanência do sinthoma

Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud localizará o fundamento do laço social no traço identificatório com o pai da horda. Ou seja, o líder do grupo é sempre aquele que vem ocupar o lugar do ideal do eu, sendo elevado ao grau máximo de autoridade. Teríamos assim um laço social fundado sobre a base da identificação, que se desdobra na identificação vertical ao condutor do grupo, mas também na identificação horizontal entre os demais.

Lacan beberá nessas águas da psicologia das massas ao considerar, assim como Freud, que o ser falante é também por excelência um ser social. E é nessa direção que ele definirá que “o coletivo não é nada mais do que o sujeito do individual”[8].

Essa definição de Lacan sobre o coletivo parece-me reforçar a concepção da transindividualidade do sujeito para a psicanálise, porém, diferentemente de Freud, a noção de sintoma como acontecimento de corpo esboçaria agora uma nova psicologia das massas, na qual o laço se daria não mais pela identificação, mas a partir do que da linguagem afeta o corpo do indivíduo.

Como nos explica Lucíola Macêdo, se Lacan evidencia no Seminário 20 que o laço social é um assunto de linguagem, ele não está se referindo ali ao campo do sentido, da tradição, nem mesmo a como os discursos funcionam determinando modalidades de gozo, mas “ao que da linguagem se alastra, infesta, pulula, tilila no corpo”[9] sustentando o laço entre os falasseres.

Como essa concepção do laço social sustentado pela política do sinthoma poderia nos orientar na direção de um tratamento psicanalítico?  Ou mesmo, como a psicanálise, partindo de “acontecimentos de corpo políticos”[10], faria emergir a singularidade do sintoma como acontecimento de corpo para que daí surja uma nova escrita que relance o sujeito no laço social?

Essa questão nos levou, no cartel, à discussão de um caso clínico que permitiu avançar sobre o modo como um acontecimento de corpo biopolítico, no caso a pandemia, vem incidindo para cada um de forma diferente, tomando a dimensão traumática para alguns no ponto em que a subjetivação do sexual do corpo faz furo. Nessa direção, poderíamos dizer que o sujeito, em sua transindividualidade, não é indiferente ao que se passa no campo social, porém nem todo acontecimento coletivo doloroso é traumático, em seu sentido estrito. Para a psicanálise, portanto, o trauma dependeria de um encontro contingente com um real fora da lei, que se apresenta como gerador de angústia na singularidade de cada caso.

A discussão desse caso clínico pôde também introduzir a questão sobre como ali o desejo materno pela filha morta que antecede o nascimento do sujeito ganha o valor de trauma, afetando seu corpo e instalando assim um modo de gozo.

Destaca-se o interesse da psicanálise pelo que do trauma coletivo faz ressoar no corpo o gozo não-todo em jogo no sinthoma para que no percurso de uma análise, breve ou não, esse gozo possa ser experimentado mais além das amarras mortíferas da fantasia. Essa bússola se coloca presente desde o início de uma experiência analítica e vai acompanhá-la até o final.

 

A dança com o sinthoma

Uma das primeiras questões surgidas nas discussões do cartel que visaram à preparação desse texto foi a relação entre trauma e acontecimento de corpo. Se o caso mencionado acima introduziu elementos para esse debate, foi possível extrair do testemunho de passe de Patricia Bosquin-Caroz a conexão direta entre o trauma e a instalação do sintoma como acontecimento de corpo.

Esse testemunho também desvela a passagem, em jogo numa experiência analítica, do sintoma histérico – aquele que, ao fazer o corpo falar, fala a língua do pai – ao sintoma que se limita à escrita silenciosa da consistência de gozo.

Logo na adolescência uma fobia de avião aparece. É a partir desse sintoma que se tece a trama edipiana sustentada nos objetos olhar e voz, fios aos quais o sujeito se agarrava para não cair no vazio.

Um sonho no final da análise permitirá reduzir tal trama à fantasia fundamental: “ela havia efetivamente se voltado a comer fogo, o morto materno, sob o olhar de um pai fascinado e impotente, que ela tentava fazer vibrar”[11].

Com o relato de seu romance familiar, ficamos sabendo que seus pais tiveram três filhos. Dois homens e ela, a mais nova. Sua mãe sempre fora uma mulher deprimida e seu pai um homem todo voltado para os negócios. Diante dessa ausência do pai, é a filha que, vestida com as insígnias fálicas paternas, irá se ocupar da mãe e da avó viúva, assumindo o lugar de um jovem cavalheiro para essas mulheres.

Na adolescência, numa viagem de avião, na qual se encontravam apenas mãe e filha, uma forte tempestade coloca em risco aquele voo. A partir desse momento, sua relação com o pai se torna turbulenta, pois passará continuamente a provocar a ira dele, ou seja, tentará fazer sua voz brotar ou mesmo arrancar do silêncio a voz do Outro. O avião se torna assim o significante de sua fobia, pois encarna ao mesmo tempo o corpo que cai no silêncio da noite e o que faz explodir, queimar. Ela preferia a explosão ao silêncio.

