Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.
Caro(a) leitor(a)!
Eis que chegamos ao número 05 do ECOS.
Momento de tal alegria, que dele vamos nos servir para convidá-lo(a) a um duplo movimento junto a nós: refazer o caminho – do Ecos #0 até este que vimos lhe apresentar – revisitando os excelentes textos que neles se encontram, rumo à 25a Jornada da EBP-MG. Aqui, situa-se o segundo movimento: hora do checklist, porque estamos a poucas semanas – dias 19 e 20 de novembro estão chegando!
Não se preocupe! Logo, virá o Ecos #6, exclusivamente com as informações necessárias para que a modalidade virtual da Jornada seja realizada de forma vibrante, porém tranquila.
E aqui no Ecos #5?
Reverberação do que contempla o 5o eixo do tema da Jornada – O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma.
Começamos pelo fecundo momento acontecido na 5a Conversação com o produto do cartel responsável por nos transmitir o que se extraiu desses meses de trabalho em torno de O que faz sintoma para um corpo: a nova escrita do sintoma. Helenice de Castro (mais um) desenvolve o tema de maneira, ao mesmo tempo esclarecedora e instigante, abrindo-nos novas perspectivas de pesquisas que nele podem ser exploradas. Dentre estas, destaque para esta pergunta: “[…] como a psicanálise, partindo de ‘acontecimentos de corpos políticos’ (Laurent), faria emergir a singularidade do sintoma como acontecimento de corpo, para que daí surja uma nova escrita que relance o sujeito no laço social?” Foi examinada, igualmente, a relação existente entre trauma e acontecimento de corpo, valendo-se do testemunho de passe de Patrícia Bosquin-Caroz. Com o título Trauma e acontecimento decorpo, através da generosa sugestão de Helenice, publicamos o testemunho como excelente oportunidade de avançar na discussão. Charles-Henri Crochet examina, a partir de uma citação de Miller, a distinção entre uma literatura que especula sobre o sintoma e aquela que especula sobre a fantasia : “Em literatura, Joyce contra Sade nos dá seu alcance”. É Graciela Bessa quem nos fornece as pistas de leitura de uma passagem complexa do seminário de Jacques Alain Miller- O Ser e o UM- de forma clara e orientadora. Leitura obrigatória.
“Uma primeira aproximação acerca da presença do sintoma como acontecimento de corpo na minha trajetória com o passe é o que se deduz como axioma de que o orifício não é o furo”. Assim, Jésus Santiago inicia a entrevista organizada pela Comissão de Bibliografia com os colegas da EBP-MG sobre o passe. Como sucedeu em cada entrevista, a transmissão que Jésus nos proporciona, no desenvolvimento do axioma “o orifício não é o furo”, torna-se ocasião única de aprendizado e reflexão.
E Bibliografia não para aí: entrevista comentada por Rodrigo Almeida. Resenhas superinteressantes realizadas pelas colegas Cristina Pinelli, Mônica Campos, Renata Mendonça e Virgínia Carvalho; citação comentada por Tatiane Costa e citações e referências bibliográficas especiais para o eixo 5.
Como nos Ecos anteriores, a originalidade do projeto criado pela Bibliografia –AE né trem lá vem bibliouai – vem para nos cativar. Hora de escutar e se emocionar com o artista Sérgio Pererê. Só vendo o vídeo!
Conhece Everyday Normal Guy, de Jon Lajoie? Sérgio de Mattos, em nome das colegas da Comissão playlist e mídia do boletim, nos fala sobre a música. Se você vem acompanhando o trabalho dessa Comissão, prepare-se para a surpresa!
Aliás, surpresa e ternura no vídeo – também apresentado por Sérgio de Mattos! Basta clicar!
As surpresas são inúmeras – Recitação as condensa. Só conferindo!
Momento nosso de alegria ao lhe entregar o ECOS#5. Que também o seja para você ao lê-lo!
Entrevista com Jésus Santiago (A.E. 2013-2016) sobre Acontecimento de Corpo e final de análise.
Isaura Pena. Desenho, aguada com nanquim em papel.
Uma primeira aproximação acerca da presença do sintoma como acontecimento de corpo na minha trajetória com o passe é o que se deduz como axioma de que o orifício não é o furo. O orifício corporal está ancorado no gozo da fantasia viril cujo motor é o mais-gozar olhar. Nesse sentido, pode-se inferir que um dos componentes do objeto a é o orifício corporal. A fantasia e sua lógica inclusiva do objeto a é a chave de uma modalidade fundamental de gozo sexual nos seres falantes. Qualificá-la de viril é a maneira que encontrei para situar o acontecimento de corpo que se extrai do circuito de gozo que transita entre o escópico e o anal. Dizer que na relação com a parceira sexual esse gozo é notadamente autoerótico, é uma confirmação de que, antes de tudo, a copulação se faz com a fantasia e com o objeto a olhar. Essa ocorrência autoerótica do mais-gozar da fantasia é compartilhada por todos os gêneros e, nesse sentido, pode-se falar de um gozo que advém da própria inexistência da relação sexual[1].
A passagem do orifício ao furo exigiu, no transcorrer da experiência, ir além da travessia da fantasia, ao buscar fraturar seu objeto em vista do desinvestimento libidinal do mais-gozar olhar. Importa assinalar que o enfoque do sintoma à luz do acontecimento de corpo exigiu da parte do analista uma leitura da letra de gozo fora do sentido do sintoma e, portanto, fora do mais-gozar da fantasia. Antes de mais nada, considera-se que o sintoma que tem lugar na existência do falasser diz respeito ao corpo impactado por um acontecimento de discurso que assume o valor de um trauma[2]. O problema que se impõe aqui é que o acontecimento de corpo mostra-se correlacionado à uma experiência de satisfação em detrimento do advento de toda e qualquer significação. Essa mudança de perspectiva com relação ao sintoma enquanto acontecimento de corpo – repercute de maneira contundente no plano da interpretação analítica[3]. Se no primeiro Lacan, tratava-se de encontrar o sentido oculto do sintoma, com relação ao último ensino, importa tocar o gozo que irrompe no corpo. Admito que a experiência de satisfação que emerge como efeito da interpretação analítica – “você é uma mulher do amor depreciado”[4] – não gera forçosamente um prazer nos moldes da homeostase freudiana. Muito antes pelo contrário, pois no meu caso os efeitos desta interpretação, em termos da satisfação, aparecem sob os auspícios de um desequilíbrio profundo e não sem incômodos e angústia.