É esse funcionamento pulsional que se reeditará em sua vida amorosa, promovendo uma erotomania devastadora.

Duas interpretações do analista irão desmontar essa armadura sintomática. Ao relatar mais uma vez seus desencontros com o parceiro amoroso, tema recorrente na análise, o analista lhe diz: “Não é a ele que você ama, são as suas lágrimas!”. Para numa sessão seguinte, ao descrever passionalmente a situação de uma colega deprimida, escutar do analista: “Você é a primeira comedora de emoções encontrada na clínica!”[12].

Dá-se assim a extração de seu modo de gozo oral, desprendendo-se de sua exigência pulsional de fazer o Outro falar.

As sessões analíticas passam a transcorrer no silêncio. O Outro não respondia e ela não precisava mais fazê-lo vibrar. É nesse momento que, entre duas sessões, experimenta uma vertigem que, ao relatar na análise, é tomada como um acontecimento de corpo. Deduz assim que quando o Outro se cala, o que se produz é a vertigem. O fato de depositar as suas lágrimas no compartimento vazio do Outro fora a maneira de ancorar seu corpo, mas ao preço de uma falsa consistência ontológica que retornava sobre o sujeito de forma devastadora.

Esclarece-se, aqui, a referência que Laurent faz ao comentário de Lacan sobre poema de Charles Baudelaire, As flores do mal, ao descrever o que está em jogo no arranjo fantasmático, no qual se teria “a um só tempo a ferida e a faca, a vítima e o algoz!”[13].

Desmontada a circularidade da fantasia, foi preciso mais uma fatia de análise para que o trauma se mostrasse em sua condição de acontecimento contingente do qual um elemento se destaca do discurso e vem selar um modo de gozo que jamais cessará.

É a partir de um sonho, em que a mãe informa que abandonaria a família, que uma lembrança da infância retorna e é relida de outra maneira. Na cena infantil, a família sairia de férias quando a menina é informada pela mãe de que apenas os pais e os dois irmãos mais velhos iriam, já que ela ficaria com a babá. A frase materna é pronunciada agora na sessão em voz alta: “Não há lugar para você!”. E em seguida um “É isso!”.

O analista diz então: “isso é um trauma!”.

Essa interpretação do analista faz ressoar o valor de gozo contido na materialidade da voz materna impresso no sonho. Uma voz que portava algo indescritível e que provocava vertigem. A analisante nomeará esse gozo opaco, veiculado pela voz da mãe, desenvoltura.

Essa palavra, desenvoltura, viria nomear tanto a forma leviana da mãe se dirigir à filha, como permitiria isolar no final da análise o acontecimento de corpo destacado de qualquer significado edipiano, mas correlacionado à contingência de lalíngua que vem imprimir no corpo um modo de gozo.

Com a desativação de certo resto sintomático, o sujeito pode, através da psicanálise, fazer um uso mais vivo de sua paixão de fazer o outro falar.

Desenvoltura me parece também mostrar o que Lacan nomeará, no Seminário 23, condançação[14], esse neologismo que escreve, na série de manipulações com a extimidade do gozo, uma dança do corpo com o sinthoma e da qual foi possível retirar da vertigem uma nova satisfação.

 

REFERÊNCIAS:

[1] LACAN, J. “Joyce, o Sintoma.” (1976) In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. p. 565.

[2] Ver em LAURENT, É. O avesso da biopolítica: uma escritura para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016. p. 23.

[3] LACAN, J. O Seminário, livro 11:Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988, p. 63.

[4] SOUTO, S. “Como conceber a transferência na clínica do Um que dialoga sozinho?” In: Curinga n.47, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais. Belo Horizonte, 2019. p.108.

[5] Ver em LAURENT, É. O avesso da biopolítica: uma escritura para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016. p. 19.

[6] TEIXEIRA, A. “A interpretação nos tempos do falasser”. In: Boletim Ecos 4. Disponível em: https://www.jornadaebpmg.com.br/2021/a-interpretacao-nos-tempos-do-falasser/. Consulta em 14/10/2021.

[7] LACAN, J. O Seminário, livro 24: “L’insu que sait de l’unebévue s’aile à mourre” (lição de 19 de abril de 1977). In: Ornicar?, n.17/18, 1979, p. 12.

[8] LACAN, J. “O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada” (1945). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p.213.

[9] Macêdo, L. “Onde não há relação, qual laço?” In: Alvarenga, E. e Macêdo, L. Mutacões do laço social, o novo nas parcerias. EBP-MG: Belo Horizonte, 2021. p.30.

[10] Laurent, É. “Paixões religiosas do falasser.” In: Opção Lacaniana, n.75/76. São Paulo: Edições Eolia, 2017. p. 39.

[11] CAROZ, P.B. “Uma ‘A-PAIXONADA’”. In: Opção Lacaniana, n.58. São Paulo: Edições Eolia, 2010. p. 101.