A questão do desinvestimento libidinal do mais-gozar olhar permanece presente como decisiva para a minha relação com a causa analítica, pois ela atinge em cheio o desejo do analista. Trata-se, portanto, de incluir o momento de passe que teve lugar no tocante ao acesso ao furo e a consequente abertura ao não-todo fálico. É sabido que o passe coloca à prova o que dele se extrai sob o modo de uma bússola a serviço do desejo do analista. No meu caso essa bússola se exprime nos termos da seguinte questão: é possível ao analista-homem experimentar a existência de um gozo deslocalizado com relação as zonas do orifício, antes, investidas pela fantasia escópica? É claro que a fratura do objeto da fantasia com o desinvestimento libidinal do objeto olhar, ao longo da experiência, não esgota e nem elimina os orifícios tomados como objetos do gozo fantasístico.
No entanto, no momento em que a experiência de “abertura ao não-todo fálico”[5] sobrevém, o falasser se apresenta sob o choque da surpresa e do espanto, pois, sem abrir mão do objeto a, a experiência de satisfação propriamente pulsional mostra-se relutante em reproduzir-se segundo o circuito banal, repetitivo e monótono da fantasia viril – $ <> a – e, inclusive, refratário a mobilizar-se em função de uma zona erógena precisa. Lembro-lhes en passant a concepção mecanicista do amor, presente, em Alfred Jarry, em Surmâle (Supermacho): “fazer amor é um ato sem importância, pois se pode fazê-lo indefinidamente”[6].
Essa abertura ao ‘não-todo’ fálico é a maneira que encontrei para caracterizar o que vem a ser viver a pulsão para além dos objetos a da fantasia. Atenuar ou mesmo se separar das imposições do mais-gozar da fantasia é a única via para viver a pulsão, após o final de análise, na medida que a tendência do gozo fantasístico é obturar aquilo que se constitui como a sua própria materialidade, a saber: o vazio ou o furo.
Na verdade, há um certo paradoxo ao se dizer que o final de análise acontece sob o prisma da vivência da satisfação da pulsão. Afirmo isto, pois não se desconhece que, no fundo, a constância da pulsão diz respeito ao fato de que a pulsão se define por buscar o tempo todo se satisfazer. Porém, o que a minha experiência de passe me ensinou é que nem sempre a satisfação da pulsão tem lugar por meio da sua conexão com o fator obturante da fantasia ao furo. Como pude demonstrar em meus testemunhos, o que parecia ser um imperativo, revelou-se passível de uma mudança, cuja contrapartida seria as chances de um novo amor sob o modo de um saber-fazer com o furo concernente a satisfação da pulsão desconectada do mais gozar da fantasia.
A consequência mais imediata foi minar as bases dos sintomas típicos da vida amorosa na sexuação masculina. Viver a pulsão após a fratura do objeto da fantasia exigiu abandonar o amparo obcecado no heroísmo viril, transmitido pela mãe religiosa. Assim, o falasser se viu incitado ao refinamento de seus usos da satisfação da pulsão na medida que se consentiu com o abismo, muitas vezes aniquilador, do furo pulsional. Concebo o ideal viril como expressão direta do gozo fálico, precisamente, nos termos desse gozo que age fora do corpo como uma defesa possível à castração ou à feminização[7].
Por último, insisto sobre o que é o distintivo do gozo fálico, a saber, portar-se como um gozo fora do corpo que, no meu caso, age como uma espécie de rolha que veda a materialidade do que confere consistência a satisfação pulsional que é o furo.
NOTAS:
[1]Cabe colocar a questão se a inexistência da relação sexual é ou não um princípio universal para todo o gênero humano. A resposta negativa se justifica pelo fato de que esse aforisma não existe em si, ele supõe sempre a apropriação singular por parte do ser falante. Assim, não é um universal porque exprime o modo singular como a sexualidade faz furo no real e no saber, coisa que, por consequência, remete a cada ser falante. Em suma, não é universal porque o aforismo indica que não há um saber universal sobre o sexo.
[2]Miller, J.-A. “Biologia lacaniana e acontecimentos de corpo”, Opção lacanina, nº 41, dezembro 2004, p. 7-67.
[3]Visar extrair consequências do ‘sintoma como acontecimento de corpo’ para a prática da interpretação, é, a meu ver, o que se apresenta como a originalidade do tema escolhido para a nossa 25ª Jornada “Acontecimento de corpo: da contingência à escrita”.
[4]Santiago, J., O nome, o oco e a fonação, Opção Lacaniana, 2013, dezembro, nº 67, p. 94.
[5]Santiago, J. Abertura ao não-todo fálico, Opção Lacaniana, 2017, maio, nº 75/76, p. 53-57.
[6]Jarry, A. Surmâle, Mille et une nuit, Paris, 1996, p. 7.
[7]Lacan, J. A terceira, Opção Lacaniana, 2011, dezembro, nº 62, p. 11.
O buraco negro da diferença sexual - Marie Hélène Brousse[1]
por Virginia Carvalho
Dyana Santos, Relicário, pintura objeto, 2012
Nessa Conferência, Marie Helène Brousse (2019) trabalha o tema da diferença sexual na contemporaneidade, tempo em que “o gênero suplantou o sexo” (s.p.). Para ela, “desde o momento em que se entra no campo da diferença sexual, tudo o que define a singularidade dos modos de gozar e das posições subjetivas torna-se inacessível” (s.p.), tal como ocorre no buraco negro. De acordo com a teoria da relatividade, “tudo o que entra no interior do buraco negro – toda a informação, toda a matéria –, é assimilada”(s.p.) a ele.
A diferença, ao mesmo tempo em que é um “dos fundamentos da ordem linguística” (s.p.), ligando e separando pares significantes, é “também um modo de satisfação que produz gozo, tanto se afirmando – pois cada falasser goza de sua diferença –, quanto se apagando” (s.p.). Por isso, a ordem diferencial pode resvalar-se para uma ordem segregativa, já que “não há segregação que não se prenda a uma diferença atribuída aos modos de gozo” (s.p.).