[12] Ibid, p. 100.

[13] LAURENT, É. O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016. p. 20.

[14] LACAN, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 150.

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Sobre uma passagem do seminário O Ser e o UM, Miller

Sobre uma passagem do seminário O Ser e o UM, Miller


por Graciela Bessa

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

“Et chez le parlêtre, ce choc initial, ce traumatisme introduit une faille qui est aussi bien le phallus, qui est aussi bien la faute, le péché ou, dit Lacan – en prenant la première syllabe de sinthome, sin – en anglais le sinn, le péché.

Et la faille, cette faille initiale tend à s’agrandir toujours, sauf, dit-il, à subir le cesse de la castration.”[1]

 

Nesta passagem do Curso de Miller, o trauma se dá a partir de um choque inicial que introduz no parlêtre uma falha que tende a crescer sempre. Mas, o que faria cessar o sinthoma, seria a castração, na medida em que “isso pudesse se escrever em um discurso que não fosse semblante, mas sim real. Este é o novo sentido da castração: o que faz cessar as embrulhadas do sentido”[2]

A elaboração sobre “Há Um” presente no Seminário 19, … ou pior, marca uma mudança radical no modo de pensar o funcionamento psíquico. No primado do Um o gozo vem em primeiro plano, o gozo do corpo próprio. “Trata-se de um gozo primário no sentido em que apenas secundariamente ele é objeto de uma interdição”[3]. Um corpo marcado por lalíngua que faz nele acontecimento. “Esse acontecimento de corpo que é gozo aparece como a verdadeira causa da realidade psíquica”[4].

Para Laurent[5], esse choque inicial de lalíngua com o corpo, não é uma inscrição do tipo impressão, mas a inscrição de um furo que determinará circuitos. Ou seja, lalíngua é a entrada do gozo no corpo, mas desse enxame de S1, é preciso que um deles alce voo, se destaque desse enxame, e se escreva como letra. “Lalíngua é o início do gozo, enquanto a letra é sua marca, o recorte de um modo singular de gozo”[6], resultando numa localização do gozo que irá se repetir no sintoma. Sob essa perspectiva a letra é marca de uma cicatriz, desse buraco em lalíngua pela extração de um S1. É isso que funcionará como trauma. “O trauma é o elemento contingente que marca o corpo, que escreve no corpo a letra de gozo, e que ao mesmo tempo, esburaca o real”[7].

Só a partir da inscrição da letra, consequentemente a inscrição do furo, dessa falha, como nos diz Miller, é possível a articulação de um S1 com um S2. Patricio Álvarez constitui três tempos lógicos para pensar a articulação entre lalíngua, a letra e a linguagem. Num primeiro tempo, temos lalíngua como enxame de significantes. O segundo tempo se caracteriza pela extração de um S1 como efeito do troumatisme. Sua extração produz uma borda e um furo. Esse S1 destacado funcionará como letra que se repetirá no sintoma. No terceiro tempo lógico esse S1 se articula ao S2, produzindo a linguagem como elucubração de saber. Há aqui uma amarração do Um com o Outro da linguagem.

Numa análise, para chegar a esse choque inicial, que é o choque do corpo com lalíngua, é preciso a partir da proliferação de sentido produzida por essa elucubração de saber da linguagem, se extrair os S1 de lalíngua, marcas de gozo. Ou seja, cernir o real do sinthoma, fazendo cessar as embrulhadas do sentido.

 

REFERÊNCIAS:

[1] MILLER, J.-A., Curso de Orientação Lacaniana. O Ser e o Um. Lição 25/5/2011. Inédito. “E no parlêtre, este choque inicial, este trauma introduz uma falha que é também o falo, que também é falha, pecado ou, diz Lacan – tomando a primeira sílaba de sinthome, sin – em inglês sinn, o pecado. E a falha, essa falha inicial, tende a ficar cada vez maior, exceto, diz ele, para suportar a cessação da castração” (tradução livre)

[2] Idem

[3] Miller, J.-A., Curso de Orientação Lacaniana. O Ser e o Um. Aula de 11 de maio de 2011. Inédito.

[4] idem

[5] LAURENT, E., Por que o Um? In: GORSKI, G. G.; FUENTES, M. J. S., Leituras do Seminário … ou pior de Jacques Lacan. Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise, 2015.

[6] ALVAREZ BAYÓN, P., El autismo, entre la lengua y la letra. Olivos: Grama Ediciones, 2020, p. 85.

[7] Idem, p. 93

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Trauma e acontecimento de corpo

Trauma e acontecimento de corpo


por Patricia Bosquin-Caroz

Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.

Muito rapidamente, voltarei às contribuições de Freud a respeito da questão do trauma, a fim de apresentar-lhes uma nova abordagem, como fez Lacan em seu último ensino e como continua Jacques-Alain Miller em seus últimos cursos[1]. Tentarei depois demonstrar como essa nova conceituação do trauma é útil para mim na compreensão do fim de minha experiência analítica.