A psicanalista lembra que a abordagem lacaniana da diferença sexual nos seres falantes não ocorre a partir da natureza e sim da linguagem e do sujeito. Mudança radical que demarca a distinção entre o pênis e o falo, “metasignificante” (s.p.) que se reduz a um menos cujo valor comum permite aos corpos falantes entrarem em intercâmbio. A passagem do sujeito ao corpo falante nos permite considerar a “oposição não binária entre o Todo, incluindo todos os seres falantes de qualquer gênero que sejam, e o não-todo, que precisamente não permite mais à diferença binária consistir” (s.p.).
Brousse nos apresenta fragmentos clínicos sobre versões dessa diferença nos dias atuais, indicando que ela só pode se formular no campo da identificação e da fantasia: “ser classificado por gênero só é possível do lado da lógica do todo e da exceção fálica”(s.p.), pois tanto o homem, o macho, como A mulher são criações de discurso. E, nesse sentido, com Lacan, conclui que “o sexo é o efeito de um dizer” (s.p.).
Trata-se de uma Conferência que nos convida ao trabalho, abrindo várias perguntas que concernem ao tema da nossa 25ª Jornada. Questões que nos remetem às invenções das crianças, as perverso polimorfas apontadas Freud. Teriam elas novas teorias sexuais? De que palavras elas se servem hoje para dizer de seu pertencimento e de seus singulares modos de gozo? Estariam elas mais para perversas polimorfas ou para puritanas?
Aprendemos com Brousse (2019) que diante de tantas modificações na cultura, “a única coisa que permanece estável é a própria diferença como função engendrada pela linguagem e, portanto, o real da escolha que é a definição mínima da castração” (s.p.). Nesse panorama, ela lembra a ideia lacaniana de que não existe segundo sexo e também sua assertiva de que o terceiro sexo “não subsiste na presença dos outros dois” (Lacan citado por Brousse, 2019, s.p.), dependendo apenas do amor.
Da diferença sexual ao amor, Brousse conclui sua contribuição questionando se “o amor zomba da diferença sexual”. E, com Lacan (1973-74), sabemos que “o amor não é outra coisa que um dizer enquanto um acontecimento” (p.74).
REFERÊNCIAS
LACAN, J. O Seminário, livro 21: Os não tolos erram. (inédito)
NOTAS
[1] BROUSSE, M.H. O buraco negro da diferença sexual. In: Cien Digital, n.23, nov. 2019. Disponível em: https://ciendigital.com.br/index.php/2019/11/17/o-buraco-negro-da-diferenca-sexual/?print=print
Quando um acontecimento de corpo se produz - Pierre Naveau[1]
por Mariana Vidigal
Dyana Santos, Sem Título, da série Pó de Estrelas, 2012
Naveau (2017) percorre o ensino de Lacan para situar a relação entre o “inconsciente, o sintoma, o gozo e a letra que se escreve e que, por isso mesmo, é para ser lida” (p.221). Destaca que na aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI, Lacan especificou que a variável x é “o que do inconsciente pode se traduzir por uma letra” e que essa escrita é “o que o sintoma opera selvagemente” (LACAN, 1975). Naveau (2017) extraí daí que o selvagem diria respeito a esta operação na qual o sintoma se apresenta como da ordem do necessário, do não cessa de se escrever e que acarreta uma irrupção de gozo. E, ainda acrescenta em Lacan (1975), que “o sintoma não é definível senão pelo modo como cada um goza do inconsciente, na medida em que o inconsciente o determina”.
Naveau (2017) retoma que, na mesma lição, Lacan (1975) articula uma mulher ao lugar de sintoma para o homem, pelo fato de ser impossível, para ele, gozar do corpo dela, na medida em que o falo faz obstáculo. Como consequência, é preciso que homem acredite nela, il y croit, que ele acredite nessa mulher (LACAN, 1975).
Diante dessas perspectivas, Naveau (2017) faz a hipótese de que “uma mulher é, para o homem, um sintoma, mas não de qualquer forma e sim relativamente a um acontecimento traumático”, mas um “acontecimento que concerne à língua que se fala e, assim, ao inconsciente” (NAVEAU, 2017, p.221). Trata-se do encontro com a contingência de um real, relativo ao instante no qual se escreve algo do que recorre de uma “desordem de uma contingência (…). Um acontecimento de corpo se produz relativamente à contingência de um dito, ou seja, no instante em que um dizer atinge seu alvo, tem um impacto real” (NAVEAU, 2017, p.223).
A partir da definição milleriana (2001) de que o acontecimento de corpo são acontecimentos de discurso que deixaram rastros no corpo que perturbam o seu funcionamento e ali fazem sintoma, Naveau (2017) acrescenta a condicionante a isto de que é preciso um sujeito apto a ler esses rastros, a decifrá-los. Que o sujeito chegue a pensar que os sintomas são rastros de um acontecimento traumático, da incidência da língua sobre o corpo do ser falante, da “palavra que fere” (MILLER, 2009) o corpo.
Sustentando-se na formulação lacaniana de que a mulher é um sintoma para um homem e um homem é para uma mulher uma devastação, Naveau (2017) propõe identificar o homem com uma palavra que fere a mulher, “uma mulher ferida” (LACAN, 1992, p.69). Uma mulher pode ser ferida pelo o que se diz ou o que não se diz, “o próprio fato de a fala ter efeitos a torna vulnerável” (NAVEAU, 2017, p.226). Com isto, sustenta a sua hipótese de que “um acontecimento de corpo é relativo à contingência de um dito” (NAVEAU, 2017, p.226), um instante em que alguma coisa se diz ou não se diz e que deixa rastros de gozo no corpo que pode acontecer como vergonha, rubor, feridas, palidez, etc. Mas, quando torna-se repetido, toma a dimensão de um sintoma.
REFERÊNCIAS
LACAN, Jacques. (1975). Aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI. (Inédito).
LACAN, Jacques. (1969-70). O seminário livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, Ed, 1992.
NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.
MILLER, Jacques-Alain. (2009). A palavra que fere. In: Opção Lacaniana. n.56-57. São Paulo: Ed.Eolia, 2009.
___________________(2001). Elementos de Biologia Lacaniana. Belo Horizonte: EBP-MG, 2001.
NOTAS
[1] NAVEAU, Pierre. O que do encontro se escreve. Estudos Lacanianos. Belo Horizonte: EBP Editora, 2017, pp.219-230.
Entrevista com Ram Mandil sobre Acontecimento de corpo e o final de análise
Dyana Santos, Meu Corpo Não É Uma Jaula
Ram Mandil (A.E. 2012-2015)
Fragmento do primeiro testemunho: “Conjunto vazio”[1].
“A escolha pelo terceiro analista foi, à primeira vista, sobre alguém cuja transferência estava estabelecida, a princípio, em relação aos textos e conferências que eu acompanhava com grande interesse. Eu o via também como alguém um pouco mais “integrado” ao mundo, o que poderia ser um bom contraponto à minha tendência “apocalíptica”, para ficarmos com o par proposto por Umberto Eco. Só mais adiante, já na própria análise, é que pude me deparar com as razões libidinais da transferência a este analista.
Decisão tomada, logo me deparei com um momento crucial desta análise, associado a uma cena de infância/adolescência. Nas ocasiões em que eu ficava doente, me via diante de meu pai trazendo um medicamento, na forma de uma drágea, de uma cápsula ou de uma pílula, para que eu o ingerisse. A cena adquiria ares de horror. Eu simplesmente não conseguia engolir esse medicamento, que ficava retido em algum canto de minha boca. Colocava o remédio sobre a língua, tomava um gole de água e em seguida eu entrava numa espécie de fading, para só depois procurar saber se eu o havia engolido ou não. Quando isso não acontecia, aumentava a cólera de meu pai, e seus gritos de “engula”, o que levava a um estado de angústia intensa diante da figura de um Outro que se apresentava de forma cruel. A questão, desde o início, não era o fato de estar ou não tomando um medicamento, mas com a forma deste medicamento, o fato de ser um sólido, uma cápsula, um envoltório no qual o remédio estava encerrado. Isso tinha várias consequências: por vezes escondia algum mal-estar ou doença, com receio de que a cena se repetisse; quando era inevitável, perguntava por versões em xarope, já que não tinha problemas com a forma líquida.
Quando esta cena retorna na análise, é que me dou conta da motivação libidinal envolvida na escolha do analista e que eu até então ignorava. Há tempos, quando editava uma revista do Campo Freudiano, eu mesmo havia publicado a tradução de um artigo do analista com o título: “Como engolir a pílula?” no interior do discurso analítico. A suposição de saber, portanto, não era algo difuso, mas recaia sobre um modo de gozo no qual eu havia me enredado na infância. A recusa em engolir a pílula – e não há como não perceber uma certa ressonância com o feminino – repercutia a recusa do nome Avraham. Mas aqui, a dimensão corporal do que estava em jogo, torna-se mais evidente. A recusa era também a de abrir o orifício do corpo frente a demanda do Outro, e consentir com o trânsito de um objeto através desse orifício.
A cena estava montada. A recusa em engolir aquilo que se articulava à demanda do Outro se conjugava com o temor de ser engolido pelo Outro. Engolir/ser engolido, esta era a gramática da pulsão cuja pulsação estava diretamente ligada à abertura e ao fechamento dos orifícios do corpo. O trabalho analítico indicava uma direção: para consentir em engolir a pílula, e tudo aquilo que ali estava condensado, seria necessário encontrar um modo de desarmar a fantasia de ser engolido pelo Outro.”
NOTAS
[1] Testemunho publicado em Opção Lacaniana, n.66, agosto de 2013.
BROUSSE, Marie-Helène. Père-version, perversion, père-formance. A função paterna à prova de equivocidade. In: CERVELATTI, Carmem Silva (org.). O inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2018. p. 107-128.
BROUSSE, Marie-Helène. As identidades, uma política, a identificação, um processo e a identidade um sintoma. In: BROUSSE, Marie-Helène. Mulheres e discursos. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019. p. 67-74.
BROUSSE, Marie-Hélène. ¿Qué és lo traumático? In: GORENBERG, Ruth (comp.). Acontecimientos ¿El psicoanálisis cambia? Buenos Aires: Grama Ediciones, 2020. p. 101-112.
FAJNWAKS, Fabian. Lacan e as teorias queer: mal-entendidos e desconhecimentos. In: SANTIAGO, Ana Lydia et al. Mais além do gênero: corpo adolescente e seus sintomas. Belo Horizonte: Scriptum, 2017. p. 22-40.
FREUD, S. (1919) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria (o caso Dora) e outros textos. In Obras Completas, Vol.6. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
GORSKI, G. G; FUENTES, M. J. (Orgs). Leituras do Seminário … ou pior de Jacques Lacan. Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise, 2015.
LA SAGNA, Philippe. L’évenement de l’amour. In La Cause do Desir, n. 100,p.274-279, Paris, 2018.
LACAN, J. (1964) O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (No prelo). O Seminário, livro 21: os não tolos erram.
LACAN, Jacques. (1975). Aula de 21 de janeiro de 1975 do Seminário RSI. (Inédito).
LACAN, Jacques. (1969-70). O seminário livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, Ed, 1992.
LACAN, J. El seminario, libro 24. L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Classes del 16 de noviembre e 14 de diciembre de 1976. In: Lacaniana, n.29. Buenos Aires: EOL, abr. 2021, p.09-19.
LACAN, Jacques. (1974). A terceira. In: Opção Lacaniana, n.62. São Paulo: Eolia, 2011, p.11-34.
LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.
LEGUIL, Clotilde. Céder n’est pas consentir. Paris: PUF, 2020.
LES MODES du sex//Marie-Helène Brousse. France: [s. n.], 23 maio 2021. Publicado pelo canal Lacan Web Television. 1 vídeo (21 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kM2Ogcq3CaU&t=667s. Acesso em: 24 maio 2021.