 

O a posteriori, a estrutura do trauma

No seu artigo de 1896, intitulado Novos comentários sobre as psiconeuroses de defesa (1896) Freud reafirma seu ponto de partida sobre a etiologia da histeria, que ele liga à “ação traumática das experiências vividas»[2] e, de uma certa maneira, ele estende sua reflexão especificando que esses traumas psíquicos estão relacionados com a vida sexual infantil. De fato, em seu primeiro artigo sobre As neuropsiconeuroses de defesa (1894)[3], Freud  abordou a neurose histérica como defesa contra uma representação sexual inaceitável e insuportável para o ego.

«Na histeria, a representação irreconciliável se torna inofensiva pelo fato de sua soma de excitação ser transferida para o corporal, um processo para o qual proporei o nome de conversão[4]. »   Em relação a essas representações, que são canalizadas dessa forma, Freud menciona a formação de um núcleo criado em um momento traumático, que pode aumentar por ocasião de novas ofensas e, novamente, dar lugar a conversões que permitam a descarga do excesso de excitação. É por meio da causalidade sexual que anima a constituição do trauma que Freud descobre uma temporalidade própria a si mesma.

Com o caso Emma,[5] publicado em 1896, ele afirma uma temporalidade que não é linear, que não é mecanicista de causa e efeito, mas que tem a estrutura do a posteriori. É uma temporalidade em duas etapas que pressupõe um primeiro evento que será constituído como traumático por um segundo evento. Tomemos brevemente o caso de Emma. Emma não pode entrar sozinha em uma loja e credita isso a uma cena que ocorreu quando tinha treze anos. Ela entrou numa loja e foi surpreendida pelo riso zombeteiro de dois balconistas. Eles tinham zombado de suas roupas. Com a análise, outra causalidade é revelada, desta vez, antes do evento consciente do riso zombeteiro. Aos oito anos de idade, ela havia entrado por duas vezes em uma mercearia para comprar doces e o lojista havia colocado sua mão, através do tecido do vestido dela, em seus genitais. Na ocasião do seu trabalho de associação,  Emma vai ligar o riso dos dois vendedores ao riso que o comerciante havia colocado em seu rosto. O riso é o ponto comum que une esses dois gestos.

Mas essa não é a principal razão pela qual Emma não pode entrar sozinha em uma loja. O que a análise desse caso revelará é que, é a excitação sexual que ela experimentou que a impede de ir sozinha a uma loja. Entretanto, o primeiro incidente em si não tinha despertado nenhum afeto e é só a posteriori, enfatiza Freud, que a recordação recalcada se transforma em um trauma, ou seja, após o novo entendimento dos fatos que a puberdade permite. Lembremos que Freud coloca a causa sexual no centro da questão do trauma e que, em sua prática, ele rastreia a memória do trauma, o que lhe permite destacar essa estrutura do a posteriori do trauma, mas também do recalque histérico.

O próprio Lacan daria todo o alcance a essa estrutura do a posteriori, notadamente, em relação ao caso do Homem dos Lobos, em seu texto de 1953 publicado no Escritos, “Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise”[6].  Lacan sublinha que Freud exige “uma total objetivação das provas quando se trata de datar a cena primária »[7], mas também assinala a atenção que Freud presta à « ressubjetivação do acontecimento»[8],  estas reestruturações que operam após o fato e que permitem que o sujeito se estruture.

 

Do núcleo traumático à marca traumática

Desde o seminário Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, Lacan aborda o trauma por meio da tiquê, o encontro traumático, aquele que ocorre apenas uma vez e que vai envolver a repetição, o retorno dos significantes com o propósito de assimilar o inassimilável que jaz no coração desse encontro. Nesse seminário, Lacan articula a insistência da cadeia significante ao real, ou seja, ao elemento inassimilável do acontecimento traumático, ao núcleo traumático ineliminável, impossível de reabsorver pela operação do sentido[9].

Em outras palavras, o elemento que não pode ser reabsorvido pela representação significante é concebido aqui como o que impulsiona a repetição, a reiteração de significantes que falham a Coisa. O real é concebido como aquilo que escapa à rememoração do acontecimento traumático e aos remanejamentos a posteriori  “do que falhou em fazer verdade”[10] para um sujeito.

No final de seu ensino, Lacan voltará a essa questão do núcleo traumático para enfatizar a incidência traumática da própria lalíngua. Em seu Seminário L’insu … , ele diz, na aula do 18 de abril de 1977: “Freud delira, justo o que é preciso, pois ele imagina consigo mesmo que o verdadeiro é o que ele chama, por sua vez, de núcleo traumático”. Lacan, aqui, opõe à suposta existência de um nó traumático, do qual nos aproximaríamos ao falar na associação livre, à língua que é bem  rodada.[*] Só há essa que é rodada, ele diz, isto é, a aprendizagem a que uma língua submete a gente e que ele escreverá em uma palavra: lalíngua. À prevalência da função verdade, Lacan substitui o borbulho da linguagem, o borbulho da cultura. Nessa mesma aula, ele faz valer o  impacto do traumatismo de lalíngua que não é tanto para ser buscado do lado dos efeitos do sentido, mas, antes, do lado de seus efeitos de gozo.  Lacan enuncia que, qualquer que ela seja, lalíngua é uma obscenidade. Este termo, lalíngua, designa aquilo o que precede a estrutura da linguagem que, em seguida, vai lhe dar sentido.  depois lhe dará significado. Lalíngua é a lalação da linguagem, sua jaculação, sua materialidade sonora. O que se escuta antes do sentido.