Há vinte anos ocorreu um congresso da Associação Mundial de Psicanálise no qual os grupos do Cereda tomaram como norte de sua pesquisa o tema Como o sexo chega às crianças. Tínhamos, então, no seminário As formações do inconsciente (LACAN, 1956-1957/1999), a tradição e o falo como referências para ler a questão. A etapa fálica primitiva, a criança investida de valor fálico para a mãe, é o signo de sua tomada no simbólico. A passagem do ser ao ter, onde o pai priva a mãe daquilo que ela não tem, é decisiva para a posição da criança na sexuação. E a saída do Édipo é demarcada pelas provas que um pai dá daquilo que tem, qual seja, o falo, dando início ao que decorre da significação fálica. O complexo de castração permite, assim, segundo Lacan, a instalação, no sujeito, de uma posição inconsciente sem a qual ele não saberia se identificar ao tipo ideal de seu sexo.
No entanto, em O avesso da psicanálise, Lacan (1969-1970/1992) aponta o caráter estritamente inutilizável do complexo de Édipo e, em 1970, anuncia um além do Édipo. Entramos no campo do gozo e da função paterna encarnada e transmitida, referências fundadas numa releitura do falo na experiência de Hans e das soluções sintomáticas como resposta ao sexual, tomado como algo que vem de fora, hetero, e que faz furo no saber, tal como podemos ler também na Conferência de Genebra sobre o sintoma (LACAN, 1985/1998).
Mais vinte anos se passaram e essas referências ficaram obsoletas? De forma alguma. Ainda nos servimos delas para pensarmos o encontro com o sexual e o centrarmos em torno do acontecimento, reforçando a ideia de que o de que se trata é de um encontro com um real diante do qual o sujeito se coloca a trabalho para se arranjar.
O que mudou nesse tempo, diz respeito às mudanças no simbólico que nos trazem novas configurações subjetivas e novas respostas sintomáticas. São novas maneiras de distribuição do gozo. A mutação do discurso do mestre para uma lógica capitalista se impõe no campo discursivo e elimina a barra que marcava um impossível. Em consequência, surgem novos arranjos sintomáticos sem o auxílio da ancoragem edípica que chegam mesmo à utopia de afirmar uma possibilidade de uma posição sexuada que dispensaria o Outro. São novas amarrações sem referência ao nome do pai, evaporação ou inexistência do nome ao invés de foraclusão ou adesão simbólica.
Trata-se de um novo regime de funcionamento do Outro, onde esse Outro passa a ser o corpo. Há uma inadequação do significante para nomear o gozo e, por outro lado, uma dificuldade para sintomatizar a posição sexuada. A proliferação de significantes deixa muitas vezes em suspenso a amarração identificatória que permitiria localizar um sintoma.
Nessa inexistência da sexuação nos encontramos diante dos infinitos gêneros, sob o comando de uma lógica do supereu que apresenta um gozo que não encontra nem o limite fálico nem o limite feminino do não-todo.
Servimo-nos, então, do fato de que há o sintoma como acontecimento de corpo decorrente do encontro com o significante sem sentido estabelecido e há o encontro com o gozo sexual que se apoia sobre essa maneira singular pela qual cada ser falante foi tocado pela palavra. Se tomávamos o encontro com o sexual como algo que faz furo e que aciona uma busca de saber, agora nos deparamos com situações em que esse encontro não localiza qualquer furo, provoca um desarranjo e o sujeito, como diz Miquel Missé (2021), “transita porque tem alguma coisa que tem que reordenar”.
As bricolagens que sustentam os corpos exigem uma prática do furo, tal como os Lefort, analistas que se dedicaram ao trabalho com crianças na orientação de Lacan e que deram início ao Cereda, nos introduziram, distinta da prática do continente, tal como foi tomada pelos kleinianos. Temos muito a aprender com as crianças autistas e psicóticas em seu trabalho enlouquecido sobre superfícies não orientáveis e no trabalho analítico com elas para criar uma articulação entre uma superfície e uma borda. Aqui não há recurso aos discursos estabelecidos, o que não impede que, em alguns tratamentos, os sujeitos acabem encontrando maneiras de se articular a eles, ainda que de modo imaginário.
Quando há uma falta, o saber pode ser acionado porque, por definição, a falta está localizada no simbólico. Já o furo tem a ver com o real, com o gozo e em muitos casos a dispersão que o encontro sexual provoca não se localiza nem no corpo nem no simbólico. Estamos aqui no campo em que a topologia, da qual Lacan se serviu, nos ajuda a pensar em como fazer uma borda ao furo que não existe e poder fazer operar uma amarração a partir desse processo. A amarração do gozo com a lalíngua e o corpo terá que ser feita por cada um, um por um, como solução sintomática.
REFERÊNCIAS:
Lacan, J (1998) Conferência em Genebra sobre o sintoma in: Opção Lacaniana n.23, dezembro 1998, p. 6-16
–––––– (1956-1957/1999) O Seminário, Livro 6, As formações do inconsciente
–––––– (1969-1970/1992) O Seminário, Livro17, O avesso da psicanálise
Missé, M (2021) “Entrevista: Paradojas del género y de la diversidad sexual” in El Psiconalisis, Revista de la Escuela Lacaniana de Psicoanálisis, n. 37.
Dyana Santos, Obediência, da série o Lastro do Capital, 2020
Em que medida a frase “aceitamos o amor que acreditamos merecer”, ouvida inicialmente pelo protagonista do filme “As vantagens de ser invisível” e depois por ele enunciada, se refere ao próprio sujeito? Em que podemos tomá-la como chave de leitura do filme e da questão em jogo na adolescência? Em sua primeira aparição, trata-se da resposta a uma pergunta endereçada ao professor: “por que as pessoas legais escolhem pessoas erradas para namorar?”. Refere-se a uma série de mulheres importantes para ele: tia Helen, a irmã, Sam (a garota por quem está apaixonado). Na segunda, é sua resposta à pergunta de Sam: por que ela escolhe pessoas que a machucam para namorar? Diante da resposta, ela o interpreta:
– E por que você nunca me pediu em namoro?
– Eu achei que você não queria.
– E o que você queria?
– Que você fosse feliz.
– Não entendo isso, não pode priorizar os outros e achar que é amor. Quero que as pessoas me olhem como sou.
– Sei que sou quieto, mas eu vejo você como você é.
Falta em dizer que se encontra em ação na relação com o objeto (LACADÉE, 2011), o silêncio do adolescente é uma forma de não tomar posição na língua. Ele vê, pensa, escreve, mas não diz nada, fica na sua. Encarna o adolescente descrito na crônica de Clarice Lispector “Um adolescente, C.J.”: os silenciosos são os mais perigosos pois, perdidos em suas hesitações, podem não sair disso.