Ao  final de uma análise, algo dessa ordem é capturado, algo que  marcou o falasser – aquele que fala e é falado -, que precede o sentido edipiano e que é mais uma questão do impacto das palavras sobre o corpo, do choque das palavras sobre o corpo ou da “percussão das palavras sobre o corpo”, como disse J.-A. Miller em seu último curso,  O ser e o Um[11].  O corpo aqui não deve ser entendido como um corpo especular, mas como uma substância gozosa. Assim, o acontecimento traumático deve ser entendido como um acontecimento de corpo. O acontecimento traumático, ou o acidente contingente se abriria, como ele já havia formulado em seu curso intitulado A experiência do real na cura analítica[12], à incidência da linguagem sobre o ser falante e, mais precisamente, sobre seu corpo.

Portanto, o afeto essencial seria, ele afirma, o afeto que a língua traça sobre o corpo. Nessa perspectiva, o sintoma seria o circuito de repetição que é desencadeado por um acontecimento de corpo, que faria dessa marca puramente contingente um  não cessa de se escrever, ou seja, uma reiteração dessa primeira marca que não cessa jamais.

Isso não significa que a análise dispense o sentido e a busca da verdade. Em uma análise, como disse J.-A. Miller em seu curso Sutilezas Analíticas[13]  trata-se de fazer verdade do que foi e do que faltou em fazer verdade, ou seja, o trauma, o que fez furo (trou) e que Lacan vai chamar de troumatismes. Em uma análise, trata-se de fazer chegar ao discurso aquilo que não teve  lugar… Dito isso, a experiência psicanalítica, como Lacan a concebeu no final de seu ensino e como J.-A Miller a formaliza hoje, é impulsionada para além das revelações do inconsciente e de suas reelaborações, para além das marcas identificatórias que organizam a janela fantasmática através da qual o sujeito olha para o mundo. Assim, o que está isolado ao fim de uma experiência analítica concerne  mais à maneira como o corpo se goza, goza do significante que o marcou, que nele percutiu e  imprimiu um modo singular de gozo.

 

Uma marca contingente e seus efeitos de afeto

Essa apreensão do choque da lalíngua no corpo, de fato, foi escandido ao fim de um longo percurso analítico que se efetuou com dois analistas e em três tempos. De fato, este percurso terminou com a apreensão do que havia feito trauma na minha relação ao Outro, ouvindo a língua materna como lalíngua.

O que havia feito trauma foi um acontecimento contingente de discurso em razão do qual  o falasser fez uma marca, o selo de um modo de gozo que jamais cessaria. Esse acontecimento de discurso dizia respeito a uma declaração proferida pelo Outro materno que tinha surgido no final da análise nas associações da analisante, como se sempre tivesse estado presente, mas sem ter sido realmente levado em conta, até então, em seu valor traumático. Assim, foi uma frase pouco tocada pelo processo analítico que visava, notadamente, através da rememoração de lembranças infantis, atenuar o excesso de carga emocional.  De fato, essa afirmação se apresentava ao final do percurso analítico como tendo um certo valor de fixidez. Mas de qual fixidez se trataria, sabendo que o processo analítico visa precisamente fraturar a fixidez da significação fantasmática que orienta o modo de gozo do sujeito? Podemos então falar de fixidez sinthomática nesse caso? Aquela que não se atravessa, não se fratura, mas se isola no final de um processo de redução?

No que me diz respeito, estou me referindo aqui a um enunciado materno que surgiu durante uma das últimas sessões analíticas, não há lugar para você, enunciado que indexou uma modalidade de devastação materna. Esta frase, pronunciada por minha mãe muito depois do acontecimento traumático ao qual este enunciado se referia, surgiu após um sonho que relatei ao analista e que encenou o deixar cair  materno.  O que me perturbou nesse sonho foi, essencialmente, a voz de minha mãe, uma voz que (no sonho) tinha me deixado sem voz. De fato, havia nesta voz alguma coisa de inqualificável,  de inominável que eu buscava, na sessão, nomear. Foi seguindo esse fio  que essa frase se impôs, como uma evidência, como um é isso!, no momento em que eu a proferi em voz alta! Este enunciado – Não há lugar para você – referia-se a uma cena em minha infância em que, de algum modo, eu havia sido deixada para trás. Ele foi acolhido pelo analista que constatou: “isso é um trauma”.

Esse surgimento permitiu, a partir de então, uma desativação, uma desmontagem de um gozo que se apresentava como um resto sintomático, ou seja, uma forma de bovarismo que eu cultivava desde minha adolescência, suscetível de reconfiguração. Além disso, eu havia retomado uma última tranche de análise (a terceira), pois ainda estava às voltas  com esse resto intocado de uma longa análise, na qual a fantasia havia sido atravessada e o modo de gozo pulsional oral isolado. O surgimento deste enunciado tinha, acima de tudo, feito ressoar, desta vez, um valor de gozo drenado pela linguagem materna e que eu chamei de desenvoltura.

A desenvoltura foi a palavra que eu tinha encontrado durante meu primeiro testemunho do passe  para qualificar um gozo indizível, que tinha se manifestado nesse sonho de final de análise e que condensava a voz materna. Esta palavra denominava isso que, a partir da lalíngua, havia percutido, marcado o corpo do falasser. A desenvoltura designava uma forma de fazer, uma maneira de dizer que autentificava a frase dita de maneira despreocupada por uma mãe à sua filha: Não há lugar para você. Se esse enunciado ecoa, de certa forma, o drama da típica posição de exclusão histérica – voltaremos a isso – ele está, no entanto, também correlacionado a um acontecimento de corpo, o deixar cair. É esse acontecimento de corpo que acabou sendo isolado no final da análise, destacado de qualquer significado edipiano, mas ligado a este simples enunciado contingente, condensando a desenvoltura  do Outro. Desenvoltura que, podemos dizer, havia marcado o falasser, imprimindo-lhe um modo de gozo sobre a forma de um humor do tipo melancólico. Essa percussão do corpo por lalíngua seria isolada como tal, como um resto irredutível, suscetível de ser desativado. A desativação obtida me autorizou a dar o passo do passe.

 

Da frase impessoal fantasmática ao trauma singular

Hoje, proponho voltar mais precisamente a esse enunciado materno isolado no final do percurso analítico. Foi um enunciado que eu havia desconhecido durante todos esses anos de análise e que, finalmente, se revelou ao final de um longo processo de levantamento do recalcado? Certamente que não. Essa frase sempre me acompanhou como uma sombra. Era bem uma parte da minha história, uma história banal de uma mãe que prefere seus filhos à sua filha. Este enunciado apenas mudou seu valor no decorrer da análise e, finalmente, carregou uma nova carga libidinal.

Durante uma primeira análise, eu havia me lembrado muitas vezes de uma cena marcante de minha infancia, na qual, essa frase do final, não há lugar para você, dizia respeito. Quando eu tinha cinco ou seis anos de idade, eu tinha sido deixada aos cuidados da empregada de minha mãe durante um longo período de férias, quando ela estava viajando com meu pai e meus irmãos mais novos. Dócil, nao fiz disso um drama. De fato, não havia espaço para mim nessa conjuntura, pois éramos três crianças e só havia lugar para dois. Era uma evidência que eu não contestava.

Tal era a lógica materna e mesmo da família, já que era endossada por meu pai que não havia dito palavra. Tudo isso aconteceu sem problemas, inclusive a minha estadia na casa dessa senhora, exceto por um detalhe: o riso zombeteiro de um jovem que era deficiente, privado da motricidade de suas pernas, tinha me surpreendido em meus jogos de criança solitária.

Pode-se dizer que, em retrospectiva, esse olhar zombador teve o impacto de transformar em dano real um acontecimento contingente. O jovem paralítico, a partir de então, seria aquele que macularia o quadro familiar. De fato, esse olhar zombador teve como conseqüência exacerbar a escolha fálica de minha mãe da qual eu havia sido excluída. A privação feminina se revelara dolorosa. Em outras palavras, se eu havia sido excluída, era por ser uma menina, aquela que não tinha o que era preciso para fazer parte da viagem.  Aí se desvelou, de maneira fulgurante, a preferência fálica de minha mãe com a qual eu não iria mais parar de me confrontar. Minha mãe preferia os homens. Mas, afinal de contas, o que poderia ser mais legítimo para uma mulher!

Minha primeira análise foi para destacar a reivindicação fálica que eu havia endereçado, quando criança, à minha mãe e depois aos homens. Quanto a meu pai, que de certa forma estava ausente por estar muito ocupado em salvar e restaurar um ideal paterno danificado, eu me afastei dele por um tempo para me dirigir àquele a quem minhas orações buscavam fazer responder  e que eu escolhera a partir do modelo paterno do salvador sacrificado, o Cristo. Assim, desde a infância, até meus últimos anos de adolescência, tornei-me uma jovem piedosa. Minha primeira parte de análise me permitiu localizar a identificação crística que daria, mais tarde, suporte à  fantasia: uma mulher é sacrificada. Poderia se dizer que esse traumatismo infantil, rememorado no tratamento, tinha se encontrado ali para ser suplantado, para ser metaforizado, graças ao apoio tomado sobre essa identificação sacrificial. O que fez trauma foi, principalmente, ligado à vertente da privação feminina e que verificou a versão da feminilidade que me foi transmitida: ser mulher é ser uma pobre mulher. A construção da fantasia, uma mulher é oferecida em sacrifício, sob o olhar de um pai impotente, daria sua estrutura ao gozo sacrificial, sublimação da privação feminina.