O corpo: encontro com o real traumático
O filme é narrado por Charlie (Logan Lerman), através das cartas que escreve a um destinatário não identificado. Nestas cartas ele narra suas experiências, dificuldades e tentativas de se inserir em uma nova escola ao longo do primeiro ano do ensino médio. Marcado por traumas, como o suicídio recente de um amigo e a morte da tia em um acidente em sua infância, convive com a preocupação de seus familiares com sua depressão e episódios ditos alucinatórios. Na escola ele encontra um apoio em seu professor de literatura e na amizade com Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), alunos do terceiro ano, também “deslocados”, que passam a andar com ele.
Ironia do título – em inglês, The Perks of Being a Wallflower – pois o maior desejo do adolescente é ser visto de outra maneira e se não acontece, leva-o à solidão, depressão, errância e condutas de risco. Wallflower que em tradução literal seria flor de parede, é também uma pessoa que não tem com quem dançar ou que se sente tímida, estranha ou excluída de uma festa. Faz alusão à posição de expectador, encostado na parede, do baile, da dança, da vida, da verdadeira vida. “A verdadeira vida acontece em outro lugar”, segundo Lacadée (2011). Objeto olhar (ver – ser visto – fazer-se ver) em cena, Charlie tenta se esconder (no primeiro dia de aula), mas também se mostra, busca o olhar de um veterano que o sustente nessa travessia. Depois se mostra em sua diferença, adotando a “roupa de escritor” que Patrick lhe presenteara. Insere-se na turma dos deslocados, desajustados. O corpo é fonte de vergonha e angústia.
Em seu esforço de separar-se da autoridade dos pais e situar-se na partilha sexual (FREUD, 1905/1989) a chamada crise da adolescência desvela o embaraço do sujeito com o que está em jogo: a sexualidade e a angústia do encontro traumático com o real do corpo e do sexo. O despertar da primavera, sabemos com Freud (1905/1989) e Lacan (1974/2003), é, na verdade, um novo despertar da sexualidade infantil, depois do intervalo da latência.
No filme vemos um retorno do encontro traumático com a sexualidade, o abuso sofrido na infância, algo que o sujeito não consegue traduzir, indizível. As lembranças desse abuso aparecem fragmentadas em diversas situações em que algo do corpo se apresenta. Em uma delas, Charlie planejara um encontro com Sam na festa de fim de ano, mas ela vai com o namorado. Deslocado, ele usa drogas alucinógenas e relembra a cena de um Natal de sua infância: tia Helen lhe fala do “nosso segredinho” e diz que vai buscar o presente dele, sai de carro, tem um acidente e morre. É encontrado sem sentidos deitado na neve, no dia seguinte à festa. Não se lembra de como foi parar ali.
Mas a situação que desencadeia “suas alucinações”, acompanhadas de culpa, de extrema angústia e ideias suicidas, se dá na despedida de Sam. Eles estão no quarto dela, Charlie ajudando a arrumar suas malas para a partida para a faculdade. Depois de interpelado por ela sobre o que quer, Charlie a beija e Sam toca-lhe entre as pernas. Ele fica perturbado. Lembranças da tia se misturam a alucinações. De volta para casa, sozinho, desarvorado, liga para a irmã: “é minha culpa, não é? Eu matei a tia Helen. Ela não tinha ido buscar meu presente? E se eu quisesse que ela morresse?”
O abuso é vivido como uma irrupção de gozo, num momento em que não devia acontecer, sem que o sujeito tenha instrumentos para entender o que se passa ou para recusar. Trata-se de um gozo sem sentido. Uma satisfação paradoxal que é diferente de prazer. Troumatisme, escreve Lacan. Sua lembrança é recalcada, mas o despertar da sexualidade vivenciado na puberdade traz consigo a irrupção dessa lembrança, não articulada no simbólico e que faz seu retorno no real das alucinações.
O suicídio do amigo também pode ter contribuído para mascarar o verdadeiro trauma e desencadeado as chamadas alucinações? Podemos chamá-las de acontecimento de corpo? Diante do enigma do sexo e da existência, o sujeito se depara com a falta em dizer. O que o Outro quer de mim? Via de acesso ao saber indizível: deparar-se com o objeto que se é para o Outro.
A questão seria: o que fazer com o corpo que se tem? Esse corpo que escapa o tempo todo. O real da puberdade, a maturação sexual, ao contrário de viabilizar a relação sexual – que não existe, nos termos de Lacan – coloca em jogo o gozo das fantasias, que justamente afastam tal possibilidade, o sujeito goza sozinho de seu corpo e de seus pensamentos. “A vida sexual do jovem em processo de amadurecimento não dispõe de outro espaço que não o das fantasias, ou seja, o das representações não destinadas a concretizar-se” (FREUD, 1905/1989, p. 212) Nessas fantasias o jovem revisita suas investigações sexuais da infância. Lacan (1974/2003) afirma que o adolescente não pode fazer amor com as garotas sem antes despertar de seus sonhos, de suas fantasias.
Não há despertar sem o exílio, como nos lembra Phillippe Lacadée (2011). Exílio fundamental de ter de situar-se como falasser na linguagem, não somente corpo vivo, mas também ser de palavras. Exílio da infância, das palavras da infância, insuficientes para dizer o que se passa no corpo. Exílio do gozo que afasta o/do Outro e leva à solidão, ao sujeito faltam palavras para traduzir, falta a interpretação do Outro. Essa falta de saber do Outro, S(A/), repercute como desarvoramento, tédio, solidão, vergonha e pode levar ao pior (o suicídio, por exemplo). Mas também pode levar a invenções linguageiras para nomear o que acontece (desajustados, deslocados, punk, budista… nomeações que aparecem no filme). A escrita também surge aí como invenção.
“Escreva sobre nós”
A escrita conduz a narrativa do filme. No início, Charlie escreve uma carta em que diz de suas dificuldades e de não ter com quem conversar, alguém que as entenda. Outras cartas pontuam momentos de solidão e desamparo. A escrita ajuda a fixar o gozo fora do corpo e encontrar uma ancoragem no Outro, na forma de um apelo.