Esta construção da fantasia seria selada durante uma primeira experiência de passe pela qual eu me tornei membro da Escola. Este fantasma se atravessaria, então, em favor do segundo analista: Mas, é claro, você é aquele jovem que é levado à morte! Interpretação que fez, em um primeiro tempo, vacilar a identificação fálica com o pai impotente e que, em um segundo tempo, tornou possível trazer à luz o movimento pulsional oral que animava uma demanda insaciável de amor, endereçada ao pai, ao homem amado e, em seguida, ao analista.

A propósito desta frase, “uma mulher é oferecida em sacrifício”, Éric Laurent, que conduziu uma sessão de ensino do passe em Bruxelas em maio passado, enfatizou a diferença entre, por um lado, a frase fantasmática, impessoal, que condensa uma série de enunciados que foram ditos, enunciados em estado de espera  e que conseguiram ser ditos na experiência, isso que chamamos de fantasia fundamental e, por outro lado, o trauma fundamental, que eu havia designado como desenvoltura maternal. A desenvoltura é um nome, desta vez um nome singular, dado ao trauma do deixar cair. Nesta palavra, escuta-se, como É. Laurent assinalou, essa raiz de involtura, o envelopamento, cujo avesso seria um deixar cair. Assim, por um lado, ao final de um primeiro processo analítico, temos um conceito impessoal, uma frase fantasmática que é construída, difratada e depois atravessada e, por outro lado, ao final de uma última experiência, temos um trauma singular que se isola, que não se atravessa, mas que, de minha parte, se desativara.

A fantasia do sacrifício, ou o trauma do “desenvelopamento”, não têm o mesmo valor de gozo. O sacrifício assume um valor fálico para o sujeito, há uma recuperação de um mais de gozar, enquanto o trauma, que aqui se refere à desenvoltura do Outro, está correlacionado ao puro acontecimento de corpo, ou seja, ao deixar cair. É para esse afeto que o segundo movimento do processo analítico acabaria, in fine, a me reconduzir. A segunda análise, sublinhou ainda É. Laurent, teve, deste ponto de vista, um pequeno efeito de contra-análise. Eu acrescentaria, não há contra-análise sem análise.

No fundo, pode-se dizer que o trauma da exclusão histérica iria finalmente ser conduzido à raiz do acontecimento de corpo, aquilo que, no corpo, respondia por uma sensação de queda ou de vertigem. O fenômeno da vertigem tinha inicialmente indexado aquilo que se isolaria como deixar cair. Isso se manifestou no final do último percurso analítico, quando ressoou, em uma sessão final, o silêncio do Outro. Silêncio que eu não preenchia mais fazendo o Outro comer o drama da minha história. De fato, eu havia me calado e não mais esperava que o analista falasse. Foi neste momento em que ressoava o silêncio que esse fenômeno de vertigem se manifestou, o que me permitiu, então, apreender o que tinha motivado meu discurso de analisante: fazer o analista comer emoção e assim fazê-lo vibrar, fazê-lo responder, fazendo-o vibrar.

Dito isso, como já havia assinalado, ainda não havia terminado a análise, pois voltei a ver este analista mais de um ano após esse momento final. Eu estava, então, lutando contra esse resto sintomático, tomada de um humor de aspecto melancólico.  Nessa época, acontecia de eu cair repentinamente (um fenômeno transitório), mas, sobretudo, me sentia deixada cair. Portanto, eu não fiquei satisfeita com esse final. Retomei meu trabalho como analisante, apesar de ter desinvestido o inconsciente transferencial, do qual eu  já não esperava mais que me entregasse o sentido do meu sintoma.

Ao fim de  um ano, durante o qual o analista continuou me enviando, sem cessar, ao saber já extraído do meu tratamento, fiz um sonho inédito no qual minha mãe anunciou com desconcertante despreocupação que estaria abandonando marido e filhos. Depois disso, várias lembranças me vieram, colocando em cena o  deixar cair maternal e a frase que havia acompanhado uma delas: “Não há lugar para você”. Este conhecido enunciado materno ainda não havia assumido todo o seu significado libidinal. De fato, o que iria ser isolado aqui seria mais o resultado de um encontro contingente com a desenvoltura do modo de falar materno que havia marcado o falasser, ao ponto de nele imprimir um modo de gozo melancoliforme do inconsciente, com o qual ele iria tamponar o encontro faltoso com o parceiro de amor.

Este é o acontecimento de corpo que iria se isolar, o impacto de um dizer, ou melhor, de uma maneira de dizer sobre o corpo que, depois, teve efeitos de gozo. De fato, eu  havia feito do encontro contingente com a desenvoltura do Outro, necessidade. Eu me nutria do nada, em ser nada para o Outro. Eu havia transformado uma exclusão contingente em uma exclusão sintomática, suscetível de ser repetida. A desativação obtida ao final da análise era uma forma de qualificar a demontagem de uma repetição, de iteração do mesmo.