Outra vertente da escrita se estabelecerá no laço com o professor, cuja importância foi destacada por Freud (1914/1995), que funcionará como apoio na travessia de dentro para fora de casa, incentivando o projeto de ser escritor. Ponto de onde o Ideal do eu pode se ancorar, no encontro com um Outro que diz sim.
O ideal do eu equivale ao ponto de basta que estabiliza o sentimento da vida, que dá ao sujeito seu lugar no Outro e sua fórmula. Aí está o ponto de apoio, o ponto de onde o adolescente pode se ver digno de ser amado, e mesmo amável por um Outro que saiba dizer sim ao novo, ao real da libido que nele surge. (Lacadée, 2011, p. 46)
É como escritor que é reconhecido pelos amigos. Patrick o presenteia no Natal com “roupas de escritor”, enquanto Sam lhe dá uma máquina de escrever, acompanhada da mensagem: “escreva sobre nós”. É com as vestes de escritor que ele retorna ao colégio no ano seguinte, é delas que usa para se ver belo, ainda que não aos olhos de todos.
Outro ponto de apoio será a psiquiatra, quando a crise se desencadeia, na forma de uma oferta de escuta e convite a tomar a palavra. À princípio, Charlie se recusa a ficar no hospital ou conversar com a psiquiatra: “é o outro, não eu, muito sofrimento, não posso ignorar”. Consente quando ela lhe diz que, se quiser melhorar, terá que falar de coisas que falou quando dormia, inconsciente (?). Ele teria falado sobre tia Helen e os abusos que sofrera na infância.
Ressaltemos que não se trata de “falar faz bem”, mas da tarefa de bem dizer o sofrimento, ou seja, buscar a tradução do enigma da existência, de modo a inventar modos de dizer o indizível e modos menos devastadores de viver. Quando Charlie deixa o hospital, lembra uma frase da médica: não escolhemos nosso passado, mas podemos escolher nosso futuro. E é disso que irá se ocupar, sem esquecer o passado, não deixando de viver o presente, tempo fundamental da adolescência.
Ao final do filme, a escrita será colocada um pouco de lado. Charlie escreve uma última carta. Está ocupado em viver/participar. Sai com Patrick e Sam e pode se soltar. Na última cena, o carro atravessa um túnel (metáfora da adolescência para Freud[1]), ao som da música “Heroes”. Reproduzindo a situação em que Sam, no dia em que se conheceram, abre os braços em pé na carroceria da caminhonete em grande velocidade, Charlie se ergue e, também, abre os braços para a “verdadeira vida”: “eu estou aqui, eu estou vivo, nós somos felizes”.
REFERÊNCIAS
AS VANTAGENS de ser invisível. Dir. Stephen Chbosky. Estados Unidos. 103min. Cor. Mr. Mudd. 2012.
FREUD, S. Três Ensaios para uma teoria da sexualidade. (1905). In: _____ Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 7. Rio Janeiro: Imago, 1999, p. 117-228.
Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. (1914). In: _____ Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. vol. 13. Rio Janeiro: Imago, 1995, p. 246-250.
LACAN, J. Prefácio a O despertar da primavera (1974). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003.
LACADÉE, Ph. O despertar e o exílio. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2011.
[1] Nos Três Ensaios, Freud descreve a adolescência/puberdade como “a travessia de um túnel perfurado desde ambas as extremidades” (1905/1989, p.195), de um lado pela corrente afetiva e do outro pela corrente sensual. A convergência das duas correntes teria como resultado uma vida sexual normal.
Súbito, um baque: as grandes asas brancas
Pousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,
As patas negras lhe afagam as ancas
E a estreitam, impotente, contra o peito.
Com dedos trêmulos, como afastar
Das coxas fracas o esplendor plumado?
E como não sentir a palpitar
O estranho coração, desabalado?
Um espasmo ― e eis que se gera um novo ser,
O muro rompido, a torre incendiada
E Agamêmnon morto.
Ali, fremente,
Pelo poder brutal aprisionada,
Terá ela apreendido o seu saber
Antes que a solte o bico indiferente?
Tomo como guia para este comentário o que Miller elabora a respeito de verdade, saber e real nesta citação:
O simbólico fala. É a condição da verdade, verdade que sabemos que está rodeada de mentiras (…). Em todo caso, há verdade quando o simbólico fala, quando há, dizia eu há pouco, relâmpagos que rasgam a escuridão. Ao passo que o real é mudo, inclusive o saber que inclui.[2]
Sirvo-me ainda das elaborações sobre poesia, interpretação, sentido e significação e sobre a poesia como um modo de se aproximar do real sem sentido, do que não fala, mas que inclui um saber.[3] A verdade desse saber marca o mito e as tragédias subsequentes.
Leda e o Cisne de W. B. Yeats põe em relevo um trauma sexual e a ausência de amor como ausência de saber. No mito, Zeus deseja Leda e, para possuí-la, transforma-se em cisne. As duas primeiras estrofes descrevem o inusitado e o assustador, a força e a violência desse poder divino que subjuga um corpo humano mortal. E falam de um desejo infamiliar.
Desse intercurso nasce Helena, origem da guerra de Tróia. Outra filha de Leda, Clitemnestra, esposa de Agamêmnon, vai tramar e executar com o amante o assassinato do marido, quando este voltar da guerra. Na penúltima estrofe, o poeta sintetiza esses acontecimentos engendrados, ali, pela violação de Leda que, na transição para a última estrofe, de novo captura a voz poética.
No não-saber de Leda sobre o cisne, na violência de sua violação inescapável, surgida do “sangue bruto do ar”, inscreve-se o que constitui esse trauma. O poeta se refere à destruição dele decorrente – ruína de Tróia, morte de Agamêmnon. Acrescentaríamos a tragédia de Orestes, vingador do pai e matricida, seu destino inscrito na história familiar.
Yeats, cuja Irlanda, com sua língua silenciada, se debatia há séculos sob domínio inglês, não idealiza sua versão do mito. Escreve a cena de uma violência, perpetuada em destino, ao deter-se no silêncio e na estupefação de Leda. Ficamos por um instante largados com ela, no lugar trauma sem tratamento ou suplência de amor que lhe faça anteparo, sem saber se teria havido algum saber possível.