Este enunciado e outros nomes que me qualificavam, como aquele de Cinderela, emergiram ao final do percurso analítico, quando o sentido edipiano havia sido esgotado, mas, desta vez, como indexação de um gozo fora do significado. A constatação do analista, é um trauma!, isolaria o efeito no corpo de enunciados traumáticos, desarmando, ao mesmo tempo, seu impacto.

 

Tradutor: Pascal Donnart

Revisão: Paula Pimenta e Patrícia Ribeiro

 

NOTAS:

[*] No original, “la roulure de la langue(…) Il n’y a que la roulure”. Conforme nos esclarece Sérgio Laia, a quem muito agradecemos, o termo roulure aponta tanto para a ação de rolar, como também para a palavra prostituta. Nesse caso, Lacan optou por uma palavra francesa menos conhecida do que prostituta, para destacar a implicação de lalingua com o gozo,  com a obscenidade e não com o sentido. Assim, para manter a consonância com o francês roulure, Sérgio propôe a nossa injúria mulher “rodada”, que se aproxima da chamada mulher de má fama.

[1] Texto  apresentado na Seção Clínica de Bruxelas em dezembro de 2011, durante a Soirée do Passe em 15 de novembro de 2011, na ECF. Publicado na revista Quarto 101-102, p. 96-100 e traduzido para publicação neste Boletim da 25ª. Jornada da EBP-MG com a amável autorização da autora.

[2] FREUD, S. Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa.(1896) In: Edição Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 3. Rio de Janiero:Imago,1996, ps.187-211

[3] FREUD, S. As neuropsicoses de defesa.(1894). In: Ediçaõ Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 3. Rio de Janiero:Imago,1996, ps.57-73

[4] FREUD, S. Op. Cit.,p. 61

[5] FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica. (1895 [1950]/1996). In: Ediçaõ Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 1. Rio de Janiero:Imago,1996, ps.335-454.

[6] LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In:. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 238-324.

[7] LACAN, J. op. cit., p. 257.

[8] LACAN, J. Ibid.

[9] LACAN, J. O Seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

[10] MILLER, J.-A. Sutilezas analíticas (2008-2009). Buenos Aires.  Ed. Paidós. 1a edición. 2014.

[11] MILLER, J.-A. L’orientation Lacanniene. L’Être et l’un.(2011) Inedit.

[12] MILLER, J.-A. La experiencia de lo real em la cura psicoanalitica (1998-1999). Buenos Aires: Ed. Paidós, 1ª. edición, 2003.

[13] MILLER, J.-A. Sutilezas analíticas (2008-2009). Buenos Aires. Ed. Paidós. 1a edición. 2014.

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Referências Bibliográficas para o Eixo 5: O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma

Bibliografia

Referências Bibliográficas para o Eixo 5: O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma


FREUD

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LAURENT, Éric. Lalangue et le forçage de l’écriture. In: La cause du désir, n.106, Paris: Navarin Editeur, 2020.

LAURENT, Éric. Une vision du ruissellement de l’Un. In: La cause du désir, n.107, Paris: Navarin Editeur, 2021.

 

Outros autores:

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BOSQUIN-CAROZ, Patricia. Trauma. In: Quarto Revue de Psychanalyse, n.126. Belgique: ECF, 2020.

CHENG, François. O sorriso de Jacques lacan. In: Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n.85. São Paulo: EBP, 2021.

CHENG, François. Lacan e o pensamento chinês. In: In J. Aubert, F. Cheng, J. C. Milner, F. Regnault, & G. Wajcman (Orgs.), Lacan o escrito, a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.

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MACÊDO, Lucíola Freitas de. Ferid’alíngua: a poética de Leila Danziger. In: Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG, [S.l.], v. 8, n. 15, p. 104-115, nov. 2014. Acesso AQUI

MACÊDO, Lucíola. Trauma e acontecimento de corpo: a escrita de Primo Levi. In: Curinga, n.38. Belo Horizonte: EBP-MG, 2014, pp.49-58.

MACÊDO, Lucíola. Psicanálise e Escrita, a errância em Primo Levi. In: CALDAS, Heloisa (Org.). Errâncias, adolescências e outras estações.  Belo Horizonte: EBP 2016, pp.221-237

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ROSA, Márcia. “Uma voz que não é senão a voz de ninguém!”. In: ALVARENGA, Elisa; MACÊDO, Lucíola (Orgs). Mutações do laço social: o novo nas parcerias. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021, pp.197-204.

RUBIÃO, Laura. A ética do corpo falante e o vírus do sinthoma: qual transmissão possível?. In: ALVARENGA, Elisa; MACÊDO, Lucíola (Orgs). Mutações do laço social: o novo nas parcerias. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise, 2021, pp.205-211.

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