Trata-se de saber como o pequeno Hans vai poder suportar seu pênis real, na medida em que este não é ameaçado. Aí está o fundamento da angústia. O que há de intolerável em sua situação é esta carência do lado castrador.
(Jacques Lacan, O Seminário, livro IV, A relação de objeto, p. 375)
Dyana Santos, Eva e Adão, da série Pó de Estrelas, 2012
O que há de mais impressionante do que esse comentário de Lacan sobre o pênis do pequeno Hans, objeto central do caso freudiano que ele desenvolveu ao longo de seu seminário IV? Ele situa de saída o problema: ter um pênis é incômodo para o pequeno sujeito, ainda mais quando ele não sofreu a ameaça de castração. Sem a castração, a angústia surge.
O falo fora de serviço
Se tomarmos o documentário que teve grande repercussão, Pequena Garota[2], somos surpreendidos pela presença da angústia, sintoma reconhecido da disforia de gênero, definida como distúrbio da identidade na criança e isto, antes da idade de cinco anos. Esta disforia de gênero não é lida à luz dos conceitos psicanalíticos e, particularmente, da tese freudiana sobre o falo como condensador de gozo. Nesse sentido, ela se reduz a um sofrimento sentido como um prejuízo ligado a um erro sobre seu sexo, responsável por uma impossibilidade de se identificar a seu sexo biológico. A disforia de gênero não teria outra causa senão a de existir enquanto verdade para o sujeito, ou mesmo certeza. De fato, não escolhemos nosso sexo. Mas escolhemos nosso modo de gozo, o que a disforia de gênero ignora. Ela supõe um gozo do órgão masculino como identidade masculina e um gozo do sexo feminino como identidade feminina, respeitando assim o binarismo colocado em questão pelos partidários da transidentidade. Ora, como vemos no documentário, o que na clínica está em jogo é o pavor suscitado pela presença do pênis real no menininho. Ter este órgão é insuportável e é sintomático desta questão da ameaça de castração, especialmente, quando esta é totalmente ignorada. Segundo essa hipótese, a criança que não suporta seu órgão real sem dúvida não encontrou a ameaça de castração. Esta permanece muda, impossível de ser simbolizada. O pênis real, como indica Lacan, assume o valor de objeto un–détachablel[3], em excesso, não portador de seu valor fálico. Ele é vazio de sentido. Isto leva a uma indiferença ou a uma rejeição desse pedaço de corpo, pois ele se mostra fora de sentido.
Recusa do sexo e castração
Sacha sabe que, devido à presença do órgão, ele é um menino. Mas ele queria ser uma menina. Esta disforia de gênero repousa inteiramente na recusa do sexo masculino que passa pela presença real de seu pênis. A ausência de simbolização provoca na criança esse sentimento de presença insuportável do pênis. Esta forclusão estaria ligada à ausência de ameaça de castração ou, ao contrário, à sua presença ativa? O que quer dizer a ameaça de castração? Ela opera em dois níveis e remete, primeiramente, à castração materna. Se a Mãe aparece para a criança como faltante e se a criança quer por isso preenchê-la, a angústia surgirá quando ela compreender que não a satisfaz inteiramente, que a mãe permanece “insatisfeita”, como diz Lacan. Por outro lado, quando a criança vem se alojar neste lugar de objeto da mãe, a angústia surgirá devido ao medo de ser devorado por ela ou que ela queira tomar seu falo. A partir daí, a ameaça de castração opera. Quando a ameaça de castração é proferida pelo pai, este interdita a criança de gozar de sua posição de objeto da mãe. Ele se interpõe entre o par mãe-criança, o que o pai de Sacha foi incapaz de fazer, deixando todo o lugar à mãe para exercer sua função materna, sua “potência”, como diz Lacan.
Um desejo de maternidade
A angústia surge, portanto, quando a ameaça não foi proferida ou ouvida. Ela concerne à castração. O que viria responder a uma recusa de seu sexo? Digamos que a angústia de castração focaliza uma resposta em termos de escolha que faça sintoma tanto para o sujeito como para o Outro. No caso de Sacha, o desejo de ser uma menina entra em ressonância com o desejo da mãe. Há aqui colisão de dois desejos. Isso reforça a dimensão de permanecer o falo que falta à mãe, abrindo a via para se identificar a ela como aquela que se satisfaz em ter filhos. Um desejo de maternidade em Sacha vem compensar o fracasso da operação-castração. O desejo de maternidade, de fato, permite uma identificação que é, de certo modo, uma sublimação do objeto fálico ou, para dizê-lo com o último ensino de Lacan, um sinthoma que pode vir enodar as três instâncias que são o Real, o Simbólico e o Imaginário. A maternidade vem enodar o pênis real, a mãe simbólica e a imagem ideal de si como menina. Ela faz suplência à forclusão do falo.
A vestimenta, uma solução?
O que nos ensina também o documentário, é que ser um menino ou uma menina consiste, para a criança que sofre de disforia de gênero, num gozo de se apropriar dos semblantes da feminilidade. Assim acontece aos meninos que usam cabelos longos, jóias e roupas de menina – o inverso para as meninas – mas não é totalmente equivalente, já que estas usam roupas de menino desde muito tempo… E, qualquer que seja o sexo de origem, cada um busca atingir A mulher no horizonte do gozo se fazendo um corpo para além do falo. Vemos aqui como as roupas de menina ou de menino abrem para uma semblantização do corpo que basta às vezes para apaziguar o sujeito. Vestir-se segundo sua escolha de sexo guarda um valor de atribuição sexuada que insere o sujeito em sua dimensão do Outro sexo.
Texto publicado com a amável autorização da autora.
NOTAS
[1] Hèléne Bonnaud é psicanalista, analista membro da Escola (AME) – ECF-AMP.
[2] Documentário realizado por Sébastien Lifshitz, 2020.
[3] Essa expressão un-détachable faz referência à ausência de uma operação simbólica que, em Hans, se fez possível por meio de uma construção lógica, como podemos ler nos comentários de Lacan no seminário A relação de objeto. No caso de Sacha, Bonnaud aponta que a construção do pênis como objeto destacável, desenraizado do corpo, não se deu, razão pela qual o órgão se mantem em seu estatuto de objeto real.